Capítulo III Confrontando histórias
III.1. Reparando o passado
A eclosão das guerras de dissolução da Iugoslávia na década de 1990 trouxe à tona uma miríade de narrativas sobre os Bálcãs e sobre o caráter de seus grupos nacionais. Segundo Peres (2005), a mídia ocidental, ao acompanhar os conflitos da década de 1990, constantemente recorria a conceitos essencialistas como ódios ancestrais, à violência inerente à região e à instabilidade política como condição natural dos Bálcãs como forma de explicar as guerras entre “os diferentes grupos que ali viviam”. Essas representações que enfatizam estereótipos e que associam os Bálcãs ao nacionalismo e à violência já eram existentes, mas se ressignificaram com os conflitos da década de 1990 (BAKIC-HAYDEN, 1995, p. 917). Segundo Todorova (2009), o termo Bálcãs, denominação turca para regiões montanhosas e que passou a denominar o Sudeste Europeu como um todo, foi historicamente representado como o outro com relação à Europa Ocidental. Visto como outro pelo mundo ocidental, os Bálcãs são um outro ambíguo, ao mesmo tempo europeu e oriental, heterogêneo etnicamente e religiosamente (TODOROVA, 2009, p. 18-19). Essa ambiguidade levou observadores europeus a tratar a região como instável, terra de violência, vendetas e conflitos nacionalistas (Ibidem). Os
habitantes dos Bálcãs, segundo essa visão, não se conformariam totalmente aos comportamentos normativos relacionados ao “mundo civilizado” (Ibidem, p. 3). Conforme Todorova, o próprio termo “balcanização”, usado como sinônimo de fragmentação territorial em unidades pequenas e derivado do nome da região em questão, surgiu com a Primeira Guerra Mundial e foi usado para outros contextos e retomado a partir dos conflitos bélicos na Iugoslávia na década de 1990 (Ibidem), remetendo à reversão às características tribais, atrasadas, primitivas e bárbaras. Portanto, imagens das populações do Sudeste Europeu como selvagens, barbarizadas e violentas, existentes desde o Iluminismo, quando o ocidente atribui a si uma missão mundial civilizatória, auxiliaram a construir discursos que enfatizam a violência, não como condição social, mas como inerente à natureza ambígua dos povos balcânicos (BAKIC-HAYDEN, 1995, p. 918).
Bakic-Hayden (1995, p. 922) afirma que a representação do balcânico como violento e bárbaro foi também internalizada pelos próprios grupos nacionais do Sudeste Europeu, havendo, mesmo, uma gradação de balcanismos que tais grupos imputam uns aos outros. Croatas e eslovenos, segundo a autora, evocam o passado habsburgo e a religião católica para se colocarem como mais civilizados do que os grupos da região que vivenciaram o domínio otomano (Ibidem) e para se aproximarem dos valores europeus e do próprio europeísmo na contemporaneidade, como visto no capítulo anterior. De forma similar, os grupos majoritariamente cristãos ortodoxos percebem a si mesmos como mais europeus e civilizados do que os muçulmanos (BAKIC-HAYDEN, 1995, p. 922). Também no capítulo anterior, vimos como o urbano se percebe como mais civilizado que o camponês, não havendo apenas uma gradação com base em nacionalidades, mas também a partir da localidade.
Apesar desses estereótipos serem comuns a todo o Sudeste Europeu, os sérvios consideram que a mídia ocidental, especialmente, concentrou especificamente neles esses estereótipos balcânicos, representando o povo sérvio constantemente como violento, criminoso, nacionalista e assassino. Essa imagem negativa dos sérvios tem como base a percepção de que foram eles os grandes responsáveis pelos conflitos e violações aos direitos humanos – como genocídio, limpeza étnica, assassinato de civis, estupros e destruição de patrimônio histórico –
durante a década de 1990 na ex-Iugoslávia .
