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Capítulo I Reproduzindo discursos

I.1. Passado e identidade

O processo de reconstrução da identidade nacional na Sérvia atual consiste, sobretudo, na seleção do que se vincula e do que não se vincula à chamada serbiandade (srpstvo), ou seja, na seleção de elementos que se adequam à nova identidade sérvia que se visa construir. No caso, a identidade sérvia se pauta diretamente em diversos elementos da história nacional, sendo a reconstrução da história sérvia um aspecto fundamental da reformulação da identidade nacional. Para melhor compreender essa questão, é importante ressaltar que há um processo

de reconstrução da história sérvia, como separada da Iugoslávia, e que procura se afastar ou mesmo contestar as narrativas do período socialista que pode ser percebido com maior intensidade já na década de 1980, quando não apenas o sistema socialista iugoslavo começava a entrar em crise, como as próprias narrativas iugoslavas socialistas passaram a ser criticadas e questionadas.

Durante o regime socialista, as perspectivas históricas hegemônicas tinham como foco a memória de combate ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial e o ideal de bratstvo i jedinstvo (fraternidade e unidade), que pregava a união entre todos os grupos nacionais na Iugoslávia (CORREIA, 2010, p. 60). O Estado iugoslavo procurou consolidar esses ideais a partir de diversos meios, como monumentos em homenagem aos partizani (os guerrilheiros comunistas que venceram a Segunda Guerra Mundial na Iugoslávia), músicas que elogiavam o partido, o comunismo e seu líder, o Marechal Tito, filmes que retratavam os partizani como heróis, entre outros exemplos. Com a crise do socialismo e, por fim, a desintegração da Iugoslávia na década de 1990, que envolveu conflitos armados24, surgem narrativas que visam desmistificar os elementos de coesão presentes na perspectiva socialista, contestar o regime e o próprio sistema político iugoslavo, ao mesmo tempo em que se passa a valorizar elementos nacionais exclusivos (CORREIA, 2010 , p. 81).

A Segunda Guerra Mundial, que era um elemento muito presente na propaganda socialista deixa então de ser vista como um conflito entre nazistas/fascistas e revolucionários para ser interpretada como um conflito entre grupos nacionais; a figura de Tito começa a ser questionada e revista, a literatura e a produção cultural começam a tomar vieses mais críticos ao socialismo e se tornam mais nacionais (cf. CORREIA, 2010). Também, inicia-se um processo de valorização de elementos nacionais muitas vezes desvinculados do socialismo, entre eles há os

četnici, os heróis sérvios nas lutas pela independência do regime otomano, as 24O processo de desintegração da Iugoslávia pode ser elencado da seguinte maneira: Independência da Eslovênia em 1991, que envolveu conflito entre as forças de defesa territorial eslovenas e o exército iugoslavo. Independência da Macedônia em 1991. Independência da Croácia em 1991, que resultou na Guerra na Croácia (1991-1995) entre o exército iugoslavo, o Estado croata e os sérvios residentes na Croácia, com participação da Organização das Nações Unidas (ONU). Independência da Bósnia e Herzegovina em 1992, que resultou na Guerra na Bósnia (1992-1995), conflito entre sérvios, croatas e bosníacos, com atuação da ONU e da OTAN. A guerra no Kosovo (1997-1999) entre sérvios e albaneses, que envolveu os bombardeios da OTAN contra a Sérvia. Por fim, a independência de Montenegro em 2006 e a independência do Kosovo em 2008.

vítimas sérvias da Primeira Guerra Mundial e a história sérvia no período medieval, elementos esses que, como veremos, constituem a base das novas narrativas históricas nacionais sérvias.

Na cidade de Valjevo, locus da pesquisa de campo, percebemos a reconstrução da identidade sérvia no próprio espaço público. No que diz respeito aos monumentos, Valjevo possui muitos monumentos em homenagem aos partizani, os quais foram construídos durante o período socialista – praticamente em qualquer local da cidade é possível encontrar alguma referência aos partizani25.

Monumentos partizani: Monumento aos Soldados da Revolução; Miša Pantić, o médico partizan.

Monumentos partizani: Monumentos de Vida Jočić no parque de Valjevo. Estão retratados (da esquerda para a direita) os partizani Milosav Milosavljević, Miloš “Miša” Dudić, Živorad Jovanović

“Španac”; Milica “Dara” Pavlović; Dragojloj Dudić e Živan Đurđević.

