Na análise de MM, como já dissemos, antes de abordar a singularidade em seu aspecto de gozo, passamos pela decifração do sentido. Assim, antes de chegarmos ao falasser em questão, ao discurso como aparelho de gozo, falaremos do sujeito como efeito da cadeia significante, enfatizando efeitos de sentido na interpretação. Para tanto, o título da obra pareceu- nos fundamental como ilustração do princípio lacaniano de um sujeito que emerge momentaneamente entre significantes. No caso do sujeito em questão, os significantes entre os quais ele emerge são “mãe morrendo” e “menino mentido”. A análise a seguir tenta apreender os efeitos de sentido dessa conjunção. Vale ainda destacar que os mesmos elementos poderiam ser abordados a partir da perspectiva do gozo, mas, para nossa análise, os escolhemos para discorrer sobre esse sujeito porque, no título, tal causação significante do sujeito pareceu-nos mais evidente.
No começo do trabalho interpretativo, nos deparamos com o estranho título “Minha mãe morrendo e o menino mentido”, estruturado com duas frases ligadas por uma conjunção aditiva. Antes de abordarmos os possíveis efeitos de sentido de cada um desses termos coordenados, faremos uma interpretação da conjunção e, que liga os dois termos, problematizando o sentido básico dela. De acordo com as gramáticas mais conhecidas, a conjunção e une dois termos de valor equivalente, mas ela também pode ter um sentido adversativo, com o valor semântico mais comum da conjunção mas. Na primeira acepção, perguntamos: que ligação existiria entre essa mãe, morrendo, e o menino, mentido? Seria uma relação de consequência, teria sido o fato de o narrador dessas estranhas memórias ter visto a mãe morrer, através de uma janela? Seria esse menino falhado – como o próprio escritor o define ao final da obra – efeito da visão da mãe morrendo e/ou do simples fato de a mãe ter morrido quando ele tinha apenas treze anos?
A conjunção ligaria os dois numa relação de causalidade, o sujeito mentido como um efeito desse fato ou da visão desse terrível acontecimento. Depois de ter lido a obra, sem mesmo ter de fazer qualquer esforço, o próprio leitor poderia chegar a tal conclusão, já que o narrador não faz mistério do trauma vivido.
Entretanto, parece fácil demais tal tipo de leitura. Afinal, ao ligar duas frases com estruturas sintáticas como as encontradas, o efeito estaria mais para um corte, uma ruptura, do que qualquer outro efeito de ligação. Na primeira frase, por exemplo, temos um pronome possessivo de primeira pessoa – minha; esse vocábulo implica uma perspectiva subjetiva do fato, é a mãe do narrador que está morrendo, foi vista morrendo. No entanto, o segundo termo coordenado, o menino mentido, promove um estranhamento: a expressão mentido tanto poderia ser um adjetivo quanto um verbo no particípio passado, e fracassa em estabelecer uma relação de paralelismo sintático perfeito (que seria usando o termo mentindo) ligada ao gerúndio
morrendo. Desse modo, o efeito aditivo, tomado pura e simplesmente, soa problemático. Além do mais, se no primeiro termo coordenado, o pronome possessivo se liga ao narrador;já a expressão o menino mentido, por sua vez, leva o leitor a pensar que esse menino seria outro personagem, não o mesmo sujeito do termo minha mãe morrendo. A dissimetria sintática marcaria nesse momento a dissimetria entre o menino e a mãe: para o narrador, ela seria sua mãe, mas ele se vê apenas como o menino, não seu menino, ou mesmo seu filho. No decorrer do texto, até numa leitura superficial, essa interpretação parece a mais direta. Em vários momentos, o narrador lamenta essa mãe que não gostava dele:
minha mãe é aquela da direita na foto a mais magra a odalisca de turbante
[...]