Portanto, os discursos que procuram desconstruir um suposto caráter violento e exclusivista dos sérvios também visam uma reparação que tem o intuito de isentar o povo sérvio do legado histórico negativo proveniente desse período de conflitos. Intelectuais e escritores sérvios, como o colunista do jornal Politika, Gvozden Otašević, e o professor do Ginásio de Čačak, Vladimir Dmitrijević, por exemplo, afirmaram em 2017, em um artigo nesse jornal, que a mídia ocidental difama os sérvios, atribuindo-lhes um caráter chauvinista e nacionalista, quando, na verdade, o povo sérvio é tolerante e multicultural (OTAŠEVIĆ, 2017). Dmitrijević elenca no artigo inúmeros momentos marcados pela solidariedade dos sérvios, que ofereceu seu pão ao inimigo búlgaro faminto durante a Primeira Guerra Mundial, ou o fato de supostamente judeus não testemunharem antissemitismo na Sérvia no início do século XX (OTAŠEVIĆ, 2017). São elementos bastante pontuais e particulares, mas que são apresentados como exemplares do caráter tolerante do povo sérvio ao banalizar (para usar o conceito de TROUILLOT, op. cit) o discurso geral ocidental, que apresenta os sérvios como os vilões nacionalistas dos conflitos da década de 1990.
Exemplos como esse, de solidariedade e tolerância sérvia, têm sido constantemente evocados como um meio de invalidar a imagem dos sérvios como perpetradores de crimes e violadores dos direitos humanos. Essa estratégia de reparação é comum em discursos públicos, no cinema e, como veremos, na Internet e nas falas dos protagonistas desse trabalho.
No que diz respeito ao campo cinematográfico, por exemplo, vários filmes foram sugeridos a mim pelos protagonistas desse trabalho por trazerem em suas narrativas essa mensagem de reparação. É importante ressaltar que meus interlocutores me indicavam esses filmes, pois desejavam que eu compreendesse melhor os conflitos da década de 1990 e, especialmente, a visão sérvia sobre os conflitos e seus motivos, já que partiam do pressuposto que eu compartilharia da visão geral negativa que o mundo ocidental supostamente faz deles.
Um desses filmes foi Lepa sela lepo gore (Bela Aldeia, Bela Chama), dirigido por Srđan Dragojević e lançado em 1996. Esse filme retrata a história de dois amigos de infância, Milan (sérvio) e Halil (muçulmano). Em uma narrativa não
linear, ele mostra os personagens no período pré-guerra, durante a guerra e no imediato pós-guerra em que os combatentes sérvios se recuperam dos ferimentos da guerra num hospital. Durante a guerra, Milan e Halil lutam de lados opostos. O exército da Bósnia e Herzegovina, do qual Halil é integrante, cerca os soldados sérvios, incluindo Milan, e então o filme narra a luta pela sobrevivência dos sérvios sitiados dentro de um túnel. Esse filme, produzido e lançado logo após as guerras na Bósnia e Herzegovina e na Croácia apresenta, por um lado, como a guerra destruiu relações pessoais interétnicas; e, por outro, mostra os sérvios como vítimas dos bosníacos, cercados, passando por necessidades vitais como fome, sede e frio, e executados indiscriminadamente quando saem do esconderijo.
Essa mensagem de sérvios como agredidos por outros grupos também é apresentada pelo filme Nož (Faca), dirigido por Miroslav Lekić e lançado em 1999. Baseado no livro homônimo de Vuk Drašković, publicado em 1983, o filme conta a história de Ilija, uma criança sérvia cuja família (Jugović) foi massacrada pelos muçulmanos da família Osmanović na véspera do natal ortodoxo de 1942. A criança é poupada no massacre e adotada por uma mulher muçulmana da família Osmanović que o rebatiza como Alija e o educa como muçulmano. A mãe adotiva de Alija o ensina a odiar os sérvios, tanto que quando adulto ele chega a romper com sua namorada Milica (sérvia) por divergências étnicas. Porém, no decorrer do filme, Alija descobre que as duas famílias (Jugović e Osmanović) na verdade eram originalmente a mesma, mas que os Osmanović se converteram ao islamismo durante a ocupação otomana. Por fim, ele descobre que fora adotado / sequestrado, quem são seus verdadeiros pais e, que, na verdade, ele era sérvio, o que faz com que ele retome o nome Ilija, que sua mãe biológica lhe havia dado antes de ser assassinada – cabe sublinhar que que os nomes e sobrenomes pessoais na ex- Iugoslávia são um dos principais indicadores da ascendência étnico-nacional.
