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Pascal no texto de Machado?

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2.2 Nos rastros Pascal: leituras em “A filosofia de Machado de Assis” de

2.2.2 Pascal no texto de Machado?

Os comprovantes da filosofia jansenista de Blaise Pascal na literatura machadiana, para Afrânio Coutinho, apresenta-se de forma latente, em obras da segunda fase machadiana.

O conto Adão e Eva das Várias Histórias123 aparece no ensaio crítico de Afrânio Coutinho como um dos textos que comprovam a filosofia jansenista, logo o caráter contraditório do homem machadiano. O cerne deste conto trata de explicar a origem e a formação mundo, pois as coisas não se passaram, para o autor, conforme a narrativa do Pentateuco.

O conto apresenta-se sob a forma de diálogo, onde um dos personagens diz a maneira pela qual tudo se deu no início de todas as coisas.

“- Aqui está como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, não foi Deus que criou o mundo, foi o diabo...

- Cruz! Exclamaram as senhoras. (...)

122

Cf. Ibid., p. 46. 123

-Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu no pensamento, deixou- lhe as mãos livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar a obra, a fim de que ao próprio mal não ficasse a desesperança da salvação ou do benefício.

(...)

Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo depois a mulher; ambos belos, mas sem alma, que o tinhoso não podia dar, e só com ruins instintos. Deus infundiu- lhes a alma, com um sôpro, e com outro os sentimentos nobres, puros e grandes.”124

O tom jansenista deste texto reside no dualismo da explicação da criação do mundo; o Mal, obra do Demônio, e o bem obra de Deus.125 O homem não é obra das mãos de Deus, mas do diabo. Dessa forma, não pode haver bons sentimentos na criatura homem.

Essas constatações afranianas estabelecem um rastro que marca sensivelmente o mundo antropológico da obra machadiana. O olhar hermenêutico de Afrânio Coutinho despeja sombras sobre as personagens de Machado e esta forma de olhar o conjunto da obra realça mais ainda o que perseguimos: o caráter antropológico da obra machadiana.

Outro texto machadiano que recebe as influências do jansenismo pascalino é o conto a Igreja do Diabo das Histórias sem Data. Cansado de sua desorganização e do seu reinado casual, o Diabo teve a idéia de fundar a sua Igreja na terra. E para tanto, foi a Deus pedir autorização.

No momento em que o Diabo chegou à presença Deus, este estava recolhendo um ancião nas dimensões divinas. Deus o perguntou o que desejava e o Diabo respondeu:

“- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

(...)

-Retórico e subtil! Exclamou o Senhor. Vai; vai funda a tua

Igreja; chama tôdas as virtudes, recolhe todas tôdas as franjas, convoca a todos os homens... Mas vai!vai!”126

124

Loc.cit. 125

Afrânio COUTINHO, op. cit., p. 100. 126

O Diabo substituiu as antigas virtudes por outras que até então eram negadas dentro da Igreja de Deus. A soberba, a luxúria, a preguiça, foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia.127

“A previsão do Diabo verificou-se. Tôdas as virtudes cuja capa de veludo acaba em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas que vinham alistar-se na nova Igreja. (...)

Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam tôdas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vêzes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros dava m esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam- lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo.”128

Nestas atitudes humanas reside o conceito pascalino. A obra de Machado de Assis está repleta de fatos, situações, temperamentos que traduzem está concepção. O caráter humano diante da vida apresenta-se dentro de uma intensa corrupção de sua própria natureza.129

Não podemos afirmar que o jansenismo é a corrente de pensamento que de fato exerce forte influência sobre a obra machadiana, todavia não podemos nos valer apenas de uma negação para rejeitar a tese de Afrânio Coutinho. Estamos certos de que os escritores, no terreno da literatura, podem responder, de uma forma não sistemática, à questões que são também temas da filosofia, contudo é importante compreender de que modo as idéias ingressam no campo da literatura.130

