POSSÍVEIS RELAÇÕES ENTRE AS IDÉIAS DE MORIN E LIPMAN
2 Pensamento de ordem superior / pensamento complexo
Para Lipman, o pensamento de ordem superior, também chamado de “complexo” ou de “pensar bem”, é conceitualmente rico, coerentemente organizado, persistentemente investigativo e, ainda, criativo, crítico e cuidadoso. É um pensar rico em atos mentais que, durante as deliberações, colaboram ou colidem entre si à medida que as idéias se desenvolvem a partir de outras idéias, quando elaboramos nossos cursos de pensamentos individualmente ou quando dialogamos com os outros ou avaliamos suas razões. Interessante em Lipman é sua reiterada chamada de atenção para a necessidade de, além do rigor e da criticidade, deixarmo- nos guiar para onde a investigação nos conduz. O curso do pensamento investigativo, individual ou coletivamente realizado, exige regras ou métodos, mas não se prende a eles definitiva ou exclusivamente. Os caminhos se fazem ao caminhar.
98 Essas idéias são análogas às de Morin. Para este, o pensamento está em constante desequilíbrio, autogerando-se a partir de um “dinamismo dialógico” ininterrupto, formando um circuito reflexivo ou, melhor, um “turbilhão”; por esse motivo necessita de “permanente regulação interna” através dos “antagonismos complementares” que se controlam uns aos outros, como por exemplo através do processo de análise e síntese, de compreensão e explicação, e regula-se externamente através do “diálogo com a realidade exterior” (MORIN, 1999, p. 203). Mas, ao mesmo tempo, caminha na incerteza dos caminhos que se bifurcam, trifurcam, multiplicam-se, complexificam-se.
Lipman diz que o pensamento de ordem superior ocorre sob o amparo de duas idéias reguladoras, que são a verdade e o significado, e engloba o pensamento crítico e o criativo. Esse pensamento, na visão lipmaniana, é capaz de analisar os próprios procedimentos, sua perspectiva e seu ponto de vista; reconhece os fatores tendenciosos, os preconceitos e a auto-ilusão, pensa sobre si mesmo “ao mesmo tempo que pensa seu tema principal” (1999, p. 42). Em outras palavras, o pensamento de excelência olha, simultaneamente, para os procedimentos e para os conteúdos; suas convicções estão sustentadas em razões e critérios válidos; produz juízos consistentes e bem fundamentados. Mas é também um pensamento que se dispõe ao novo, às mudanças. A mudança, no real, é um dado que não se pode desconhecer. Para um pensador que tem origens no pragmatismo deweyano63, a mudança e, portanto, o novo são sempre realidades. O pensar é atividade que se renova sempre, que se reinventa.
Morin, por sua vez, considera que o pensamento complexo transita na contramão do pensamento simples e da causalidade linear. Para ele, a complexidade está na capacidade de pensar o contexto considerando as inter-relações, a recursividade, as implicações mútuas e a multidimensionalidade dos fenômenos e das realidades, que são ao mesmo tempo solidárias e conflituosas; de respeitar simultaneamente a diversidade, a unidade e a reciprocidade entre as partes e o todo e vice-versa; de incorporar as interações, a desordem e a incerteza, as ambigüidades e as retroações; enfim, de reconhecer que as determinações e os acasos fazem parte do mundo físico. Morin parece mais contundente que Lipman; tece sistemática e radical crítica ao paradigma da ciência moderna e desenvolve sua reflexão sobre a complexidade do cosmos, da terra, dos seres vivos e dos seres humanos. Morin explicita mais claramente não
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Marie-France Daniel, em sua obra A filosofia e as crianças (DANIEL, 2000), examina de maneira profunda toda a teoria e o método de Lipman, tendo por base teórica o pragmatismo norte- americano, sobretudo de Dewey.
99 só sua epistemologia64, como também sua ontologia65. Lipman parte de uma epistemologia da qual esboça traços que a revelam de alguma forma e deixa implícita sua ontologia.