Embora Nož seja um filme que se inicie com a Segunda Guerra Mundial, o fato de exibir cenas nas quais os sérvios são perseguidos e executados por muçulmanos e croatas reverbera em eventos das guerras da década de 1990. Conforme Mihaljinac (2016, p. 258), durante o período de guerras de dissolução da Iugoslávia, a propaganda estatal sérvia apresentava os croatas, bosníacos e albaneses como agressores, enquanto os sérvios apenas reagiam às ações desses
grupos nacionais. A mensagem que o filme pretende passar diz respeito ao fato de a violência muçulmana e croata ser constantemente retratada como uma agressão barbarizada e antiga a sérvios inocentes (retomando a ideia do balcânico como violento) enquanto a violência sérvia é apresentada como vingança ou defesa (ou seja, é justificada e racionalizada, conformando-se aos valores civilizacionais europeus). Assim como em Lepa sela, lepo gore, Nož também relata como relações pessoais foram prejudicadas pelo conflito interétnico. No entanto, uma das conclusões do filme reside no fato de que os Osmanovići eram na verdade Jugovići, portanto sérvios que se converteram ao islamismo durante a ocupação otomana, conformando-se ao discurso nacionalista, apresentado no capítulo I, de que os bosníacos foram originalmente sérvios e que se diferenciam dos sérvios sobretudo pela religião.
Outro filme que foi constantemente indicado a mim foi Krugovi (Círculos), de Srđan Golubović, lançado em 2013. O filme conta a história baseada em fatos reais de Srđan Aleksić, soldado sérvio que morreu protegendo Alen Glavović, um civil muçulmano na Bósnia, e as consequências desse incidente para outras pessoas. A narrativa, não linear, enfatiza a ideia de solidariedade, heroísmo e autossacrifício sérvio. Vemos nesse filme, também, um exemplo de banalização (TROUILLOT, 2017), ou seja, um exemplo pontual, como a história de Aleksić (no filme, chamado de Marko), evocado para demonstrar que não apenas os sérvios não foram chauvinistas ou nacionalistas, como também auxiliaram o inimigo.
As narrativas desses três filmes procuram desmistificar, portanto, o discurso ocidental de que os sérvios foram agressores no conflito. Esses três filmes, ao mesmo tempo que se pautam em narrativas pontuais de agressão contra os sérvios, ou de solidariedade sérvia ao inimigo, procuram também desconstruir um imaginário ocidental comum que representa os sérvios como nacionalistas, intolerantes e violentos, desvinculando os sérvios dos estereótipos balcânicos.
