3. O mar virou Sertão: contextualização da área de estudo
3.4. Passado e presente do Parque Nacional Serra da Capivara
O Parque Nacional Serra da Capivara (PNSC) está localizado no Sudeste do Estado do Piauí e abrange os municípios de São Raimundo Nonato, Coronel José Dias, João Costa e Brejo do Piauí, entre as coordenadas 08° 26' 50'’ e 08° 54' 23'' de latitude sul e 42°19' 47" e 42° 45' 51" de longitude oeste (FUMDHAM, 1998; FUMDHAM, 2005) (Figura 11).
Com uma área de 129.953 hectares65, o PNSC é considerado prioritário para conservação da biodiversidade na Caatinga e foi classificado como uma área de extrema importância biológica (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE et al, 2002). O Parque fica a 530 km da capital do Estado, Teresina, e o acesso mais rápido66 se faz por meio de Petrolina, município pertencente à Mesorregião do São Francisco, no Estado de Pernambuco, a aproximadamente 300km do PNSC (BRASIL, 1994).
A região do Parque foi coberta pelo mar Siluriano-Devoniano entre 440 e 360 milhões de anos, ocorrendo um movimento tectônico por volta de 225-210 milhões de anos, levantando o fundo do mar e criando a serra. Nos tempos atuais, a região ocupa a fronteira entre duas grandes formações geológicas: a planície pré-cambriana da depressão periférica do rio São Francisco e a bacia sedimentar Piauí-Maranhão, separadas por uma cuesta muito pronunciada (FUMDHAM, 1998). Apresenta paisagens bastante variadas, com serras ou
cuestas e serrotes, chapadas ou planaltos, canyons, vales e planícies (FUMDHAM, 1998;
65 No ato de sua criação, tinha uma área de 100.000 hectares e somente foi ampliada a partir de um estudo feito
pelo Instituto de Pesquisas Antropológicas do Rio de Janeiro – IPARJ (FUMDHAM, 1998).
66 São as estradas que oferecem mais rapidez e facilidade de acesso para quem vem do Sul do Brasil, já que o
MARTIN, 2008). Para mais informações específicas sobre a geomorfologia do parque, ver FUMDHAM (1998; 2005; 2011).
Figura 11. Localização do Parque Nacional Serra da Capivara.
Fonte: FUMDHAM (1998).
Outra característica peculiar à região é a comprovação, por meio de análises dos sedimentos do Parque, das modificações climáticas locais, já que o clima é constituído por períodos de ciclos. Há como estimar, por exemplo, que entre 12 e 10 mil anos as chuvas começaram a rarear, até que passaram a dar lugar a longos períodos de seca, ao regime semi- árido (FUMDHAM, 1998). Pesquisas indicam que até nove mil anos atrás chovia muito na região, rios corriam, os vales eram férteis com vegetação e animais em abundância. A
temperatura atual na região é mais fria em junho, com média de 25ºC, máxima de 35ºC e mínima de 12ºC, sendo que no sopé da serra podem chegar a 10ºC à noite (FUMDHAM, 2005). O período mais quente, com média de 31º, máxima de 47º, no entanto, é durante a estação das chuvas (totalmente irregulares), entre outubro até metade de abril ou início de maio (FUMDHAM, 1998).
Muitos estudos também são feitos por meio do pólen (elemento da fertilização das plantas) fóssil que, por ser extremamente específico para cada espécie de planta, é possível se determinar quais os tipos de vegetação (relacionado ao clima) existiam em um determinado local (FUMDHAM, 1998). Atualmente, um dos rios que fazem parte da rede hidrológica da região, especialmente por atravessar as cidades de São Raimundo Nonato e Coronel José Dias da região, o Rio Piauí, afluente do Rio Parnaíba, é de curso temporário (MARTIN, 2008).
A criação da unidade de conservação foi uma iniciativa que partiu da equipe de especialistas da Missão Franco-Brasileira do Piauí, liderados pela arqueóloga Niède Guidon, de L’Ecole de Hautes Etudes em Sciences Sociales, de Paris. A equipe realiza trabalhos sistemáticos na região desde 1970 e, após inúmeras ponderações sobre a área, levaram no ano de 1975 ao conhecimento do poder público, na pessoa do então governador do Piauí, Dirceu Mendes Arcoverde, sua existência e importância (FUMDHAM, 1998; MARTIN, 2008). As principais motivações para a criação da unidade de conservação foram: fatores ambientais, pois representava o primeiro Parque Nacional situado totalmente no domínio das Caatingas, além de abrigar fauna e flora específicas e pouco estudadas; fatores culturais, já que onde se encontra uma das maiores e mais importantes concentrações de sítios arqueológicos das Américas; e fatores turísticos, por oferecer paisagens de uma beleza natural surpreendente, oferecendo uma alternativa econômica para a região (BRASIL, 1994; FUMDHAM, 1998).
