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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. Fuga da promessa e nostalgia do divino: a antropologia de Dom Casmurro de Machado de Assis como tema no diálogo entre teologia e literatura. Douglas Rodrigues da Conceição. São Bernardo do Campo, outubro de 2003.

(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. Fuga da promessa e nostalgia do divino: a antropologia de Dom Casmurro de Machado de Assis como tema no diálogo entre teologia e literatura. por Douglas Rodrigues da Conceição. Orientador: Prof. Dr. Antonio Carlos de Melo Magalhães Dissertação de mestrado apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, para a obtenção do grau de Mestre.. São Bernardo do Campo, outubro de 2003.

(3) BANCA EXAMINADORA. ______________________________________ Prof. Dr. Antonio Carlos de Melo Magalhães Presidente – UMESP Universidade Metodista de São Paulo. ______________________________________ Prof. Dr. Etienne Alfred Higuet UMESP Universidade Metodista de São Paulo. ______________________________________ Prof. Dr. Eli Brandão da Silva UEPB Universidade Estadual da Paraíba.

(4) Dedicatória. “Aos meus pais, Jacira da Silva R. da Conceição e Ary Paulo da Conceição, cuja ausência se fez dor em minha vida durante este ano. A vocês, eternos amigos, quero tributar este trabalho como prova do meu eterno amor e gratidão... A dor que sinto na saudade é a certeza da presença eterna de cada um de vocês...”.

(5) Agradecimentos. - Agradeço incondicionalmente ao professor Antonio Carlos de Melo Magalhães pela oportunidade de ter recebido preciosas orientações durante a pesquisa. Agradeço também por ter partilhado de sua amizade e beleza humana; e, sobretudo, por ter estado ao lado de um brilhante teólogo. -. À Elaine da Conceição, minha esposa e companheira, por ter suportado minha ausência... Não imagino minha vida fora da sua vida... Devo-te muito! -. Aos meus filhos Ramon e Júlia, porque neles encontrei inspiração para prosseguir.. -À Helena da Silva Santos, minha avó, por dedicar seu tempo a mim. - Ao professor Etienne Alfred Higuet pelas palavras de força e afeto nos momentos de angústia e solidão. - Ao professor Lauri Emílio, pelo atencioso acompanhamento como coordenador e professor da pós-graduação em Ciências da Religião. -. Ao professor Carlos Sepúlveda, docente da UFRJ, pela ajuda no início da caminhada. - Agradeço à CAPES e ao IEPG pelas bolsas de pesquisa.. -. Aos amigos Moisés Martins, Jorge Antonio, Ana Maria Fonseca (IEPG), Leia Alves (secretária da pós-graduação),Elton Mendes, Josias da Costa, Manoel Moraes, Maria de Fátima Muniz, Andréa Pedro, Marco Antonio e Daniele Cristina, pela força e carinho demonstrados.. - Ao amigo Luiz Antonio, Bibliotecário chefe da Academia Brasileira de Letras, pela confiança e amizade à primeira vista. -. Especialmente ao Deus desconhecido de Nietzsche, porque também é o meu Deus..

(6) CONCEIÇÃO, Douglas Rodrigues da. Fuga da promessa e nostalgia divino: a antropologia de Dom Casmurro de Machado de Assis como tema no diálogo entre teologia e literatura. Dissertação de mestrado. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2003.. SINOPSE A ocupação principal deste trabalho residiu no diálogo entre a teologia e a literatura, primordialmente no interior do romance machadiano Dom Casmurro. Esta dissertação preconizou a antropologia emergente no romance machadiano em questão, como lugar das reflexões de cunho teológico. Para pauta de discussões, foram trazidas obras referenciais, que se apresentaram como o estado atual da questão acerca do diálogo entre teologia e literatura. A sustentação teórica deste trabalho se deu com apropriações conceituais de Paul Ricoeur, Antonio Carlos de Melo Magalhães e Gerard Genette. Portanto, o objetivo deste trabalho se delimitou na demonstração das relações entre o Deus que se revela e o humano machadiano, a partir do caráter antropológico do romance Dom Casmurro. A promessa e o caráter paratextual do capítulo em que ela é narrada, conduziram todas as análises realizadas, que culminaram na observação do antropológico como tema central do romance. Defendemos que a quebra das relações estabelecidas entre o humano machadiano e o Deus da promessa estabeleceu a instalação de um mundo desencantado diante da existência e da realidade do protagonista do romance, Bento Santiago..

(7) CONCEIÇÃO, Douglas Rodrigues da. Flight from the promise and nostalgia for the divine: the anthropology of Dom Casamurro de Machado de Assis as a theme in the dialogue between theology and literature. Dissertação de mestrado. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2003.. ABSTRACT The principle concern of this research resides in the dialogue between theology and literature, primarily in terms of the novel Dom Casmurro, by Machado. The dissertation takes the emergent anthropology in the machadian novel under consideration as a space of theological reflection. In terms of the general discussion, referential works are presented that describe the current state of the question regarding the dialogue between theology and literature. Theoretical support for the research is provided through the appropriation of concepts in Paul Ricoeur, Antonio Carlos de Melo Magalhães and Gerard Genette. Nonetheless, the objective of this research is limited to the demonstration of the relations between the God that reveals himself and the machadian human, based on the anthropological character of the romance Dom Casmurro. The promise and the para-texual character of the chapter, in that it is narrated, guide the analyses realized, which culminates with the observation that the anthropologic is the central theme of the novel. We defend that the rupture of relations established between the machadian human and the God of the promise, expressed in the existence and reality of the protagonist of the novel, Bento Santiago, established a disenchanted world..

(8) Sumário INTRODUÇÃO.........................................................................................................10 CAPÍTULO I TEOLOGIA E LITERATURA EM DIÁLOGO: CAMINHOS E DISCUSSÕES 1.1. Tensões, convergências e fronteiras: o diálogo entre a teologia e a literatura...............................................................................................13 1.1.2. Tensões entre teologia e literatura.........................................................16 1.1.2.1. Tensão entre teologia e literatura: Europa dos séculos XIX e XX....................................................................................................17 1.1.2.2. A arte literária: inimiga da religião........................................20 1.2. “Deus no espelho das palavras”: possibilidades de aproximação........................23 1.2.1. Deus como personagem literário: uma leitura em Jack Miles..............23 1.2.2. Onde estão as verdades sagradas? Leituras em Harold Bloom.............27 1.2.3. A teologia nas redes da literatura: a antropologia nos romances de Jorge Amado...................................................................................................30 1.2.4. Caminhos e métodos para o diálogo entre teologia e literatura: leituras em Antonio Magalhães.......................................................................34 1.2.4.1 O método da correspondência: a proposta de “Deus no espelho das palavras”.........................................................................38 1.3 A literatura machadiana diante do diálogo entre teologia e literatura..................41 1.3.1. Caminhos para um diálogo entre teologia e literatura..........................41 1.3.2. Os romances no diálogo entre teologia e literatura...............................42 1.4. Um pouco da arte romanesca machadiana...............................................45 CAPÍTULO II TEMAS E VOLTAS EM TORNO DA OBRA MACHADIANA: CAMINHOS PARA A ANTROPOLOGIA 2.1 Nota biográfica......................................................................................................47 2.2 Nos rastros Pascal: leituras em “A filosofia de Machado de Assis” de Afrânio Coutinho........................................................................................................50 2.2.1 Pascal na literatura do mestre dos contos...............................................52 2.2.2 Pascal no texto de Machado?.................................................................53.

