Após conclusão da pesquisa de mestrado Representações e atitudes linguísticas na (re)construção da identidade indígena dos Guarani do Pinhalzinho (Tomazina/PR): um estudo na Escola Yvy Porã (KONDO, 2013) nessa Terra Indígena, manifestamos interesse em continuar desenvolvendo pesquisa nesse local, porém sob outro enfoque. Assim, após o ingresso no doutorado (2016), entramos em contato com o diretor da Escola Yvy Porã e com o cacique, a fim de obter permissão para o desenvolvimento desta nova pesquisa. Na ocasião, explicamos que tínhamos o propósito de realizar um trabalho que contribuísse de forma significativa para a comunidade. Nesse encontro estavam presentes duas lideranças indígenas,
o diretor, a pedagoga e alguns professores. Para tanto, embasadas em leituras decoloniais e dispostas a realizar um estudo amparado por essas teorias, solicitamos a indicação de ideias, temáticas e caminhos, por meio dos quais pudéssemos elaborar um projeto que fosse relevante para os indígenas.
Na ocasião, eles se mostraram bastante receptivos e surpresos, pois geralmente as pesquisas, na maioria das vezes, já chegam definidas e não há preocupação em ouvi-los. Por isso, elogiaram essa perspectiva decolonial de fazer pesquisa, na qual o pesquisador sai de sua
“torre de marfim” (MOITA LOPES, 2006), ou seja, de sua posição supostamente autorizada de detentor do saber, para ouvir os interlocutores. Nesta perspectiva, há, portanto um deslocamento e uma ressignificação da identidade do pesquisador, pois ele, antes de propor uma pesquisa, procura ouvir e dialogar sobre a realidade e as necessidades do contexto a ser pesquisado.
Dentro desta perspectiva, o conhecimento entre pesquisador e participantes deve ser construído de forma dialógica.
A escolha da temática do currículo se deu após uma longa conversa sobre os resultados e os desdobramentos da pesquisa de mestrado realizada (KONDO, 2013), as dificuldades e os avanços da educação escolar indígena na Escola Yvy Porã e também sobre o currículo vigente, o qual, na visão deles, não conseguia dar conta das particularidades da educação escolar indígena. Foi, também, durante essa conversa que tomamos conhecimento da intenção de alguns professores9 indígenas e não indígenas de desenvolverem pesquisas no Pinhalzinho.
Assim, durante essa conversa, tomamos ciência sobre temas que eles pretendiam pesquisar.
Observamos que a temática sobre currículo não estava presente, mas que, segundo eles, era algo em que tinham interesse, haja vista as discussões em que estavam envolvidos sobre a BNCC, bem como a reformulação do PPP.
É, portanto, desse diálogo sobre a educação escolar indígena e das leituras sobre pensamento decolonial, ecologia de saberes (SANTOS; MENESES, 2010) e letramentos sociais (STREET, 2014), que elaboramos esta proposta de estudo, com o intuito de contribuir na proposição de um currículo indígena, para que, além de considerar as especificidades da educação escolar indígena, também reconheça, contemple e implemente os conhecimentos indígenas no processo de ensino/aprendizagem.
9 No final de 2017, dois docentes da Escola Yvy Porã foram aprovados no Programa de Mestrado em Educação,
da Universidade Estadual de Maringá. Em 2019, houve aprovação de mais um docente no Programa de Mestrado em Estudos da Linguagem, na Universidade Estadual de Ponta Grossa, e também um docente foi aprovado no Programa de Doutorado em Educação, na Universidade Estadual de Maringá.
A educação escolar indígena sempre se colocou como um desafio para as comunidades indígenas de modo geral, e a comunidade do Pinhalzinho não foi exceção, pois, desde a estadualização da Escola Yvy Porã (2008), essa comunidade vem trabalhando incansavelmente na construção de uma educação de qualidade, na qual a cultura, a identidade e os conhecimentos indígenas também façam parte do currículo escolar indígena.