O PNSC foi criado no dia 05 de junho de 1979 pelo Decreto n° 83.548 (ver Anexo B), publicado no Diário Oficial de 06/06/1979 (BRASIL, 1979). Após sua criação, passou cerca de 10 anos abandonado, por falta de verba federal, sendo alvo da ação de posseiros, caça e desmatamento ilegais (PESSIS, 1998). A partir da preocupação com esses acontecimentos, em 1986 é criada a Fundação Museu do Homem Americano - FUMDHAM (FUMDHAM, 2005). Além disso, havia “a necessidade de se manter um centro permanente de pesquisa para apoio aos integrantes de sucessivas missões arqueológicas” e a construção de um museu, com o financiamento da UNESCO e dos Ministérios da Cultura e da Educação, onde são mantidas e expostas as peças e coleções arqueológicas (MARTIN, 2008, p. 44). Com sede no município de São Raimundo Nonato, a entidade se constitui numa Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), declarada de utilidade pública estadual e federal (FUMDHAM,
2011). A Fundação assinou um convênio com o IBAMA em 1988 para a elaboração do Plano de Manejo da Unidade de Conservação (UC), que só foi entregue em 1991. Nesse mesmo ano, o Parque foi declarado como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO. Finalmente, em 1998, a FUMDHAM assinou um convênio com o IBAMA e tornou-se co-gestora do Parque, assumindo responsabilidade técnico-científica e pela manutenção da unidade (FUMDHAM, 1998; 2011). A Fundação também mantém convênio com inúmeras universidades brasileiras, tais como a USP, UNICAMP, UNESP, UFPE e UFPI, mediando e apoiando pesquisas na região (MARTIN, 2008).
Contíguas ao parque também foram criadas três Áreas de Preservação Permanente por meio do Decreto nº 99.193 de 12/03/90: Serra Vermelha/Angical com uma superfície de 8.500 ha; Serra do Cumbre/Chapada da Pedra Hume de 18.500 ha e Serra da Capivara/Baixão das Andorinhas de 8.000 ha (FUMDHAM, 1998). Além destas, existem Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) da FUMHDAM, localizadas no entorno do Parque. Contando com toda essa área, existem inúmeros reservatórios, naturais ou construídos pela Fundação em parceria com Ministérios e IBAMA à época, que comportam mais de 10 milhões de litros de água, utilizados para o manejo do Parque, uma vez que dão condições de sobrevivência a diversas espécies de animais durante a seca (FUMDHAM, 2005). Em torno do PNSC também há uma área de 10 km de largura que deve se constituir num cinturão de proteção ambiental, segundo o Art. 2 da Resolução nº 013 de 06 de dezembro de 1990 do CONAMA (ver Anexo C): “Nas áreas circundantes das Unidades de Conservação, num raio de dez quilômetros, qualquer atividade que possa afetar a biota, deverá ser obrigatoriamente licenciada pelo órgão ambiental competente” (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2011).
Cerca de 680 sítios arqueológicos (600 destes com pinturas e/ou gravuras rupestres) já foram registrados, embora esse número não seja definitivo. Mais de 170 destes estão preparados para visitação, possuindo escadas, passarelas e placas indicativas, além de 16 destes locais oferecerem acesso para pessoas com dificuldade de locomoção. O trabalho de preservação desse patrimônio é feito por meio da parceria entre a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Este último também é responsável pela vigilância do Parque, realizando rondas periódicas nas estradas e trilhas no perímetro da unidade (FUMDHAM, 2011). Ademais, o Parque Nacional Serra da Capivara é uma referência obrigatória para estudos sobre arte rupestre, visto que abriga uma densidade de registros não conhecida em nenhuma outra área na América (MARTIN, 2008).
As espécies da fauna encontradas no Parque são encontradas em outros biomas, sobretudo no Cerrado, com algumas exceções e, apesar de ainda ser pouco conhecida, é bastante representativa. Foram registradas 33 espécies de mamíferos (Reino Animal, Filo Chordata, Classe Mammalia) não-voadores, dentre as quais estão: Kerodon rupestris, conhecido popularmente como mocó, espécie endêmica da Caatinga, ou seja, exclusiva do bioma; Dasypus novemcinctus (tatu-verdadeiro) e Euphractus sexcinctus (tatu-peba), duas das espécies mais cobiçadas pelos caçadores na região; Dasypus septencinctus (tatu-china), muito rara e Tolypeutes tricinctus (tatu-bola), ameaçada de extinção; Tamandua tetradactyla (tamanduá-mirim ou lapicho), uma das espécies mais comuns no parque; Myrmecophaga
tridactyla (tamanduá-bandeira), extremamente rara e em risco de extinção; Sapajus libidinosus (macaco-prego); Callithrix jacchus (sagüi-de-tufo-branco); Alouatta caraya
(guariba), típica do Cerrado e Pantanal, mas que possui uma população relictual67 no Parque, habitando em áreas mais arborizadas, portanto mais úmidas, nos boqueirões e baixões;
Dusicyon thous (raposa ou cachorro-do-mato); Dusicyon vetulus (graxaim); Panthera onca
(onça-pintada); Puma concolor (onça-vermelha ou parda); Leopardus pardalis (jaguatirica);
Leopardus wiedii (maracajá-peludo); Leopardus tigrina (gato macambira); Herpailurus yaguaroudi (jaguarundi ou gato-vermelho); Eira barbara (irara); Procyon cancrivorus (mão-
pelada); Mazama guazoubira (veado catingueiro), mais comum, e Mazama americana (veado mateiro); Tayassu pecari (queixada) e Tayassu tajacu (caititu). Há registro também para o
Priodontes maximus (tatu-canastra), espécie atualmente extinta no Parque. Além destas,
existem 24 espécies de morcegos (FUMDHAM, 1998, 2005).