acho que nunca me amou nunca
acho que até tinha ódio de mim seu filho aquele que se chama
Valêncio24
Logo, não há relação de reciprocidade, de igualdade semântica entre os termos; muito menos de independência entre eles. A conjunção que, de um lado, marca a ligação, por outro,
24 O autor não colocou o número das páginas na primeira parte; mas, como a segunda parte começa na página 41,
fizemos a contagem da primeira página do livro como a página 1, e daí por diante. Assim, a citação foi retirada da página 19.
revela uma radical alteridade entre eles. O narrador, já adulto, falando sobre sua infância, ainda é o menino, um menino que, além do mais, é mentido. A mãe, por sua vez, sempre continua a morrer; ele, entretanto, estabilizou-se nessa posição – mentido, particípio passado, resto de uma relação dolorosa. A mãe, talvez não gostasse do filho, ou até mesmo o odiasse, e ainda assim estariam ligados e separados pela palavra e. A relação mãe e filho, tão naturalizada pelo discurso social como uma relação de completude e amor total, um vínculo visto e decantado como o mais perfeito, aqui, numa simples frase, ou melhor, na frase-título da obra, mostra o desencontro radical entre os seres.
Não percebemos nesse título apenas uma conotação adversativa como “minha mãe morrendo, mas o menino (é ou está) mentido”; também não apenas vemos uma relação simplesmente aditiva. Juntos no título, menino e mãe, ao contrário do que a coordenação sintática pode sugerir, não se equivalem: se é do Outro que provém o sujeito, aí já vemos marcada essa alienação25 ao Outro, e até mesmo nomearíamos a relação entre as frases como sendo de hipotaxe (subordinação), não mais como parataxe (coordenação). Nossa aposta vai além: se, de acordo com Lacan, o sujeito é o que um significante representa para outro significante, o sujeito seria o que surge no intervalo desses dois significantes: menino mentido e mãe morrendo – entre esses dois, aí emergiria o sujeito.
Se, ao nível da linguagem cotidiana, a conjunção teria os efeitos de sentido esperados, os mais comuns, de adição ou contradição, no título, porém, ocorre uma ruptura semântica, de onde derivam efeitos de sentido poéticos, como o de estranhamento. E é justamente aí, onde o sistema da língua soçobra, que as significações à disposição de todos já não servem, no momento em que se diz sempre mais ou menos do que se queria. E nessas brechas pode advir a singularidade.
Ainda há que se considerar no título o motivo de a mãe continuar a morrer, pois o verbo encontra-se no gerúndio. O efeito de sentido mais óbvio é o de atualização e continuação do processo que essa forma verbal, aliás, chamada de forma nominal do verbo (as outras duas são
25 A constituição do sujeito do inconsciente passa por duas operações básicas, segundo Lacan: a alienação e a
separação. A primeira pode ser definida como o modo de ligação entre sujeito e o Outro (da linguagem): o sujeito como tal só pode ser conhecido no lugar ou locus do Outro. Não há meios de definir o sujeito como consciência de si. Na alienação, que é um destino para todo o que fala, o sujeito identifica-se a um significante-mestre, ou desliza indefinidamente entre eles. Já a separação pode ou não estar presente, porque requer que o sujeito queira se separar da cadeia significante (SOLER, 1997). O Outro que aparece na separação, ao contrário do Outro enquanto “cheio de significantes” da alienação, é um Outro a que falta algo: na separação, a liberdade consiste em ver o Outro como faltante, como desejante, então o sujeito não precisa colar-se a um significante que imaginariamente tamponaria a falta. Aliás, essa fixação poderia ser a morte do sujeito enquanto ser desejante, mas ao ver que ao Outro também falta algo, ele pode liberar a ligação extrema entre significantes e significados. Alienação é uma operação que já aparece desde o início do ensino de Lacan, enquanto a separação aparece no Seminário 11, de 1964. Ver LACAN (1964/2008b); LAURENT (1997); SOLER (1997), FINK (1998).
o infinitivo e o particípio), indica. Isso contradiz o fato de a obra constituir, em certo sentido, um texto de memórias. O tempo passado deveria ser o eixo narrativo; nele o narrador falaria do que lhe aconteceu, da morte da mãe, da infância triste etc. E, de certo modo, isso não deixa acontecer. Mas, se no universo do simbólico, uma ordem em que um significante nunca tem uma palavra final, sempre remete a outro significante (o Outro é barrado), uma coisa não é apenas uma coisa, esse passado é posto em causa: afinal, não é minha mãe morta, mas minha mãe morrendo.
