3 A SINGULARIDADE NA GOVERNANÇA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
3.2 O MUNDO SOB O MESMO CÉU
3.2.4 Período 2002-2007: competição da liderança
Nesta fase assistiu-se a um avanço lento e constante nas negociações e
acordos pós-Kyoto, dando algum fôlego ao andamento da questão. Ao mesmo
tempo, o paradigma da liderança se enfraqueceu ainda mais e foi de certa forma
substituído por outro conceito com maior capacidade de integrar questões
socioeconômicas e ambientais, como se verá adiante. Acontecimentos externos
tiveram uma forte influência no estabelecimento da agenda climática, além de
posicionamentos individuais de países signatários terem seguido caminhos
alternativos.
A COP 7 (Marrakesh) adotou uma Declaração Ministerial e os Acordos de
Marrakesh. O primeiro promoveu a vigência do PK e a necessidade de
enfrentamento de impactos adversos e fortalecimento das capacidades no/do mundo
em desenvolvimento, enquanto os acordos adotaram 39 decisões que envolveram 5
temas fundamentais:
a) Criação de capacidades (capacity building): as primeiras COPs e o PK
enfatizaram a necessidade de cooperação e promoção da chamada "criação
de capacidades nacionais", particularmente de países em desenvolvimento,
por meio de agências multilaterais e organizações intergovernamentais.
Assim, objetivou fomentar o desenvolvimento sustentável ao mesmo tempo
em que ia de encontro às metas da Convenção, enfatizando que não existia
nenhuma fórmula pronta para atingi-las. A criação de capacidades deveria ser
específica às necessidades e condições dos países em desenvolvimento,
refletindo suas estratégias, prioridades e iniciativas de desenvolvimento
sustentável nacional. Simultaneamente, no entanto, foi elaborada uma longa
lista de exigências esmiuçando como deveriam ser conceituadas e
executadas
28;
b) Transferência de tecnologias: apesar de prevista, a transferência de
tecnologias para países em desenvolvimento não estava sendo levada a
cabo. Diante dessa lacuna e de reclamações dos signatários, adotou-se uma
estrutura baseada nas necessidades de assessoramento dos países e
28
A criação de capacidades deveria ser contínua, progressiva e interativa; efetiva, eficiente, integrada e programática; maximizar sinergias com outras convenções; agregar às práticas e conhecimento existentes; dentre mais de dez outros itens.
envolvendo atores relevantes, de forma a propor métodos e tornar a
informação tecnológica disponível;
c) Adaptação: similarmente à criação de capacidades, recomendou-se que a
adaptação fosse abordada de maneira específica aos contextos nacionais,
contribuindo com o desenvolvimento sustentável, avaliações de
vulnerabilidade, incremento da capacidade adaptativa e a transferência de
tecnologias de adaptação por meio de fundos;
d) Uso do solo, mudança de uso do solo e florestas (Land use, land-use change
e forestry – LULUCF): partindo do relatório do IPCC sobre o tema,
requisitou-se na COP o prosrequisitou-seguimento dos trabalhos sobre métodos, boas práticas,
definições e métodos, resultando em um rascunho de definições de atividades
relacionadas ao solo e valores de absorções de derivadas de atividades de
gerenciamento florestal em países desenvolvidos;
e) Mecanismos: dentre os vários tópicos discutidos, destaca-se que os governos
de países em desenvolvimento puderam decidir os seus conceitos de
desenvolvimento sustentável; florestamento e reflorestamento tornaram-se
passíveis de inclusão no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo; e
ratificou-se que os paíratificou-ses não teriam direito de emitir GEEs – os mecanismos ratificou-seriam
uma forma de diminuir as diferenças per capita, suplementares às ações
domésticas e promotores da integridade ambiental, embora esses termos não
tenham sido definidos em termos concretos.