Foram identificadas 224 espécies de aves (Reino Animalia, Filo Chordata, Classe Aves) na região, sendo que 187 espécies no interior do Parque, segundo inventários realizados. Dentre estas, destacam-se 23 espécies endêmicas da Caatinga, dentre as quais estão: Paroaria dominicana (cabeça-vermelha); Picumnus pygmaeus (pica-pau-pigmeu);
Anopetia gounellei (beija-flor); Aratinga cactorum (periquito); Caprimulgus hirudinaceus
(curiango); Pseudoseisura cristata (casaca-de-couro); Sporophila albogularis (golinho);
Carduelis yarrellii (pintassilgo-do-nordeste); Agelaioides fringillarius (asa-de-telha); Herpsilochmus sellowi (choca-de-boné); Sakesphorus cristatus (choca-da-caatinga); Hylopezus ochroleucus (tem-farinha-aí); e os mal conhecidos e incomuns furnarídeos Gyalophylax hellmayri (joão-chique-chique) e Megaxenops parnaguae (bico-virado-da-
67 Significa dizer que é uma população remanescente, sobrevivente de outra época, comprovando que a região já
caatinga). Duas espécies que constam na lista oficial de espécies da fauna ameaçadas de extinção (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 2008) também ocorrem na área do Parque:
Penelope jacucaca (jacu) e Carduelis yarrellii (pintassilgo-do-nordeste) (FUMDHAM, 2005).
A lista, ao que tudo indica incompleta, de répteis (Reino Animalia, Filo Chordata, Classe Reptilia) se compõe em 19 espécies de lagartos e 17 espécies de serpentes. Entre estas últimas, as quais as mais comuns são: Phylodryas natterei e Oxybelis aeneus (ambas conhecidas popularmente como cobra-cipó); Spillotes pullatus (caninana); Boa constrictor (jibóia), muito visada por comerciantes devido a sua pele; Micrurus ibiboboca (coral verdadeira); Bothrops erythromelas e Bothrops newiedii (duas jararacas) e Crotalus durissus
cascavella (cascavel), essas 4 últimas espécies sendo peçonhentas, ou seja, consideradas
perigosas pelo senso comum. Entre os anfíbios (Reino Animalia, Filo Chordata, Classe Amphibia), foram identificadas 17 espécies, dentre as quais podem ser citadas os comuns sapos (Bufo granulosus e Bufo paracnemis); a jia (Leptodactylus labyrinthicus), que habita massivamente lagoas e poças após as chuvas; duas espécies de sapo-boi (Physalaemus cuvieri
e Physalaemus kroyeri); e a rapa-cuinha (Ololygon x-signata), presente, inclusive, nos
recipientes de armazenamento d’água dentro das residências humanas. Além destas, algumas espécies de pererecas arborícolas, a exemplo das do gênero Synax, comuns em florestas úmidas como a Mata Atlântica (FUMDHAM, 1998, 2005).
Existe, inclusive, o registro de uma espécie de Astyanax (Reino Animalia, Filo Chordata, Classe Osteichthyes) ainda não identificada, que habita um lago no fundo de uma caverna. Provavelmente, desenvolveu-se também toda uma fauna cavernícola ainda não estudada na área isolada (FUMDHAM, 2005). Estudos sobre a identificação e classificação de áreas prioritárias para a conservação na Caatinga apontam que o Parque Nacional Serra da Capivara possui muito alta ou extrema importância para os seguintes grupos: flora, anfíbios, répteis, aves e mamíferos (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE et al, 2002). Para uma lista detalhada das espécies do PARNA Serra da Capivara ver o Anexo D.
Apesar de ser uma área protegida por lei e com uma série de restrições, o PNSC encontra-se sob forte pressão antrópica, onde os principais problemas apontados são: desmatamento e corte de madeira para combustível ou para caieiras ou cerâmicas; caça desenfreada e eliminação de espécies (FUMDHAM, 1998). Para auxiliar no trabalho de manutenção e fiscalização do PNSC, foram construídas 30 guaritas (9 de acesso turístico), que mantém constante comunicação entre elas mesmas, com a Fundação e com o ICMBio. São de responsabilidade das funcionárias, que controlam entradas e saídas de visitantes e dos atuais 110 funcionários do Parque (FUMDHAM, 2011).