O caráter efêmero da auto-afirmação de Bentinho reside nas inconsoláveis circunstâncias de vida. Veio o casamento com Capitu e a parir dele as amarguras e as desconfianças - símbolos da caotização do mundo de Bentinho - que se encarregaram de construir paulatinamente um mundo disperso das relações com Deus, a natureza, o outro e si mesmo.
O primeiro sintoma do caos instalado na vida de Bento Santiago é o não reconhecimento da figura humana e dos sentimentos pertinentes a elas. O estar diante do outro provoca em Bentinho a procura da plataforma que sustentava as relações seguras e garantidas. Sem o Deus da promessa ele não consegue reconhecer na Capitu da Glória a Capitu da rua de Mata-cavalos.
“O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente.”204
Este trecho flagra a desarmonização entre Bentinho e outro, como também consigo mesmo. A perda da realidade recai sobre o protagonista do romance como uma implosão do seu mundo. Tudo lhe é estranho.
As desconfianças se acirram no capítulo 106, intitulado Dez Libras
Esterlinas. Bento Santiago ao chegar a casa descobre que seu amigo Escobar lá
estivera pouco antes de chegar. Nesse entrelaçamento de relações, Bento sofre ainda com o filho que o casamento ainda não o legou e passa, definitivamente, a partir do capítulo 107, intitulado Ciúmes do Mar, a viver num mundo de consternações.205
CIÚMES DO MAR
“(...) Não meu amigo. Venho explicitar-te que tive tais ciúmes de pelo que podia estar na cabeça de minha mulher, não fora ou acima dela.”206
Os ciúmes são evidências da perda das garantias do amor de Capitu e da felicidade ao seu lado. O desencantamento do mundo207 debruça-se sobre a vida de
204 Ibid., p. 944
205 Este trecho revela que Bentinho perde a noção das relações com o cosmos. O mar provoca ciúmes no jovem bacharel. A noção de totalidade está concentrada em si. A morte de Deus fez que com Bentinho perdesse o diálogo com o mundo. Associamos, portanto, esta anotação ao conceito de desencantamento do mundo.
206
Ibid., p. 912-913. 207
Em Weber o conceito “desencantamento do mundo” revela uma depreciação das cosmovisões religiosas em favor de uma compreensão racional do mundo da vida, cf. Luiz Bernardo Leite Araújo.
Bento Santiago. A perda do sentido da vida expressa o lançamento de Bentinho sobre uma realidade insuportável.
Tendo nascido o filho, cujo nome homenageia seu grande amigo Escobar, as preocupações se lançam sobre as possíveis aparências entre o Ezequiel filho e o Ezequiel amigo.208
Na tentativa de resgatar o mundo organizado, num sentido nostálgico, Bento Santiago mergulha cada vez mais em si, sem encontrar forças para confrontar-se com a realidade. Portanto, busca os momentos primeiros do mundo em que viveu sobre a tutela do Deus que ele mesmo se encarregou de matar. As consternações se movem numa velocidade voraz diante de sua vida. No capítulo 113, intitulado Embargos de
Terceiros, Dr. Bento atesta a insustentabilidade de sua vida.
EMBARGOS DE TERCEIROS
“Por falar nisto, é natural que me perguntes se, sendo antes tão cioso dela, não continuei a sê- lo apesar do filho e dos anos. Sim, senho r, continuei. Continuei, a tal ponto que o menor gesto me afligia, a mais ínfima palavra, uma insistência qualquer; muita vez só a indiferença bastava. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança.
(...)
Naquele tempo, por mais mulheres bonitas que achasse nenhuma receberia a mínima parte do amor que tinha a Capitu. À minha própria mãe não queria mais que a metade. Capitu era tudo e mais que tudo; não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nela.”209
A caotização do mundo de Bentinho leva-o ao mais alto ponto das consternações de sua vida: a vontade de morrer. As desconfianças em Capitu cada vez mais evidentes e a impotência de diante da possibilidade de seduzi- la ou amá- la nas formas mais puras, escondem-se no ciúme inexplicável e nos trágicos sentimentos.210
“Weber e Habermas: Religião e razão moderna”. Síntese Nova Fase. Belo Horizonte, v. 21, n. 24, 1994.
Em Bentinho o conceito de “desencantamento do mundo” significa a despedida de uma compreensão de um mundo regido pelas promessas que nada mais são que uma intervenção mágica na realidade. 208 Cf. MACHADO DE ASSIS, op. cit., Capítulo 112, p. 918.
