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O principal reflexo da hegemonia financeira na cena política, ou seja, na configuração entre partidos políticos e outros espaços da sociedade civil, registrou-se na ascensão de um campo que, a partir de 1994, ocupou a Presidência da República, além de grande número de cadeiras no Congresso Nacional. O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e o Partido da Frente Liberal (PFL) tornaram-se os maiores beneficiários em votos nas cadeiras da Câmara Federal da política implementada pelo Plano Real. Esse fenômeno ganhou corpo, principalmente, através da evolução percentual de cadeiras ocupadas por partido no Congresso Nacional:

Tabela 2 - Porcentagem do PMDB, PFL, PT e PSDB na Câmara dos Deputados 1990 – 2006

PARTIDO 1986 1990 1994 1998 2002 2006

PMDB 44,7 21,7 20,8 16,2 14,4 17,3

PFL 24,6 16,9 17,3 20,5 16,4 12,7

PT 1,0 7,0 9,6 11,3 17,7 16,2

PSDB - 7,6 12,3 19,3 13,8 12,9

Fonte: Adaptado de Braga (2007) e Tribunal Superior Eleitoral.

Há aumentos substanciais na proporção dos parlamentares dos dois partidos citados, fazendo com que, em 1998, PFL ocupasse mais de 20% das cadeiras, enquanto o PSDB

12 Ver Fundação Getúlio Vargas [2020?]. Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/franco-gustavo.

alcançava 19,3%. No mesmo período, o PT, o outro lado desse processo, registrava 11,3% do Congresso Nacional. No entanto, constata-se também a importância de outro partido durante esse período. Compondo a base governista, o então PMDB, mesmo diminuindo sua participação no Congresso, mantinha-se como terceiro maior partido.

Em todo o movimento de formação e consolidação do que aqui se chamou de República do Real, o PMDB surge como linha de continuidade, tendo composto tanto a sustentação dos mandatos de Fernando Henrique Cardoso quanto os de Lula. O peemedebismo, como afirma Nobre (2010) apresenta-se como tendência inerente do período do pós-redemocratização. O Plano Real, dessa forma, supera essa “política inercial”, mas ao contrário de externalizá-la, traz para junto de si:

Em lugar dos dois extremos – peemedebismo ou Collor – FHC colocou a ponta seca do compasso em um novo centro político, estabelecendo a partir daí dois polos no sistema, um liderado pelo PSDB, o outro pelo PT. Além dos aliados históricos de cada um dos lados, a regra seria construir uma coalizão de “A a Z” sob a liderança do pólo no poder. Como já deve estar claro a esta altura, controlar a inflação significava ao mesmo tempo controlar a tendência peemedebista da política brasileira. É nesse sentido que a aliança PSDB/PFL foi, literalmente, a outra face da moeda, do Real. Controlar a inflação não dependia apenas de um aprendizado técnico-econômico com os sucessivos fracassos dos planos anti-inflacionários de 1986 a 1991: Cruzado (I e II), Bresser, Verão, Collor (1 e 2). Dependia ao mesmo tempo da construção de um bloco político capaz de superar a crise estrutural de hegemonia da redemocratização que é chamada aqui de peemedebismo. Ou seja, há um vínculo interno entre a “inflação inercial” e a “política inercial” que se cristalizou sob a forma de sistema político a partir da década de 80. (NOBRE, 2010)

Após a experiência de José Sarney e Fernando Collor, apresentou-se um novo programa econômico encabeçado por Itamar Franco e seu então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Após a vitória deste nas eleições de 1994, o aprofundamento do programa político representado pelo Real ganhou força. As medidas até aqui avaliadas, bem como as atas analisadas até o momento, não deixam dúvidas sobre espectro econômico e político beneficiou-se a partir de 1995.

O movimento que se seguiu após o ano de 1994 mostra que foi possível controlar o peemedebismo, mas inserindo-o no interior do bloco de sustentação do governo. Entretanto, não é viável analisar o decorrer do Plano Real destituído do peemedebismo como força política nacional. A “política inercial”, nesse caso, apesar de restrita pelo campo PFL/PSDB entre 1994 a 2002, manteve-se viva e atuante. Nesse contexto, o PMDB serviu de sustentação de ambos os mandatários alicerçando as políticas construídas por campo. Nesse sentido, assim como o Plano Real estruturou-se por entre dois governos, ganhando status do que se poderia chamar de política de Estado, o peemedebismo perpassou o período em estudo como o conteúdo político do arranjo que subsiste à aparente polarização entre PSDB/PFL e o PT.

No decorrer desse processo, o peemedebismo construiu-se como avalizar da política nacional, transformando o PMDB em força relevante da cena política. Segundo trabalho recente de Singer (2018), o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) cumpriu papel semelhante ao antigo Partido Social Democrático (PSD) no período entre os anos de 1930 a 1964, funcionando como um “fiel da balança”, posicionando-se na viabilização dos governos que estão no Planalto. Dessa forma, o PMDB fez parte da base política de Fernando Henrique Cardoso, assim como da de Lula a partir de 2005, possuindo maior flexibilidade na defesa dos interesses das frações de classe da burguesia, em geral. Cabe lembrar que esse período marca as linhas gerais do jogo partidário da “República do Real”: se o PSDB apoiou de maneira mais firme os interesses da burguesia financeira, o PT, assumindo em 2003, vinculou-se à defesa da classe trabalhadora e, paulatinamente, na defesa do que chama de “produção”, identificando-se, aos poucos, com parte da chamada burguesia interna.

A “República do Real” teve nessa dicotomia seu principal sintoma e no PMDB o vértice de uma dupla polarização. Desse modo, de acordo com a análise empreendida, com a primazia da taxa básica de juros frente aos interesses da produção, PSDB e PFL formaram um campo privilegiado na defesa das finanças nacionais. O movimento paralelo de consolidação do Real, ao mesmo tempo em que limita, também reforça um movimento que encontra no peemedebismo seu elemento de continuidade. A partir do avanço do combate à inflação, do crescimento de ambos os partidos, do reforço dos interesses da burguesia financeira nacional, o PMDB institui-se como fiador desinstitui-se processo.

7 O REAL DO GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO: SISTEMA DE METAS PARA A INFLAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DA HEGEMONIA

FINANCEIRA (2000 – 2002)

Sob a breve análise sobre a nova dinâmica imposta pelas alterações na política monetária brasileira, mais especificamente pela introdução do sistema de metas, retoma-se a investigação das atas entre os anos 2000 a 2002, fase final do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. Nesse período, a economia assistiu ao início de um processo de expansão, puxado basicamente pelo setor externo e consumo das famílias. Não é difícil enxergar os reflexos da desvalorização cambial na recuperação cíclica, apenas refreada pelo chamado “apagão” e o racionamento de energia elétrica que o sucedeu. O movimento de retomada econômica recebeu novo impulso em 2002, mas aí já não havia tempo suficiente para Fernando Henrique Cardoso fazer seu sucessor, encerrando seu ciclo em dezembro do mesmo ano.

Em relação ao Banco Central, Armínio Fraga manteve-se na presidência durante todo o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Assumiu em março de 1999, deixando o cargo apenas em dezembro de 2002, junto com o então Presidente da República. As atas que serão analisadas nesse capítulo foram elaboradas em sua gestão, representando a implementação do sistema de metas. A seguir, a trajetória posterior das mudanças efetuadas em 1999, desaguando na eleição de Lula em 2002 e na gestão de Henrique Meirelles no Banco Central.