Nícolas Rocca Bragaia
Construindo a história: representações do passado em um contexto pós-iugoslavo
CAMPINAS 2020
Construindo a história: representações do passado em um contexto pós-iugoslavo
Dissertação apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestre em Antropologia Social.
Orientadora: Profa. Dra. Bela Feldman
Coorientadora: Profa. Dra. Andrea Carolina Schvartz Peres
ESTE TRABALHO CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO NÍCOLAS ROCCA BRAGAIA, E ORIENTADA PELA PROFA. DRA. BELA FELDMAN.
CAMPINAS 2020
Bragaia, Nícolas Rocca,
B73c BraConstruindo a história: representações do passado em um contexto pós-iugoslavo / Nícolas Rocca Bragaia. – Campinas, SP : [s.n.], 2020.
BraOrientador: Bela Feldman.
BraCoorientador: Andrea Carolina Schvartz Peres.
BraDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Bra1. Identidade. 2. Memória. 3. Narrativas históricas. 4. Nacionalismo. 5. Valjevo (Sérvia). 6. Sérvia - História. I. Feldman, Bela, 1940-. II. Peres, Andrea Carolina Schvartz. III. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas. IV. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Making the history: representations on the past in a post-Yugoslav
context Palavras-chave em inglês: Identity Memory Historical narratives Nationalism Valjevo (Serbia) Serbia - History
Área de concentração: Antropologia Social Titulação: Mestre em Antropologia Social Banca examinadora:
Bela Feldman [Orientador]
Sara Maria de Morais Bettencourt da Câmara Correia Omar Ribeiro Thomaz
Data de defesa: 01-07-2020
Programa de Pós-Graduação: Antropologia Social Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a)
- ORCID do autor: https://orcid.org/0000-0003-4042-6826 - Currículo Lattes do autor: http://lattes.cnpq.br/6226801221020925
A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Dissertação de Mestrado, composta pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 1º de julho de 2020, considerou o candidato Nícolas Rocca Bragaia aprovado.
Dra. Bela Feldman (Presidente da Comissão Examinadora) Prof. Dr. Omar Ribeiro Thomaz
Dra. Sara Maria de Morais Bettencourt da Câmara Correia
A Ata de Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertações/Teses e na Secretaria do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
processo de elaboração dessa pesquisa e que me auxiliou das mais diversas formas possíveis. Ao meu filho Noah, que me deu esperanças e alegrias nos momentos mais difíceis; à minha esposa Nadege, por todo apoio, paciência, compreensão e amor fornecidos ao longo dessa trajetória; ao Nathan, também pelos momentos de compreensão, mas também pelos ótimos momentos de descontração, essenciais para a reorganização das ideias; aos meus pais Marli e Antonio, que me apoiam tanto no sentido material quanto no emocional desde sempre, e por todo incentivo na continuação dessa longa jornada.
Agradeço em especial à minha orientadora Profa. Dra. Bela Feldman e minha coorientadora Profa. Dra. Andrea Carolina Schvartz Peres, por absolutamente todo auxílio que me forneceram durante a realização desse trabalho, desde as questões mais conceituais, até as mais formais, demandando também a elas muito tempo e paciência para me orientar e me guiar todas as vezes em que me desviei do caminho. Agradeço também às minhas professoras Bibia Gregori, Suely Kofes, Artionka Capiberibe e Adriana Villalón por me auxiliarem no processo de imersão na disciplina de Antropologia. Agradeço também aos integrantes do GEMA (Grupo de Estudos sobre Mediação e Alteridade), do CEBRAP, sobretudo Melvina, Rodrigo, Clayton, Luiz Henrique, Madalina e Alessandra por todas as críticas e sugestões fornecidas desde a elaboração do projeto que originou esse trabalho. Também agradeço ao Prof. Dr. Omar Ribeiro Thomaz e ao Prof. Dr. Antônio Augusto Arantes Neto pelas críticas e sugestões realizadas durante o exame de qualificação, assim como agradeço a eles e às professoras Dra. Sara Maria de Morais Bettencourt da Câmara Correia e Profa. Dra. Renata de Figueiredo Summa por terem aceitado compôr a banca de defesa e, agradeço novamente ao Prof. Dr. Omar Ribeiro Thomaz e à Dra. Sara Maria de Morais Bettencourt da Câmara Correia pelas importantes críticas e sugestões realizadas ao meu trabalho durante a sessão de defesa da dissertação. Agradeço ao Antônio, Nashieli, Joana, Michel, Márcia e Tatiana por sempre resolverem minhas dúvidas no que diz respeito às questões burocráticas.
simples esboço, sobretudo o Heitor, a Paula, o Higor, o Felipe, o Sebastián, a Renata, a Elis, o Augusto, o Ricardo e o João.
Agradeço a todos aqueles que fizeram parte de minha vida na elaboração dessa dissertação e que de alguma forma contribuíram para o andamento dessa pesquisa, desde discussões, revisões, até dicas de formatação, em especial, o Lucas, o Saulo, o Keven, o Vagner, o Weverton, o Saulo Camilo, o Ivan, o Kenner, o Júlio, o Thales e o Vitor. Agradeço também aos meus colegas e alunos do Cursinho Avante, Colégio Jardins, Colégio PoliBrasil e Colégio Épico, assim como aos meus tios, primos, sogra, cunhados e sobrinhos.
Por fim, agradeço a todos que me auxiliaram em minha estadia na Sérvia. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001/ Programa de Excelência Acadêmica (CAPES/PROEX) (número do processo: 1584066), que me possibilitou a estadia e transporte para a Sérvia; Agradeço à Embaixada da República da Sérvia no Brasil por toda a assistência prestada quando necessitei. Agradeço ao Radovan e sua família, assim como aos funcionários do Hotel Konak-Radović pela acolhida e por nossas conversas constantes. Agradeço ao Vladimir Krivošejev e toda a equipe do Museu Nacional de Valjevo por toda a assistência prestada e pelo material bibliográfico oferecido. Agradeço ao Velibor Vidić, não apenas pela ajuda teórica e metodológica, mas pela amizade e confiança em meu trabalho, à sua família e à equipe do Arquivo Histórico de Valjevo. Agradeço ao Centro de Pesquisa de Petnica, pela acolhida e assistência sempre necessária. E, naturalmente, agradeço a todos os protagonistas desse trabalho, por compartilharem comigo suas histórias, suas visões sobre a história, por todos os nossos encontros e risadas, por permitir que eu participasse de suas vidas e acompanhasse seu cotidiano, por tornarem esse trabalho possível.
caracteriza, sobretudo, pela elaboração de novas interpretações sobre eventos do passado nacional, valorização de personagens marginalizados dentro da perspectiva socialista e disputas entre os antigos grupos nacionais iugoslavos por símbolos até então compartilhados. Esse cenário se evidencia a partir de vários meios, como na renomeação de espaços públicos, construção de monumentos, filmes com temática histórica, ensino, Internet e, mesmo, nas interpretações que as pessoas elaboram sobre o passado de seu grupo nacional. Frente a esse cenário de reescrita histórica, a pesquisa buscou compreender o papel de uma geração nascida após o período socialista nesse processo. Com a realização do trabalho de campo na cidade de Valjevo, no oeste da Sérvia, foi possível analisar como os jovens sérvios dessa cidade se relacionam com a sua história nacional, que elementos estão presentes em suas interpretações sobre a história, com quais outros meios de produção de história e memória estão dialogando, como eles agem diretamente nesse processo e como isso impacta na percepção que eles têm de si como sérvios em relação ao outro. Ao construir narrativas sobre o passado nacional, esses jovens participam do processo de reescrita da história e de construção da identidade sérvia, seja a partir da seleção e diálogo com fontes diversas, seja a partir da associação de elementos do passado às relações sociais nas quais estão inseridos.
historical rewriting which is directly linked to the reformulation of national identity. This process is characterized, above all, by the creation of new interpretations on events of the national past, valuing marginalized characters within the socialist perspective, and disputes among former Yugoslav national groups for shared symbols. These scenario is evidenced by various ways, such as renaming of public spaces, building of monuments, movies with historical themes, school teaching, internet and in the interpretations that people do on the past of their national group. Faced with this scenario of historical rewriting, this research intends to understand the role of a generation born after the socialist period in this process. With the fieldwork in the city of Valjevo in Western Serbia, it was possible to analyze how the Serbian young people living in this city perceive their national history, which elements are existent in their interpretations on history, with what other means of production of history and memory they are dialoguing, how they act directly on these process and how it impacts on their perception of themselves as Serbs in relation to the other. While they are constructing these narratives on the national past, these young people participate in the process of rewriting history and the making of national identity, they have selected and they have dialogued with diverse sources and they associate elements of the past to the present social relations in which they are inserted.
comerciais).