209
Ibid., 918-919. 210
No capítulo 125, Bento Santiago busca no drama de Príamo uma comparação para o caos de sua vida. Tal comparação se dá mais especificamente por ocasião da morte de Escobar. No enterro, Capitu fitou o defunto de forma tão tenra que provocou elucubrações em seu marido. Cf. capítulos 121, 122, 123,124. “Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. Homero é que relata isto e é um bom autor, não obstante contá-lo em verso, mas há narrações exatas
A opção pela morte levou Bentinho e Capitu à separação. A introspecção de Bentinho em sua própria realidade fez com que ele pensasse no suicídio como também na possibilidade de homicídio do filho. Tudo se daria ao ingerir uma xícara de café com uma substância letal comprada numa farmácia. A insustentabilidade de sua vida evidencia-se no capítulo 133, intitulado Uma Idéia.
UMA IDÉIA
“Um dia, - era uma sexta- feira, - não pude mais. Certa idéia, que negrejava em mim, abriu as asas e entrou a batê- las de um lado para o outro, como fazem as idéias que querem sair.
(...)
A vida é tão bela que a mesma idéia da morte precisa vir primeiro a ela, antes de se ver cumprida.”211
A fixa idéia da morte pretendia se cumprir no capítulo 136, A Xícara de Café. Ao despejar a substância trazida num pedaço de papel, mexeu o café para ingeri- lo, mas decidiu esperar que o menino e Capitu saíssem pra a missa. Ezequiel filho entrou em seu gabinete e isto bastou para que recuasse. A idéia de sua morte como a do filho está no capítulo 137, Segundo Impulso. A insustentabilidade da relação com Capitu tem seu desfecho no capítulo 138, Capitu que Entra. Bento Santiago declara a Capitu que não é pai de Ezequiel, após ter dito ao pequenino tal atrocidade.
SEGUNDO IMPULSO
- Papai! Papai! exclamava Ezequiel. – Não, não, eu não sou teu pai!
Capitu não teve o direito a defesa da atroz acusação feita por Bento Santiago, todavia confinou-se a crer que a semelhança entre Ezequiel Escobar e Ezequiel filho fosse os motivo cabal do marido. Capitolina, porém, reage afirmado o que propomos ser a potencialização dos efeitos da quebra da promessa: a morte de Deus na vida de Bento Santiago.
“- Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança... A vontade de Deus explicará tudo... Ri-se? É natural; apesar do seminário, não acredita em Deus; eu creio... Mas não falemos nisto; não fica bem dizer mais nada.”
em verso, e até mau verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha; eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera aqueles olhos... É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito, ou quando menos igual...” cf, Ibid, capítulo 125, p. 928.
211
Capitu é capaz de reconhecer que a perda da crença em Deus explica a caotização do mundo de Bentinho. A realidade, a partir do caos, tornou-se um animal indomável na vida de seu dono. O Deus da promessa foi morto por Bento Santiago. Esta era a condição única diante da vontade de lançar-se sobre a vida que não podia ser conciliada com o sacerdócio.
A noção de totalidade, ou seja, o encher-se de si, em Bento Santiago manteve relações com o movimento que ele fez em direção a procura da felicidade num mundo desencantado. Porém, a quebra das relações com o transcendente trouxe ao Casmurro a perda de tato com a realidade instalada e por isso não reconheceu o novo mundo diante de seus olhos.
A realidade tornou-se insuportável diante da impotência de manutenção da sua própria existência. Portanto, a morte do Deus que o enclausurou no Seminário São José estabeleceu a perda do mundo das garantias em razão da efemeridade do mundo desencantado, onde supostamente, para Bentinho, residia a felicidade.
Talvez Capitu fosse a mesma da rua de Mata-cavalos: a menina que usava vestidinhos de chita, sapatos de duraque e tranças. Talvez Capitu fosse ainda aquela menina que brincava de missa com seu companheiro; aquela que certa vez escreveu no muro de sua casa:
Bento
Capitolina
CONCLUSÃO
Em nosso trabalho a pergunta pela teologia veio através da antropologia contida no interior do romance Dom Casmurro. Para que chegássemos a esta constatação, percorremos um caminho cuja finalidade foi a de encontrar os pontos de intersecção para a relação entre teologia e literatura.