O uso dessa forma verbal pode indicar ainda um fato mais evidente: no nível inconsciente não existe a separação entre o que aconteceu e o que acontece; se o acontecimento tem relevância para a constituição do sujeito, como é o caso da morte da mãe para o narrador, esse evento presentifica-se no discurso: o narrador seria sempre um menino, mesmo que o tempo cronológico tenha passado, ele ainda é menino. E, principalmente, menino mentido, o que indica que o tempo não passa para o inconsciente. Logo, a sequenciação temporal esperada num texto narrativo como o gênero memórias não se realiza, o tempo não passou, ou melhor, todas as temporalidades confluem na linguagem, agora servindo de suporte material dessa confluência: a mãe ainda está morrendo e o narrador ainda continua a ser o menino, “fruto gorado e falho”, como ele mesmo define no sumário (MM, p. 219), dessa falta difícil de ser assimilada.
As duas formas verbais nominais – morrendo e mentido –, se vistas sob essa ótica, estariam indicando processos, ou melhor, fenômenos, ainda atuantes e presentes, dentro de uma mesma temporalidade. Isto apesar do que dizem as gramáticas, segundo as quais o particípio indicaria um processo já concluído. Assim, a dissimetria encontrada mais acima nessa tese torna-se, nessa nova perspectiva, uma simetria, um paralelismo: as formas verbais só são diferentes ao nível do sistema. Mas no processo discursivo do título implicam um uso neológico ou poético das mesmas. E isso tem consequências fortes para a maneira com que se organiza o texto: nessa primeira parte, que vai até a página 40, onde começa a parte “Menino mentido – topologia da cidade por ele habitada”, todas as partes escritas estão organizadas em verso, não em prosa. Além do mais, o aspecto passado dos fatos perde importância para as reverberações emocionais ou líricas dos mesmos, como se pode ver pelo intenso uso de uma linguagem sobrecarregada de elementos da linguagem poética: a estrutura gráfica em versos, o uso maciço de figuras de linguagem, de efeitos sonoros, paronomásias etc. Abordaremos tal aspecto de maneira mais detalhada mais adiante.
Numa tentativa de organizar minimamente nosso raciocínio, diríamos que, ao nível dos personagens envolvidos nas frases do título –mãe e menino –, a dissimetria persiste no processo
de causação subjetiva do sujeito-narrador, pois é a mãe a fonte da mentira (se o menino é mentido, alguém o “mente”) e da falha desse menino, além de ser também a causa de uma infantilização que persiste. Assim, a conjunção, que teria um valor consecutivo, por outro lado, viria também a adquirir um valor de ligação – equalização temporal dos termos e dos processos neles encontrados. Num caso, a conjunção mostra a alienação do menino ao seu outro primordial, a mãe, de onde advém o epíteto mentido. No outro, podemos pensar que o sujeito faz uso de todas as tragédias e traumas pessoais para se tornar mais do que mentido: um criador, que no lugar da mentira encontra a ficção, seu saber-fazer de artista. E assim, a conjunção deixa de ter um valor apenas consecutivo para indicar a separação do sujeito em relação aos significantes-mestres.