Além do cinema, os discursos públicos pós-guerra que, como vimos, pautam-se em um distanciamento ou mesmo esquecimento dos crimes de guerra cometidos pelos sérvios, visam estabelecer uma nova identidade tolerante, aberta e progressista (MIHALJINAC, p. 258), enfatizando o caráter multicultural e cosmopolita do povo sérvio, e buscam também confrontar essas supostas imagens que o
ocidente propaga sobre os sérvios. Um elemento que chamou minha atenção durante a pesquisa de campo foi a divulgação do censo populacional de 201181, que revelou a existência de 20 comunidades étnicas (etnička zajedinica) na Sérvia (SRBIJA, 2012), fato frisado na mídia local com o intuito de divulgar uma imagem da Sérvia como um país multicultural e tolerante, o que também é evocado para desmistificar uma ideia de nacionalismo na Sérvia. Com base no resultado do censo, alguns jovens com quem conversei enfatizam que a Sérvia não é um país exclusivista ou nacionalista haja vista a sua diversidade comprovada pelo censo. Jovan, natural de Valjevo, mas que vive e trabalha em Novi Sad relatou a mim que:
O nacionalismo maléfico, que subjuga, que extermina, que oprime, isso não é coisa dos sérvios [...]. Croatas, albaneses, turci [possivelmente se referiu aos bosníacos], esses sim são nacionalistas. A Sérvia é o país mais heterogêneo da Europa; se você ver nosso censo populacional, nem França, Alemanha ou Itália possuem essa heterogeneidade. Aceitamos muito bem cada povo que vive nesse país, como aceitamos que croatas, eslovenos e albaneses vivessem em nosso país no período iugoslavo.
Michel, tal como Jovan, comentou que “o ocidente nos considera nacionalistas e exclusivistas, mas somos o país europeu mais heterogêneo de todos, aqui todos os povos são cidadãos e ainda possuem direitos de minoria”. Nesses relatos, vemos como exemplos que confirmam a heterogeneidade da Sérvia, onde diversos grupos étnicos são tolerados, são mobilizados com o intuito de confrontar os discursos ocidentais que supostamente enfatizam o caráter chauvinista dos sérvios.
Esse discurso por reparação que afasta os sérvios do nacionalismo e da violência injustificada se dá também a partir de um distanciamento retórico dos
81A “comunidade étnica” (etnička zajednica) sérvia foi retratada, no censo de 2011, como 83,3% dos quase 7,2 milhões de habitantes do país. Entre as outras comunidades étnicas, temos os húngaros (3,5%), roma (2,1%), bosníacos (2%), croatas (0,8%), eslovacos (0,7%), montenegrinos (0,5%), valacos (0,5%) e outros, sendo que foi apresentada a categoria “outras nacionalidades” (Ostale nacionalnosti), que compõe egípcios, tchecos, ashkali e judeus, entre outros, e totalizou 0,2% (SRBIJA, 2012). 2,2% não declararam a nacionalidade e aproximadamente 0,4% se expressou em termos regionais (como Vojvođanin, Šumadinac, Valjevac, Beograđanin...) (Ibidem). Na província de Kosovo e Metohija, nas municipalidades de Preševo, Bujanovac e nos arredores de Medveđa, houve uma cobertura reduzida das unidades do censo devido aos boicotes dos integrantes da nacionalidade albanesa (Ibidem). Interessante notar que os termos nacija/narod (nação) e nacionalnosti (nacionalidade) utilizados nos censos realizados no período iugoslavo também sofrem alteração, utilizando-se apenas o termo comunidades étnicas igualmente para todos os grupos que habitam a Sérvia. Peres (2018) aponta que essa mudança de vocabulário, na qual grupos nacionais passam a ser vistos como étnicos, pode ser vista dentro de um processo de naturalização e desistoricização dos grupos da região enquanto separados e distintos entre si por motivos mais profundos e antigos que o pertencimento nacional.
crimes de guerra que teriam sido por eles perpetrados e por uma relativização do conflito. Essa relativização pode ser percebida em várias instâncias, uma delas é o próprio ensino escolar. O livro didático de Mira Radojević (2014), por exemplo, dirigido ao último ano do ginásio na Sérvia (incluindo Valjevo), faz poucas referências às guerras de dissolução da Iugoslávia. Sobre esse tema, ele traz alguns números, tais como o de vítimas sérvias da guerra na Croácia – afirma-se que 447.000 sérvios deixaram a Croácia durante a guerra (segundo o livro, “com base em dados sérvios”, sem especificações) (RADOJEVIĆ, 2014, p. 379). Sobre a guerra na Bósnia, em específico, afirma-se que houve vítimas das três nacionalidades (apresenta que 102.622 pessoas foram mortas no total, com base em dados da ONU), além de afirmar que na Croácia e na Bósnia houve limpeza étnica em vários lugares, apenas citando os locais e sem explicitar os perpetradores (Ibidem). Há, portanto, nesse livro, uma preocupação em demonstrar como os sérvios foram agredidos ao longo desses conflitos, enquanto que eventos nos quais as forças sérvias cometeram violações – como limpeza étnica – são colocados em conjunto com as violações cometidas pelos outros lados da guerra. Verifica-se, assim, tanto uma omissão de informações (ausência de dados) como uma relativização do conflito, que busca isentar os sérvios da responsabilidade pelo ocorrido (se os três lados cometeram atrocidades, a culpa não recai apenas sobre os sérvios).