ARBiH - Armija Republike Bosne i Hercegovine (Exército da República da Bósnia e
Herzegovina).
DS - Demokratska stranka (Partido Democrático).
DSS - Demokratska stranka Srbije (Partido Democrático da Sérvia). EUA - Estados Unidos da América.
ICTY - International Criminal Tribunal for the former Yugoslavia (Tribunal Criminal
Internacional para a antiga Iugoslávia).
JNA - Jugoslovenska narodna armija (Exército do povo iugoslavo). NDH - Nezavisna Država Hrvatska (Estado Independente da Croácia). ONU - Organização das Nações Unidas.
OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte. PfP - Partnership for Peace (Parceria para a Paz).
SAC - Slovak Atlantic Comission (Comissão Atlântica Eslovaca).
SANU - Srpska akademija nauka i umetnosti (Academia sérvia de ciências e artes). SNS - Srpska napredna stranka (Partido progressista sérvio).
UÇK - Ushtria Çlirimtare e Kosovës (Exército de Libertação do Kosovo). UE - União Europeia.
UEFA - Union of European Football Associations (União das Associações de Futebol
Europeias)
UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
VIPOS - Visoka poslovna škola strukovnih studija (Escola de altos estudos
Introdução...15
Contextualizando a pesquisa...18
Construindo as redes...25
Referenciais metodológicos...29
Organização da dissertação...33
Capítulo I - Reproduzindo discursos...34
I.1. Passado e identidade...36
I.2. Passado serbianizado... 56
Capítulo II - Nós e eles...71
II.1. Uma nação de heróis... 73
II.2. Resistindo ao Império...86
II.3. O epicentro da serbiandade...94
Capítulo III - Confrontando histórias...103
III.1. Reparando o passado... 106
III.2. Controvérsias em rede...119
Considerações Finais...133
Bibliografia...139
Audiovisual... 148
Apêndice...149
I - Cronologia de eventos históricos sérvios...149
II - Mapas...152
Observações sobre a escrita da Dissertação
No decorrer do texto escrevi em língua portuguesa apenas palavras estrangeiras que já possuam transcrição consensual para o português (ex: Belgrado, Sérvia, Iugoslávia). Para nomes que não possuam transcrição para o português utilizei o termo na grafia original (ex: ustaša, četnik (singular) ou četnici (plural)). Traduzi diretamente as citações em sérvio para o português no corpo do texto. Para as referências bibliográficas originalmente no alfabeto cirílico, realizei a transcrição para o alfabeto latino, apresentando a referência em cirílico entre colchetes na seção de Bibliografia no pós-texto. Como me utilizei constantemente de expressões sérvias, seguem as formas de pronunciação de letras cujos fonemas divergem do português:
C – Pronuncia-se “ts” como em “tsunami”.
Ć – Pronuncia-se “tch”, mas com sonoridade mais branda. Č – Pronuncia-se “tch”, mas com sonoridade mais forte. Đ – Pronuncia-se “dj”, com sonoridade fraca.
DŽ – Considerado apenas uma letra, pronuncia-se “dj” forte. G – Pronuncia-se como “g” em “gato” ou “guerra”.
H – Pronuncia-se como “rr” ou “r” inicial, como em “raiz” ou “terra”.
J – Pronuncia-se como o “i” breve dos ditongos, como em “herói” ou “assembleia”.
K – Pronuncia-se como “k” e “c” inicial, como em “casa”.
LJ – Considerada apenas uma letra, possui som similar ao “lh” como em “lhama”.
NJ – Considerada apenas uma letra, possui som similar ao “nh”, como em “estranho”.
R – Pronuncia-se como “r” brando, como em “para”.
S – Pronuncia-se como “s” inicial ou “ss”, como em “santo” ou “assassino”. Š – Pronuncia-se como “ch” ou “x”, como em “xadrez” e “chácara”.
Ž – Pronuncia-se como “j”, como em “jaguar”.
Apesar de limitar o uso do alfabeto cirílico, acrescento a transcrição abaixo: А = A; Б = B; В = V; Г = G; Д = D; Ђ = Đ; Е = E; Ж = Ž ; З = Z; И = I; Ј = J; К = K; Л = L; Љ = LJ; М = M; Н = N; Њ = NJ; О = O; П = P; Р = R; С = S; Т = T; Ћ = Ć; У = U; Ф = F; Х = H; Ц = C; Ч = Č; Џ = DŽ; Ш = Š
Sobre nomes, pseudônimos e fotografias:
Os protagonistas deste trabalho serão apresentados apenas pelo primeiro nome, por apelidos, e em alguns casos, por pseudônimos, com o intuito de proteger a identidade desses jovens, já que suas opiniões pessoais serão retratadas. Utilizei nomes completos apenas para apresentar os pesquisadores e profissionais com quem tive contato e que me auxiliaram durante a pesquisa de campo: Velibor Vidić, do Arquivo Histórico de Valjevo, e Vladimir Krivošejev, do Museu Nacional de Valjevo. As fotografias presentes no texto são, em sua maioria, de minha autoria. As fotografias que não são de minha autoria serão devidamente referenciadas e seus autores creditados.
Mapa da República da Sérvia
Mapa da República da Sérvia com a cidade de Valjevo destacada1 (Okrug de Kolubara / Região da Sérvia ocidental e Šumadija) (MDULS, 2017).
Mapa de Valjevo
Mapa da Cidade de Valjevo oferecido pelo Centro de auxílio ao turista. Os números correspondem aos principais pontos turísticos da cidade: 1- Torre Nenadović; 2- Tešnjar; 3- Galeria de arte moderna; 4- Centro de auxílio ao turista; 5- Museu nacional; 6- Estúdio de arte internacional; 7- Praça Živojin Mišić; 8- Rio Gradac; 9- Mirante; 10- Monumento aos soldados da Revolução. Os pontos em roxo com o símbolo de uma estela representam monumentos; os pontos em preto com o símbolo de uma cruz representam as igrejas cristãs ortodoxas.
Introdução
Após a dissolução da Iugoslávia durante a década de 1990, suas antigas repúblicas e províncias constituintes (Sérvia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Eslovênia, Macedônia, Voivodina e Kosovo2) se organizaram e têm se
organizado em um movimento de reformulação das identidades nacionais e de reinterpretação do passado. Nesse cenário, a interpretação do passado e a construção de identidades estão vinculadas, informando-se mutuamente, de forma que os novos projetos de nação, que visam construir e disseminar uma nova imaginação nacional, impactam diretamente nos modos de subjetivação dos indivíduos. Os sujeitos pautam, assim, sua consciência nacional com base nas representações que criam sobre o passado nacional e que são produto de suas interações com as narrativas históricas com as quais possuem contato.
Podemos testemunhar esse processo de reconstrução do passado, atrelado à reformulação de identidades nacionais, a partir de novas historiografias nacionais desenvolvidas após a crise do socialismo. Durante a existência do Estado iugoslavo imperava a historiografia socialista, que se focava no princípio marxista de “luta de classes” e na memória de combate ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. Com a crise do socialismo e as guerras nos anos 1990, novas interpretações sobre o passado, que enfatizam elementos de cada grupo nacional, ganham destaque. Personagens e eventos não relacionados ao socialismo passam a ser valorizados, ao mesmo tempo em que símbolos compartilhados no cenário iugoslavo passam a ser objetos de disputas entre os diferentes projetos de nação dos grupos nacionais que compunham a Iugoslávia.
Estão, entre esses símbolos, as construções históricas relacionadas à autoctonia territorial, a ênfase na nacionalidade de heróis e figuras históricas, assim como as interpretações divergentes sobre os mesmos eventos históricos. Esse cenário de reformulação e disputas também pode ser notado nas exposições históricas ou de arte em museus, na renomeação de espaços físicos, na construção
2 Embora Kosovo tenha declarado a independência em 2008, a Sérvia, em conjunto com parte da comunidade internacional, não reconhece a nova república. Na Voivodina (província sérvia), embora não haja um movimento separatista de mesmas proporções que no caso do Kosovo, há uma clara divergência entre as historiografias produzidas por sérvios e por húngaros na província (STJEPANOVIĆ, 2018, p. 179).
de novos monumentos, nas produções culturais com temática histórica, nos meios virtuais e nas histórias que as pessoas contam.
