3. A INTERTEXTUALIDADE E AS VANGUARDAS
3.3 Passagens, de Walter Benjamin
Escrito entre 1927 e 1940 – quando foi interrompido pela morte do filósofo – Passagens (2006) se constitui de um conjunto monumental de fragmentos de textos comentados por Walter Benjamin (1892-1940). Esses trechos de obras foram retirados da reunião de mais de oitocentas fontes distintas, coletados durante suas pesquisas na Biblioteca Nacional de Paris e em outras bibliotecas, acabaram sendo agrupados em um volume superior a mil páginas. Inicialmente concebido para se tornar um estudo denominado Paris, Capital do Século XIX, o livro acabou se modificando. As
“passagens” às quais o título de Benjamin faz referência são as galerias parisienses do século XIX que, para ele, instauravam um acesso do público ao privado e, dessa forma, estabeleciam uma nova forma de sociabilidade, ligada à modernidade e à burguesia.
Em alemão, a obra se chama Das Passagen-Werk (A obra das passagens), entretanto, segundo Marcio Seligmann-Silva, esse título pode dar a impressão de que o trabalho foi concluído, o que não se efetivou. Assim, nomeando o livro de Passagens, os tradutores brasileiros puderam manter “a importante polissemia do termo
‘passagem’, que significa tanto as galerias comerciais de Paris, como também passagens de textos, passagens de eventos, da história etc.” (SELIGMANN-SILVA, 2007, p. 104-105). Porém, para Seligmann-Silva, a opção por traduzir as citações em alemão e em francês para o português acabou por retirar uma dessas camadas de sentido dada à expressão passagem, que poderia se referir também à contínua passagem de uma língua à outra, na forma como a obra foi organizada por Benjamin, isto é, em alemão e em francês, sem apresentar traduções.
Em Passagens também é possível perceber a construção dos argumentos de outras obras de Benjamin, como as teses Sobre o conceito de história (1940), uma de seus escritos fundamentais, no qual se explicita o fato de que Benjamin questionava prontamente a noção de progresso e via a história sob o viés da ruína, do “historiador-catador” que, segundo Seligmann-Silva “salva os “detritos” da história, visa à interrupção de seu curso, a que chamamos progresso, mas que na realidade é apenas o avanço da destruição” (SELIGMANN-SILVA, 2007, p. 108).
“Escrever a história significa (...) citar a história. Ora, no conceito de citação está implícito que o objeto histórico em questão seja arrancado do seu contexto”, lemos em um dos fragmentos de Passagens (N 11,
3). O gesto do colecionador de arrancar as coisas de seu contexto, assim como o gesto do catador que “reencanta” o que fora descartado pela sociedade de consumo, é paralelo ao gesto do “materialista histórico” que, com sua historiografia-montagem, visa romper com o continuum da dominação. Essa libertação para Benjamin é tanto dos homens como do próprio passado (SELIGMANN-SILVA, 2007, p.
108).
Assim, há ali, por meio do recorte e da colagem um empreendimento que busca dramatizar na forma do texto a própria impossibilidade de compreender a história como uma evolução contínua, rumo a algo sempre “melhor”. Além disso, dramatiza-se também a própria ideia da história e da narrativa que se estabelece a partir dela como uma linha reta, como uma progressão.
De acordo com Rolf Tiedemann, responsável pela edição alemã: “Os fragmentos das Passagens propriamente ditas podem ser comparados ao material de construção de uma casa da qual apenas demarcou-se a planta ou se preparou o alicerce”. Disso é possível apreender a razão pela qual a obra é colocada também como work in progress.
Ainda, no mesmo parágrafo, prossegue Tiedemann: “Ao lado das fundações, encontram-se amontoadas as citações a partir das quais seriam erigidas as paredes”
(TIEDEMANN, 2007, p. 14). Segundo Willi Bolle, organizador da edição brasileira do livro em questão:
Trata-se de uma das obras historiográficas mais significativas do nosso tempo. A partir de Paris, a "capital do século 19" – especialmente suas galerias comerciais como "arquipaisagem do consumo" – é apresentada a história cotidiana da modernidade com figuras como o flâneur, a prostituta, o jogador, o colecionador e os meios de uma escrita polifônica que vai da luta de classes até a moda, a técnica e a mídia.
Este hipertexto com mais de 4.500 "passagens" constitui um dispositivo sem igual para estudar a metrópole moderna e, por extensão, as megacidades do Terceiro Mundo.
(BOLLE, 2006, s.p.)
Aspecto interessante na citação de Wille Bolle é a caracterização dessa escrita como polifônica, já que ela advém de uma variedade gigantesca de textos e abordagens da cidade. Perloff registra que os documentos oficias “por exemplo, o relato de F. A.
Beraud dos éditos policiais regulamentando a prostituição em 1830 no Konvolut O” são ali colocados “lado a lado com um extrato de Baudelaire ou Rimbaud, de uma canção popular, historinha, anedota cômica, cartum, lenda ou mito” (PERLOFF, 2013, p. 85).