Diante da notável quantidade de medidas adotadas em Marrakesh, a maior
expectativa das COPs posteriores residiu na vigência do PK, que deveria ocorrer em
2005. Nesse ínterim, a COP 8 (Nova Délhi) aconteceu no mesmo ano que a Cúpula
Mundial Sobre o Desenvolvimento Sustentável (Joanesburgo, 2002), causando uma
nova mudança na agenda ambiental: em vista da grande atenção concedida ao
desenvolvimento sustentável, ocorreu uma fusão de pautas (clima e
desenvolvimento) que mudou mais uma vez o foco da Convenção. Ainda nessa
COP, mais algumas medidas foram tomadas e se requisitou de países e ONGs a
submissão de seus relatórios e estudos nacionais.
Na COP 9 (Milão), 22 medidas foram adotadas. Notou-se que, embora as
emissões do Anexo I estivessem abaixo dos níveis de 1990, isso se devia às
reduções de países de economias em transição, não a cortes significativos dos
demais. As emissões da área da aviação haviam aumentado por volta de 40% em
10 anos, por exemplo, demandando mais ações: até que ponto a mensuração
quantitativa das emissões se mostraria eficiente e justa? Já a COP 10 (Buenos
Aires) trouxe 18 decisões, dentre elas o Programa de Adaptação e Resposta de
Buenos Aires, o qual se focou em abordagens operacionais para medir, avaliar e
financiar medidas ligadas à adaptação e vulnerabilidade.
Na época da COP 11 (Montreal), quando o PK finalmente entrou em vigor,
uma das principais discussões girou em torno do desflorestamento. Para países em
desenvolvimento, a manutenção de florestas (i.e., evitar o desmatamento) também
deveria ser recompensada. Após alguns anos de diálogos, propostas derivadas da
Redução de Emissões provenientes de Desmatamento Tropical (Reducing
Emissions From Tropical Deforestation – RED) afloraram e evoluíram para a
Redução de Emissões provenientes de Desmatamento Tropical e Degradação
Florestal (Reducing Emissions From Deforestation and forest Degradation – REDD)
e o chamado REDD+, que incluiu outros tipos de proteção (conservação dos
estoques de carbono florestal, manejo sustentável de florestas e aumento dos
estoques de carbono florestal).
Se por um lado a COP 12 (Nairóbi) não teve desdobramentos relevantes, os
anos de 2006-07 foram marcados por acontecimentos de impacto para a questão
climática. A divulgação do Relatório Stern foi o primeiro deles. Encomendado pelo
governo britânico a um economista do Banco Mundial – e não a um cientista das
ciências naturais, como de praxe –, o relatório de 700 páginas versou sobre os
impactos das MCs na economia nos próximos 50 anos. Dentre as principais
conclusões, encontrou-se que: 1) os benefícios de uma ação forte e imediata de
enfrentamento das MCs ultrapassariam em muito os custos da inação; 2) usando
modelos econômicos tradicionais, a inação equivaleria a uma perda de 5-20% do
PIB mundial por ano. Em contrapartida, a ação (i.e., redução de emissão de GEEs)
custaria 1% do PIB mundial por ano; 3) as MCs são consideradas um problema
mundial, portanto a resposta deveria se dar na esfera internacional, baseada em
uma visão compartilhada de metas de longo prazo e acordos que acelerarão a ação
na década seguinte; 4) a adaptação à MC seria essencial, uma vez que não era
mais possível prevenir a ocorrência das MCs. O seu custo seria de dezenas de
bilhões de dólares anuais apenas nos países em desenvolvimento, e pressionaria
ainda mais os seus escassos recursos. Diante disso, os esforços adaptativos nessas
nações deveriam ser acelerados; 5) a tomada de ação também significaria a criação
de oportunidades de negócio expressivas, uma vez que os novos mercados seriam
criados com novas tecnologias energéticas de baixo carbono. Esses mercados
poderiam crescer centenas de bilhões de dólares ao ano, além de gerarem
empregos nesses setores; 6) o mundo não precisaria escolher entre evitar as MCs e
promover crescimento e desenvolvimento, já que as mudanças nas tecnologias
energéticas e na estrutura das economias teriam criado oportunidades para
desvincular o crescimento de emissões de GEEs; e 7) por fim, Stern afirmou que a
mudança climática foi a maior falha de mercado que o mundo já testemunhou, a qual
interage com outras imperfeições de mercado (STERN, 2006).