Para encerrar esse comentário sobre a conjunção e, pensamos também na ambiguidade dessa palavra, que ao mesmo tempo liga e separa. Ela mostra, de um lado, a relação entre a mãe e o menino, e de outro, a distância entre eles. Se o sujeito só se torna sujeito na e pela linguagem, se esta é a marca de sua alienação ao Outro, ao campo simbólico, a linguagem materializa essa alienação quando o epíteto mentido, o determinante do menino, parece soar vindo de fora. É essa mesma a impressão que se tem ao ver o verbo mentir, que tem caráter ativo na língua portuguesa, assumir no do título um aspecto passivo. Em outras palavras, a ação de mentir, caracterizadora do sujeito, não provém deste, mas vem de outro: a expressão menino mentido poderia ser desdobrada em o menino que foi mentido ou mentiram o menino. O verbo intransitivo mentir, por meio dessa curiosa alteração semântica, ganha um objeto: o sujeito é objeto da ação de mentir, não seu agente.
Tal leitura provoca o seguinte questionamento: quem mentiu o menino? Vamos partir dos sentidos convocados pelo autor da obra, que na página 219, numa espécie de glossário ou índice das referências fotográficas da obra, diz: “A origem de menino é problema ainda não resolvido. Mentido: falso, ilusório, que não deu certo – ovo que gorou. Consulte um bom dicionário etimológico.” Pelas palavras do autor, mentido seria mais um adjetivo, já que tem como sinônimos dois adjetivos e uma expressão: “ovo que gorou”, “ovo gorado”; que pode facilmente ser resumida como gorado. No entanto, a expressão o menino mentido raramente aparece em tal acepção, mesmo que seja uma possibilidade da língua, dificilmente acharíamos a palavra mentido como adjetivo. Já o seu emprego no particípio é comum, banal até.
Além disso, salta aos olhos o insólito de tal acepção da palavra mentido: pois de mentido para gorado há que se percorrer um bom caminho metafórico. Começamos por falar de menino e passamos a falar de ovo, o que remete a questionamentos múltiplos: quem não teria nascido,
que falha há nesse menino, em que ele falhou ou por que ele “gorou” como um ovo, cujo desenvolvimento não se completou, o quê ou quem causou tal “goro”?
Qual caminho tomar? Seguir a instrução do escritor, que aparece no sumário, ou defender um acréscimo de sentido? Ainda que não seja um neologismo, a expressão mentido causa estranhamento. Muitas vezes, ao falarmos o título da obra para alguém que não a conhece, as pessoas nos perguntam: “Menino mentindo?” O que leva à necessidade de correção: “Não, menino men-ti-do”, respondemos. Então, fica evidente que o uso atípico da expressão convoca sentidos não esperados ou pelo menos não afirmados no verbete criado pelo escritor.
Não acreditamos na necessidade de escolher entre esses vários possíveis sentidos: eles não se excluem, mas possibilitam outras leituras. O que era a ação de outro, a ação de mentir esse menino, transformou-se em parte do que ele é: um símbolo ou uma insígnia, ostentada no título e referida em várias passagens da obra. Podemos dizer que se tornou uma ancoragem significante a partir da qual pode advir o sujeito. Não é difícil, no entanto, descobrir onde se poderia encontrar o agente desse verbo: na página 23, comentando uma foto, o narrador nos diz:
minha mãe virgem vestida de noiva ao lado do falso marido
Mariinha transvestida e os convidados inventados
em trajes de gala depois
minha mãe viúva de pai vivo naquele tempo não tinha divórcio
viviam separados cada um em uma cidade
eu menino
morava com minha mãe que não me amava não me dava atenção
calor amor carinho
beijos só lia livros e livros que me mandava buscar
na biblioteca
Pelo trecho, poderíamos supor que, se o casamento é falso, o fruto desse casamento também o seria. Um marido sumido e não assumido, e uma imagem fotográfica para convencer a todos da mentira. Nem casamento houve, nem o pai está morto, e a mãe é viúva de marido
vivo. O que seria um filho dessa relação? Também um menino mentido, falso, gorado como a relação da mãe e do pai. E, se pensarmos bem, a mãe mata simbolicamente o pai do menino. Um pai morto-vivo e uma mãe morrendo – com essa herança simbólica o sujeito tem de lidar
ao receber as fotos da mãe, de uma tia, Filipina, a qual, segundo o narrador,estaria já “arrumando sua morte” e chama-o a sua casa para entregar-lhe essas fotos. Se a verdade tem a estrutura de uma ficção, como nos repete Lacan, a origem do sujeito também. Isso aparece fortemente nas fotos da primeira parte: mulheres vestidas de odaliscas, fantasiadas, que, por isso, revolvem antigas fantasias incestuosas e convocam o sujeito a lhes dar sentido, escrevendo um livro.
