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Penitenciárias Industriais de Guarapuava (PR) e Cariri (CE)

3 SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO

3.1 CRISE DA EXECUÇÃO PENAL NO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO

4.1.4 Modelo brasileiro

4.1.4.1 Penitenciárias Industriais de Guarapuava (PR) e Cariri (CE)

Em 12 de novembro de 1999, a experiência brasileira pioneira de privatização de presídios, ocorreu no estado do Paraná, na Penitenciária Industrial de Guarapuava (PIG), destinada a alojar 240 (duzentos e quarenta) detentos masculinos do regime fechado. O presídio foi construído com recursos dos Governos Federal e Estadual, tendo como custo total (inclusos: projeto, obra e

circuito de TV) o valor de R$5.323.360,00, sendo 80% deste valor, proveniente de Convênio com o Ministério da Justiça e 20% de recursos provenientes do Estado

(DEPEN-PR, sem ano).

Na ocasião, foi adotado o modelo de gerenciamento através de parcerias entre ente poder público e privado, semelhante ao adotado na França, no quadro de qual o quadro de segurança, possui aproximadamente 15% dos presídios sob Administração compartilhada (SCHELP, 2009).

Conforme informações do Departamento Penitenciário do Estado do Paraná – DEPEN/PR:

A Unidade foi concebida e projetada objetivando o cumprimento das metas de ressocialização do interno e a interiorização das Unidades Penais (preso próximo da família e local de origem), política adotada pelo Governo do Estado do Paraná, que busca oferecer novas alternativas para os apenados, proporcionando-lhes trabalho e profissionalização, viabilizando, além de melhores condições para sua reintegração à sociedade, o benefício da redução da pena.

[...] No barracão da fábrica trabalham 70% dos internos da Unidade, em 3 turnos de 6 horas, recebendo como renumeração de 75% do salário- mínimo; os outros 25% são repassados ao Fundo Penitenciário do Paraná, como taxa de Administração, revertendo esses recursos para melhoria das condições de vida do encarcerado.

Em Guarapuava, a empresa privada Humanitas - Administração Prisional Privada S/C Ltda., estava incumbida de fornecer a segurança interna do presídio, bem como de proporcionar a alimentação, hospedagem, higiene, vestuário, assistência médica, psicológica, odontológica, jurídica e recreação, e ainda, prestando serviços de manutenção no local (CORDEIRO, 2006).

Graças as parcerias firmadas entre o Estado do Paraná e empresas da região, o complexo de prédios da Penitenciária Industrial de Guarapuava (PIG) abriga uma fábrica de móveis estofados (Azulbrás) e outra de prendedores de madeira (Estilo Palitos).

Todas utilizam os detentos como mão-de-obra. A mesma política vale para um convênio feito entre o Estado e a Humanitas para contratar internos como funcionários para trabalhar na limpeza e na cozinha da PIG.

A política apresenta vantagens consideráveis. A primeira é oferecer ao detento a oportunidade de aprender um trabalho que pode ser útil ao final de sua pena. De cada três dias trabalhados na PIG, um é abatido na pena (CORRÊA, 2002, não paginado).

A adoção da proposta de Guarapuava obteve êxitos nos resultados referentes aos índices de reincidência dos presos, onde anteriormente no país eram de 70% e com a implantação, alcançou-se o índice de 6%, baseado na experiência

adotada. Houve concretos e satisfatórios efeitos na reintegração dos presos ao convívio em sociedade, bem como no gerenciamento e manutenção do presídio (CORRÊA, 2002).

Registre-se que, em dois anos, nenhuma rebelião ou fuga ocorreram. Todos os presos trabalham, muitos estudam e todas as condições de higiene e saúde são garantidas pelo Estado e fornecidas pela administradora privada. A comida é servida de forma que o preso abastece seu prato à vontade, terminando com o deplorável expediente, que nutre a corrupção, de se ter que comprar um bife ou duas batatas a mais (D’URSO, 2016, não paginado).