Tendo em vista esse cenário, analiso nessa dissertação os meios pelos quais jovens3 sérvios residentes na cidade de Valjevo4, no oeste da Sérvia,
interagem e atuam diretamente no processo de reconstrução do passado nacional e da reformulação da identidade sérvia. Mais especificamente, meu objetivo foi entender como esses protagonistas, nascidos após o colapso do socialismo na Iugoslávia, são agentes no processo de reescrita da história. Seleciono esse recorte etário, pois as pessoas com quem tive contato durante o trabalho de campo nasceram posteriormente ao regime socialista, vivenciando um processo de reescrita da história ao longo de suas vidas, e acompanharam diversas transformações no campo da política e da geopolítica na Sérvia e países vizinhos.
Entre a década de 1990, quando a maioria de meus interlocutores nasceu, e 2017, o ano da pesquisa de campo, seu país mudou de nome três vezes5,
passou por três grandes mudanças territoriais6, alterou a bandeira e o hino nacional7
e vivenciou a mudança de uma cultura política socialista para uma nacionalista na década de 1990, e liberal-democrática nos anos 2000 (MIHALJINAC, 2016). Ao acompanhar essas alterações na política sérvia, esses jovens também construíram suas percepções sobre o Estado sérvio, sua história e mesmo suas interpretações sobre o significado de ser sérvio na atualidade.
3 Defino como jovens, nesse trabalho, sujeitos que possuem uma faixa etária entre os 18 e aproximadamente 30 anos. Como veremos, um dos motivos pelo qual escolhi esse recorte etário deve-se ao fato de, durante suas vidas, esses sujeitos terem acompanhado um contínuo processo de reconstrução da história e reformulação de identidades na Sérvia.
4 Escolhi Valjevo como o recorte espacial para esse trabalho, não apenas pelo fato de eu já ter estabelecido contato anteriormente com sujeitos dessa cidade, como será abordado, como também pelo fato de a cidade abrigar diversas instituições históricas, como museus e arquivo, além de monumentos e patrimônios referentes a diferentes períodos da história sérvia, sendo portanto um ambiente bastante promissor para a compreensão da reformulação das narrativas históricas e da identidade nacional sérvia.
5 De 1963 a 1992 a Sérvia era parte da República Socialista Federativa da Iugoslávia. Em 1992 o país passou a se chamar República Federal da Iugoslávia, formada pelas repúblicas iugoslavas Sérvia e Montenegro; em 2003, União Estatal de Sérvia e Montenegro, e desde 2006, República da Sérvia.
6A separação das repúblicas da Iugoslávia (1991-1995), a independência de Montenegro (2006) e independência do Kosovo (2008).
7Desde 1943 até 2006 o hino era o Hej Slaveni! (Hey eslavos!), o hino da Iugoslávia. A partir de 2006 passou a ser Bože Pravde (Deus da justiça), hino da Sérvia. No Apêndice deste trabalho inseri as versões originais e completas das canções, hinos e poemas que são citados no decorrer da dissertação.
Para alcançar o objetivo acima exposto, examino, também, o cenário pós-iugoslavo, com especial ênfase na análise de disputas por símbolos (figuras históricas, territórios, patrimônios, línguas, entre outros) entre os grupos nacionais que compunham a ex-Iugoslávia. É fundamental ressaltar que entre todos os grupos nacionais da antiga Iugoslávia o processo de reconstrução da identidade nacional tem como base a diferenciação, seja com o passado socialista, seja com relação aos outros grupos nacionais. Nesse sentido, as disputas por símbolos, produtos desse processo, associam-se não apenas ao resgate de um passado pré-socialista, como também à criação de símbolos exclusivos para cada grupo nacional. Portanto, essa pesquisa procura também compreender um cenário de conflitos no campo discursivo sob a perspectiva de uma geração de jovens que vivencia e participa desses processos.
Além disso, é importante ressaltar que essa dissertação busca uma abordagem que compreenda os conflitos nacionais na Iugoslávia sem recorrer unicamente a uma abordagem macropolítica com ênfase no confronto entre Estados ou entre elites políticas. Procuro, portanto, compreender os conflitos e os processos de reformulação de identidades sob a ótica de sujeitos multifacetados, inseridos em diferentes (porém complementares) conjunturas.
Como pretendo demonstrar, os jovens protagonistas dessa pesquisa participam diretamente no processo de reconstrução da identidade e da história sérvia. Esses sujeitos não apenas dialogam com formas de representação do passado, sobretudo as reproduzidas pela mídia, por discursos políticos, provenientes de políticas estatais de memória e patrimônio e produções culturais – que tentam configurar um discurso hegemônico de representação do passado – como também incorporam e ressignificam essas narrativas de acordo com as conjunturas nas quais estão situados. Valjevo, a cidade onde habitam, é um local onde essas construções históricas estão presentes em diversos lugares. Além de possuir instituições como museu e arquivo, a cidade possui patrimônios históricos (como diversos monumentos e construções antigas) que remetem aos períodos pré-socialista, socialista e pós-socialista. Também há na cidade uma memória regionalista que, como observaremos, vincula-se a uma conjuntura local-regional na qual impera a valorização do passado local na história nacional.
Desse modo, como será abordado ao longo da dissertação, esses jovens estão inseridos em um local que expressa a memória histórica de diferentes maneiras e interagem com essas narrativas. Ademais, participam de uma vasta rede de relações sociais associadas a diferentes relações de solidariedade e de oposição, as quais impactam na forma como enxergam o passado de seu país e a si mesmos como sérvios. Não obstante, ao mesmo tempo que reproduzem elementos enunciados pela grande mídia ou pela história estatal, eles também incorporam as diferentes interpretações que possuem sobre o passado nacional ao presente vivido.
Similarmente, como a identidade sérvia está atrelada às representações sobre o passado nacional, ao participarem desse processo, esses jovens também gerenciam os significados de ser sérvio. Esses protagonistas selecionam fontes muito distintas para apreender o passado sérvio e, mesmo, para justificar suas visões, sendo que algumas fontes são consideradas por eles mais verossímeis do que outras. Entre essas fontes, destacarei, ao longo do trabalho, a história apresentada por instituições e expressa no espaço público, especialmente, pelos monumentos (tanto os construídos antes, como depois da desintegração da Iugoslávia), o ensino, as histórias contadas em suas famílias, narrativas encontradas na Internet e propagadas pelas redes sociais e filmes com temática histórica.
Com base nesses objetivos e na problemática de pesquisa apresentada, abordo a seguir algumas características da cidade de Valjevo, locus da pesquisa de campo, o modo como ocorreu o meu contato com essa cidade e alguns eventos com os quais me confrontei e cuja necessidade de compreendê-los me forneceram questões que me inspiraram a realizar essa pesquisa. Em seguida, explico como estabeleci as redes de relações com os protagonistas dessa pesquisa.
Contextualizando a pesquisa
Valjevo é a maior cidade da Sérvia ocidental e principal cidade do okrug8
de Kolubara. Possui instituições de ensino médio e superior, instituições culturais e
8 Geograficamente, a Sérvia é dividida em 29 distritos (okruzi, pl.), além da cidade de Belgrado (capital do país). Os okruzi não possuem autogoverno, sendo apenas divisões que facilitam a administração estatal e referências geográficas para censos e pesquisas de opinião.
realiza eventos que tornam a cidade atrativa. No entanto, apesar de ser um importante polo de atração, recebendo habitantes de regiões arredores, desde a época das guerras na década de 1990, a cidade tem enfrentado dificuldades para recuperação econômica e recepção de investimentos. Devido especialmente à falta de oportunidades de trabalho, muitos jovens locais necessitam migrar para outras cidades da Sérvia e para outros países para obter renda. Portanto, Valjevo é uma cidade que aglomera distintas vivências: há pessoas que são de outras regiões da Sérvia, mas vivem em Valjevo enquanto estudam; há pessoas naturais de Valjevo, mas que possuem experiência constante de migração sazonal; há quem possui empregos fixos; há quem busca trabalhos temporários; há quem deseja sair do país e quem deseja melhorias para nele permanecer; entre outras possibilidades.