(9) 2.3. A festa simbólica e a explosão antropológica na literatura machadiana.............58 2.3.1 A festa dos símbolos: Capitu como “belle dame sans merci”................61 2.4. A religião na obra machadiana ...........................................................................64 2.5. Caminhos para a antropologia ............................................................................67 2.51. Da ficção ao nível da referência: o mundo do texto em Paul Ricoeur ...........................................................................................................67 2.5.2. Personagens: traços do antropológico ..................................................71 2.5.3. A promessa: os paratextos de Genette em ação....................................72. CAPÍTULO III NA LITERATURA UMA ANTROPOLOGIA: A DISCUSSÃO TEOLÓGICA EM DOM CASMURRO 3.1 Literatura, antropologia e teologia........................................................................75 3.1.1.Na ficção: a religião e o homem............................................................76 3.1.2. Notas antropológicas.............................................................................78 3.1.2.1.Um homem que se relaciona com Deus..................................78 3.1.2.2. Um homem que se relaciona com outros homens..................78 3.1.2.3. Capitu e Bentinho: seres que se amam...................................79 3.1.3. Notas preliminares................................................................................80 3.2. Entre a promessa e a vida: a negação de Deus....................................................81 3.3. As amarguras da vida: o silêncio de Deus...........................................................86 3.4. Um mundo caótico...............................................................................................90. CONCLUSÃO...........................................................................................................94 BIBLIOGRAFIA......................................................................................................99.

(10) INTRODUÇÃO. A proposta de diálogo entre a teologia e literatura configura no mundo contemporâneo as infinitas possibilidades de inter-relação entre os saberes. Portanto, vivemos, hoje, um momento de nossa história onde a quebra e a substituição de modelos e paradigmas tornaram-se cada vez mais constante. No Brasil, o crescente espectro do debate entre a teologia e a literatura demonstra a procura por estas interlocuções. Nos últimos anos tivemos, sensivelmente, um avanço nas discussões acerca da interface teologia e literatura. É, portanto, a partir desse encontro nostálgico entre elas, que ouvimos a ressonância das convergências temáticas. Temas que outrora eram tidos como de exclusividade da teologia, agora, são vistos, a partir de uma outra perspectiva, no âmbito dos textos literários. Temas como Deus, homem, fé e Igreja, ainda estão e sempre estiveram sob a égide das interpretações da tradição teológica clássica, todavia, ao aproximarmos a teologia da literatura, percebemos que estes mesmos temas, dentro do tecido literário, são também de certa forma os intérpretes das muitas faces da realidade humana. Os contos, os romances e as poesias revelam formas de estar no mundo. Para a construção desse trabalho afirmaremos que a possibilidade de leitura teológica de um texto – bíblico ou literário – dá-se no interior dos próprios textos. Com isso, concebemos com muitas reservas o princípio da natureza divina da linguagem. O texto que será trazido para a pauta de discussões é o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Nosso pressuposto acerca desse romance, diante da interlocução entre teologia e literatura, reside na afirmação do seu caráter antropológico como ponte e mediação das análises teológicas. No primeiro capítulo do nosso trabalho traremos algumas discussões que representam o estado atual da questão acerca do diálogo entre teologia e literatura, com a proposta de apresentar algumas contribuições e caminhos já traçados no debate..

(11) Primeiramente, demonstraremos uma situação exemplar dos conflitos entre arte e religião e religião e arte, a partir do contexto europeu. Neste mesmo bloco tentaremos, com a apresentação de alguns trabalhos produzidos no interior da crítica literária norte-americana, discutir alguns pontos das correntes teológicas e literárias – enraizadas em nossa tradição -, que se ocuparam com a cristalização dos temas clássicos da teologia no interior dos textos bíblicos, como também a cristalização das interpretações que fizeram dos textos literários um monopólio da crítica dos poetas e escritores, respectivamente. No segundo bloco, discutiremos a importância dos romances diante da possibilidade de reflexão teológica a partir de uma obra literária. A partir desse ponto traçaremos um caminho que deixará rastros na literatura, antropologia e finalmente na teologia. Portanto, para admitirmos a possibilidade de reflexão teológica a partir do romance Dom Casmurro, afirmaremos que tal obra apresenta-se, diante do nosso olhar, a partir de uma perspectiva temática. Perseguiremos a antropologia como tema fundamental para as análises que empreenderemos no terceiro capítulo. No segundo capítulo, intentaremos um diálogo com três representantes da crítica literária machadiana, a fim de que a nossa compreensão da antropologia como tema central em Dom Casmurro, seja vista como tema transversal na obra do autor de Brás Cubas. Neste mesmo capítulo traçaremos, com apoio teórico, o caminho que nos conduzirá ao romance e ao tema fundamental no interior da obra. Para tanto, buscamos o conceito de mundo do texto em Ricoeur; o conceito de valor teológico e consistência teológica em Antonio Magalhães e, por fim, a idéia de paratextualidade em Gerard Genette. Portanto, entraremos no texto a partir dos referenciais anunciados. No terceiro capítulo, dedicaremo- nos ao encontro entre o antropológico e o teológico que se dá no interior do literário. Esse encontro dar-se-á pelo capítulo intitulado A PROMESSA. A partir desse momento procuraremos demonstrar as relações entre o humano e o Deus, como também as relações entre o Deus e o humano. Admitiremos que o Deus da promessa apresenta-se, do ponto de vista das personagens, como o controlador e mantenedor do mundo e da vida dentro romance..

(12) É, portanto, nos braços desse Deus que D. Glória entrega seu filho por ocasião de seu nascimento. Bentinho foi prometido à Igreja, todavia não quer cumprir o legado da promessa de sua mãe. Em sua infância, Bentinho recorre sempre aos céus como refúgio de seus pedidos a Deus. Esse menino sempre recebe das mãos de Deus os seus pequenos pedidos, porém a cada pedido acumula dívidas com os céus, por não pagar as ínfimas promessas. Inclinados a ler o texto machadiano sob o aspecto da manutenção do mundo organizado por parte Deus, defenderemos, portanto, que o romance recolocará em cena um homem vivo; um homem que quer debruçar-se nos braços da vida e longe das amarras da vida monástica. Este homem é o homem que decretou a morte do Deus controlador; do Deus da Igreja; do Deus da promessa. Torna-se importante entender que o romance Dom Casmurro dança conforme os acordes da modernidade que se instalava no Rio de Janeiro do século XIX. Por isso, buscaremos demonstrar que a morte Deus no romance desvela um mundo desencantado diante da vida de Bentinho. As consternações da vida tornamse inevitáveis num mundo sem Deus. Bentinho é o sujeito que quer se achar num mundo onde a presença do transcendente, enquanto sinônimo do Deus da Igreja, foi substituída pela busca da felicidade..

(13) Capítulo I. TEOLOGIA E LITERATURA EM DIÁLOGO: CAMINHOS E DISCUSSÕES. “Talvez Deus mantenha alguns poetas à sua disposição (vejam que digo poetas!), para que o falar sobre Ele preserve a sacra irredutibilidade que sacerdotes e teólogos deixaram escapar de suas mãos.” Kurt Marti, Carinho e dor, 1979. 1.1. Tensões, convergências e fronteiras: o diálogo entre a teologia e a literatura Seria pretensão de nossa parte tentar nas próximas linhas apresentar a história e os fundamentos de separação entre teologia e literatura no Ocidente, pois tal trabalho ultrapassaria os limites da nossa pesquisa. Somos capazes de afirmar que consideramos intrínseca a relação entre elas 1 . Por isso, partiremos de um momento onde é possível ver o reencontro entre teologia e literatura. Um reencontro marcado, talvez, pela mesma nostalgia que o Odisseu carregou em seu íntimo por dez anos. Hoje, ao observarmos a aproximação entre as fronteiras dos saberes e as interlocuções entre os discursos das ciências, o diálogo entre a literatura e a teologia marca sua presença. Teologia e literatura voltam a se encontrar, no cenário acadêmico contemporâneo, na condição de interlocutoras.. 1. O distanciamento que há entre teologia e literatura – visto que nossa preocupação primeira é uma tentativa de aproximação para uma possível reflexão teológica -, tem sua origem, para Antonio Magalhães, em Tertuliano, Agostinho e Jerônimo, posto que viam na filosofia uma importante interlocutora para a reflexão teológica. A arte e a religiosidade popular da época eram descartadas como possibilidades reflexão teológica. Os textos poéticos, ao contrário da revelação, nada mais são do que invenção humana ambígua; os poetas trabalham com a mentira como pressuposto fundamental por lançarem mão da aparência para dizer coisas relacionadas às verdades da vida. Esse recurso foi considerado uma forma de se distanciar daquilo que a palavra de Deus defendia como regra e princípio. Cf. Antonio MAGALHÃES. Deus no espelho das palavras: teologia e literatura em diálogo, p. 57..