O êxito no desenvolvimento da proposta também é alvo de comentários positivos, realizados pelo advogado Alessandro Teles, em seu artigo publicado no site jurídico Canal Ciências Criminais:

A ideia de privatização do sistema penitenciário é um assunto novo no Brasil e no mundo. Atualmente tem-ses no Brasil dois presídios na modalidade terceirizada, e o primeiro a ser instalado em território nacional foi na cidade de Guarapuava (PR), há dois anos.

Há de se ressaltar que, nesses dois anos de funcionamento, nenhuma rebelião ou fuga ocorreu. Todos os presos trabalham e estudam, tendo suas necessidades humanas básicas garantidas pelo Estado e fornecidas pela administradora privada. O segundo fica em Juazeiro do Norte (CE), obtendo também os mesmos resultados satisfatórios de Guarapuava (TELES, 2017, não paginado).

Contudo, após quatro anos de atuação, percebeu-se a inviabilidade jurídica do modelo implantando ao ordenamento jurídico, passando assim os estabelecimentos prisionais novamente ao controle do Poder Público, ao passo que os contratos formalizados com as empresas privadas chegam ao final. Em 2006, a parceria extinguiu-se e a obrigação da prestação dos serviços ficou a encargo apenas do Estado.

A experiência na Penitenciária Industrial de Guarapuava (PIG) fomentou, posteriormente, a expansão deste novo método de gestão, incentivando a inauguração da Penitenciária Industrial Regional do Cariri, situada em Juazeiro do Norte (CE), em 22 de janeiro de 2001, a qual possuía alojamento para até 544 (quinhentos e quarenta e quatro) presos, os quais possuíam entre 20 e 28 anos. Segundo estudos realizados por Cordeiro (2006, p. 02-03):

[...] As instalações da Penitenciária Industrial Regional do Cariri (PIRC) são diferentes de tudo aquilo que passou a ser sinônimo de prisão, pois ali não há celas superlotadas, com presos se revezando para poderem dormir, não há alimentação de péssima qualidade, não se verificam condições insalubres nos alojamentos ou vivências, tampouco faltam espaços para os encontros íntimos.

Esta gestão mista formalizou-se mediante contrato de concessão com a Secretaria de Justiça do Estado do Ceará, cabendo ao Estado pagar determinada quantia para a empresa privada e fiscalizar todos os serviços por ela fornecidos.

A segunda experiência no Brasil ocorre em Juazeiro do Norte (CE), com os mesmos resultados satisfatórios, destacando-se que os presos, que também trabalham, o fazem confeccionando joias, sem que tenha havido qualquer incidente. Tais experiências são um sucesso e precisam ser observadas, sem paixões, para se constatar o óbvio: que essa nova forma de gerenciar cadeias é um processo irreversível no Brasil diante do sucesso obtido. Basta de tanta injustiça e indiferença (D’URSO, 2016, não paginado).

A fim de regularizar a situação das penitenciárias privatizadas que não possuem dispositivo legal para implantação, a Assembleia Legislativa do Ceará, elaborou através do Projeto de Lei nº 51/2000, o escopo de autorizar a privatização dos presídios do estado do Ceará. No entanto, o referido Projeto acabou sendo desaprovado pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação.

Mesmo com demonstrações de melhorias trazidas pela privatização, em julho de 2007, em virtude de ação civil pública contra o estado do Ceará e a empresa CONAP (Companhia Nacional de Administração Presidiária), devido às irregularidades no processo de implantação do modelo de gerenciamento, por determinação da Justiça Federal, as unidades prisionais foram reintegradas à Secretaria de Justiça do Ceará (SEJUSC, 2007).

Alegavam-se nas referidas ações civis públicas diversos problemas no processo e forma de contratação da empresa privada. Divergências na publicação do contrato no Diário Oficial, a não realização de licitação para contratação da empresa, concessão não regulamentada através de lei, entre outras alegações, ensejaram que o contrato entre ente poder público e privado fosse findado, a fim de não ferir os demais princípios de funcionamento da máquina pública (CORDEIRO, 2006).