25 Entre os monumentos partizani em Valjevo, temos o local de residência do partizan Žikica Jovanović, tombado em 1951. Na praça central, há uma estátua em homenagem a Dragojlo Dudić, partizan morto em combate em 1941. Ao lado da Casa da Cultura há uma estátua em homenagem a Živorad Jovanović “Španac”, um dos líderes da insurreição iugoslava contra o domínio nazista, o codinome significa “Espanhol”, pois lutara na Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Em frente à Casa da Cultura, há o busto de Stepan Filipović, partizan que, ao ser executado pelos nazistas em 1942, ergueu os braços e entoou o grito Smrt fašizmu, Sloboda narodu! (Morte ao fascismo, Liberdade ao povo!), que também recebeu em homenagem o Monumento aos Soldados da Revolução, nas colinas da cidade. Após atravessar a rua Tešnjar em direção ao rio Gradac se encontra uma estela dedicada à família partizan Grujić. No outro extremo da rua Karađorđev se encontra o parque com monumentos da escultora macedônia Vida Jočić, uma coleção de estátuas conhecidas como “Valjevo”, que retratam vários partizani espalhados pelo espaço. Saindo do parque, encontra-se a estátua a Miša Pantić, importante médico local socialista que foi morto pelos nazistas em 1942.

A partir da década de 1980, quando se tem início a construção de uma nova identidade sérvia pautada em narrativas históricas desvinculadas das socialistas, começa em Valjevo a renomeação do espaço público e a construção de novos monumentos que tratam de símbolos anteriores ou posteriores ao socialismo. Segundo Dragičević-Šešić (2011), com a queda do socialismo, uma nova identidade nacional passou a ser formulada com o auxílio de novas políticas culturais estatais que visavam elaborar novas formas de representação do passado opostas à anterior26. Símbolos que remetem ao socialismo e às representações históricas socialistas são ressignificados, se não, excluídos, enquanto novos símbolos que remetem a um caráter nacional da identidade sérvia são enfatizados. As ruas da cidade que tinham nomes de heróis e heroínas partizani, ou que remetiam a alguma batalha partizan, ou que referenciavam de algum modo o período socialista foram renomeadas com personagens nacionais sérvios não-socialistas ou com nomes genéricos, como a antiga praça Marechal Tito, que atualmente recebe o nome de Praça Municipal (Gradski trg), ou o Ginásio que recebia o nome de Vladimir Ilich Lenin e atualmente é conhecido apenas como Ginásio de Valjevo (Valjevska

gimnazija).

Foram também erigidos novos monumentos, como a estátua de Živojin Mišić27, na praça que leva seu nome, e de Prota Mateja Nenadović28, no centro da cidade, duas figuras que vêm sendo resgatadas na memória sérvia, a primeira por sua importância na Primeira Guerra Mundial, a segunda, pelo processo de independência sérvia dos otomanos. Há também, em frente ao Museu Nacional, um monumento em homenagem aos duques (knezi) sérvios que foram executados pelos otomanos em 1804, evento considerado o estopim das chamadas Revoluções Sérvias29, de importância nacional e local.

26 Entre essas políticas, a autora identifica (2011): renomeação de instituições e espaço público, adoção de novas festividades e datas comemorativas e, nos casos de uma memória “perigosa” para o novo projeto de nação, a destruição de elementos que se vinculam a essa memória. Há, também, políticas relacionadas aos espaços de memória, como a construção ou renovação de monumentos; e outras medidas do ministério da cultura, incluindo a alteração do hino e da bandeira nacional.

27Živojin Mišić foi um comandante sérvio na Primeira Guerra Mundial responsável pela vitória sérvia contra os austríacos na batalha de Kolubara – distrito onde se localiza Valjevo, seu centro de comando.

28Mateja Nenadović, além de escritor, foi uma das lideranças das lutas pela independência sérvia do regime otomano e primeiro primeiro-ministro da Sérvia, entre 1805 e 1807.

29Na perspectiva de Trifunović (2015, p. 24), a revolução de 1804 teve, em seu início, o objetivo de expulsar os janissários renegados e devolver o controle da região referente à atual Sérvia Central ao

Monumentos pós-socialistas: Živojin Mišić; Homenagem aos duques (knezi) decapitados30; Prota Mateja Nenadović.