(14) A teologia ao segregar-se das artes e do mundo ao longo da história acena para os limites entre o sagrado e o profano; o secular e o religioso; literatura sacra e literatura profana, ao circunstanciar a possibilidade de diálogo entre ela e a literatura. A literatura tida como profana, inadequadamente, durante muito tempo, foi concebida como a arte que só fala das coisas que não são verdades. Todavia, “a verdade da literatura não pertence ao domínio do real histórico de sua trama. Ela faz apelo à hermenêutica, à interpretação; o artista mostra, por sua obra simbólica, uma certa compreensão ou interpretação da vida”2 . A nossa reflexão acerca da literatura, como ponto de partida obriga- nos a admitir que ela, ao longo da história do Ocidente, teve diferentes usos e papéis. Atribuíam, por exemplo, à literatura o papel de falar das coisas que não são verdade, contudo cremos que a ficção ou a poesia - como expressões incondicionais da literatura - recoloca em cena a vida, o homem vivo, com suas questões, seus sonhos, seus problemas e seus sentimentos em face do mundo da natureza, em face dos outros homens e diante de si mesmo. 3 O autor de obra literária não pode simplesmente ser concebido como alguém que detém procedimentos para produzir textos literários, mas, alguém que pode despertar uma compreensão da existência humana no mundo. Diria Antonio Manzatto: “... podemos dizer que a verdade literária, a verdade que a literatura comporta, não é do mesmo gênero que a verdade histórica, mas sim da ‘verdade da história’, pois trata-se da compreensão do sentido da vida, do ser humano no mundo. Assim, mesmo uma invencionice, uma ficção, de certa forma uma mentira, pode ser o veículo de transmissão da verdade, ou de uma verdade, já que se trata aqui não de um conhecimento científico, mas da transmissão do sentido da vida: e isso pode ser feito através de uma narração, de uma história, de uma parábola.”4. Antonio Carlos de Melo Magalhães afirma que “o trabalho dos poetas e autores, dentro do que passou a ser considerado como literatura, foi, quase sempre, colocado na esfera da motivação estética e não da hermenêutica, servindo, portanto, mais para momentos de fruição e devaneio do que para os de análise e reflexão.”5 A 2. Antonio MANZATTO. Teologia e literatura; reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado, p. 21. 3 Antonio MANZATTO, op. cit., p. 63. 4 Ibid., p. 23. 5 Antonio MAGALHÃES, op. cit., p. 49..

(15) postulação de Antonio Magalhães recoloca uma outra questão crucial diante do diálogo entre teologia e literatura: qual a concepção de literatura que se perpetuou em nossa tradição? Não nos ocuparemos neste trabalho com esta problemática, mas transitaremos por ela de maneira sutil. Em resposta à pergunta sobre que conceito de literatura sobreviveu em nossa tradição, Tzvetan Todorov diria que se chega mais facilmente a uma definição funcional que uma definição estrutural do que seja literatura 6 . No Ocidente, as definições de literatura são as que definem literatura em relação ao seu caráter de ficção e à estética. 7 Pensar a literatura dessa forma é, acima de tudo, reduzi- la a um mero objeto serviçal dos homens; tanto para os que se ocupam com o labor da escrita, quanto para os que se ocupam com o sabor da leitura. Portanto, poderemos perguntar o que é que só a literatura e nenhuma teologia conceitual será capaz de dizer e expressar eficazmente? 8 Sabemos que a literatura mantém profundas relações com o belo, contudo seu papel diante da vida não se reduz à esfera do devaneio e da estética. 9 Na literatura, a beleza e a verdade podem conviver, de tal maneira que uma não exclua a outra. 10. 6. Cf. Tzvetan TODOROV, Les genres du discours, p. 15. Citado por Antonio Manzatto, op. cit., p. 15. Antonio MANZATTO. Loc. cit. 8 Jean-Pierre JOSSUA; Johann Baptist METZ. Teologia e literatura (editorial). Concilium, p. 4. 9 Em oposição a essa concepção, concordamos com Antonio Manzatto quando diz que a literatura não fala somente apenas à razão, mas ao ser humano todo inteiro: compreende-se e sente-se o que o autor nos diz, vêem-se suas imagens, sentem-se cheiros e gostos ao ler uma obra literária. A literatura comunica-se coma razão e como os sentidos humanos. Por isso diz-se que ela não é feita para ensinar, mas para deleitar. Entretanto, ela busca também ‘sensibilizar o leitor, dando-lhe uma visão mais ampla dos problemas do mundo, uma vez que o compromisso da literatura é com a alma humana, porque a função artística é registrar a vivência do homem, com suas angústias, glórias e prazeres’. É exatamente nesse sentido que, diante de uma obra literária, tem-se vontade de dizer: ‘É verdade!’. Por sua coerência interna, essa obra torna-se convincente, não no sentido de persuasão retórica, mas como simples representação. Se é verdade que a arte não constitui como tal sem belo, da mesma forma o belo revela novas formas do ser e não se opõe necessariamente à verdade. Cf. Op. cit., p. 26. Sobre as questões acerca do conceito de literatura, cf. Terry EAGLETON, “Teoria da literatura: uma introdução”, p. 19. Citado por Eli Brandão. In O Nascimento de Jesus Severino no auto de natal pernambucano. Nesta obra, Eagleton retoma a complexidade do fenômeno literário, a fim de observar mais detidamente o que é especificamente o literário e o não literário. Essa dificuldade nasce do fato de muitas obras serem estudadas como literatura, todavia muitas outras não. Para se ter um conceito mais límpido do que vem a ser literatura é preciso, em primeiro lugar, definir o que é literário ou não. “Alguns textos nascem literários, outros atingem a condição de literários, e a outros tal condição é imposta.” 10 Op. cit., p. 27. 7.

