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OS EUA E AS NEGOCIAÇÕES DO SETOR DE SERVIÇOS NO SISTEMA MULTILATERAL DE COMÉRCIO: GENERAL AGREEMENT ON TRADE IN SERVICES (GATS) – RODADA

2.4 A DINÂMICA DE CONCESSÕES DOS NEGOCIADORES AMERICANOS NO GATS

2.4.2 PROCEDIMENTO DE LISTAR OS COMPROMISSOS: LISTA POSITIVA

VERSUS LISTA NEGATIVA

Os negociadores americanos manifestaram preferência pelo procedimento Lista Negativa, modelo que já havia sido apresentado no âmbito da OCDE. O princípio desse modelo é liberalizar tudo, exceto o que aparece especificado em lista e as respectivas ressalvas. Por outro lado, a grande maioria dos interlocutores preferiam o procedimento Lista Positiva, da qual constariam apenas os setores que seriam realmente objeto de liberalização.

Os negociadores americanos argumentavam que um procedimento baseado em listas de demanda e de oferta poderia ser comprometido pela pressão do tempo sobre o GNS. “Havia limitações de natureza puramente logística sobre o que poderia ser alcançado antes do final da Rodada em termos de reversões efetivas das restrições existentes ao comércio de serviços.” (WTO.MTN.GNS/37, 21 set. 1990, p. 10)

A despeito da forte pressão exercida pelos americanos, a Lista Negativa foi rejeitada, pois os demais negociadores não estavam dispostos a ceder mais do que exigia a consolidação da situação regulatória em prática naquele momento. Os negociadores americanos rebatiam, dizendo que a simples consolidação da situação regulatória isentaria arbitrariamente um número de questões que gostariam justamente de abordar nas negociações (WTO-MTN.GNS/37, 21 set. 1990, p. 10).

Segundo Peter Gallagher (GALLAGHER, 2016, p. 2),57 o procedimento Lista Positiva foi escolhido porque: (1) era mais fácil de se criar, pois poucos governos tinham capacidade ou motivação para pesquisar a série completa de leis e regulamentações sobre serviços no tempo disponível; (2) era menos exigente, pois em função da relutância dos países em desenvolvimento em aderir ao GATS, as metas iniciais acabaram sendo modestas, “era uma forma de preparar o caminho para

57Peter Gallager era um dos membros da delegação australiana durante a Rodada Uruguai que

defendiam a Lista Negativa, fazendo questão de lembrar que o primeiro APC a adotar o procedimento foi o acordo Australia-New Zealand Closer Economic Relations Trade Agreement (ANZCERTA)

negociações futuras”; e (3) era potencialmente progressiva, “uma lista positiva, que identificava barreiras transfronteiriças e de investimento, parecia promover o aperfeiçoamento progressivo e o aprofundamento das listas nacionais numa base mais ‘granular’ do que seria possível numa abordagem de lista negativa.”

A decisão final configurou um modelo em que cada membro começaria apresentando uma Lista Positiva, elencando setores e subsetores em que estavam contraindo obrigação de liberalização. Para cada setor e subsetor, seriam listados apenas os modos de fornecimento sujeitos à liberalização. Assim, para cada modo, haveria a opção de prover uma lista especificando limitações e condições referentes a AM e a TN. Se nada constasse, significava que os quatro modos seriam liberalizados e sem qualquer ressalva. Já o princípio NMF teria aplicação geral, ou seja, seria obrigatoriamente respeitado.

Os negociadores americanos rejeitaram prontamente a proposta. O raciocínio deles era que, se TN e AM fossem negociados em bases setoriais, os mercados externos poderiam permanecer legalmente fechados às empresas transnacionais americanas (com sede nos EUA). Com a adoção do NMF incondicional, diferentemente, todas as concessões feitas por eles se estenderiam aos demais automaticamente (DRAKE e NICOLAIDIS, 1992, p. 86). Carla Hills, então Representante de Comércio, dizia que o princípio NMF tinha que ser condicional, funcionar com contrapartida, pois do contrário não haveria incentivo a movimentos de abertura.

