• Nenhum resultado encontrado

Para a análise, a base está na contribuição de Nicos Poulantzas, através dos livros Poder Político e Classes Sociais, trabalho em que expõe seus principais conceitos de maneira mais acabada, e O Estado, O Poder, O Socialismo. A influência de Louis Althusser aparece, tendo em vista sua preocupação com as questões ideológicas, contudo, os principais conceitos com os quais se trabalha nessa pesquisa referem-se a seu bloco no poder.

Conforme dito na introdução, as transformações econômicas e políticas sob as quais o autor se debruça fazem de seus conceitos como classe detentora e cena política, cernes da investigação. A própria luta de classes obtém centralidade ímpar, marcando uma descontinuidade com o pensamento marxista de então. Para Poulantzas (2000), o Estado não representa apenas reflexo das disputas entre classes e frações de classe. Não se constrói como simples imagem dessa dinâmica. Antes disso, a própria luta de classes já está inserida no aparelho estatal. Em outras palavras, luta de classes e Estado não são distintos na dinâmica política, mas compõem em si o mesmo processo:

[...] o estabelecimento da política do Estado em favor do bloco no poder, o funcionamento concreto de sua autonomia relativa e seu papel de organização são organicamente ligados a essas fissuras, divisões e contradições internas do Estado que não podem representar simples acidentes disfuncionais. O estabelecimento da política

do Estado deve ser considerado como a resultante das contradições de classe inseridas na própria estrutura do Estado (o Estado-relação). Compreender o Estado

como a condensação de uma relação de forças entre classes e frações de classe tais como elas se expressam, sempre de maneira específica, no seio do Estado, significa que o Estado é constituído-dividido de lado a lado pelas contradições de classe. (POULANTZAS, 2000, p. 134)

O trecho acima argumenta quanto ao posicionamento da luta de classes no movimento no qual se insere o Estado. O Estado-relação (POULANTZAS, 2000) já é a própria disputa social, não puramente reflexo dela, porém internaliza suas próprias contradições e a posição relativa de cada fração de classe. Desse modo, a luta de classes interioriza-se no seio do próprio Estado fazendo com que sua prática represente, ela própria, a dinâmica da luta de classes. O Estado capitalista nunca é só burguês, expressando o emaranhado de relações sociais que permitem a predominância dos interesses da burguesia. Há espaço para a representação no corpo estatal mesmo de classes e frações de classe dominadas, como, por exemplo, a classe trabalhadora. É nesse cenário, com a noção de Estado-relacão, que Nicos Poulantzas insere o conceito de bloco no poder.

2.2.1 O bloco no poder e a cena política

Poulantzas enfatiza que seu conceito de bloco no poder não vem sozinho, porém converge para o Estado-relação, exposto acima, apresentando-se como uma especificidade do Estado capitalista, na forma com que se relaciona com as classes dominantes. O bloco no poder não surge como um conceito a-histórico ou mesmo utilizável para qualquer conjuntura política fora dos marcos do capitalismo. Designa a maneira como uma hegemonia se consolida no interior do aparelho estatal, como o arcabouço de Estado assume as contradições sociais que dão ênfase a dinâmica capitalista. Nas palavras do autor:

Podemos estabelecer, nestas formações, a relação entre, por um lado, um jogo institucional particular inscrito na estrutura do Estado capitalista, jogo que funciona no sentido de uma unidade especificamente política do poder de Estado, e, por outro

lado, uma configuração particular das relações entre as classes dominantes: essas

relações, na sua relação com o Estado, funcionam no seio de uma unidade política específica recoberta pelo conceito de bloco no poder. (POULANTZAS, 1977, p. 224)

O próprio Estado torna possível a constituição da relação hegemônica de certa forma estável. A classe ou fração hegemônica não impõem seus interesses e demandas. Através do conceito de Estado-relação, elabora a síntese da hegemonia de determinada classe ou fração de classe. Assim, resolve de certa maneira os impasses lançados pela luta de classes. Ele sedimenta, consolida em seu próprio interior a instabilidade inerente da disputa social e, justamente essa introspecção das contradições sociais sob a forma de hegemonia de determinada classe ou fração de classe, apresenta-se sob o conceito de bloco no poder. Esse não surge apenas como a construção de determinada predominância social, mas o que permite efetivamente sua viabilidade, transformando o Estado em instrumento ativo na construção de determinada hegemonia. “Indica assim a unidade contraditória particular das classes ou frações de classe politicamente dominantes, na sua relação com uma forma particular do Estado capitalista.” (POULANTZAS, 1977, p. 229).

Contudo, esse movimento não se reflete de maneira linear por sob os escombros da disputa social. Nesse ínterim, surge o quê Poulantzas (1977) chamou de cena política, ou seja, a movimentação dos partidos políticos dentro de um cenário político e ideológico específico. Segundo o autor: “este espaço permite precisamente circunscrever a defasagem entre, por um lado, o campo das práticas políticas de classe – bloco no poder – em uma forma de Estado, e por outro, a sua representação por partidos em uma forma de regime” (POULANTZAS, 1977, p. 230). Em suma, o bloco no poder nem sempre coincide com os movimentos verificados na

cena política. Se o primeiro elemento encontra seu conteúdo na dinâmica de classes, o segundo exibe certas defasagens justamente por não se inserir no campo das classes sociais. Seus movimentos são os produzidos por partidos políticos ou pela opinião pública:

O espaço da cena política tem, pois, em Marx, uma função bem precisa: é o lugar onde é possível referenciar uma série de defasagens entre os interesses políticos e as práticas políticas das classes, por um lado, e a sua representação partidária, os próprios partidos políticos por outro. A cena política, como campo particular, de ação dos partidos políticos, encontra-se frequentemente defasada em relação às práticas políticas e ao terreno dos interesses políticos das classes, representadas pelos partidos na cena política: essa defasagem é pensada por Marx através da sua problemática da ‘representação’. (POULANTZAS, 1977, p. 242)

Observa-se dois campos: um, relacionado ao conceito de bloco no poder, vinculado à dinâmica das classes sociais e suas respectivas frações; outro, referente às representações partidárias, com deslocamento das classes e das formas que assumem na cena política. No entanto, não há necessariamente correspondência direta entre classes, frações de classes e os atores integrantes da cena política. Desse modo, não é preciso que finanças ou capital industrial, por exemplo, possuam seus interesses representados por um partido político absolutamente seu, ou mesmo que trabalhadores traduzam suas demandas através de agrupamentos políticos “puros”. O caso brasileiro demonstra que, na maioria das vezes, essa linearidade entre bloco no poder e cena política não ocorre, fazendo com que os interesses das classes e suas respectivas frações surjam em organizações aparentemente desvinculadas da dinâmica de classes. Portanto, apesar da influência do bloco no poder sob a cena política, a segunda não se apresenta como um espelho da primeira.

2.2.2 Classes reinantes e classes detentoras

Outros dois conceitos relevantes na análise de Poulantzas (1977) referem-se à nomeação da classe reinante e da classe detentora. Se o bloco no poder emerge da dinâmica de classes, sintetizando a construção de determinada hegemonia, tanto as classes reinantes como as detentoras ligam-se à cena política, pois são vinculadas à representação partidária:

Este caso [da burguesia industrial sob Louis-Philippe] apresenta uma tal importância, que Marx foi obrigado a indicá-lo distinguindo nitidamente classes ou frações

politicamente dominantes, participando do bloco no poder, e classes ou frações reinantes, cujos partidos políticos se encontram presentes nos lugares dominantes da

cena política [...] por outro lado, os deslocamentos, no interior do campo das políticas, não coincidem também com os da cena política. Um deslocamento do índice de

hegemonia de uma classe ou fração para uma outra no bloco no poder, não coincide necessariamente com os deslocamentos de representação partidária na cena política, e não corresponde, por exemplo, necessariamente a passagens do fundo para a boca da cena. E mais: pode acontecer que a classe ou fração hegemônica do bloco no poder

esteja ausente da cena política. A defasagem entre classes ou frações politicamente

dominantes, por um lado, e reinantes, por outro, traduz-se aqui por uma distinção entre a classe ou fração hegemônica e a classe ou fração reinante exemplo, o caso da burguesia no fim do regime de Bismarck. (POULANTZAS, 1977, p. 244)

Poulantzas (1977) é certeiro quanto às diferenças entre classe ou fração hegemônica e classe ou fração reinante. Se a primeira se relaciona ao bloco no poder, a segunda vincula-se à cena política e à representação partidária, podendo existir, inclusive, um espectro hegemônico não diretamente representado na cena política. Novamente, de acordo com trecho citado acima, aparece a noção de deslocamento, conceito que auxilia na compreensão nas distorções verificadas entre o bloco no poder e a cena política.

Por fim, o autor expõe o que chamou de classe detentora, ou seja, a classe ou fração de classe vinculada ao exercício burocrático das funções de Estado, ao seu cotidiano, aos cargos ocupados no interior do aparelho estatal. Diferentemente da classe ou fração hegemônica que coordena a função estratégica do Estado, bem como da classe ou fração reinante, ocupando o cerne da disputa partidária, a classe ou fração detentora vincula-se ao exercício da burocracia civil e militar:

Conviria não confundir classe ou fração hegemônica, aquela que, em última análise, detém o poder político, com classe ou fração que constitui o “detentor” do aparelho

de Estado. Esta última é, em Marx, a classe ou fração m que se recruta o pessoal

político, burocrático, militar etc., que ocupa as “cúpulas” do Estado. (POULANTZAS, 1977, p. 244)

A contribuição de Nicos Poulantzas constrói o instrumental necessário para a análise da dinâmica de classes e a forma como determinada classe ou fração de classe exerce hegemonia, os contornos que assume e como comporta o movimento de luta de classes estabelecido no interior de uma sociedade capitalista. Pode-se dizer que é a visão de Poulantzas (1977) que estrutura a tese central desse trabalho. Afinal, o que é o Plano Real se não instrumento para a institucionalização de determinado bloco no poder? Como se poderiam utilizar as atas do Banco Central como objeto de pesquisa, caso não se considerasse que é no interior do próprio Estado brasileiro que a luta de classes se “resolve”? De fato, a hipótese que o Estado institucionaliza certo modelo de acumulação e seu correlato bloco no poder através de um plano de estabilização monetária e constituição de nova moeda, inunda-se nos trabalhos referidos do autor. A partir de conceitos elaborados pelo filósofo grego, constroem-se não apenas as hipóteses de trabalho, como a própria pergunta que embasa essa pesquisa: qual classe ou fração de classe possui

efetivamente capacidade de impor seus interesses e demandas no cenário econômico nacional durante o período analisado?

2.3 FINANCEIRIZAÇÃO DO CAPITAL: A TOTALIDADE DO CAPITALISMO