(16) 1.1.2. Tensões entre teologia e literatura As tensões entre teologia e literatura iniciam-se no centro do debate acerca da natureza da linguagem. Por exemplo, o Cristianismo só aplica o princípio da origem divina da linguagem aos textos canonizados. Dessa forma, os textos literários são encarados como fantasias e falsificação. Os textos dos poetas, segundo a tradição teológica, são tecidos dentro do discurso literário, ao passo que os textos concebidos como sagrados foram “revelados” e por isso são textos oficiais e canônicos. Portanto, é possível perceber que vários aspectos, sobretudo o aspecto religioso dos textos considerados literários, foram rejeitados ao longo de nossa tradição. 11 Vários caminhos poderiam servir de resposta a esta concepção, todavia Paul Ricoeur afirma que por um movimento de transcendência, toda obra de ficção projeta para fora dela mesma um mundo que se pode chamar o mundo da obra; assim a epopéia, o drama, o romance projeta sob o modo de ficção maneiras de habitar o mundo que ficam à espera de uma retomada pela leitura, capaz por sua vez de fornecer um espaço de confrontação entre o mundo do texto e mundo do leitor 12 . É neste ponto que residem os problemas de interpretação. É claro que não se pode usar posturas hermenêuticas arbitrárias, todavia isto não que dizer que não se possa desenvolver caminhos hermenêuticos “lógicos” e “éticos”, a fim de que estes sirvam de objeto de exploração do mundo do texto, como também de chave decifradora dos símbolos13 ali representados. Antonio Magalhães afirma que “o texto literário não é uma mera reprodução da experiência, mas também não pretende ser um sistema explicativo rígido, intocável e sobrepujador de novas experiências”. 14 A teologia como ciência 15 e como disciplina que dialoga com outras ciências, não deixa de ser teologia, não perde sua identidade e não se deixa levar por serva de outras ciências. O diálogo da teologia com outras ciências ou artes, não exige dela a 11. Críticas da estética à religião e críticas da religião à estética, cf. Karl-Josef KUSCHEL. Os escritores e as escrituras: retratos teológico-literários, p. 13-21, sobretudo p. 23. Kuschel faz inicialmente uma avaliação da tensa relação entre religião e literatura a partir do contexto europeu, mais especificamente do contexto alemão. Para ele, ainda mais antiga que a tradição da crítica estética à religião é a crítica religiosa à arte, já cultivada da forma veemente pelos Padres da Igreja. Quanto à crítica teológica à estética, Kuschel aponta para o dinamarquês Sören Kierkegaard. A arte para kierkegaard não passaria de um jogo descomprometido sem seriedade existencial, um exercício estético sem ethos, poesia sem anseio de veracidade. 12 Paul RICOEUR. Tempo e Narrativa II, p. 13. 13 Tratando-se da literatura machadiana, antecipamo -nos em ressaltar a tese de Luis Marobin, livredocente da UFRGS. Cf. Luiz MAROBIN. Símbolos, arquétipos e mitos em Machado de Assis, p.63161. 14 Antonio MAGALHÃES, op. cit., p. 129 15 Sobre o conceito de teologia como ciência, cf. Antonio MANZATTO, op. cit.,p. 5..

(17) perda de sua identidade. “O teólogo continua sempre teólogo e analisa, como teólogo e a partir da experiência de fé, a importância teológica que podem ter os dados científicos e artísticos”16 . A literatura, por sua vez, também mantém sua autonomia como arte 17 . Ela não se diminui por emprestar seus temas às outras ciências. A literatura se interessa por tudo que é humano, de tal modo que se pode dizer que a literatura é tão grande quanto o humano. As relações entre teologia e literatura podem desenvolver um diálogo que não desconheça as diferenças e as identidades próprias entre elas, portanto, surge a partir daí uma aproximação profícua. Tudo que é humano interessa à literatura, o mesmo acontece com domínio religioso do homem. Deus, fé, Igreja, relações entre o homem e Deus, que são objetos de análise teológica, também estão presentes nos textos literários. Portanto, se há uma tensão histórica cultivada diante da possibilidade de diálogo entre elas, as afinidades temáticas reavivam, a priori, uma possível aproximação. A seguir traremos à pauta de discussões um momento exemplar das tensões entre teologia e literatura. A obra de Karl-Josef Kuschel, “Os escritores e as escrituras: retratos teológico-literários”, indicar-nos-á este momento específico dentro do contexto europeu.. 1.1.2.1. Tensão entre teologia e literatura: Europa dos séculos XIX e XX Se por um lado afirmamos que o problema da natureza da linguagem é a causa do distanciamento histórico entre a teologia e a literatura, por outro lado concordamos com Karl-Josef Kuschel ao destacar o século XIX como marco de tentativa de reconciliação. Em “Os escritores e as escrituras: retratos teológico-literários”, Kuschel retoma, sobretudo no primeiro capítulo, o que denomina ser a tensa relação entre a religião e a literatura. Ele afirma inicialmente que “já é lugar-comum afirmar que religião e literatura encontram-se em uma relação de tensão constante e até mesmo hostil, ao menos desde o fim da identidade entre cultura burguesa e cristandade.”18. 16. Ibid., p. 39. Ibid., p. 13. 18 Karl-Josef KUSCHEL, Os escritores e as escrituras, p. 13. 17.

(18) O crítico alemão aponta o século XIX como o lugar primeiro das tentativas de “reconciliação” entre teologia e literatura. Ele aponta para o movimento romântico (inicialmente com Schlegel, Eichendorff, Brentano e Annete von Droste-Hülshoff). Todavia, os esforços de fazer retroceder o processo de secularização (que marca a época, segundo A. Schöne), e de restabelecer a religião cristã como elo obrigatório e integrador para a unidade da cultura, fracassam – afirma Kuschel- não apenas os românticos, mas também a segunda onda programática de “literatura cristã” na primeira metade do século XX. 19 A preocupação fundamental de Kuschel está na análise das decorrências pendentes da dicotomia cultural entre religião (cristianismo) e cultura (literatura). Portanto, o trabalho deste teólogo alemão centra-se nas questões que vão da crítica estético- literária à religião, como também em sua contra- mão: questões que vão da crítica religiosa à estética. E para tanto, Kuschel elegeu como foco de leitura quatro grandes autores: Gottfried Benn, Bert Brecht, Hermann Hesse e Reinhold Schneider. Gottfried Benn, marcado por um certo tipo de pessimismo, traz consigo a idéia de que Deus representa muito pouco enquanto princípio estilístico. Em um de seus relatos biográficos, Benn expressa de forma latente a perda do que é metafísico, sobretudo ao fazer alusão à Primeira Guerra Mundial. 20 Kuschel deduz o seguinte do pensamento de Benn: “(...) Deus, isto é, com convicções religiosas e com piedade eclesiástica, não se pode fazer boa poesia. Mente piedosa, comprometimento devoto? Eis aí o inimigo do bom estilo, a perda da boa literatura.”21 Para Benn, arte é hoje a única forma possível de transcendência. 22 O ambiente religioso que vivera Benn quando criança ecoa em seu íntimo, todavia não oferece nenhuma resistência diante de sua crítica à religião. Para Benn, apenas a arte permanece e cria comprometimento. 23 Sistematicamente, poderíamos dizer que Gottfried Benn é um dos autores que representam a crítica estético- literária.. 19. Loc. cit. ‘O homem interior em frangalhos, ainda mais esfarrapado que o exterior, por vermes e granadas: apodrecido, azedo, gaseado, e no emaranhado da bagagem algumas palavras oxidadas’... ‘Os deuses, mortos, os deuses da cruz e do vinho, ainda mais que mortos: mau princípio estilístico, quando a gente se torna religioso, abranda a expressão. Cf. Op. cit., p.17. 21 Loc. cit. 22 Essa foi a resposta de Benn por ocasião de uma pesquisa de opinião organizada por Harald Bauer sobre o tema “A fé dos literatos – depoimentos sobre a vivencia religiosa. Participaram dessa pesquisa (Döblin, Barlach, Claudel, Hesse, Thomas Mann, R. Rolland, e. Toller). Cf. Op. cit., p.18. 23 Op. cit., p. 19. 20.