Estaria talvez o narrador tentando, de uma vez por todas, apagar essas imagens, dando- lhes o mesmo destino obscuro que tinha no afeto da mãe: para um menino substituído por livros, uma mãe transformada em livro. A verdade da foto é, ao mesmo tempo sua maior mentira, uma vez que, por meio dessa mentira, a verdade sobre a origem do menino é revelada: ele origina- se dessa mulher mais interessada nos livros do que no filho, e sem lhe não dar direito nem a um pai, vergonhosamente escondido. Depois de pouco tempo, o menino será levado a São Paulo, onde seria criado pelo avô. Isso tudo pode parecer um exercício de análise psicanalítica de personagem. Porém, longe de atrevermo-nos a discorrer sobre traumas da pessoa do autor, nossos comentários tentam dar sentido a expressões usadas pelo próprio narrador, no título e fora dele. O recurso ao texto em seus desdobramentos linguísticos é o que nos salva do perigo de fazer psicanálise aplicada, mas não do risco de fazer psicanálise em extensão, como retomamos brevemente nos parágrafos seguintes.
A questão de usarmos certos conceitos-chave da teoria lacaniana justifica-se somente à medida que, ao investigar o psiquismo humano a partir das ideias de Freud, Lacan lança uma luz absolutamente nova sobre os fenômenos da linguagem e da constituição do sujeito, sem os quais nossa análise pareceria simplória, se nos debruçássemos em profundezas emocionais descobertas por análise linguística. Se nossa pesquisa trabalha com o conceito lacaniano de singularidade, não há como nem porque fugir de suas acepções de sujeito ou gozo, que se manifestam no discurso. Nosso trabalho vai na direção apontada anteriormente: partir de efeitos de sentido, ambiguidades, rupturas semântico-gramaticais, que poderiam revelar não o sentido último das palavras do narrador, mas de que modo esse mesmo discurso faz advir um sujeito e o desconstrói no mesmo momento em que se recusa a dar explicações para tudo.
Para tanto, tudo do que dispomos para interpretar é o dito e o dizer desse narrador: assim, se ele diz que a mãe não o amava, não nos importa se isso é ou foi verdade (como se houvesse um método infalível de separar realidade da fantasia); nem tampouco o narrador pode ser
igualado ao autor, nem poderíamos calcar alguma leitura fazendo divisão tão simplória entre fantasia e realidade. E nesse ponto é como em qualquer trabalho de análise: só temos a palavra do próprio narrador como ponto de partida para fazermos elucubrações sobre a singularidade e a subjetividade dele. Mesmo assim, em alguns momentos, a palavra autor pode ser capaz de esclarecer alguns elementos de seu processo criativo, então, em nossa interpretação da obra de Valêncio Xavier, principalmente de MM, faremos, sempre que considerarmos esclarecedoras, referências a elementos autobiográficos, sem com isso sustentar toda a interpretação nesse recurso ou pensando nele como a palavra final. O recurso à biografia do autor justifica-se pelo fato de o narrador chamar-se Valêncio e porque pode contribuir para compreender a singularidade do processo criativo do autor. Nesse território perigoso, onde autor e narrador trocam de lugares, procuramos seguir os passos de Lacan, que muitas vezes recorreu à vida dos escritores que analisava, mas nem por isso deixou de ver a obra como soberana em relação ao sentido.