O primeiro contato que tive com a cidade de Valjevo ocorreu entre janeiro e março de 2013, através de uma agência de intercâmbio estudantil, a AIESEC (Association internationale des étudiants en sciences économiques et
commerciales). A AIESEC é uma associação mundial de estudantes que trabalham
nela voluntariamente, que se dedica a diversos projetos visando, como definido por ela, o auxílio à sociedade e a integração global. Um dos projetos gerenciados pela organização é o de intercâmbio cultural, no qual o intercambista realiza trabalho voluntário no país de sua escolha e em sua área de estudo. O contato com o comitê da AIESEC de Campinas-SP, no período em que eu ainda estava na graduação, possibilitou-me conhecê-la e me inscrever em um dos projetos vigentes na Sérvia naquela época. O projeto no qual trabalhei – entre janeiro e fevereiro de 2013 – consistia em ministrar palestras para estudantes do ensino médio, nas escolas de Valjevo, sobre AIDS, DSTs, malefícios do fumo, primeiros socorros, tráfico de pessoas e sobre o Brasil.
Nesse primeiro momento, fui alojado na casa de Vuk e Michel9, em uma
região na periferia norte da cidade, na rua Đerdapska, um bairro com aproximadamente 20 casas. As pessoas com quem tive contato nesse ambiente eram moradores locais e amigos de Vuk. Notei, nesse período, que muitos deles
9 Membros da AIESEC, assim como alguns voluntários de fora da organização, aceitavam receber estrangeiros em sua casa, em grande parte para poder praticar seu inglês ou outro idioma estrangeiro. Não havia remuneração financeira para aqueles que hospedavam o intercambista, sendo a hospedagem também voluntária.
passavam um tempo fora do país, pois realizavam trabalho sazonal10, geralmente
(mas não somente) na Europa ocidental, devido ao fato de não possuírem ocupação fixa em Valjevo. Segundo eles, nos meses em que trabalhavam no exterior conseguiam dinheiro suficiente para passar o resto do ano na Sérvia.
O outro núcleo com quem tive contato nessa primeira experiência era composto por membros da AIESEC local. Diferentemente da realidade de Đerdapska, os membros da AIESEC, em geral, possuíam ocupação fixa, estudavam nas faculdades locais11, eram todos fluentes em inglês e, muitas vezes, em outro
idioma. O comitê era majoritariamente composto por mulheres, e muitas não eram provenientes de Valjevo, e sim de vilarejos e pequenas cidades próximas, como Arilje, Kamenica, Divčibare, entre outras. Como afirmado anteriormente, Valjevo é um importante polo de atração para cidades e vilas do okrug de Kolubara e, mesmo, para cidades e vilas de outras regiões.
Muitos dos membros da AIESEC tiveram experiência de intercâmbio no exterior, além de organizarem programas de benefício à cidade, como campanhas de doação de sangue e o auxílio às pessoas que perderam seus bens com as inundações em 2014, por exemplo. Em geral, eu passava o dia com os integrantes da AIESEC e a noite com Vuk e seus amigos. A realização do trabalho junto à AIESEC se deu em conjunto com outras duas intercambistas, Donna, de Taiwan, e Işil, da Turquia. Juntos, nós fazíamos as apresentações, sempre em inglês, dos temas acima elencados nas principais escolas da cidade e falávamos sobre história e cultura de nossos países.
O que me chamou mais a atenção, e que de certa forma serviu de inspiração para as questões que norteiam essa dissertação, foram situações em que determinados discursos de representação do outro, sobretudo relacionados aos recentes inimigos do país (croatas, bosníacos e albaneses), apareciam. Na casa em que eu morava em Đerdapska, esses discursos de representação do outro eram
10Os trabalhos sazonais variavam muito de acordo com o local onde esses jovens se estabeleciam. Muitas vezes eles trabalhavam em serviços de limpeza e de construção. Conforme me afirmaram, eles em geral se estabeleciam metade do ano em outro país e conseguiam renda para garantir a subsistência na Sérvia durante a outra metade do ano.
11 Há a Universidade Singidunum, com cursos de hotelaria, turismo, tecnologia da informação e enfermagem, localizada no final da rua Vuk Karadžić, próxima ao rio Ljubostinja. Há, também, a Visoka poslovna škola strukovnih studija (Escola de Altos Estudos Profissionais e Empresariais), conhecida popularmente como VIPOS, voltada para economia e sistema bancário.
mais frequentes, demonstrando preconceitos não só em relação aos “recentes inimigos do país”, no caso, especialmente croatas e albaneses, mas também com relação aos roma12, homossexuais e mulheres.
Por outro lado, entre os membros da AIESEC, esses discursos eram mais velados e, apesar de verbalizarem menos preconceitos, principalmente porque a organização recebia duas vezes por ano intercambistas de todos os continentes, era possível perceber certo receio com relação aos países vizinhos da Sérvia. Muitos membros da AIESEC, por exemplo, não conheciam a Croácia e nem tinham interesse em conhecê-la devido a esse receio. Em uma ocasião, viajamos para Dubrovnik, na Croácia, eu, Donna e Veljko, um integrante montenegrino do comitê de Valjevo, que solicitamos que fosse nosso guia. Era possível observar seu desconforto do começo ao fim da viagem e certo rancor com relação aos croatas, perceptível igualmente nos discursos dessa geração de pessoas que nasceu durante ou posteriormente à guerra na Croácia (1991-1995). No entanto, muitos dos integrantes da AIESEC me afirmaram que só teriam contato com um croata se ele também fosse da AIESEC, pois só assim ele teria “uma mente diferente”. Era evidente, portanto, que havia um limite na oposição nacional entre sérvios e croatas colocado por outras relações sociais, no caso, pelo sentimento de solidariedade se pertencessem à mesma organização, demonstrando que não se pode reduzir os posicionamentos desses jovens apenas à questão nacional.
Após retornar ao Brasil, em março de 2013, mantive contato com alguns dos jovens que conheci em Valjevo e passei a acompanhar notícias divulgadas pela mídia sérvia, não apenas com o intuito de me informar sobre o que ocorria no país e no Sudeste Europeu, como para melhor aprender o idioma. A partir de algumas dessas notícias e das reações dos jovens aos eventos noticiados, especialmente na rede social Facebook13, comecei a formular questões acerca da construção da
identidade e da história nacional e da agência dessas pessoas nesse contexto. Para ilustrar meu argumento, cito aqui quatro desses eventos.
12 O povo roma é tradicionalmente conhecido como “cigano” (cigani), no entanto, esse termo é considerado ofensivo pelo povo em questão.
13O Facebook é uma rede social criada por Mark Zuckerberg em 2004. Os usuários dessa rede social podem adicionar outros usuários, publicar e compartilhar textos, assim como outros recursos midiáticos (sobretudo imagens e vídeos curtos), além de utilizarem outros recursos que possibilitam uma maior interatividade com outros usuários (jogos, testes, entre outros).
O primeiro evento noticiado que me chamou a atenção após meu retorno, e que causou intensos comentários de meus interlocutores nas redes sociais, ocorreu durante uma partida de futebol entre Croácia e Islândia em 2013. Nessa partida, o jogador croata Josip Simunić entoou o grito de guerra “Za dom, spremni!” (Pela Pátria, preparados!), após a classificação da Croácia para a Copa do Mundo de 2014 (SKANDALOZNO..., 2013). Esse grito de guerra era lema do movimento
ustaša14, além de ter sido entoado durante a guerra na Croácia (1991-1995).
Portanto, na memória coletiva sérvia, o lema está relacionado a eventos de perseguição e chacina de sérvios por croatas. Acompanhei, a partir de postagens (manifestações públicas virtuais) no Facebook, as reações de repúdio a esse evento por parte dos jovens que eu havia conhecido em Valjevo. Esses incidentes me levaram a pensar acerca da permanência de um sentimento de rancor entre sérvios e croatas e como esse passado relacionado à Segunda Guerra Mundial e às guerras dos anos 1990 ainda repercutia na atualidade.
Outro evento que cabe aqui citar foi a partida de futebol das eliminatórias do campeonato da UEFA (Union of European Football Associations), conhecido como Eurocopa, entre Sérvia e Albânia, em 2014. A partida em questão precisou ser interrompida devido a um drone que sobrevoou o estádio em Belgrado, portando uma bandeira que apresentava um mapa do Kosovo incluído à “Grande Albânia” e a inscrição Autochthonous. Devido a esse incidente, os jogadores albaneses tiveram que ser retirados às pressas do local para que a torcida sérvia não os linchasse, sendo que os jogadores do time sérvio os auxiliaram na saída (HAOS..., 2014). Esse evento demonstra a persistência dos conflitos territoriais e simbólicos pela posse do Kosovo na atualidade, confirmado pelos discursos dos jovens que eu conhecera acerca da serbiandade do Kosovo e do fato de os sérvios serem perseguidos na ex-província, revelando a disputa sobre a legitimidade da ocupação de territórios com base na autoctonia. No entanto, o evento também evidencia outras relações de solidariedade que não se limitam ao nacional, como no caso dos jogadores sérvios que auxiliaram os jogadores albaneses em sua retirada, colocando em questão até que ponto, ou em que momentos, o pertencimento nacional é acionado.