As anotações do primeiro capítulo nos conduziram às questões que, ao longo de nossa tradição, permitiram as diferenças entre os textos considerados sagrados e os textos tidos literários. Isto evidencia o porque de os trabalhos dos poetas e escritores, ao longo dos séculos, foram colocados nas zonas da fruição e do devaneio. Afirmamos que a querela entre literatura e teologia estendeu-se até o século XX. Portanto, trouxemos, a partir do contexto europeu, um momento exemplar para visualização dos conflitos entre a arte literária e religião cristã. Todavia, observamos que no despontar dos séculos a religião e arte se encontravam num cenário recíproco. A religião apresentava-se como crítica da arte literária alemã, enquanto que os escritores e os poetas, representantes da crítica literária, não admitiam elementos da teologia cristã como pressuposto estético.
Afirmamos ainda neste capítulo que os temas teológicos nascem no interior dos textos tidos como sagrados ou literários. Para tanto, buscamos o trabalho de Jack Miles. Deus. Uma biografia revelou-nos que é possível pensar Deus como personagem literário. O trabalho de Miles não tem interesse filosófico, como o de negar a existência de Deus, ou um interesse meramente teológico, assumindo a necessidade de provar sua existência, mas o aspecto literário da Bíblia hebraica que apresenta imagens de Deus, buscando então a essência estética dessa criação literária. O trabalho de Miles fez com que admitíssemos que os textos bíblicos – tidos como os únicos sagrados em nossa tradição – podem assumir o caráter de literário. Esta concepção rediscuti a idéia da natureza divina da linguagem. Portanto, outros
textos podem assumir a tarefa de falar dos temas da fé, sem que lhe sejam imputado o caráter de divino.
Todavia, endentemos que ao colocarmos os textos sagrados no nível dos chamados textos literários, não comprometemos somente o princípio que determina a natureza divina da linguagem do texto bíblico, mas também a dimensão sagrada que é atribuída a esses textos pelas comunidades de fé.
Outro problema que pôde ser levantado acerca das hipóteses abordadas por Miles, é o que pode determinar, a partir de um texto, as distinções entre o que é literário e o não- literário. A partir do trabalho de Miles assumimos a tarefa de encontrar nos textos literários, mais especificamente no texto machadiano, temas que até então eram de domínio da teologia clássica.
Para lidarmos com os temas teológicos no interior dos textos literários recorremos a Antonio Magalhães. Em Deus no espelho das palavras, surge duas categorias indispensáveis ao debate entre teologia e literatura. Magalhães afirma que ao texto literário pode ser conferido valor teológico, embora este não apresente consistência teológica. Portanto, as categorias valor teológico e consistência
teológica imputam-nos a obrigação de não sermos arbitrários ao nos aproximarmos
de um texto literário com a intenção de reflexão teológica.
Antes de oferecermos uma possível leitura teológica no romance Dom
Casmurro, colocamo-nos diante de um impasse: a cristalização dos temas teológicos
por parte da teologia clássica, como também o enrijecimento dos textos literários por parte da critica literária.
As leituras em Harold Bloom trouxeram as evidências desta constatação. Bloom em seu trabalho Abaixo as escrituras sagradas afirma que J não é tão estranho como Homero. Para o crítico norte-americano há, sobretudo, nas análises dos textos clássicos do Ocidente, o problema das tradições que os interpretaram ao longo dos séculos. Por exemplo, as histórias de Iahweh nos são tão familiares que não podemos lê-las em outro sentido, a não ser aquele que a tradição teológica cristalizou.
Bloom também oferece críticas às interpretações que se encarregaram pela cristalização dos textos da tradição literária ocidental. Por exemplo, pergunta o crítico, o porquê de não ser Aquiles o herói da Odisséia? Porque a ironia como princípio estético só pode estar em Kafka e não em J? Dessa forma, considerando que há um “cânon” de interpretações diante dos textos de nossa tradição literária,
perguntaríamos se é de fato o possível adultério de Capitu ser o tema central do romance Dom Casmurro, como quiseram muitos críticos de Machado de Assis.
Caminhamos em direção ao texto machadiano considerando que o seu potencial teológico reside no seu caráter antropológico. A ponte entre o ficcional e o teológico foi construída a partir da antropologia do romance. Seguimos, portanto, o caminho literatura/ antropologia/ teologia.