(19) Suas analises expressam a perda das esferas religiosas diante da vida humana e simultaneamente a substituição pela arte literária. 24 Com intenção de comemorar o 65º aniversário de Alfred Döblin, reuniu-se um grupo de artistas alemães. Entre eles estavam Thomas Mann, Helene Weigel, Bert Brecht, Fritz Kortner e outros. Döblin deixara de contar aos amigos que durante a perseguição nazista, deuse na catedral de Mende um encontro profundo com o crucificado. Döblin percebe então que é chegado o momento de anunciar aos amigos e sob ao palco. Seu discurso trouxe certa perplexidade entre os convidados. Brecht afirma: ‘E no final Döblin fez aquele discurso contra o relativismo moral e a favor de parâmetros rígidos de natureza religiosa, com que feriu os sentimentos irreligiosos da maioria dos que estavam na comemoração.’ 25 Tempos depois Bert escreve o poema “Incidente lamentável”: “Quando um de meus deuses mais excelsos completou seu 10.000º aniversário Tratei e ir festejá- lo com meus amigos e alunos, E eles dançaram e cantaram diante dele e lhe declararam coisas escritas. Havia um clima bom. A festa chegava a seu fim. Foi então que o deus festejado subiu à plataforma que pertence aos artistas E declarou em alto e bom som Diante de meus amigos e alunos em suor Que ele havia padecido de uma iluminação e a partir de então Se tornara religioso e em um impulso incontrolado, Desafiador, colocou sobre a cabeça um chapéu de padre carcomido por traças, Caiu de joelhos sem pudor e entoou Desavergonhadamente uma canção religiosa e atrevida, ferindo assim Os sentimentos irreligiosos de seus ouvintes, entre os quais Também havia jovens. Há três dias Não ouso aparecer diante de meus amigos e alunos, Tamanha é minha vergonha.”26 Vale ressaltar as quatro postulações de Kuschel acerca do texto de Brecht:. 24. O artista para Benn opõe-se ao mundo todo. Vive em um vazio impiedoso, o que também possibilita tirar a conclusão inversa: quem crê – no sentido religioso, eclesiástico – já terá encontrado consolo diante da impiedade do mundo, já terá conseguido um lugar quente e confortável para si, estará gozando de um estado de salvação cujo equivalente literário é a literatura edificante. Haveria uma alternativa? A resposta de Benn é a seguinte: a arte é hoje a única forma de transcendência. Cf. Op. cit., p. 18. 25 Cf. BRECHT, B., Arheittsjounal. Bd. II (1942-1955). Citado por Karl-Josef Kuschel, op. cit., p. 20. 26 Cf. BRECHT, B., Gesammelte Werke, vols. I-XX. Citado por Karl-Josef Kuschel, op. cit., p. 21..

(20) 1. A linguagem religiosa utilizada neste texto serve apenas para escárnio do próprio texto. Bert ridiculariza a religião por meio da linguagem religiosa; 2. Brecht subverte o interesse de Döblin ao professar sua experiência religiosa, pois os ofendidos pela confissão são os irreligiosos. Os irreligiosos constrangem-se em seu próprio silêncio, enquanto religioso manifesta-se sem pudor; 3. Brecht não encara a atitude de Döblin como algo na esfera patológica. Döblin é visto como mais um que pede rendição diante da cruz. A religião é vista como uma fraqueza; 4. Por fim, o texto traz consigo, tardiamente, as conseqüências de uma história drástica de distanciamento entre religião e literatura. 27. 1.1.2.2. A arte literária: inimiga da religião Mais antiga que a tradição da crítica estética à religião é a crítica religiosa à arte. 28 A arte literária pode tornar-se eticamente recriminável, do ponto de vista teológico, ao trazer para seu interior representações deturpadas daquilo que a religião postula como verdade sagrada sobre o homem, Deus e outros temas. Alguns aspectos biográficos de Hermann Hesse são exemplos da crítica religiosa à arte. Hesse tinha uma tradição missionária pietista-protestante, e residindo em Tübingen, escreve os relatos de sua vida à sua família. Fascinado pela literatura, Hesse inicia uma fase de escrita. Goethe, Schiller e Heine compõem algumas de suas leituras. Ensaiando seus primeiros escritos, Hesse envia a seus pais o poema “A grande Valse de Chopin”. Eis o poema: “Um salão claro à luz de velas E o tilintar das esporas e o dourado dos galopes! Em meus pulsos o sangue ecoa. Minha garota entrega- me a taça,E vamos à dança.A valsa burburinha. Meu espírito efervescente, acalentado pelo vinho, Deseja todo prazer ainda intocado.”29. 27. Op. cit., p. 22. Op. cit., p. 23. 29 Cf. HESSE, H. Kindheit und jugend vor Neunzehnhundert, vol II. Citado por K-J. Kuschel, op. cit., p. 24. 28.

(21) A reação familiar advinda do envio do poema culmina na indicação de uma coletânea de poemas intitulada “De Deus para Deus – Canções de uma poetisa popular da Suíça”, de autoria da senhora Regula Erb. A resposta de Hesse à indicação da coletânea se traduz numa crítica à lírica religiosa. “Deus esteja com a arte, mesmo que até os suíços comecem a descobrir poetisas populares! Essa atividade parece estar vivendo uma época de florescimento. E ainda mais a lírica religiosa! O campo mais movediço que conheço, um caso totalmente perdido. Quanto mais lírico, menos piedoso – e vice- versa! Os herrnhuteranos trataram de assinar esse gênero. Peço desculpas! Mas a lírica religiosa, e em especial a lírica religiosa nãoeclesiástica, protestante e pietista, já é desde o início algo tragicômico – embora isso não deva invalidar as pérolas de poetas como Gerhardt e Claudius... entendo que meu poema sobre Chopin não os agrade. Ele não tem nada de famoso. Mas o que Wagner para Nietzsche, Chopin o é para mim – ou talvez inda mais. Tudo essencial em minha vida anímica está ligado a essas melodias quentes e vivazes, a essa harmina picante, lasciva e nervosa, a toda essa música de Chopin, extraordinariamente íntima.”30 A mãe de Hesse, Marie Hesse, sente-se afrontada com os escritos do filho, todavia não quer vê-lo mais longe. A carta escrita por Marie Hesse, em resposta ao filho, expressa o reverso do poema de Brecht em relação ao pronunciamento de Döblin. Portanto, este documento que apresentaremos a seguir, representa a dicotomia entre religião e literatura, numa realidade pietista cristã, que acima de tudo, conservou as críticas sobre a arte irreligiosa arrastadas por séculos. “Seu julgamento sobre a lírica piedosa é muito severo. Mas isso não me deixa aborrecida; também não tira de mim o que já pude usufruir, nem o que ainda usufruo com abundância – graças a Deus! Esses poemas não foram escritos para que o mundo os admirasse; neles os sentimentos vêm do coração à boca, e neles os sons consagrados a Deus estão à disposição dos que aqui esperam, como estrangeiros e peregrinos, sem poder contentar-se com o que o mundo tema oferecer em termos de arte e sabedoria; eles são melodias da terra de origem. Pode até ser que os poemas de Gerhardt, Tersteegen, Arnold, Claudius, Hiller, Richter, Spitta, Woltersdorf e Zinzendorf tenham mesmo suas imperfeições na expressão e na forma, mas não o maná diário de minha alma. E se um dia for entoada lá no alto a canção de Moisés ou do cordeiro, então também eu espero poder cantar nesse coral com voz afinada. Isso será maravilhoso! Por enquanto, posso alegrarme com cançõezinhas mais modestas, balbuciadas pelos filhos de 30. Cf. HESSE, H. “Brief an Johannes e Marie Hesse”, de 25-27/ 9/ 1897, in Kindheit und Jugend..., op. cit., p. 205. Citado por K-J. Kuschel, op. cit., p. 25..

(22) Deus. Creio com firmeza que as canções de Gerhardt e de Tersteegen fizeram um bem maior ao mundo do que as obras de Goethe, Schiller ou Shakespeare, ainda que eu também as tenha em conta como boas dádivas de Deus.”31 A clareza do documento acima reside numa leitura que prioriza alguns pontos de interlocução. Segundo Kuschel, a postura fundamental diante do texto deve ser a de considerar sensivelmente a existência de um mundo dividido em dois: de um lado estão os filhos de Deus, num espaço da alma e dos sons desejados por Deus; do outro lado estão arte e a sabedoria do mundo, criados para se admirar. 32 Entende-se, de forma subjacente, a importância do segundo mundo para o ser humano. O mundo transcendente é colocado em primeiro lugar, pois a verdadeira glória está à espera do homem. As verdadeiras canções são a de “Moisés” e a do “Cordeiro”. 33 À arte não é atribuído nenhum valor em si, posto que nada tem valor em si neste mundo. A arte é um mero instrumento para alimentar a caminhada durante a peregrinação do povo cristão devoto. Por isso, a arte dispensa qualquer esplendor. Diante de Deus – verdadeira determinação do ser humano – a arte se vê radicalmente relativizada. 34 Somente a partir de uma convicção piedosa se pode relativizar tudo nesta Terra em favor de Deus. É a partir desse principio que se contrapõe as canções cristãs às obras de arte de autores como Goethe, Schiller e Shakespeare. 35 Se para poetas como Benn e Brecht Deus era considerado ‘um péssimo principio estilístico e a fé religiosa de um artista revela-se como um grande inimigo da boa literatura, quem crê considera o bom precipuamente irrelevante e a arte uma ameaça á fé mais profunda. 36 Percebemos em Kuschel a preocupação em demonstrar uma linha de tensão entre literatura e religião que por sua vez nos remete ao antigo problema das origens da linguagem.. 31. HESSE, M. “Brief an Hermann Hesse”, de 3/10/1897, in Kindheit und Jugend..., op. cit., p.207. Loc. cit. 32 Op. cit., p. 26. 33 Loc. cit. 34 Loc. cit. 35 Op. cit., 26-27. 36 Op. cit., p. 27..