Diluindo as fronteiras entre os tipos de textos utilizados por Benjamin, gerando um
“efeito” caleidoscópico. Marjorie Perloff prefere explicar essa imagem por meio da noção de sampling:
(...) A técnica dos Konvoluten17 é, portanto, menos uma montagem do que um sampling, uma técnica definida literalmente como o ato de tornar uma porção ou amostra (sample) de uma gravação de som e reutilizá-la como um instrumento ou elemento de uma nova gravação.
A forma do sampling, ainda, imita bem o movimento do próprio flâneur através das “mascaradas do espaço” (M1a4), que é o mundo das próprias Passagens: move-se à vontade da loja de brinquedos para o rinque de patinação, para o bar, para a loja de tapetes orientais, de um poema citado à fotografia, à documentação de guia de viagem, sem um mapa definido ou plano mestre. (PERLOFF, 2013, p. 70-71).
Os Konvoluten são uma forma de mostrar, no corpo do texto, o movimento de trânsito pela própria cidade. Wille Bolle, na citação mais acima, recorre à ideia hipertexto para tratar desse tipo de deslocamento, confirmando as questões que eu tentava abordar acima, já que a obra de Benjamin abre um sem número de links para outros textos que ajudam na construção da história dessa Paris do fim do século XIX e lança mão de uma forma de escrita que permanecerá ao longo do restante do século.
Perloff também ratifica essa vocação para o mundo da internet de alguns textos: “As Passagens de Benjamin tornaram-se as passagens digitais que fazemos através de vídeos do YouTube, navegando de um link do Google para o outro e pelas pontes fornecidas por nossos sites de buscas e páginas favoritas da Web”. A autora acrescenta ainda que, nesse “novo mundo-arcada, escrever poesia não ficou mais fácil do que era antes. Apenas diferente” (PERLOFF, 2013, p. 93). Para Seligmann-Silva:
Benjamin une o plano geográfico ao micrológico da escritura-cópia.
Suas cópias, por sua vez, deveriam ser juntadas segundo o princípio da montagem: “Método deste trabalho: montagem literária. Não tenho nada a dizer. Somente a mostrar” (N 1a, 8; eu grifo), lemos em um famoso fragmento de Passagens. É importante lembrar também o que ele quer mostrar: “os farrapos, os resíduos”. Como o alegorista-colecionador barroco, ele se volta para o pequeno e aparentemente
17 No livro O gênio não original consta a seguinte nota quanto ao termo: “Segundo os tradutores, Konvolut, literalmente um ‘apanhado’, deriva não do próprio Benjamin, mas de seu amigo Theodor Adorno, que havia manuseado o manuscrito, enviado a ele em 1947; ele foi escondido por Georges Bataille na Bibliotèque Nationale durante a Segunda Guerra Mundial. Konvolut é um termo estranho em inglês [e em português também], por causa do cognato “convoluted” (convoluto), mas os tradutores decidiram mantê-lo assim, em vez de traduzirem por folha, arquivo ou pasta (Arcades, XIV).”
(PERLOFF, 2013, p. 281) [Comentário do tradutor da obra, Adriano Scandolara]
sem importância para construir seu painel móvel do século XIX.
(SELIGMANN-SILVA, 2007, p. 109)
Assim, é interessante notar o quanto as ferramentas disponíveis no nosso tempo parecem ser mais eficazes para analisarmos textos que foram escritos antes mesmo da segunda metade do século, o que demonstra não só a dimensão inovadora dessas propostas, mas também o quanto o mundo contemporâneo é baseado, sobremaneira, em linguagens construídas dessa forma. A ideia do “painel móvel” como colocada por Seligmann-Silva instaura justamente a ideia de que não é possível traçar uma linha contínua dessa grande narrativa do século XIX: só é possível caminhar entre os fragmentos e os escombros, na tentativa de elaborar “uma” narrativa entre tantas possíveis.
Se ele escreve que queria apenas “mostrar” e nada dizer, não é menos verdade que boa parte dos fragmentos é de comentários-críticos seus.
Benjamin coloca-se não apenas na posição do copista, mas também na do comentarista e do crítico. Sem contar que, como grande teórico do colecionismo que era, ele sabia que o colecionador ao selecionar o que vai para sua coleção já está, de certo modo, dando uma forma sua ao mundo. (SELIGMANN-SILVA, 2007, p. 110)
Benjamin se mostrava no texto das Passagens não só enquanto aquele que seleciona os excertos e faz sua montagem, mas também como um “comentarista”, ideia que será ainda debatida posteriormente, já que é importante para a produção atual. Ou seja, existe mais uma dimensão que poderia desmobilizar qualquer tentativa de entender a obra de Benjamin como um mero “cortar e colar”. Além de não ser simples coletar e organizar todas essas citações, há ainda o trabalho de produção de sentido sobre cada uma delas, complexificando a experiência da montagem, tal como veremos ser feito contemporaneamente.
Porém, antes de entrar definitivamente no século XXI e dando sequência a essas reflexões, gostaria de pensar especificamente em um certo percurso da poesia brasileira produzida no século XX, no qual é possível encontramos algumas amostras da presença dos procedimentos de intertextualidade que dialogam diretamente com muito do que se deu no cenário europeu.