14 Movimento colaboracionista croata, de extrema-direita, que se aliou aos nazistas durante a ocupação da Iugoslávia pelas forças do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial e perpetrou o extermínio de populações de judeus, roma e sérvios, além de opositores políticos, nos territórios dominados.
Um terceiro evento que acompanhei a partir de postagens nas redes sociais foi a publicação de um dicionário de montenegrino em 2016 e o projeto de elaboração da língua literária montenegrina (KADIĆ, 2016), fatos que também geraram muita polêmica entre meus colegas. Frequentemente eu lia seus comentários críticos ao evento descrito pela publicação, pois, para eles, em Montenegro se fala sérvio, não havendo necessidade para a criação do tal dicionário.
Por fim, acompanhei a crítica desses jovens ao acordo realizado entre Sérvia e OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em 2016, que possibilitava a livre passagem de autoridades da OTAN pelo território da Sérvia (Ž.D., 2016). Esse último evento, dentre todos, foi o que teve repercussão maior nas redes sociais por parte das pessoas que eu conhecera em Valjevo. Muitos manifestaram repúdio diante de sua “imoralidade” frente a um contexto pós-bombardeios da OTAN15, que teve Valjevo como um dos alvos. Muitos inclusive
publicaram a imagem abaixo ou imagens similares nas redes sociais por conta desse incidente:
“Sérvia 24.03 – 10.06.1999. Para que não se esqueça! Não à OTAN!16”
15Em 1999 a OTAN perpetrou bombardeios contra várias cidades e posições militares sérvias sob a justificativa de que o governo sérvio violava os direitos humanos na província do Kosovo, na qual se iniciara uma guerra civil em 1997 entre o exército sérvio e grupos paramilitares sérvios contra a UÇK, Exército de Libertação do Kosovo, formado por separatistas albaneses. Após a retirada das forças sérvias do Kosovo, a província se tornou protetorado da Organização das Nações Unidas (ONU) até 2008, quando declarou sua independência, que, como visto anteriormente, ainda não foi totalmente reconhecida pela Comunidade Internacional.
16 Essa imagem foi extraída de <https://deskgram.net/p/1742183265705396978_5580119767>, acessada em 6 de janeiro de 2019. A imagem contém cenas de destruição na Sérvia causadas pelos bombardeios de 1999.
Esses eventos e, especialmente, as reações a eles, trouxeram à tona vários embates. O grito de guerra no jogo de futebol revela uma permanência da rivalidade entre sérvios e croatas mesmo com o conflito armado já encerrado. O
drone evidencia os conflitos entre sérvios e albaneses pela posse do território do
Kosovo. A publicação do dicionário de montenegrino mostra, por um lado, o esforço dos montenegrinos em criar uma identidade própria, e, por outro, a crítica dos jovens sérvios, ressaltando a serbiandade, ou seja, a identidade sérvia dos montenegrinos. Por fim, o acordo da Sérvia com a OTAN reverberou nas memórias e nas sensibilidades das pessoas para com os conflitos das décadas de 1990, evocando um conjunto de narrativas traumáticas relacionadas aos bombardeios de 1999 da Sérvia e da cidade de Valjevo.
Cada um desses eventos e a necessidade de compreendê-los serviram de inspiração para a realização dessa pesquisa. A partir deles, pude desenvolver a problemática desse trabalho que, para melhor investigá-la, sintetizo em três questões centrais, que serão examinadas ao longo da dissertação: como ocorre o processo de reconstrução da identidade e da história sérvia, como os jovens interagem e se relacionam a esse cenário e como atuam diretamente nesse processo.
Para tanto, algumas perguntas mais pontuais serão levadas em conta, tais como: Que representações os jovens sérvios constroem sobre o outro (croata, albanês, montenegrino, esloveno, macedônio ou bosníaco)? Esses grupos nacionais são sérvios para eles? O que pensam sobre a situação no Kosovo? O que significa, para eles, ser sérvio? Como eventos do passado (distante ou recente) impactam em suas vidas e posicionamentos? Quais são seus posicionamentos em relação ao ocidente, União Europeia e OTAN? Com quais outras narrativas eles estão dialogando (levando em consideração que suas posições dialogavam com narrativas propagadas pela mídia e redes sociais, e que o uso da Internet serviu também para divulgar suas opiniões publicamente)? Por fim, cabe pensar como as diferentes relações sociais nas quais os jovens estão imersos se articulam às suas percepções do passado e da identidade sérvia, necessitando-se considerar, também, questões como: em que medida ser ou não ser de Valjevo, viver no exterior, ter experiências
constantes de migrações laborais, ser do centro ou da periferia da cidade, ser pró-Rússia ou europeísta impacta na forma como os sujeitos enxergam o passado nacional, a si como sérvios e como diferentes do outro. Com essas indagações em mente, retornei a Valjevo em abril de 2017 para a realização do trabalho de campo.
Construindo as redes
Cheguei na cidade de Valjevo em meados de abril de 2017. Seguindo a indicação de alguns amigos, fiquei alojado durante o período em que estive na cidade (até agosto do mesmo ano) na pensão Konak-Radović, administrada por Radovan, que rapidamente se aproximou de mim. Conversávamos muito sobre os assuntos mais diversos, embora uma das temáticas preferidas era a história de nossos países. Em uma de nossas conversas, Radovan me contou que era comandante da legião dos četnici17Ravnogorska, uma unidade paramilitar que atuou
nos conflitos na década de 1990, mas que ainda se reunia na cidade. O movimento
četnik foi bastante marginalizado na história socialista como um grupo reacionário e
colaboracionista do fascismo. No entanto, com o fim do socialismo, esse movimento é agora tratado na Sérvia, embora não de forma unânime, como um grupo de heróis nacionais na luta contra a ocupação estrangeira e pela unificação dos sérvios, servindo de inspiração para diversos movimentos paramilitares sérvios a partir da década de 1990. Foi uma boa reentrada na cidade, devo admitir: ou seja, a constatação da presença real e não apenas simbólica de um movimento que prega a defesa dos sérvios e da serbiandade; de todo modo, meu foco eram pessoas mais jovens, e o modo como elas se relacionam com o contexto a sua volta e com essas e outras presenças.
Na primeira semana em Valjevo, retomei portanto o contato com diversas pessoas que conheci no início de 2013. A partir de algumas delas, que ainda
17Os četnici, plural de četnik, foram grupos militares nacionalistas sérvios que na virada do século XIX para o XX almejavam a incorporação de todos os sérvios em um só Estado, seja a partir da ocupação territorial, seja a partir da incitação de revoltas de sérvios em domínios estrangeiros. Na Segunda Guerra Mundial, esse termo serviu para designar os soldados fiéis ao regime monárquico iugoslavo após a ocupação do país pelas forças do Eixo, desejosos de restaurar a monarquia (chefiada por uma dinastia sérvia) após a expulsão dos invasores. Na década de 1990, muitos grupos paramilitares sérvios que atuaram nas guerras dos anos 1990 adotaram essa denominação, como é o caso da unidade de Radovan.
estavam na cidade18, constituí o que Barnes (1987, p. 169) denomina de zona
primária, ou seja, um grupo de pessoas que facilitaram meu contato com outras pessoas, permitindo a ampliação da quantidade de meus interlocutores. Por exemplo, a partir do ex-aiesecer Shaggy, de Valjevo, Žiba, de Lajkovac, municipalidade vizinha de Valjevo, Miroslav e Miloš, dois jovens políticos locais, sendo o primeiro do Partido Radical (Srpska radikalna stranka) e o segundo do SNS (Srpska napredna stranka - Partido progressista sérvio) estabeleci contato com vários protagonistas do centro da cidade. A partir de Michel, irmão de Vuk, com quem fiquei hospedado em 2013, reencontrei Aleksa, Kenan e Samir, e a partir deles conheci Raša e Nikola, interlocutores fundamentais nessa pesquisa, e construí assim outra rede de contatos em Đerdapska.