(23) 1.2. “Deus no espelho das palavras”: possibilidades de aproximação Nosso interesse neste ponto reside na proposição de fatores que podem ser considerados como elos ou intersecções entre teologia e literatura. Partimos, portanto, da seguinte afirmação: se as tensões entre teologia e literatura aguçam as dimensões de seus mundos é porque há entre elas pontos convergentes, e ao mesmo tempo, uma recusa em reconhecê- los. A teologia não quer ceder à literatura o seu poder de falar sobre Deus, porém a literatura quer falar sobre Ele, e ao fazer isso pode assumir o potencial de teologia. Destacaremos algumas obras que substancialmente contribuíram para a visualização de caminhos. Algumas obras não trataram diretamente do diálogo teologia e literatura, mas apontaram questões fundamentais ao debate.. 1.2.1. Deus como personagem literário: uma leitura em Jack Miles Jack Miles 37 em seu livro intitulado “Deus. Uma Biografia”, declara a possibilidade de escrever “a vida do Senhor Deus como protagonista – e apenas isso – de um clássico da literatura mundial; a saber, a Bíblia Hebraica ou Antigo Testamento”38 . A preocupação de Miles não está na tarefa dos historiadores, que consiste em apresentar os rastros dos fatos, nem tampouco na dos filósofos ou teólogos, mas na investigação literária da personagem central do Tanach, Deus, considerando primordialmente sua biografia polifacética. 39 Portanto, o trabalho de Miles não tem interesse filosófico, como o de negar a existência de Deus, ou um interesse meramente teológico, assumindo a necessidade de provar sua existência, mas o aspecto literário da Bíblia hebraica que apresenta imagens de Deus, buscando então a essência estética dessa criação literária. Jack Miles ocupa-se com a representatividade que esse personagem possui diante do imaginário ocidental. A narrativa bíblica abriga o caráter ambíguo da personalidade de Deus. Este longo trecho nos ajuda a entender um pouco mais o trabalho de Miles:. 37. Jack Miles é jornalista e editor-contribuinte da Atlantic Monthly e colaborador do New York Times. Ex-jesuíta, estudou na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e na Universidade Hebraica, em Jerusalém. É Doutor em línguas do Oriente Médio pela Universidade de Harvard. Foi professor titular da Universidade da Califórnia. 38 Jack MILES. Deus. Uma biografia, p.21. 39 Miles diz o seguinte: “Não procurei, como a teologia, afirmar nada de original sobre Deus enquanto realidade extraliterária. Cf. Loc. cit..

(24) “A apreciação religiosa da Bíblia coloca como foco central e explícito a bondade de Deus. Judeus e cristãos adoram Deus como origem de toda virtude, fonte de justiça, sabedoria, misericórdia, paciência, força e amor. Mas implícita e perfeitamente foram se acostumando - e depois, ao longo dos séculos, também se apegando - a algo que podemos chamar de ansiedade de Deus. Deus é, como procurarei demonstrar neste livro, um amálgama de diversas personalidades num único personagem. A tensão de diversas entre essas personalidades faz com que Deus seja difícil, mas faz também que seja atraente, e até mesmo viciante. Ao emular conscientemente suas virtudes, o Ocidente assimilou de modo inconsciente essa tensão entre unidade e multiplicidade. No fim das contas, apesar do desejo que os ocidentais às vezes manifestam de um ideal humano mais simples, menos ansioso, mais ‘centrado’, as únicas pessoas que achamos satisfatoriamente reais são aquelas cujas identidades contêm diversas subidentidades aglomeradas num todo. Qua ndo nós, ocidentais, procuramos nos conhecer pessoalmente, é isso que procuramos descobrir uns sobre os outros. Na cultura ocidental, a incongruência e o conflito interno não são apenas permitidos, chegam quase as ser exigidos. Pessoas meramente capazes de desempenhar vários papéis não correspondem a esse ideal. Elas têm personalidade – ou um repertório de personalidades – mas não têm caráter. Pessoas simples sem complicações, que sabem claramente quem são e assumem um papel determinado sem relutar, também não correspondem a esse ideal. Podemos admirar sua paz interior, mas no Ocidente jamais as imitaremos. Centradas ou centradas demais, elas têm caráter, mas pouca personalidade. Entendiam- nos como nós mesmos nos entenderíamos se fôssemos como elas. (...) A Bíblia insiste na unidade de um Deus mais que qualquer outra coisa. Deus é a rocha das idades, a integridade em pessoa. E, no entanto, esse mesmo ser combina diversas personalidades. Mera unidade (caráter apenas) ou mera multiplicidade (personalidade apenas) seriam bem mais fáceis. Mas, ele é ambas as coisas e assim a imagem do humano que dele deriva exige ambas as coisas. É estranho dizer isso, mas Deus não é nenhum santo. Muitas objeções podem ser feitas a seu respeito e já houve várias tentativas de me lhorá- lo. Muitas coisas que a Bíblia diz a seu respeito raramente são pregadas no púlpito porque, se examinadas mais de perto, seriam um escândalo. Mas, mesmo que só parte da Bíblia seja ativamente pregada, nenhuma de suas partes é contestada.Em qualquer página da Bíblia, Deus continua sendo o que sempre foi: o original da fé de nossos Pais, cuja imagem ainda vive dentro de nós como um ideal secular difícil mas dinâmico.”40 Este autor apresenta um problema entre o Antigo Testamento Cristão e Tanach: a ordem do cânon. Para Miles tais obras são diferentes por não apresentar o 40. Ibid., p. 16-17..

(25) mesmo modo de disposição textual. Miles afirma que sendo a ordem um elemento crucial em termos literários, no caso, ela determina a distinção entre o Tanach e o Antigo Testamento Cristão: enquanto neste ocorre um movimento que vai do silêncio e do silêncio para o discurso; naquele opera-se um diferente movimento que vai da ação para o discurso e do discurso para o silêncio. 41 Eli Brandão fala da ordem do cânon cristão questionada por Miles estabelecendo a seguinte comparação: “ supondo que fossem colocados em um só volume os textos literários “Vidas secas” (Graciliano Ramos); “O quinze” (Raquel de Queiros); e morte e “Vida Severina” (João Cabral de Melo Neto) e não fizesse entre eles uma tal amarração literária da qual se derivasse um hipertexto...”42 Convicto de que o Tanach forma uma unidade literária, Miles ao longo dos capítulos prossegue tecendo comentários com base na própria história de Israel, procurando demonstrar a diversidade dos textos e a instabilidade do caráter do divino e não do seu caráter imutável. Apesar de suas afirmações acerca do Tanach e do Antigo Testamento, Miles acredita que é possível falar de dois clássicos em vez de um, dadas as semelhanças entre essas obras no que diz respeito ao seu protagonista. Vamos às palavras de Miles: “A ordem dos dois cânones importa, mas o simples fato de a ordem ser idêntica nos primeiros onze livros formativos indica que desde a juventude até o começo da idade adulta, por assim dizer. O Senhor Deus é compreendido da maneira idêntica no Tanach e no Antigo Testamento. Só em meia-idade e velhice é que ele é compreendido de maneira diversa (...) Mas não resta a menor dúvida de que o personagem, o próprio Deus, é mesmo em ambos os casos.”43 Percebemos que Miles estabelece, de certa forma, uma tensão positiva ao processo de aproximação entre teologia e literatura. Se por um lado percebe-se que há textos literários que abrigam temas fundamentais da fé, e que há um avanço nas pesquisas que confrontam teologia e literatura por esse caminho, por outro lado Miles apresenta o texto bíblico - o único sagrado no ocidente -, como um aglomerado de textos arrumados, atribuindo- lhes então uma forma literária. Miles não apresenta. 41. Ibid., p. 28. Eli BRANDÃO, op. cit., p. 25-26. 43 Jack MILES, op. cit., p. 32. 42.