Enquanto estive na cidade de Valjevo em 2017, além de visitar esses e outros monumentos, para melhor compreender o processo de valorização de figuras nacionais no espaço público também visitei o Museu Nacional (Narodni muzej). O Museu Nacional, além de ser um espaço expositivo, é a instituição responsável pela preservação dos patrimônios na cidade. Quase todos os monumentos encontrados na cidade são acompanhados de uma placa explicativa elaborada pelo museu.

Miloš, um dos protagonistas dessa pesquisa, que conheci em 2013, facilitou o meu contato com o diretor do museu, Dr. Vladimir Krivošejev, que se encontrou comigo em algumas ocasiões e me deu acesso livre para entrar nos museus de Valjevo.

sultão. No entanto, com o passar dos anos a revolta ganhou características nacionais e passou a almejar a independência e reconhecimento dos territórios libertados (Ibidem). A principal liderança da rebelião foi Đorđe Petrović, conhecido como Karađorđe, que se proclamou, em 1811, líder vitalício e hereditário da Sérvia (CORREIA, 2010, p. 25). A rebelião foi contida em 1813, Karađorđe fugiu para a Áustria, porém, as forças insurrectas se reorganizaram, iniciando a Segunda Revolução em 1815. A Sérvia passou a ser liderada pelo nobre knez Miloš Obrenović. As potências ocidentais, durante o Congresso de Viena, em 1815, favoreceram a revolução sérvia, levando o Império Otomano, enfraquecido pelos conflitos contra austríacos, russos e franceses, a conceder autonomia ao Sandžak de Smederevo (atual Sérvia Central - ver mapa C do Apêndice) (Ibidem).

30No monumento se encontra escrito: “Aqui, em 1804, os duques foram decapitados”. O monumento se refere à decapitação dos duques locais Aleksa Nenadović e Ilija Birčanin, que se opuseram ao governo dos janissários no Sandžak de Smederevo (atual Sérvia central), sendo presos e executados publicamente, o que é considerado na cidade um evento central para a eclosão das Revoluções Sérvias para a independência.

Frente do Museu Nacional; Diretor Krivošejev me mostra o museu (VUJANAC, 2017).

No que tange à exposição permanente do Museu, denominada “Terceira dimensão do passado, olhar do futuro” (Treća dimenzija prošlosti, Pogled iz

budućnosti)31, alguns aspectos me chamaram a atenção. Primeiramente, o limite

temporal estabelecido se inicia com as primeiras migrações humanas no atual território da República da Sérvia no período paleolítico e se encerra com a Segunda Guerra Mundial, a qual é a única seção do museu sem cartazes explicativos e que exibe apenas os armamentos utilizados pelos diferentes lados combatentes na guerra. Esses limites demonstram tanto uma suposta longa história dos sérvios e da Sérvia, como também um silêncio ou ausência de consenso em torno da Segunda Guerra Mundial e sua posteridade. Os demais períodos são assinalados com inúmeros objetos e cartazes explicativos que remetem não apenas à história da Sérvia, mas à história da cidade. A sala sobre a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, possui uma seção totalmente dedicada ao papel de Valjevo nessa guerra. A sala sobre o período medieval é consideravelmente espaçosa, com diversos objetos nas paredes e no centro, enquanto que a sala referente às Revoluções Sérvias trata-se de um longo corredor decorado com diversos objetos, mapas e cartazes explicativos.

Em face de períodos com muita informação e outros com pouca ou nenhuma, chamaram minha atenção essas omissões, ou seja, a ausência de quaisquer explicações sobre a Segunda Guerra32, o período otomano e o período

31Essa exposição utiliza o espaço interno do museu, composto por nove salas, cada uma referente a um período histórico: desde o paleolítico até a Segunda Guerra Mundial, passando pelos períodos neolítico, romano, medieval, otomano, revoluções sérvias, modernização da cidade, Primeira Guerra Mundial e o período entreguerras.

32Na Iugoslávia, a Segunda Guerra Mundial envolveu não apenas o conflito para a expulsão das forças do Eixo, como também o conflito entre dois exércitos de libertação: os četnici, diversos grupos

pós-1945. Em relação ao período de dominação otomana na Sérvia observamos mais uma história cultural sobre o estilo de vida das comunidades sérvias no campo do que uma história política do período em questão, como se pode observar em relação aos demais períodos expostos da história sérvia. Apesar de tratar-se de quase cinco séculos de história, nos textos explicativos desse período quase não há referência aos otomanos, que são mencionados apenas em uma ou outra batalha e revolta sérvias.