Junta-se a isso a mobilização realizada nos EUA que culminou no
documentário Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, e na criação da Iniciativa
Climática Global de Bill Clinton. Seguindo a tendência, ONGs ambientais se
fortaleceram e novos atores começaram a se tornar influentes. No ano seguinte,
2007, o Prêmio Nobel da Paz foi outorgado ao IPCC e Al Gore, pelos "seus esforços
para construir e divulgar maior conhecimento sobre a mudança climática de origem
antrópica e lançar as bases para as medidas necessárias para neutralizar essa
mudança" (NOBELPRIZE.ORG, s.p., 2015, tradução livre).
Evidentemente essa conjuntura trouxe muito entusiasmo quanto ao viés
técnico-econômico adotado e expectativa para a COP 13 (Bali). Nela, 14 decisões
foram adotadas, incluindo o Plano de Ação (ou Mapa) de Bali, o qual propunha
cortes profundos nas emissões globais, mas não estabelecia uma meta quantitativa
de longo termo. Dentre os variados assuntos discutidos, o Plano de Ação abordou a
partilha de riscos e seguros, estratégias de redução de desastres e outras maneiras
de lidar com perdas e danos resultantes das MCs em países em desenvolvimento. O
RED foi expandido para REDD e diretrizes de boas práticas para o LULUCF
promovidas.
Paralelamente a essa movimentação, os EUA e Austrália se retiraram
formalmente do PK. Em 2007, entretanto, uma forte estiagem tomou conta da
Austrália, o que levou a uma pressão pela ratificação do PK e consequente
isolamento dos EUA no seu posicionamento. Isso não implicou a sua exclusão da
questão climática como um todo, porém: o objetivo estadunidense foi então
promover acordos climáticos alternativos que estivessem alinhados a sua política
pragmática. Os EUA foram seguidos por vários países nesse caminho, tanto porque
poderiam complementar as políticas de transferência de tecnologia, quanto pelo
desejo de possuírem caminhos para lidar com a MC dentro e fora do domínio da
ONU.
Assim, observou-se à proliferação de acordos acerca da economia do
hidrogênio, pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para o sequestro e
estocagem de carbono, recuperação e substituição do gás metano e variados
fomentos à energia limpa. Para alguns, essas iniciativas refletiram o
comprometimento do país com a questão climática, enquanto, para outros, esses
acordos paralelos serviram como distração das negociações principais. Ao final, se
por um lado a ausência dos EUA (e Austrália, inicialmente) trouxe pessimismo às
negociações, por outro o desenrolar das COPs e pressão da União Europeia
acabaram levando ao maior número atingido de ratificações em 2004, logo antes da
entrada em vigor do PK.
Em suma, as lideranças se fragmentaram e o foco da Convenção se
modificou. A ligação cada vez mais estreita das MCs com o desenvolvimento levou a
discussões que defendiam a sua integração à assistência ao desenvolvimento,
sendo argumentado que: 1) os cientistas priorizavam uma abordagem integrada, em
vez de setorial; 2) agências de assistência demonstravam sinais de desgaste e
buscavam novos argumentos para financiamentos; 3) os grupos de lobby climático
procuravam recursos, os quais, por se mostrarem escassos, requeriam gastos
econômicos; 4) a integração da questão reduziria a necessidade de gerar novos
fundos econômicos (argumento dos países desenvolvidos, em especial); e 5) a
ligação entre os dois temas promoveria a eficiência, de acordo com agências
multilaterais.
Diante disso, as negociações globais culminaram em novas formas de lidar
com a questão climática, acordos alternativos paralelos e seus próprios mecanismos
sendo colocados à prova.
No documento
A GOVERNANÇA CLIMÁTICA NA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA: UMA PERSPECTIVA CRÍTICA INTERDISCIPLINAR
(páginas 121-125)