(26) uma proposta de dessacralização do texto bíblico, mas uma leitura da controvertida personalidade do Senhor Deus. Se nos permitirmos estabelecer comparações entre as manifestações acerca da temática teologia e literatura no contexto europeu e norte-americano, concordamos com Antonio Carlos de Melo Magalhães ao apresentar diferenças focais acerca do debate. Para Magalhães, ao contrário do contexto europeu, os símbolos da fé – diante da crítica norte-americana – são em grande parte, resultado da criatividade literária e sensibilidade estética dos autores tornados canônicos pela Igreja 44 . Afirma Magalhães: “Se na escola européia a luta se dá para preservar a autonomia da literatura em relação à teologia, no contexto norte-americano, a tentativa é de colocar as bases da fé cristã nos marcos não da tradição cristã e do dogma eclesiástico, mas da produção literária, da beleza poética, da operosidade estética e da construção dos estilos literários refinados...”45 A obra de Miles representa uma importante contribuição ao debate entre teologia e literatura sem que tivesse esta temática como pressuposto fundamental. “Deus. Uma biografia” revelou conclusões positivas às discussões mais atuais sobre o debate. Concordamos mais uma vez com Eli Brandão quando ele afirma os seguintes pontos em torno da obra de Miles, como focos de discussão do tema abordado: A retomada da figura de Deus como personagem e como figura humana; O tratamento dado ao Tanach como texto literário; a tentativa de redefinir a literatura; a tentativa de elaborar uma biografia de Deus; Por fim, análise antropológica do personagem Deus. Diante de Miles colocaremos alguns questionamentos, que por sua vez, servirão de reflexão em nosso trabalho, todavia sem preocupação de tentativa de resposta aqui: É possível ler e analisar textos sagrados como literários sem que isso retire das comunidades de fé a dimensão sagrada desses textos? Há de forma determinante uma distinção entre o que é literário e o não- literário?. 44 45. Antonio MAGALHÃES, op. cit., p. 46. Ibid., p. 46-47..

(27) 1.2.2. Onde estão as verdades sagradas? Leituras em Harold Bloom46 Dos críticos norte-americanos, Harold Bloom ocupa a cadeira da erudição. Em seu trabalho intitulado “O Cânone Ocidental”, Bloom intenta uma análise de 26 escritores, cujo foco é a apresentação das justificativas que os transformaram em escritores canônicos da literatura. O centro do cânone é ocupado por Shakespeare. Em “A angústia da influência: uma teoria da poesia”, o erudito autor estabelece uma crítica com a finalidade de desidealização daquilo que tornou normativo acerca do processo de influência e formação entre escritores. 47 Todavia, é em “Abaixo as escrituras sagradas” que Bloom formula certas postulações que nos interessam aqui. Um dos problemas abordados por ele toca mais uma vez no que se denominou, no ocidente, literatura secular e literatura profana. Bloom inicia o primeiro capítulo de sua obra estabelecendo uma espécie de confronto entre dois autores fortes48 : J e Homero. 49 “O autor primacial J, mais antigo do que seu ilustre rival, a hipótese de Homero, constitui uma diferença que produziu uma diferença avassaladora sobredeterminando em demasia a todos nós – judeus, cristãos, mulçumanos e leigos. J contou histórias; assim também fez Homero.”50 Bloom aponta um problema quando concedemos a J ou mesmo a Homero, o lugar de destaque entre os escritores, pois para ele avaliamos Dante e Chaucer, Cervantes e Shakespeare, Tostoi ou Proust, com relação a estes padrões de medida. 51 Dessa forma, Bloom estabelece, por exemplo, uma pequena comparação entre Tostoi e Homero: “Guerra e paz e, ainda mais, Hadji Murad, o pequeno romance em que o velho Tostoi retornou ao teatro militar de sua Juventude, oferece-nos algo próximo ao senso homérico dos homens em luta, com movimento variável entre o combate individual e as operações militares em grupo. Excluem os deuses homéricos e a luta homérica entre deuses e homens.”52. 46. Harold Bloom nasceu em 1930, é professor de humanidades em Yale, colaborador do New York Review of Books e do Times Literary Supplement. 47 Harold BLOOM. A angústia da influência: uma teoria da poesia, p. 55. 48 Idem. Abaixo as verdades sagradas, p. 16. 49 Queremos deixar claro que as postulações que Harold Bloom não tem como preocupação primeira o estabelecimento de um diálogo entre teologia e literatura, porém não podemos desconsiderá-las, posto que discutem, em seus interstícios, questões fundamentais ao debate. 50 Loc. cit. 51 Loc. cit. 52 Loc. cit..

(28) Nesta mesma linha, Bloom afirma que compartilhamos com J o governo do cosmos por Iahweh, todavia, lamenta o fato de excluirmos de J a ironia radical que encontramos em certos momentos, como por exemplo, em Kafka. 53 Concordamos com Harold Bloom na seguinte postulação: “O simples fato de representar Iahweh é, de qualquer modo, o maior exemplo dessa sublime ironia e levanta permanentemente a insolúvel questão estética da poesia e da crença. Eu próprio não acredito que a secularização seja em si um processo literário. O escândalo é a obstinada resistência da literatura imaginativa às categorias do sagrado e do secular. Caso queiram, pode-se insistir que toda grande literatura é secular, ou então, se assim o desejarem, que toda poesia forte é sagrada. O que acho incoerente é a opinião de que determinada arte literária é autêntica é mais sagrada e secular do que alguma outra. Poesia e crença vagueiam, juntas e separadas, num vazio cosmológico marcado pelos limites da verdade e do sentido. Em algum ponto entre a verdade e o sentido pode-se encontrar, empilhado, um terrível acúmulo de descrições de Deus.”54 Ao retomar os pilares da cultura literária ocidental (a literatura grega e a literatura hebraica), Bloom estabelece de forma implícita uma retomada do problema que transita entre o sagrado e o profano, todavia, nosso erudito escritor, parece apresentar uma espécie de métodos de leitura, que conduziram as interpretações e leituras dos textos clássicos da nossa fo rmação literária. Portanto, vemos que mais uma vez coloca-se em pauta as questões hermenêuticas. Retomando o problema das representações de Iahweh, Bloom admite jamais ter lido de algum crítico da Bíblia a descrição precisa de como J cuidou de nos oferecer uma representação de Iahweh. Para o crítico norte-americano, Iahweh foi criado por J, mas não o inventado. As representações de Iahweh feitas pelo Eloísta, ou pelo escritor sacerdotal, ou pelo Deuteronomista, ou pelos profetas – diz Harold Bloom – que todas são divergentes. 55 Há, sobretudo, nas análises dos textos clássicos do Ocidente, o problema das tradições que os interpretaram ao longo dos séculos. As histórias de Iahweh nos são tão familiares que não podemos lê-las em outro sentido. Isto para Harold Bloom 53. O que excluem de J – diz Harold Bloom - é uma ironia radical, diversa de quase qualquer outra ironia, que encontro também em Kafka. Essa ironia não é nem o contraste ou a distância entre a expectativa e a insatisfação, nem afirmação de coisa enquanto se tem outra em mente. É ela a ironia do sublime hebraico de J, em que realidades incomensuráveis se chocam e não se podem deslindar. Cf. Loc. cit. 54 Ibid., p. 17. 55 Loc. cit..