Dito isso, após a elaboração da proposta e antes de submetermos o projeto ao Comitê de Ética e Pesquisa (doravante, CEP), realizamos uma apresentação para toda a equipe pedagógica da escola, durante a semana pedagógica (fevereiro de 2018), para verificar se havíamos conseguido atender às reivindicações deles, ou seja, se o estudo a ser realizado vinha ao encontro daquilo que eles necessitavam. Na ocasião, lemos e discutimos os objetivos, a metodologia, os instrumentos e o referencial teórico que seriam adotados e também a questão do anonimato dos participantes. Foi nesse momento, também, que fizemos o convite para que todos os docentes da Escola Yvy Porã e demais membros dessa Terra Indígena participassem da pesquisa proposta.
Cientes de que nem todos gostam ou se sentem à vontade em participar de pesquisas, deixamos claro a não obrigatoriedade de participação, porém os que estivessem dispostos a participar teriam suas identidades preservadas. Explicamos a respeito da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido10 (doravante, TCLE), ressaltando que o estudo só teria início após aprovação do CEP. Assim, pensando nos objetivos, expostos na introdução desta tese, os participantes foram: os professores indígenas e não indígenas do Ensino Fundamental I e II, lideranças, demais membros da comunidade que se dispuseram a participar, maiores de 18 anos e eu como pesquisadora. No total participaram desse estudo dezoito (18) pessoas.
Para manter o anonimato, adotamos o nome indígena, inclusive para os professores não indígenas11. A sugestão foi proposta por um dos participantes, que foi prontamente aceita por nós. Abaixo apresentamos um quadro sinótico com os nomes indígenas12 dos participantes.
O nome indígena expressa significados que estão intrinsecamente relacionados a características pessoais da pessoa.
10 O TCLE encontra-se no apêndice desta tese.
11 Há professores não indígenas que trabalham na Escola Yvy Porã há muitos anos, e receberam um nome indígena escolhido pela professora de Guarani. Optamos em não pôr o significado dos nomes para dificultar a identificação dos participantes pela sociedade não indígena.
12 A escolha do nome indígena é ritual sagrado para os Guarani, denominado Nimongarai. Este ritual é realizado
na casa de reza (opy guasu). Quando a criança nasce, o rezador fica em oração, que inclui jejum e abstinência sexual, para que seja revelado qual o nome da criança e de que parte do céu ela veio. Este é seu ponto de partida e seu destino final (VEIGA, 2007, p. 87). Para maior conhecimento sobre Nimongarai, ver Faustino (2012).
QUADRO 1: NOMES INDÍGENAS DOS PARTICIPANTES
NOME INDÍGENAS FUNÇÃO
Ara Docente
Awa Weradju Docente
Awa Djerokydju Docente
Horyrei Docente
Kamī Liderança indígena
Kerexu Docente
Kunhã Rokadju Docente
Mbarakadju Docente
Mimbydju Liderança indígena
Mimbi Docente
Mindua Docente
Nimboadju Liderança indígena
Para Docente
Parakau Docente
Rete Docente
Takua Para Docente
Jaxuka Docente
Rosana Pesquisadora / responsável
FONTE: Elaborado pelas autoras.
Na qualificação, assinalamos a necessidade de convidarmos para participar da pesquisa o representante do NRE, responsável pela educação escolar indígena, ao qual está vinculada a Escola Yvy Porã, e também um representante da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (doravante, SEED). No entanto, devido aos contratempos de finalização do ano letivo, o convite só foi feito no retorno das aulas. Por motivos de trabalho, a entrevista foi remarcada algumas vezes, o que culminou com a deliberação, por parte do governo do Estado, devido à COVID-19, da suspensão de trabalhos e aulas presenciais. Deste modo, a pedido da representante contatada, enviamos via e-mail as perguntas à representante da SEED para que pudéssemos também ter a voz dessa secretaria, em nosso trabalho. No entanto, por meio de mensagens trocadas via WhatsApp, a representante nos informou que, devido às circunstâncias ocasionadas pelo isolamento social, a equipe da educação escolar indígena que estava realizando trabalho home office, não havia conseguido conversar com a chefia sobre a pesquisa nem, consequentemente, obter permissão para responder as questões.