O centro da cidade é a região que abrange a maior parte da vida social de Valjevo. Lá se encontram inúmeros cafés (kafane), locais onde pessoas de diferentes gerações se encontram para beber e socializar. Grande parte dos restaurantes, lojas, serviços diversos, escolas e faculdades, assim como instituições culturais se encontram nessa área. A Casa da Cultura (Dom kulture), por exemplo, é um importante local de entretenimento em que se localiza o cinema municipal e acontecem shows de música e peças de teatro. Também nessa área encontra-se a Galeria de Arte Moderna (Moderna galerija) e o Museu Nacional (Narodni muzej), que, além do espaço expositivo, possui o Café Museu (Kafe-muzeja), que serviu como base de encontros com muitos de meus interlocutores que eram habitués do local e, por isso, também passei a frequentar esse estabelecimento para conversar com algum protagonista19. Assim, acabei por me aproximar de alguns funcionários
do local, que também se tornaram meus interlocutores, como Kumba, gerente do café, músico e natural de Lajkovac, e Stefan, garçom, natural de Brankovina, estudante de informática em Belgrado. Outro local que serviu de ponto de encontro mais esporádico no centro da cidade foi a rua Tešnjar, ponto de diversos bares e
18Muitas pessoas que conheci em 2013 não estavam mais presentes na cidade, pois a AIESEC, que foi base para um importante círculo de relações em 2013, havia fechado o escritório de Valjevo em 2016. Muitos de seus membros retornaram, então, às suas vilas e cidades ou se mudaram para cidades maiores. Alguns terminaram suas faculdades e foram embora pouco tempo depois.
19 Não realizei gravações de conversas. Os registros que fiz sempre foram escritos, em algumas ocasiões durante as conversas, em outras, logo depois.
cafés, além de ser ela mesma um patrimônio histórico, feita de pedra e com construções do início do século XIX.
Em geral, os jovens do centro da cidade com quem tive contato eram fluentes em inglês e outros idiomas, possuíam emprego fixo, geralmente como balconistas e garçons em bares e restaurantes, ou trabalhavam com a família, como Shaggy, na funilaria de seu pai. Grande parte deles cursou ou estava cursando o ensino superior e muitos eram provenientes de cidades vizinhas ou de outras regiões da Sérvia, e que vinham a Valjevo para estudar nas faculdades locais. Entre alguns desses jovens, temos Srđan, natural de Bajina Bašta, estudante na VIPOS; Đole e Žiba, naturais de Lajkovac, mencionados acima; MC, natural de Ljubovija, que viveu em Valjevo durante sua graduação e atualmente vive em Malta; entre outros que serão citados no decorrer do texto. Também nessa área tive contatos esporádicos com alguns jovens que eram de Valjevo, mas viviam em outras cidades, como é o caso de Marko, Ivan e Jovan, que estudam e vivem em Novi Sad, mas que estiveram presentes em Valjevo em alguns momentos que coincidiram com o da pesquisa, como feriados e o período de férias escolares.
Paralelamente a esse círculo de pessoas, dirigi-me à casa onde me estabeleci em 2013, na rua Đerdapska, periferia norte da cidade, e reencontrei muitas pessoas com quem tive contato em 2013. Reencontrei Michel, Vuk, Aleksa, Kenan e Samir, e conheci os irmãos Raša e Nikola. Em Đerdapska, muitos dos jovens não possuíam ocupação fixa, realizavam trabalhos esporádicos e, em certas épocas do ano, migravam para diferentes lugares, embora a maioria costume ir para a Europa ocidental para realizar trabalho sazonal. Michel e seu irmão Vuk, que me acolheram em 2013, vivem em Valjevo, embora seus pais vivam na Alemanha. Seus pais são donos de uma empresa de limpeza de estabelecimentos na Alemanha, frequentemente os dois irmãos viajam para o país para auxiliar seus pais, geralmente em períodos de pico de trabalho, e depois de alguns meses retornam para a Sérvia. Kenan, 28 anos, já trabalhou na Bélgica, Suíça e Alemanha. Geralmente trabalhava meio ano nesses países e depois retornava a Valjevo com dinheiro suficiente para passar o resto do ano. Samir, 21 anos, é nascido em Valjevo, estudou na escola secundária de economia da cidade, possuindo intenções de ir para a Suíça, onde possui família. Aleksa, 30 anos, já teve experiência de imigração
para diferentes locais, como Alemanha, ajudando a família de Vuk e Michel, e para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, trabalhando no setor de construção. Já Raša e Nikola, 30 e 28 anos, também naturais de Valjevo, passaram quase cinco anos em Kazan, na Rússia, trabalhando como operários de construção. Eles moram sozinhos e Raša trabalha em empregos esporádicos, enquanto Nikola é pintor de imóveis.
Em geral, esses jovens eram provenientes de Valjevo, nem todos falavam inglês e a maioria não cursara ensino superior. Também havia no bairro em questão, se comparado com o centro, uma maior heterogeneidade étnica, com a presença de famílias roma20, e religiosa, com a presença de muçulmanos, como a família de
Kenan e Samir.
Convivi com essas pessoas durante o trabalho de campo. Acompanhava-as em seu cotidiano e busquei tomar conhecimento de suAcompanhava-as experiênciAcompanhava-as, suAcompanhava-as ações e suas visões sobre o passado nacional. Em geral, os integrantes do centro não tinham muito contato com Đerdapska e vice-versa, mas essas duas redes não eram isoladas uma da outra e tampouco são homogêneas, já que dentro de cada uma havia distintas redes de afinidade e, até mesmo, conflitos pessoais. Também saliento que não havia diferenças étnico-nacionais entre elas. A maioria dessas pessoas se considera de nacionalidade sérvia e segue a religião cristã ortodoxa, majoritária na Sérvia21, apesar de, como já afirmado, haver alguns muçulmanos que
vivem em Đerdapska. No campo das representações sobre o passado, percebi também poucas variações entre as duas redes, embora, como veremos, no que diz respeito à história local, foi possível notar que os Valjevci (provenientes de Valjevo) elaboram um conjunto de narrativas que ressalta a importância da cidade na história sérvia, o que não é compartilhado por jovens de outras partes da Sérvia que, em geral, habitam o centro da cidade.
20 Apesar da convivência espacial com os roma, percebi que muitos dos jovens com quem tive contato, de ambas as redes, portam diversos preconceitos com relação a esse povo. Por conta disso, os roma não eram integrantes de nenhuma das redes de sociabilidade que construí, o que dificultou o estabelecimento de contato com eles.
21Segundo o censo sérvio de 2011, a religião cristã ortodoxa é hegemônica na Sérvia, representando a fé de 84,6% dos habitantes, seguida pela católica (5%) e pela islâmica (3%) (SRBIJA, 2012). As outras opções foram protestantes, outras religiões cristãs, judaísta, religiões orientais, outros, agnósticos e ateus, e tiveram menos de 1% (Ibidem). O censo também apresentou as opções “não respondida” e “desconhecida” (nepoznato), as quais totalizaram um percentual menor que de 1% (Ibidem).
Algo que percebi, também, com bastante intensidade, tanto em uma como em outra rede, trata-se do fato de que meus interlocutores, quase sempre, ao saber de minha formação como historiador, faziam questão de me contar a história da Sérvia ou de Valjevo. Logo, não tive dificuldades em reunir informações acerca das representações dos sujeitos sobre a história nacional e local. Também conversávamos constantemente sobre os assuntos cotidianos e preocupações comuns, como emprego, carros, esportes, lugares para se visitar, mas dificilmente não falávamos sobre história em algum momento.
Posto isso, a pesquisa consistiu, sobretudo, em trabalho de campo, que envolveu convívio e registros de conversas com os jovens com quem entrei em contato. A partir desse acompanhamento, pude perceber as diferentes relações sociais nas quais estavam inseridos, que reverberam em como esses sujeitos enxergam o passado nacional. Além do mais, a pesquisa também se valeu da análise de documentos, como o censo populacional da Sérvia de 2011 (SRBIJA, 2012), e páginas de Internet e filmes. Apresento a seguir os referenciais metodológicos e ferramentas de análise que me utilizei durante a pesquisa de campo e elaboração do trabalho escrito.