A análise de Morin a respeito dos erros e ilusões presentes no pensamento e expressos nas teorias científicas e nos paradigmas que controlam as ciências é radical. Critica a inteligência cega, inconsciente e irresponsável que é “incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário” (2004, p. 14-5). Refere-se à idéia da inteligência e do pensamento que fragmenta o complexo, que fraciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional, atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão e, por conseguinte, elimina as oportunidades de um julgamento corretivo ou de uma visão mais ampliada. Da mesma forma, critica a superespecialização das ciências e a fragmentação dos saberes. O autor não deixa de considerar os inegáveis avanços científicos e destaca a produção de conhecimento e a elucidação dos problemas em todos os campos; no entanto, a mesma ciência não se deu conta de que produziu ilusões, cegueira e ignorância, ao mesmo tempo.
Essa lógica do pensar que isola os objetos e desconsidera seu meio ambiente, que separa as disciplinas e não reconhece suas correlações, que dissocia os problemas e elimina tudo que causa desordens ou contradições há tempos está presente e orienta os sistemas de ensino. Com isso, as novas gerações, segundo Morin, “perdem suas aptidões naturais para contextualizar os saberes e integrá-los em seus conjuntos” (ibid., p. 15), reproduzem os mesmo erros, sem ao menos reconhecê-los.
Lipman, a exemplo de Morin, mas menos contundente, não se omite em relação ao paradigma clássico do conhecimento científico, especialmente aos problemas da superespecialização. O autor norte-americano afirma que uma “mente superespecializada é o que há de pior na vida acadêmica, e precisamos da persistente advertência interdisciplinar [...]” (LIPMAN, 1995a, p. 381). Aqui, Lipman defende a filosofia como disciplina imprescindível no currículo escolar, pois ajuda a perceber aquilo que acontece dentro de cada disciplina, bem como nas linhas divisórias que ainda existem entre elas. A filosofia, para o autor, “estimula o pensamento nas disciplinas, pois assume a responsabilidade de ensinar os aspectos genéricos do pensamento que ocorrem em qualquer disciplina [...]” (ibid., p. 381),
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Epistemologia – do grego epistêmê: conhecimento. É disciplina tradicional da filosofia, também chamada de teoria do conhecimento. Trata dos problemas do conhecimento, sua origem, natureza, possibilidade e modos de conhecer; envolve noções de verdade, certeza, crenças, percepção, provas, justificação e confirmação, entre outras.
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Ontologia – do grego ontos + logoi: conhecimento do ser. É a parte da filosofia que trata da natureza do ser, da realidade, da existência dos entes e das questões metafísicas em geral. A ontologia trata do ser enquanto ser, isto é, do ser concebido como tendo uma natureza comum que é inerente a todos e a cada um dos seres.
100 além de servir de modelo de reflexão e crítica para as demais disciplinas, em relação à metodologia empregada.
Lipman trata a filosofia como uma metaciência que deve estar presente para auxiliar o desenvolvimento do pensar sobre e entre as disciplinas, sobre o curso, seus conteúdos e métodos. Por esse motivo, é possível pensar na filosofia da matemática, da história, da linguagem, do curso; porque a filosofia revela aspectos inerentes à metodologia das disciplinas que seus próprios licenciados e profissionais desconhecem. Aprender a pensar na disciplina é um desafio importante e necessário que os profissionais da educação necessitam enfrentar: os professores de matemática, por exemplo, precisam pensar matematicamente, os de história, aprender historicamente, e assim por diante. Muito provavelmente, os alunos desses professores aprenderão a pensar criticamente as disciplinas e terão mais chances de sucesso na vida acadêmica, particular e profissional.
Como se mostrou, há muitas aproximações entre as idéias de “pensamento complexo” de Morin e as idéias de “pensamento de ordem superior” de Lipman. Existem muitas semelhanças entre ambos. Contudo, Morin, em suas análises, revela-se mais profundo e abrangente do que Lipman. Sua visão dos problemas, suas críticas e propostas são bem mais contundentes e radicais do que as de Lipman, que se limita a propor um programa educacional capaz de desenvolver o pensamento e produzir um pensar de qualidade das pessoas.
Dando continuidade à análise comparativa entre as idéias dos dois autores, as próximas cessões tratarão das várias formas de manifestação do pensamento: crítico, criativo e criador, cuidadoso e compreensivo e do pensar bem.