Não obstante na breve menção à Segunda Guerra Mundial, não há textos sobre essa guerra e nem referência ao período pós-1945, ao regime socialista33, às guerras subsequentes, nem ao período atual. Fato esse que, em se tratando de uma exposição histórica, aponta para o que percebi em campo em relação à reconstrução de histórias e identidades, ou seja, que ainda não se estabilizou um consenso ou modos de representação não controversos desses períodos, como veremos.

Podemos, assim, refletir sobre a forma como esse museu apresenta uma narrativa sobre a história da Sérvia. Por que os otomanos, a Segunda Guerra Mundial e o período socialista estão omitidos da exposição? Por que alguns temas como o período medieval, a libertação sérvia, a Primeira Guerra Mundial são expostos detalhadamente no museu? Torna-se, portanto, evidente que enquanto alguns eventos são ressaltados, pois confirmam uma narrativa e identidade nacional sérvias, outros são ignorados por não se adequarem a ela.

No que diz respeito ao período otomano devemos ter em vista que, segundo Todorova (2009, p. 164), esse foi um período que se assemelharia a um

Ancien Régime para o Sudeste Europeu, baseado na oposição do cristianismo a um

império muçulmano. Para a autora, a religião foi um importante marcador de

de guerrilha que visavam restaurar a monarquia, sendo o maior liderado por Draža Mihailović, além de alguns colaboracionistas do Eixo; e os partizani, exército de libertação de inspiração socialista, liderado por Josip Broz Tito. Houve, também, a presença de forças colaboracionistas do Eixo, como o movimento ustaša, de extrema-direita, liderado por Ante Pavelić, que resultou na fundação do Estado Independente da Croácia, responsável por massacrar sérvios, judeus, roma e comunistas. Também houve a instalação de um governo fantoche na Sérvia, aliado do regime nazista e liderado por Milan Nedić, que teve o apoio do movimento de extrema-direita Zbor, liderado por Dmitrije Ljotić, sendo que Belgrado foi considerada a primeira cidade “livre de judeus” da Iugoslávia (CORREIA, 2010, p. 88). 33 A Iugoslávia socialista (1943-1991 - ver mapa F do Apêndice) foi, durante a maior parte de sua existência, governada pelo Marechal Tito. Seu governo seguia a política de não-alinhamento e de aproximação com o ocidente. A memória das lutas de combate ao fascismo foi de fundamental importância tanto para a propaganda do regime socialista, bem como para assegurar a harmonia entre povos que combateram entre si na Segunda Guerra Mundial (CORREIA, 2010, p. 59).

diferença para a construção das identidades nacionais, em que o elemento cristão se opunha ao islâmico (Ibidem, p. 170). Assim, quando os grupos cristãos conquistaram suas independências, houve a iniciativa de, por um lado, apagar a memória islâmica, evidenciada pela demolição de mesquitas e construção de catedrais, e, por outro, em buscar uma ocidentalização do Estado sob o parâmetro dos valores civilizacionais europeus34. Portanto, os Estados do Sudeste Europeu independentes do Império Otomano, incluindo a Sérvia, buscaram construir uma identidade que se caracterizaria pela oposição ao Império Otomano, sobretudo ao elemento islâmico, no período pré-socialista.

Segundo Miloš Ković (2015), professor na Universidade de Belgrado, esse afastamento da memória otomana se deve, em grande parte, ao fato de o período otomano ter sido uma descontinuidade na história sérvia, pois, segundo sua leitura, um tanto anacrônica, foi um primeiro momento em que os sérvios deixaram de ter domínio sobre seu território, submetendo-se a um invasor estrangeiro com religião diferente. Embora Ković parta do pressuposto de que a religião cristã ortodoxa é um marcador de continuidade da identidade sérvia, as ideias de descontinuidade histórica e permanência territorial são elementos enfatizados na construção da identidade sérvia, como veremos.