Certificamos-nos que é o caráter antropológico do romance é a porta de acesso ao teológico. Os romances enquanto estrutura narrativa e obra literária vão além de uma narração ou de um relato. Nele está o contexto social, econômico, racial, religioso, político, cultural, ideológico. Portanto, o teológico está no momento em que a literatura romanesca aborda a problemática humana, que, por sua vez, é a evidência do caráter antropológico.
A busca pelo antropológico foi antecedida por uma discussão com a crítica literária machadiana, a fim de evidenciarmos a antropologia como tema transversal na obra do autor de Brás Cubas. Portanto, ao dialogarmos com os trabalho da crítica literária machadiana, percebemos que as convergências temáticas eram patentes, todavia, limitadas por não apresentarem mecanismos hermenêuticos.
Mas o texto literário não é o real. A literatura é uma manifestação a partir da realidade, mas não é a realidade. A ficção é uma produção humana. A personagem de ficção não é o humano. Para responder a tais problemas buscamos o conceito de
mundo do texto em Paul Ricoeur. A elevação da obra literária ao nível da referência
trouxe-nos a contribuição teórica indispensável para se pensar a realidade a partir da arte literária. As personagens ganham vida na medida em que circunstanciam as problemáticas humanas nas zonas tórridas da imanência.
Verificamos, portanto, diante da elevação do texto literário a um outro nível de apresentação, a possibilidade de entrarmos no texto machadiano de forma mais livre. A nossa decisão foi a de entrar pelo texto. Esta decisão solapa a necessidade de grande da crítica literária de entrar num texto literário a partir de elementos extratextuais. Portanto, entramos em Dom Casmurro por ele mesmo. A teoria da paratextualidade de Gerard Genette trouxe-nos a porta de entrada para o texto machadiano: a promessa.
A promessa, com seu caráter anunciativo-ostensivo, é elemento textual que mantém elos com todas as tramas do romance Dom Casmurro. O antropológico
como elemento intermediário entre o literário e o teológico, foi encontrado no centro do capítulo que dá nome à trama principal do romance.
Ao ser prometido ao seminário, Bentinho, protagonista do romance, cria vínculos existenciais com Deus que se revela à sua mãe, D. Glória. As relações entre as personagens com o transcendente, assim como as relações entre o Deus que se revela no romance, descreveram mais do que definiram o que consideramos ser o teológico em Dom Casmurro.
A teologia em Dom Casmurro não se prestou às categorizações dogmáticas da teologia clássica. Ela apontou-nos as características do Deus que se apresentou no romance, a partir da experiência humana com esse Deus. Portanto, o Deus é entendido a parir do humano. O homem em Dom Casmurro determina as condições teológicas do romance.
O Deus que se apresenta ao homem a partir da promessa permanece como controlador-regulador e mantenedor da vida, todavia sem conseguir controlar as paixões das zonas mais profundas do ser humano. Nasce, portanto, desta fenda na relação entre o homem e Deus uma possibilidade de ruptura com o mundo que é organizado por esse Deus.
O Deus da promessa é o Deus que condiciona a vida de Bentinho ao Seminário São José. É o Deus que só autenticou a vida de Bento Santiago porque a ele foi feita uma promessa. É o Deus da causa e efeito. É o Deus do monastério católico do século XIX.
Todavia, Bentinho prefere trocar o mundo das garantias, que é mantido por esse Deus, por uma vida laica, sem interferências do transcendente. O Deus da promessa é morto, porque algo é colocado como impossível diante de sua soberania: conciliar a vida eclesiástica com a vida laica, profana ao lado de Capitu.
A essência do Deus controlador permanece nos interstícios da alma humana. Ao matar o Deus da promessa, Bentinho cria um terreno propício para a instalação de um mundo caótico, ou seja, renasce diante de vida do jovem advogado uma realidade insuportável, posto que assume a totalidade enquanto ser e por isso a vida perde o sentido. Portanto, afirmamos durante o terceiro capítulo que o desencantamento do mundo e a caotização da vida nascem da morte do Deus da promessa.
A vitalidade de Bentinho descortina-se pela avidez em relação ao que é desconhecido pelo seu mundo organizado. É pela força do desejo de viver que Bentinho conheceu a realidade de um mundo caótico; um mundo desencantado que
só é desejado por quem é demasiadamente humano, e que vivendo neste mundo de desencantos, não deixa de ter a nostalgia do divino.
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