Referenciais metodológicos
O tema de pesquisa presente nesta dissertação tangencia diversas questões de cunho teórico-metodológico. Como principais ferramentas para a análise me apoio na literatura que aborda a relação entre memória e poder que, no caso sérvio, vincula-se à reformulação do passado e da identidade nacional.
Sara Correia (2010) e Ivo Žanić (2007) revelam como elementos do passado nacional sérvio foram mobilizados em diferentes períodos da história. Correia (2010) trabalha com mitos e narrativas relacionados, sobretudo, ao período medieval sérvio e à Segunda Guerra Mundial, que teriam sido mobilizados durante o governo de Slobodan Milošević22 para justificar a oposição entre sérvios e outros
grupos iugoslavos, além de evocar direitos de ocupação de territórios com
22Presidente da Sérvia de 1989 a 1997 e presidente da República Federal da Iugoslávia de 1997 a 2000. Após ser derrubado do poder por um conjunto de manifestações na Sérvia no ano 2000, foi preso em Haia, para ser julgado por crimes de guerra e contra a humanidade. Faleceu na prisão em 2006, antes do veredicto.
população sérvia. Já Žanić (2007) analisa a simbologia envolvida em diferentes narrativas sobre o passado sérvio no período socialista e durante os conflitos da década de 1990, e como elementos do passado sérvio foram apropriados e ressignificados nesses contextos políticos.
Pensar a relação entre poder e memória é crucial para a compreensão do cenário de reformulação da história e da identidade sérvia na contemporaneidade, na qual alguns elementos do passado sérvio devem ser priorizados, enquanto outros são ocultados ou mesmo eliminados, buscando-se construir uma história coerente. A isso se vincula o que Todor Kuljić denomina de cultura da lembrança (2006), que, segundo o autor, consiste em considerar a memória como um elemento utilizável e ativo, que se vincula às necessidades discursivas do presente através de ênfases, distorções ou omissões, refletindo, assim, na relação que uma sociedade estabelece com seu passado. O passado, portanto, revela-se como um campo de disputa pelo poder de escolher o que nele se insere e o que dele se extrai, como demonstra, também, Trouillot (2017), que analisa, no caso haitiano, como as relações de poder existentes em um local e tempo histórico interferem na ênfase ou ocultamento de elementos que se associam ou se contrapõem ao regime dominante. Nina Mihaljinac (2016), por sua vez, relaciona explicitamente a cultura da lembrança com a cultura política, analisando como variações no panorama político afetam interpretações sobre eventos do passado nacional. A autora (Ibidem) também enfatiza o papel da Internet na construção e disseminação de narrativas históricas e na formação de uma cultura da lembrança na Sérvia contemporânea. Como veremos, a Internet tem sido cada vez mais um meio não apenas de disseminação de narrativas históricas, como também um lugar de fala a partir do qual diferentes agentes, tais como os protagonistas dessa pesquisa, gerenciam e difundem suas interpretações sobre o passado nacional e os significados de ser sérvio.
Pensar a relação entre poder e história consiste também em analisar o papel de políticas públicas de patrimônio na formação de uma memória coletiva. Nesse sentido, tomo como base o trabalho de José Reginaldo Santos Gonçalves,
Antropologia dos objetos: coleções, museus e patrimônios (2007), que versa sobre a
relação entre políticas de preservação de patrimônio, as vertentes políticas hegemônicas e a percepção que as pessoas possuem sobre o patrimônio. Segundo
o autor (Ibidem), toda a política de patrimônio, seja a construção de monumentos, sejam exposições em museus, está inserida em um contexto político e cultural, sendo, portanto, associada a relações de poder. Posto isso, as políticas públicas de memória e patrimônio, assim como a percepção que a própria população possui sobre seu passado se vinculam à cultura da lembrança (KULJIĆ, 2006).
As narrativas que são construídas e disseminadas a partir de diversos meios oficiais e não oficiais, tais como políticas públicas, monumentos, instituições históricas, ensino, cinema, Internet e as próprias histórias contadas por amigos, conhecidos e familiares possibilitam aos sujeitos incorporar o passado nacional às suas experiências. Michael Pollak denomina esse processo de “memória por tabela” (1992), ou seja, aquelas lembranças que as pessoas possuem como suas mesmo não tendo vivido o evento diretamente, mas que são propagadas pelos meios acima citados, construindo também a nação como comunidade imaginada (ANDERSON, 1993).
Não obstante, os jovens não absorvem ou reproduzem simplesmente essas narrativas, eles interagem com elas e as ressignificam com base nas diversas relações sociais em que se situam. Conforme Homi Bhabha (1998, p. 206), a disseminação de narrativas nacionais pode ocorrer a partir de uma pedagogia nacionalista, responsável por naturalizar e essencializar a história do povo como coletividade e por criar uma narrativa coerente nas quais as contradições são suprimidas, e pode ocorrer de modo performativo, ou seja, a partir da forma como o próprio povo, como sujeito histórico, reproduz essas narrativas no presente, tornando evidentes as ambiguidades e contradições da história hegemônica. Conforme veremos, os jovens sujeitos dessa pesquisa possuem contato com diversos meios de disseminação de narrativas históricas e, como agentes situados, selecionam esse repertório com base nas relações sociais em que estão inseridos.
Posto isso, para se pensar a agência dos sujeitos em uma multiplicidade de relações sociais, tomo como base a teoria da agência de Sherry Ortner, que demonstra como essas se apresentam como uma relação dialética entre sujeito e meio social e cultural. Para a autora, a cultura constrói atores sociais, no entanto, a vivência concreta dessas práticas culturais, por parte desses atores, reproduz ou transforma a cultura e o meio social em que vivem (2007a, p. 45). Ortner considera
que a reprodução do meio social nunca é total, pois é vulnerável às pressões e instabilidades inerentes em toda situação de poder desigual (2007b, p. 26). No caso, a relação de poder desigual pode ser apresentada entre os meios de divulgação de interpretações do passado fornecidas por políticas estatais sérvias e pela mídia e as interpretações subjetivas e individuais sobre o passado. Os primeiros se utilizam da construção de monumentos, elaboração de material didático sobre história, elaboração de festividades e oficialização de feriados, assim como do financiamento a produções culturais que remetem ao passado nacional. Já as segundas possuem um alcance limitado às redes de sociabilidade dos agentes, embora a Internet disponibilize a eles um espaço supostamente ilimitado para divulgação de suas opiniões. Ortner (2007a, p. 46-47), nesse sentido, afirma que embora os atores estejam limitados às suas redes de sociabilidade, eles são subjetivamente complexos e culturalmente variáveis, dada a multiplicidade de relações sociais em que estão envolvidos.
Conforme Cunha (1985, p. 206), a identidade é uma resposta política a uma conjuntura e uma resposta articulada a outras identidades, sendo construída de forma situacional e contrastiva. Portanto, cabe sublinhar que a conjuntura nacional e a diferenciação com relação a outros grupos nacionais, embora possuam grande importância no cenário de reconstrução da história na Sérvia atual, não são os únicos elementos com os quais os jovens protagonistas interagem. Associadas à conjuntura da diferenciação entre a identidade nacional sérvia e de outros grupos, temos também as disputas partidárias e geopolíticas na Sérvia e no Sudeste Europeu em geral, e a oposição do local ao não local, que se vinculam a formas distintas de compreender o passado sérvio ou mesmo sobre as significações de ser sérvio na contemporaneidade.
Considero, portanto, que devemos levar em conta os campos sociais mais amplos para entender os modos pelos quais identidades e passado nacional são reconstruídos, muitas vezes a partir da assimilação (nunca total) dos discursos disseminados pela mídia e por políticas estatais sérvias. No entanto, devemos fazê-lo sem deixar de pensar acerca do modo como os sujeitos, no caso, os protagonistas dessa dissertação, a partir de suas vivências concretas, modificam esses discursos elaborando narrativas que podem reiterar ou criticar a historiografia
que se quer por estabelecida.
Organização da dissertação
Organizei a análise do material de campo e documental em três capítulos. No capítulo I, intitulado “Reproduzindo discursos”, examino o contexto de reformulação de identidades na Sérvia atual, levando em consideração o papel das políticas estatais sérvias na construção e disseminação da identidade nacional. A partir disso, analiso a disputa com outros grupos nacionais pela história e pela afirmação de símbolos nacionais, tais como heróis, um idioma comum, a religião cristã ortodoxa e a ocupação territorial ancestral.