Diante a possibilidade de leitura da filosofia através da literatura, a crítica literária brasileira cometeu, mais especificamente no labor com as obras de Machado de Assis, duas formas equívocas de aproximação. A primeira se traduz em exercício de leitura que procura apreender a idéia filosófica como participante da própria organização do texto literário. A segunda, consiste numa mera transposição de conceitos que provêm da filosofia, posto que ignora a condição metalingüística do

127

Afrânio COUTINHO, op. cit., p. 102 128

Ibid., p. 373-374. 129

Cf. Afrânio COUTINHO, op. cit., p. 104. 130

Cf. Silvia Maria AZEVEDO. Machado de Assis e a filosofia: modos de leitura . In.Ana Sales MARIANO; Maria Rosa Duarte de OLIVEIRA (orgs.). Recortes Machadianos, p. 66.

texto literário.131 Com base nesses dois princípios de equivocidade, Silvia Maria Azevedo admite que o pessimismo machadiano torna-se tributário do contexto filosófico do setecentos francês.132

Miguel Reale problematiza um outro aspecto importante diante da relação autor x obra literária na análise filosófica. Reale se propõe investigar se há efetivamente identidade ou correspondência entre o que pensa Machado de Assis e aquilo que ele coloca na boca de suas personagens.133

Em seu ensaio intitulado A filosofia de Machado de Assis e Antologia

filosófica de Machado de Assis, Reale tem consciência de que a vida e a obra de um

escritor são experiências bastante distintas, muitas vezes opostas, e de que pouco vale, em literatura, investigar posições pessoais de Machado de Assis, no que se refere às idéias filosóficas, para interpretar-lhes os romances e os contos. Portanto, em vez de investigar a “a filosofia de Machado de Assis, o ensaio de Reale se ocupou em analisar “a filosofia na obra de Machado de Assis”. Esta opção de trabalho, além de metodológica, é sobretudo epistemológica.134

Mesmo diante das discussões que problematizam as leituras em volta da obra machadiana, vemos que os contos A Igreja do Diabo e Adão e Eva tratam da condição humana, e por isso nos interessa como literatura que recoloca as questões do ser no mundo. Diríamos, pois, que o conto Adão e Eva trata mais especificamente do tema da queda.135

As personagens de ficção recriam as possibilidades de ser no mundo. Elas estão imbricadas em relações que tocam as questões humanas de forma direta. Considerando esse aspecto redobramos nossa análise acerca das problemáticas em que o homem no mundo machadiano está quase sempre envolvido. As personagens do autor de Brás de Cubas nos remetem à situações iminentes na vida. As questões

131

Ibid., p. 70. 132

Afrânio Coutinho, baseando-se nas declarações de Machado de Assis acerca da importância de Pascal em suas leituras, analisa as fontes filosóficas da obra machadiana a partir de dois prismas: 1. O contexto histórico-político-religioso da França do século XVII, marcado pelo jansenismo, movimento cuja doutrina da graça, de acordo com o crítico, vai repercutir em Pascal e, através dele, nas teorias de Port-Royal; 2. Os antecedentes e os motivos pessoais, de ordem social, psicológica e hereditária, provenientes da origem, da raça e da doença, a epilepsia, como fatores que explicariam a atitude pessimista do escritor, e conseqüentemente, de sua obra. Cf. Ibid., p. 73; cf. Afrânio Coutinho, op. cit. Sobre a equivocidade dos modelos de leitura filosófica na obra literária, cf. Susan SONTAG. Contra a interpretação, p. 11-23, citado por Silvia Maria AZEVEDO, op. cit., 70 -71.

133

Cf. Miguel REALE. A filosofia de Machado de Assis e Antologia filosófica de Machado de Assis, p. 6. Citado por Silvia Maria AZEVEDO, op, cit., p.75.

134

Cf. Silvia Maria AZEVEDO, op. cit., p.75-76. 135

Cf. Jean MESNARD. Pascal: l’homme et l’oeuvre. Citado por Silvia Maria AZEVEDO, op. cit., p. 95.

humanas na obra de Machado de Assis possuem este estado de latência em relação à vida humana.

2.3. A festa simbólica e a explosão antropológica na literatura

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