Abaixo, apresentamos um quadro com o resumo da geração de dados, número dos participantes em cada etapa e eventos observados.
QUADRO 2: SÍNTESE DOS INSTRUMENTOS UTILIZADOS NA GERAÇÃO DE DADOS
Fonte de dados Número de participantes
Quatro rodas de conversa 18 participantes
Entrevistas
semiestruturadas 10 participantes
Observações participantes 3 Feiras de sementes13, 1 amostra cultural14, 1 Conferência15 – II CONEEI.
Diário de campo 1 diário de campo, contendo registros da construção do PPPI, impressões das entrevistas, rodas de conversa e eventos.
WhatsApp Diálogos sobre a implantação da Base Nacional Comum e Currículo em Rede.
FONTE: Elaborado pelas autoras.
Das rodas de conversas, todos participaram, pois elas foram realizadas em momentos de formação continuada, quando todo o quadro docente se reúne, porém, conforme o quadro apresentado anteriormente, salientamos que nem todos as/os participantes foram entrevistadas/os. Alguns justificaram a não participação, nessa etapa, por não se sentirem à vontade diante da câmera. No entanto, também vemos que esse posicionamento pode estar atrelado a diferenças de pensamentos e ideologias que existem entre os grupos políticos dos quais alguns docentes fazem parte e que são contrários a essa liderança que deseja mudanças curriculares; portanto, não comungam dos mesmos ideais. Assim, respeitando o direito do participante conforme acordo firmado durante a assinatura do TCLE, entrevistamos somente aqueles que se dispuseram e se sentiram à vontade. Todavia, entendemos esses conflitos como inerentes, dada a complexidade que envolve o tema em questão, uma vez que o currículo como construção social remete à oposição, embate permanente entre forças antagônicas. Não esperamos que os grupos sejam homogêneos. Ao contrário, compreendemos que haja posições valorativas distintas, que são tensionadas e disputadas.
13Feira de Sementes Crioula Indígena Ymãu - Evento realizado anualmente na Terra Indígena, com exposição de sementes crioulas, produtos agrícolas produzidos pelos indígenas. Há, também, palestras sobre agricultura sustentável e cuidados com o meio ambiente. Esta Feira de Sementes tradicionais nasceu da necessidade de recuperar as sementes consideradas sagradas para o povo Guarani, pois a falta de alguns alimentos sagrados desarticulou toda a mobilidade religiosa e cultural.
14Amostra Cultural - A Amostra Cultural é realizada anualmente, sendo que cada ano ela ocorre em uma Terra Indígena do Norte do Paraná (Pinhalzinho, Santa Amélia, Laranjinha e Posto Velho). Durante este evento são apresentadas atividades culturais, educacionais, debates, palestras sobre resistência, política e meio ambiente.
15 II CONEEI - A II Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena é um espaço de discussão e proposição de políticas públicas para a Educação Escolar Indígena, realizada pelo Ministério da Educação e Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena (CNEEI), em colaboração com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e organizações indígenas e indigenistas que atuam diretamente na oferta da Educação Escolar Indígena. A II CONEEI terá como tema principal O Sistema Nacional de Educação e a Educação Escolar Indígena: regime de colaboração, participação e autonomia dos Povos Indígenas e os seguintes objetivos: a) avaliar os avanços, impasses e desafios da Educação Escolar Indígena a partir da I CONEEI; b) construir propostas para a consolidação da política nacional de Educação Escolar Indígena; c) reafirmar o direito a uma Educação Escolar Indígena específica, diferenciada e bilíngue/multilíngue; e d) ampliar o diálogo para a construção de regime de colaboração específico para a Educação Escolar Indígena, fortalecendo o protagonismo indígena. (BRASIL, 2016, p. 6)
Na sequência, tratamos da metodologia e dos instrumentos de pesquisa utilizados nesta investigação.