(29) afirma nossa filiação a uma tradição que nunca pôde assimilar a originalidade dessas histórias. 56 Ao apresentar de forma breve certas compreensões que Nietzsche teve da leitura dos Evangelhos e da Ilíada 57 , Bloom faz menção ao ponto de vista de Simone Weil e surpreende-se com a leitura feita por ela. Para Bloom, Weil leu uma Ilíada muito diferente daquela lida por Nietzsche e, segundo ele, preferiu essa à Bíblia Hebraica. O juízo de Weil – diz Bloom – termina por cristianizar a Ilíada, por basearse numa desleitura como o “poema da força”. Bloom admite não ser um estudioso dos clássicos, mas afirma que nuca encontrou uma representação do espírito humano na Ilíada. Na concepção de Bloom, a leitura de Weil remete-se à característica conceitual do ruach adonai, o espírito do sopro do senhor, insuflado pelo Iahweh de J nas narinas da figura de Adão. Como autor e crítico esclarecedor de Homero, Bloom elege Bruno Snell. A pretensão de Bloom em analisar e estabelecer comparações Homero e J – o que é a proposta do segundo capítulo de sua obra -, bem como observar em primeira mão outros críticos que se ocuparam com a questão, apresenta uma conclusão que, de certa forma, favorece nosso pensamento acerca das categorias texto sagrado e texto profano. Bloom afirma que se restituirmos Aquiles ao lugar de herói da Ilíada tal como foi lida por Snell, Dodds e Fränkel, então consideraremos absoluta sua supremacia estética, ultrapassando em muito até mesmo o esplendor do Davi II Samuel, o José de J ou ainda o Jacó de J. O peregrino Dante e as personagens de Chaucer e de Shakespeare serão as primeiras representações do humano que desafiarão o imenso phatos de Aquiles, a um tempo metade criança e metade deus. Todavia, afirma Bloom: J, embora insólito e um tanto afastado de nós por três mil anos de revisionismo normativo, sem dúvida não é completamente estranho para nós. Homero o é, e isso constitui sua maior força poética. 58 A partir das postulações de Bloom, percebe-se também que não podemos falar em normatividade de interpretações somente a partir dos textos considerados sagrados, mas também a partir dos considerados textos profanos. Se por um lado os textos bíblicos, tidos como sagrados, tornaram-se de uso exclusivo da Igreja, por outro lado vemos também que os textos, tidos como profanos, tornaram-se propriedade dos críticos literários. 56. Op. cit., p. 19. Harold Bloom afirma que Nietzsche continua sendo o melhor guia para o confronto entre as culturas grega e hebraica. Cf. Op. cit., p. 41. 58 Cf. Op. cit., p. 43-49. 57.

(30) Portanto, essas discussões nos convidam a investigar o tamanho da razão que cada poeta, autor ou crítico tem acerca dos nossos textos, posto que somos frutos de uma riquíssima tradição literária. Tudo isso - quer seja no texto considerado laico, quer seja no texto sagrado - nos instiga cada vez mais a procurar o(s) rosto(s) de Deus. O trabalho de Bloom, conforme já dissemos, não tem como tarefa principal aproximar teologia e literatura. Todavia, a obra em questão recoloca de forma expressiva os conflitos de interpretação acerca dos textos considerados sagrados e dos que são considerados profanos. Sua obra esclarece que a normatividade das interpretações não está somente no domínio eclesiástico, mas também sob o domínio da crítica literária. Se por um lado os textos Bíblicos são tidos como canônicos pela Igreja, por outro lado somente alguns textos tidos como profanos fazem parte do cânone da crítica literária.. 1.2.3. A teologia nas redes da literatura: a antropologia nos romances de Jorge Amado O trabalho de Antonio Manzatto denominado “Teologia e literatura: reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado”, constitui uma importante contribuição para o diálogo entre teologia e literatura. Estruturada em três partes, “Teologia e literatura”; “Uma antropologia literária” e “Uma reflexão teológica”, a obra de Antonio Manzatto procura estabelecer os caminhos necessários para que seja possível, a partir da literatura romanesca, visualizar o teológico. Ele retoma os conflitos históricos que permitiram a distinção entre a literatura dita cristã e a literatura dita profana. Todavia, para Manzatto tal distinção torna-se irrelevante, pois os objetos de suas análises são o conjunto daquilo que se forjou como literatura. “Tanto a literatura cristã como a atéia, ou ainda aquela que professa uma outra religião, têm algo em comum que faz com que elas sejam chamadas e reconhecidas como literatura.”59 Nota-se em Manzatto uma preocupação em buscar, mesmo que a partir de consensos, uma definição tanto para teologia quanto para a literatura. Para ele, no Ocidente, as noções mais difundidas são as que definem a literatura em relação ao seu caráter de ficção e à estética. Contudo, memora-se de Todorov ao dizer que se a 59. Antonio MANZATTO. Teologia e literatura: reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado, p. 13..

(31) literatura é de ficção não constitui uma definição, mas uma lembrança de suas características, que nem cobre o conjunto dos gêneros literários, já que poesia, por exemplo, pode não se definir em relação à ficção. 60 O trabalho de Antonio Manzatto tem como objeto de trabalho o romance “Tenda dos Milagres”, cujo tema central trata do preconceito racial e a miscigenação. Contudo, Manzatto antecipa-se em dizer que “Tendas dos Milagres” não traz apenas uma abordagem do problema de raças, mas também problematiza o combate pela liberdade, sem a qual nenhum homem é plenamente humano. 61 O centro do trabalho de Antonio Manzatto está na afirmação de que os romances por serem essencialmente antropológicos, tornam-se um solo fértil para análises de questões teológicas. “É, pois, o caráter antropológico da literatura que é importante para a teologia.”62 A justificativa que Manzatto encontra para seu trabalho de reflexão teológica a partir da literatura reside nas exigências de não se fazer uma teologia abstrata. Critica-se – diz Antonio Manzatto – uma teologia separada da experiência religiosa da comunidade crente. Uma teologia longe da experiência de fé da comunidade seria tão-somente uma “teologia erudita” que não se nutre da vida, mas de si mesma. 63 Portanto, para Antonio Manzatto, a experiência de fé não se faz independentemente das outras experiências humanas e da cultura: ela se faz, sempre, em um contexto determinado. Mesmo se a literatura fala do imaginário, ela o faz partindo do real vivido, da experiência, como já foi dito, afirma Manzatto. 64 Antonio Manzatto busca na Teologia da Libertação a situação exemplar para esta forma de conceber a teologia como algo ligado às dimensões reais e da vida e da experiência religiosa. Para Manzatto, a vida humana concreta tem, assim, importância para a reflexão teológica. Por isso, a Teologia da Libertação é em si uma reflexão teológica contextualizada, que busca dar respostas às questões apresentadas à fé pela realidade sócio-econômico-política do continente Latino-americano. 65 Mesmo fazendo opção por uma tendência teológica que privilegia a mediação sócio-analítica para a compreensão do real, como a Teologia da Libertação, concordamos com Manzatto ao dizer que a literatura guarda seu interesse e sua 60. Cf. Tzvetan TODOROV. Les genres du discours, p. 15, citado Por Antonio Manzatto, op. cit., p. 15. Antonio MANZATTO, op. cit., p. 116. 62 Ibid., p. 69. 63 Ibid., p. 68. 64 Loc. cit. 65 Ibid., p.46-47. 61.

Referências

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