Manojlović-Pintar e Ignjatović (2011, p. 781), por sua vez, consideram os turco-otomanos como o outro negativo dos sérvios (grifos meus), ou seja, para os autores a moderna identidade sérvia foi construída a partir da oposição a esse grupo, o que o leva a não ser representado em instituições históricas, nem mesmo no ensino. No livro didático Istorija, por exemplo, utilizado pelo Ginásio de Valjevo35, de autoria de Bojin Dadić, Mihael Antolović e Dušan Ončikus (2015), há algumas

34 Para melhor compreender o processo de ocidentalização dos Estados do Sudeste Europeu, Mazower (2007) evidencia como isso ocorreu na Grécia a partir da cidade de Tessalônica. Krivošejev (2012) e Perišić (1998) explicam como esse processo ocorreu na cidade de Valjevo, sobretudo no que diz respeito à criação de uma estrutura política similar à europeia ocidental, com a fundação do tribunal municipal e a eliminação de elementos que remetiam ao domínio islâmico.

35Optei por entender o ensino de história na cidade de Valjevo a partir dos livros didáticos do Ginásio, que é a única escola local de ensino médio com um ensino geral. As outras escolas são técnicas e o ensino médio se volta para especialidades (agronomia, economia, medicina e engenharia). Tentei conversar com professores do Ginásio, mas a escola não permitiu o contato, alegando que meu trabalho envolvia política e que a escola não gostaria de se envolver com questões políticas. Uma das justificativas apresentada por Matija, um estudante do ensino médio que intermediou meu contato com a escola, isso se deve a uma briga ocorrida no interior da escola entre estudantes, por conta da polarização política nas eleições presidenciais de 2017, poucas semanas antes de minha chegada a Valjevo.

explicações sobre o período do Império Otomano, embora seu processo de expansão e organização se resuma a poucas páginas. O foco do material didático é a comunidade sérvia que viveu no Império Otomano ou que viveu em outros lugares, como no Império Habsburgo, possuindo um foco similar ao apresentado pelo Museu Nacional.

Enquanto o período otomano se mostra afastado ou omitido das atuais narrativas de nação sérvia, as lutas contra os otomanos tornam-se importantes símbolos nacionais (materializados em Valjevo no monumento a Mateja Nenadović e aos duques locais decapitados), sobretudo pelo fato de serem consideradas a gênese do moderno Estado nacional sérvio. Além do Museu Nacional possuir uma grande seção dedicada às Revoluções Sérvias, há dois museus na cidade dedicados exclusivamente a esse período histórico, o Konak36e a Torre Nenadović37, essa última presente também no brasão da cidade desde 2010.

Torre Nenadović; Brasão da cidade de Valjevo38.

36 O Museu Konak se localiza bem próximo ao Museu Nacional e é um museu dedicado às Revoluções Sérvias. Nele se encontram quadros dos duques que foram decapitados, acessórios pessoais, documentos preservados relacionados aos eventos anteriores e presentes às revoluções. Também estão expostos mapas das operações militares das revoluções, a flâmula utilizada pelo primeiro governo sérvio autoproclamado durante a primeira revolução, gravuras da cidade, roupas de combatentes e armas de fogo utilizadas pelos revolucionários.

37Construída em 1813, durante a Primeira Revolução Sérvia contra o domínio otomano, serviu como ponto de controle de acesso à cidade e como depósito de pólvora para o front do Drina. Foi construída por Jakov Nenadović, primeiro ministro sérvio do interior, e seu filho, o duque Jevrem Nenadović. Após a derrota sérvia na Revolução, os turcos dominaram a torre, fizeram dela o centro de defesa turca em Valjevo mantendo sérvios cativos em seu porão. Após a libertação definitiva de Valjevo, em 1815, o duque Sima Nenadović ordenou o incêndio da torre, que foi reconstruída em 1836 sob ordem do knez Miloš Obrenović, mas foi deixada em estado de degradação nas décadas seguintes. Apenas entre 2004 e 2011, a torre passou por um amplo programa de reconstrução e restauração, tornando-se parte do museu de Valjevo e atualmente guarda um acervo referente às Revoluções Sérvias. (Informações retiradas de um cartaz explicativo em frente à torre).

38A imagem do brasão de Valjevo foi extraída de <http://www.zastave-grbovi.com/?menu=70360>, acessada em 1º de fevereiro de 2019.

Com relação às outras omissões presentes na exposição histórica do Museu Nacional, que são a Segunda Guerra Mundial e o período socialista, Ković (2015) considera esses períodos uma segunda ruptura na história sérvia, marcada

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