No capítulo II, denominado “Nós e eles”, discorro sobre a importância das narrativas de heroísmo e resistência sérvias na construção da atual identidade nacional e como os jovens sujeitos mobilizam-nas para refletir sobre si e sua relação com o outro em conjunturas distintas. Desse modo, observaremos o contexto regional, da relação dos sérvios com croatas, eslovenos, bosníacos, albaneses, ou seja, grupos ex-iugoslavos; o contexto local, ou seja, de valorização da cidade com relação a outras localidades na Sérvia; e internacional, de posicionamento em relação às políticas ocidentais no atual cenário geopolítico.
Por fim, no capítulo III, “Confrontando histórias”, analiso como os jovens confrontam representações que o ocidente, os croatas, os bosníacos e os albaneses elaboram sobre os sérvios. Muitas vezes, essas representações que o outro faz sobre os sérvios têm como base a atuação sérvia nos conflitos da década de 1990, que envolveu violações aos direitos humanos. Os sujeitos, então, procuram gerenciar os significados de ser sérvio ao atribuir ao grupo nacional sérvio um caráter multicultural, tolerante e democrático, contrariando uma suposta imagem do sérvio como nacionalista e chauvinista (imagem essa legada de um imaginário ocidental sobre os Bálcãs). Analiso, também, nesse capítulo, o papel da Internet no processo de reconstrução da história sérvia e como os jovens se utilizam desse meio para propagar suas representações sobre a história sérvia e sobre a serbiandade. Seguem-se então as considerações finais, onde sintetizo a análise feita ao longo da dissertação.
Capítulo I - Reproduzindo discursos
Certamente precisamos da história, mas não como o passeante mimado no jardim do saber, por mais que este olhe certamente com desprezo para as nossas carências e penúrias rudes e sem graça. Isto significa: precisamos dela para a vida e para a ação, não para o abandono confortável da vida ou da ação ou mesmo para o embelezamento da vida egoísta e da ação covarde e ruim. Somente na medida em que a história serve à vida queremos servi-la.
Friedrich Nietzsche, Segunda consideração intempestiva: Da utilidade e desvantagem da história para a vida [1874], 2003, p. 5.
A frase acima citada está presente na Segunda consideração
intempestiva do filósofo Nietzsche, composta por aforismos que versam sobre o
excesso de história na vida e em que medida a história pode ser útil. Com base nessa citação, podemos nos questionar sobre qual seria a utilidade da história; de que forma o passado se relaciona com a vida no presente e, mesmo, como a história se revela importante para os sujeitos e em que momentos. Analisando o contexto de reconstrução histórica ocorrido na Sérvia atual podemos perceber que a história está longe de ser um passado distante, ela é o presente, é o vivido, é o contexto com o qual os sujeitos se relacionam em seu cotidiano, é a base para a formação da identidade nacional dos sujeitos e de sua diferenciação com relação a outros grupos. A reelaboração da história se torna ação em vários aspectos, quando os sujeitos se baseiam nela para justificar seus posicionamentos, para demandar reparação, para sentir pertencer a algum grupo, para refletir sobre sua própria condição. No entanto, a história é marcada por diversas relações sociais, incluindo relações de poder, que definem o que nela deve estar presente, como deve estar presente e que narrativas devem ser silenciadas ou excluídas. Conforme Trouillot (2017, p. 24), “o poder é constitutivo da história, precede à própria narração, e contribui para sua criação e interpretação”, ou seja, para o autor (Ibidem), os feitos históricos que devem ser lembrados são selecionados de acordo com as relações de poder existentes, sendo alguns enfatizados, outros omitidos, alguns materializados, outros não.
Os protagonistas desse trabalho estão inseridos nessas relações de poder e imersos em processos de reconstrução histórica, revelados ou explicitados a partir de formas diversas de narrativas com as quais eles têm contato cotidiano. Podemos vislumbrar no cenário apresentado por essa dissertação diferentes representações do passado que são propagadas a partir de diversos meios, tais
como o sistema de ensino, os monumentos, as exposições em museus, a celebração de novos feriados, os filmes, as memórias e, mesmo, a Internet. Como veremos ao longo da dissertação, todos esses meios possuem considerável impacto para a percepção que os jovens protagonistas dessa pesquisa têm sobre o passado, não limitando a reconstrução da história Sérvia apenas ao campo da historiografia. Embora a historiografia tenha desempenhado um papel importante na reescrita da história, não se pode limitar esse processo aos debates acadêmicos e produção de novos textos historiográficos. Poucos sujeitos com quem interagi durante a pesquisa de campo tiveram contato com esses textos23. Nas palavras de Trouillot (2017, p. 22),
o historiador não deve ser o único considerado como participante da produção histórica, outros elementos estão presentes e compreendê-los nos permite possuir uma visão mais completa sobre a história. No entanto, embora sejam diversas narrativas e diversos meios que as propagam, alguns meios possuem um alcance maior do que outros, o que é determinado a partir de relações de poder.
Nesse sentido, o Estado sérvio possui um grande aparato para a criação de narrativas. Os protagonistas dessa pesquisa possuem contato frequente com as narrativas provenientes de políticas estatais de memória e patrimônio, no entanto, não se pode afirmar que eles simplesmente reproduzam tais discursos, mas, como será demonstrado, também incorporam elementos dessas narrativas à sua vivência concreta (ORTNER, 2007a), ressignificando o passado no presente vivido.
Nesse processo de incorporação, temos primeiramente o que Bhabha (1998) denomina disseminação. A disseminação, para o autor, consiste na relação entre a pedagogia nacionalista, que se baseia no fato de o povo ser, ao mesmo tempo, objeto histórico (que atribui ao discurso uma autoridade que se baseia no pré-estabelecido ou na origem histórica constituída no passado) e sujeito histórico (que reitera e atualiza as narrativas sobre o próprio povo no presente em um processo reprodutivo de constituição de uma história coerente), e a performance, que seria o presente enunciativo marcado pela repetição e pulsação do signo
23 Os debates historiográficos possuem grande relevância nesse cenário de reformulação de identidades na Sérvia atual. Mesmo que os jovens não possuam contato direto com a historiografia, os discursos intelectuais são fenômenos sociais, que são disseminados muitas vezes pelos veículos de mídia e indiretamente incorporados pelos protagonistas dessa pesquisa. No entanto, o foco desse trabalho consiste mais na percepção desse processo de reformulação de identidades nas microinterações cotidianas do que nos grandes debates acadêmicos.
nacional (BHABHA, 1998, p. 207-209). Nesse processo, portanto, os sujeitos estão em contato com diferentes meios de disseminação de narrativas históricas, sendo que eles mesmos também contribuem no processo de disseminação dessas narrativas, ao reproduzi-las e ressignificá-las no presente. Os sujeitos, portanto, internalizam essas narrativas e as ressignificam conforme as diferentes relações sociais nas quais estão situados. Como essa internalização das narrativas históricas ocorre sempre no presente, torna-se também fundamental pensar como fatos históricos são interpretados no presente vivido a partir do que os sujeitos aprendem ou se lembram, e que elementos sociais se vinculam ao que é lembrado ou esquecido. O sociólogo sérvio Todor Kuljić (2006, p. 89-90) denominou esse processo de interpretação do passado com base no presente como cultura da lembrança (kultura sećanja), que se carateriza como a relação que uma sociedade estabelece com diferentes momentos de seu passado a partir do contexto presente em que ela está situada.
Portanto, levando em consideração o contexto apresentado, nesse capítulo faço uma breve apresentação sobre o cenário de reformulação de identidades nacionais na Sérvia atual e o papel do Estado sérvio nesse processo. Na primeira seção (Passado e identidade), analiso os esforços de criação de uma história nacional hegemônica e de sua disseminação e examino, também, como essa história nacional é percebida e reelaborada na cidade de Valjevo e reproduzida pelos protagonistas da pesquisa. Na segunda seção (Passado serbianizado), analiso as disputas por símbolos históricos nacionais, como essas disputas são percebidas na Sérvia e em Valjevo e como os jovens protagonistas participam delas.
I.1. Passado e identidade
O processo de reconstrução da identidade nacional na Sérvia atual consiste, sobretudo, na seleção do que se vincula e do que não se vincula à chamada serbiandade (srpstvo), ou seja, na seleção de elementos que se adequam à nova identidade sérvia que se visa construir. No caso, a identidade sérvia se pauta diretamente em diversos elementos da história nacional, sendo a reconstrução da história sérvia um aspecto fundamental da reformulação da identidade nacional. Para melhor compreender essa questão, é importante ressaltar que há um processo