De forma similar, muitos de meus interlocutores chamaram a atenção para o fato de que os sérvios não foram os responsáveis ou os únicos responsáveis pelos conflitos da década de 1990, mas foram os únicos punidos. Sendo assim, eles constantemente evidenciavam a impunidade com relação às lideranças de outros grupos nacionais que perseguiram os sérvios, referindo-se, especialmente, aos julgamentos pelo Tribunal Criminal Internacional para a antiga Iugoslávia (ICTY -
International Criminal Tribunal for the former Yugoslavia). Durante a pesquisa de
campo em 2017, ocorreu um incidente que acentuou esse discurso. O antigo líder da UÇK (Ushtria Çlirimtare e Kosovës/ Exército de Libertação do Kosovo), Ramush Haradinaj, considerado criminoso na Sérvia por ter praticado atos de limpeza étnica e tortura contra sérvios do Kosovo, e ex-primeiro-ministro do Kosovo, foi detido em janeiro daquele ano na França (ZLOČINAC..., 2017). O governo sérvio solicitou a
extradição do líder kosovar para a Sérvia, o que foi negado pela França no final de abril de 2017 (Ibidem). Acompanhando televisão, mídia impressa e digital, constantemente ouvia que enquanto os principais comandantes sérvios estão presos em Haia (sede do ICTY), aqueles que cometeram crimes contra os sérvios estão soltos82. Veículos de mídia ressaltavam que a impunidade de Haradinaj revela a parcialidade das instituições ocidentais/internacionais, que privilegiam os outros povos com quem os sérvios travaram conflito na década de 1990, que seriam mais alinhados aos interesses ocidentais.
A relativização do conflito e a ideia de que a Sérvia carrega um fardo (injusto) de culpa pelos crimes de guerra também são reproduzidas pelos sujeitos com quem tive contato, revelando como eles também atuam no sentido de reparar a imagem que creem que o mundo ocidental tem deles. Por exemplo, no dia em que soube da libertação de Haradinaj conversei com Miroslav, membro do Partido Radical Sérvio em Valjevo, sobre o incidente em questão. Miroslav me disse:
Não é nenhuma novidade, Haia serve aos interesses ocidentais, Gotovina chacinou sérvios na Croácia e foi liberto, seu julgamento foi apenas uma alegoria para exibir uma falsa imparcialidade do tribunal. Agora Haradinaj, que assassinou sérvios no Kosovo, pode circular livremente pela Europa, exceto na Sérvia, mesmo depois de todos os crimes que cometeu.
Nesse relato, percebemos uma demanda por reparação, pois para Miroslav, os sérvios não receberam o mesmo tratamento que os outros lados nas guerras dos anos 1990 nos julgamentos internacionais. A Croácia, a Bósnia e o Kosovo foram supostamente beneficiados pelo ocidente – o ICTY assim como a própria comunidade internacional são vistos por eles como bastião dos interesses ocidentais –, enquanto a Sérvia carrega o fardo da culpa por lutar uma guerra pela sua liberdade e pela unificação dos sérvios. Miroslav também me afirmou que o líder de seu partido, Vojislav Šešelj, ficou preso em Haia entre 2003 e 2014 e que seu crime foi apenas defender83 que todos os sérvios compartilhassem o mesmo
82Apesar desse discurso ser comum na Sérvia, o site do Tribunal Criminal Internacional para a antiga Iugoslávia (ICTY), órgão responsável pelos julgamentos de violações aos direitos humanos durante as guerras da década de 1990, apresenta que das 161 pessoas julgadas, foram de fato sentenciados 62 sérvios, 18 croatas, 5 bosníacos, 2 montenegrinos, 1 macedônio e 1 albanês (ICTY, 2019). O tribunal encerrou seus trabalhos em 2017.
