ABORDAGENS TEÓRICAS, CATEGORIAS CONCEITUAIS, TERMINOLOGIAS SUBSIDIÁRIAS E MÉTODOS
1.3 PATH DEPENDENCE
1.3.1 PATH DEPENDENCE E A CONTRIBUIÇÃO DAS CIÊNCIAS ECONÔMICAS: MECANISMOS DE RETORNOS CRESCENTES
Uma ideia original e interessante envolvendo tecnologia poderia explicar o domínio de certos produtos ou configurações no mercado, a saber: o desenvolvimento envolve elementos aleatórios mas, uma vez que uma determinada trajetória seja escolhida, pode gerar uma situação de rigidez estrutural, constrangendo os passos futuros.
Os reconhecidos economistas David (1985) e Arthur (1989; 1994) desempenharam papel relevante na introdução do conceito path dependence na área tecnológica. Arthur construiu seus pressupostos tendo como base o trabalho de David, que procurava explicar a configuração dos teclados usados nos computadores. A explicação que ele encontrou é que, a despeito da existência de opções comprovadamente mais eficientes, o modelo “QWERTY” acabou sendo adotado em razão das interfaces na demanda e na produção do mercado de máquinas datilográficas na década de 1980. Arthur identificou a força das escolhas passadas, que poderia explicar inclusive os casos distantes do supostamente racional. Por razões imprevistas, o modelo de teclado usado nas máquinas datilográficas adquiriram uma vantagem inicial insuperável pelos computadores pessoais que estavam sendo lançados ao mundo. E o que David e Arthur dizem é que o atributo nuclear de um
processo que gera path dependence é o mecanismo de estrutura circular de autorreforço. 22
Segundo Pierson (2004), tradicionalmente os economistas concentraram-se na procura por um único equilíbrio. O interesse nisso seria em função da ideia de um mundo potencialmente previsível e eficiente. O mecanismo de interesse dos economistas era portanto retornos decrescentes: “feedback negativo tende a estabilizar a economia, porque quaisquer grandes mudanças serão compensadas pelas reações importantes que elas geram (...). O equilíbrio marca o “melhor” resultado possível sob as circunstâncias: o mais eficiente uso e alocação de recursos.” (ARTHUR, 1994, apud PIERSON, 2004, p. 22) Porém, com o tempo, os economistas começaram a prestar atenção ao mecanismo de retornos crescentes,23
em que cada incremento adicionado a uma particular linha de atividade rende maiores em vez de menores benefícios. Em uma larga gama de temas, incluindo locação espacial de produção, o desenvolvimento de comércio internacional, as causas do crescimento econômico e a emergência das novas tecnologias, os argumentos de path dependence se tornaram prevalentes. (PIERSON, 2004, p. 22)
De tais referências partiu North (1990) para explicar o desenvolvimento das economias nacionais, tendo como base teórica/metodológica o conceito de path dependence. Para North, compreender as escolhas do presente requer rastrear o caminho percorrido pelas instituições até um dado momento e identificar o processo de interação entre os padrões.
A mudança tecnológica e a mudança institucional são as chaves básicas para a evolução social e econômica e ambas exibem características de path
dependence. Pode um único modelo responder por ambas as mudanças
tecnológica e institucional? Eles têm muito em comum. Retornos
crescentes é um ingrediente essencial para ambos (NORTH, 1990, p. 103,
grifo nosso).24
Para os economistas “path dependentistas” alguns consideram como fatores de resiliência ou traços do setor tecnológico e do contexto social, no qual se inserem, resultam em estabilidade ou reprodução do path dependence e levam a situações de
22O conceito path dependence também é chave nos trabalhos dos economistas adeptos da “teoria
evolucionária”, especialmente Nelson e Winter (1982).
23
Para Thelen, “retornos crescentes” pode ser entendido como “uma situação em que uma vez que uma particular trajetória é escolhida, atores se adaptam às instituições existentes em maneiras que os empurram ainda mais ao longo dessa trajetória (e ao fazer isso, também tornam o caminho não escolhido cada vez mais remoto).” (THELEN, 1996, p. 392)
lock-in, traduzido aqui como “engessamento”. São eles: (1) instalações ou custos fixos – quando tais custos são altos, exigindo escala de produção, há um forte incentivo a resistir a mudanças; (2) efeitos de aprendizagem – quando se domina a tecnologia há tendência em querer tirar benefícios da aprendizagem ao longo do processo e, portanto, resistir às mudanças; (3) efeitos de coordenação – quanto maior a rede de usuários maior o enredamento da tecnologia; (4) expectativas de adaptação – estão ligadas a efeitos de coordenação, mas especialmente ao caráter autorrealizável da expectativa, ou seja, todos aqueles envolvidos possuem interesse em que as expectativas projetadas de maior uso se tornem realidade (ARTHUR, 1994; PIERSON, 2000; PIERSON, 2004).
North argumentou que todos esses fatores que carregam o mecanismo de feedback positivo, entendido aqui como retorno positivo, notados por Arthur no setor tecnológico poderiam ser aplicados na avaliação do desenvolvimento das instituições: custos de instalação, efeitos do aprendizado, efeitos de coordenação (enredamento com outras instituições – contratos, atividades complementares, expectativas de adaptação – segurança normativa). (NORTH, 1990)
North inclusive notou a pertinência de aplicar o mecanismo de feedback positivo também a arranjos institucionais, ou seja, a um complexo de instituições. “Arranjos institucionais induzem a formas de complementaridade organizacional, o que por sua vez pode encorajar o desenvolvimento de novas instituições complementares.” (PIERSON, 2004, p. 27) Essa ideia de path dependence existente no âmbito mais abrangente de uma rede de instituições ou organizações interagindo de forma complementar também aparece em Pierson e Skocpol (2002, p. 7).
Para Thelen (1999, p. 385), a noção de retornos crescentes de fato aplica-se à política, entretanto o modelo “QWERTY” parece-lhe muito “contingente e muito determinístico”. Contingente, porque naquele momento da escolha inicial – “momento crítico” ou conjuntura crítica – o caminho estava livre, bastante acessível, não possuía filtros; o que não é o caso da política, onde a existência de uma “tela em branco [em que se inscrevem as possibilidades] é uma raridade”. Para a autora, a vasta literatura sobre conjuntura crítica mostra – fazendo o caminho de volta das trajetórias divergentes e situando-as junto às condições antecedentes ou ao tempo, sequenciamento e interação de processos político-econômico – que nem todas as opções estão disponíveis a qualquer momento. Note-se que conjuntura crítica relacionada ao conceito path dependence significa o momento em que se opta por
uma solução (dentre outras existentes), direcionando dessa forma o curso das ações futuras.
Além disso, Thelen (1999, p. 385) aponta que o tal modelo é muito determinístico, porque “no mundo empresarial e de usuários de tecnologia, adaptação ao padrão significa adotá-lo; aqueles que não se adaptam perdem, e – mais importante – os perdedores desaparecem”, ou seja, saem fora do mercado. Entretanto, na política o cenário é bem mais complexo, caracterizado por relações assimétricas de poder e por conflitos distribucionais, que só fazem aumentar a assimetria de poder (HALL, 1986). E distintamente do ambiente corporativo, os perdedores não necessariamente são excluídos, e os termos da adaptação podem não ter nada a ver com “vestir a camisa” da instituição. A adaptação pode variar, o que envolve desde recluir, aguardando até que as condições estejam favoráveis, até permanecer dentro da instituição, porém trilhando metas próprias ou subvertendo as regras.