Nesse contexto, o apoio doméstico nos EUA se fragmentou. Os sindicatos de trabalhadores, as indústrias concorrentes dos setores importadores, o setor marítimo e até mesmo empresas que no início apoiaram a iniciativa de institucionalização do comércio de serviços começavam a reavaliar suas preferências. Como a economia doméstica passava por crise naquele momento, os termos e condições do acordo multilateral em serviços apenas promoveriam mais competição e não trariam vantagens, do ponto de vista de agentes econômicos e de trabalhadores americanos.

A Coalition of Services Industries (CSI), ou seja, a Coalizão das Indústrias de Serviços denunciou o acordo como uma tremenda derrota na tentativa de promover o comércio liberal. Em vista disso, a delegação americana anunciou em julho de 1990 que não aceitaria comprometer os setores de transporte marítimo, aviação civil e serviços básicos de telecomunicações, a menos que negociasse o NMF, ou seja, que o

tornasse condicional. Além disso, o prazo (dezembro de 1990) não poderia ser cumprido.

Assim foram colocadas sobre a mesa de negociação duas questões que seriam alavancas psicológicas a atingir os interlocutores: o princípio NMF, um dos pilares do multilateralismo, e o não encerramento das negociações no prazo previsto esbarraria no mecanismo do fast track – que teria de ser renegociado junto ao Congresso, pois expiraria em março de 1991. Os negociadores europeus desconfiavam que os americanos estivessem blefando.58 De qualquer maneira, quando setores de maior interesse para determinados interlocutores foram retirados da mesa de negociação, o resultado foi um desincentivo geral, e a negociação entrou em impasse. Nessa situação, alguns negociadores de países desenvolvidos melhoraram discretamente suas ofertas, e, conforme Drake e Nicolaidis (1992, p. 87-88), esse foi o gancho para que a delegação americana voltasse atrás e afirmasse que sustentaria o princípio NMF incondicional como obrigação geral, desde que alguns setores fossem excluídos.

Assim, no Artigo II da minuta do GATS, de 22 de novembro de 1990, consta que o NMF incondicional deveria ser aplicado somente àqueles serviços e modos de fornecimento elencados nos cronogramas nacionais. Por outro lado, o Artigo VII prevê algumas exceções, validando de alguma forma o princípio da reciprocidade estrita, o que seria necessário para acomodar a situação da UE (WTO.MTN.TNC/W/35, 26 nov.1990, p. 334-43; WTO.MTN.TNC/W/35, Rev.1, 3 dec. 1990, p. 334-43).

No que diz respeito a AM, o Artigo XVI da Parte III (Compromissos Específicos) da referida minuta estabelece que o fornecedor de determinado serviço pode escolher o modo de fornecer o serviço, mas somente dentre os modos ofertados pelo respectivo país importador de acordo com seu cronograma. Lembrando que os princípios TN e AM tornaram-se, diferentemente do que pretendiam defensores mais entusiasmados da liberalização do comércio de serviços, compromissos específicos negociáveis. Significa dizer que ficou acordado que os governos poderiam escolher setores, subsetores e modos de fornecimento que seriam objetos de oferta para liberalização, e sobre eles seria aplicado o princípio NMF. Desse modo, alguns

58“Conforme o que Willy De Clercq, Comissário Europeu, concluiu, “Muito do que EUA diz, do que

promete nessas conversações é blefe. [Os americanos] estão demandando sobre todos nós o que eles mesmo não podem defender.”” Citado em Drake e Nicolaidis (1992, p. 87).

setores ficariam de fora e constariam de anexos específicos, sobre os quais o princípio NMF seria condicional.

Como resultado, o acordo-quadro do GATS por si só não forçaria a abertura do setor de serviços, mas seria um guarda-chuva sob o qual os governos apresentariam suas respectivas ofertas e tentariam pressionar seus interlocutores a fazerem o mesmo e em bases recíprocas. Definitivamente esse não era o modelo desenhado pelos idealizadores da institucionalização do comércio de serviços e também não era o modelo preferido dos negociadores americanos.

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