83Šešelj foi ao mesmo tempo uma liderança militar, política e ideológica durante o período de guerras de fragmentação da Iugoslávia. Além de liderança do Partido Radical, que se aliou a Milošević durante o período de conflitos, também fundou uma brigada paramilitar chamada de Četnici, em
território. Segundo ele, “O Partido Radical foi o partido que permitiu a fase democrática e a participação popular no início do século XX84, no entanto, por defendermos a união dos sérvios somos taxados de fascistas pelo ocidente”. Portanto, para Miroslav, apoiar a autodeterminação sérvia, reivindicar territórios onde sérvios são minorias e passam por violações é ser considerado fascista, extremista, nacionalista, é, portanto, retomar todo um imaginário ocidental construído historicamente sobre Bálcãs; enquanto que aqueles que cometeram crimes contra os sérvios, como croatas, bosníacos e albaneses, são isentos de culpa por se alinharem aos interesses ocidentais.
O Partido Radical Sérvio é abertamente defensor de posições extremas, sobretudo no que tange às políticas ocidentais. Como vimos no capítulo anterior, esse partido é um dos principais eurocéticos na Sérvia, defensor de uma aliança com a Rússia e da permanência do Kosovo no Estado sérvio. Apesar disso, o discurso de Miroslav não se resume à sua filiação partidária, já que essa noção do povo sérvio como injustiçado e vitimizado pelas políticas ocidentais é compartilhada por outros jovens. Srđan, por exemplo, que não se identifica com nenhum partido político, relatou a mim que muito do que se afirma sobre as guerras nos anos 1990 é propaganda, que houve diversos incidentes nos quais bosníacos atacaram civis sérvios, mas que foram totalmente ignorados pela mídia ocidental. Miroslav me afirmou, na mesma conversa citada anteriormente, que no natal ortodoxo de 1993 o Exército da Bósnia e Herzegovina (ARBiH - Armija Republike Bosne i Hercegovine) atacou a vila de Kravica na Bósnia oriental matando vários civis sérvios, e o ocidente
homenagem aos combatentes monarquistas da Segunda Guerra Mundial, recebendo o título de vojvoda (general) (CORREIA, 2010, p. 173). Os Četnici de Šešelj se envolveram no cerco e destruição de Vukovar na Croácia e nos massacres de Zvornik na Bósnia (Ibidem). Ideologicamente, Šešelj escreveu diversos textos e fez muitos discursos nos quais pregava a unificação dos sérvios num mesmo território, sendo que uma das principais causas de sua condenação de 10 anos pelo ICTY foi um discurso que realizou em 1992 defendendo a expulsão dos croatas da Voivodina.
84Segundo Correia (2010, p. 39), o Partido Radical Popular (Narodna radikalna stranka) teve origem nos ideais socialistas de defesa e representatividade das classes populares, sobretudo de camponeses. Fundado em 1881, quando chega ao poder no final do século XIX, passa a adotar uma ideologia nacionalista, propagando um nacionalismo de massas e dominando o cenário político sérvio até a década de 1920 (Ibidem). O Partido Radical foi extinto com a instauração do governo socialista em 1945. Em 1991, Šešelj funda o Partido Radical Sérvio (Srpska radikalna stranka), que também possui bases nacionalistas e que passa a possuir grande influência política no regime Milošević até