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Primeiro Relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas

3 A SINGULARIDADE NA GOVERNANÇA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

3.3 DEBAIXO DO TETO BRASILEIRO

3.3.2 A governança climática brasileira

3.3.2.4 Primeiro Relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas

O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, criado em 2009 pelos Ministérios

da Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente, se espelha diretamente no IPCC e tem

como objetivo compilar e fornecer o que há de mais avançado na ciência climática,

incluindo tópicos de maior interesse destacados na PolNMC e PNMC – ou seja,

vertentes ambientais, sociais e econômicas das MCs no Brasil. Dessa forma,

pretende subsidiar a criação de políticas públicas e tomadas de decisão e

disseminar conhecimento dentre a sociedade.

A principal forma de divulgação desse conhecimento se dá por meio da

elaboração periódica de Relatórios de Avaliação Nacional (RANs), além de

Relatórios Técnicos, Sumários para Tomadores de Decisão e Relatórios Especiais.

O Primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1) tinha previsão de lançamento

em 2012, porém, em função de uma série de atrasos, acabou acontecendo na forma

de uma publicação paulatina a partir do final de 2013. Isso fez com que o seu

lançamento acontecesse após a divulgação do AR-5, que já continha atualizações

dos prognósticos e tornaram o relatório brasileiro já defasado antes mesmo da sua

estreia. O RAN1 é composto por três volumes correspondentes aos Grupos de

Trabalho e por três Sumários Executivos, elaborados sob a seguinte estrutura:

Figura 16. Estrutura do PBMC para a elaboração do RAN1. Fonte: PBMC (2016).

Mais de 360 especialistas de universidades e instituições brasileiras

participaram do Relatório. Entre eles foram registradas e discutidas as principais

produções científicas de 2008 a 2012, em especial aquelas relacionadas às MCs na

América do Sul e Brasil. Além disso, foram considerados os principais pontos

constantes no AR4, sendo o AR5 desconsiderado em virtude do atraso da

finalização do RAN1, que foi revisado e disponível para acesso geral em meados de

2015.

O primeiro volume do RAN1, “Base Científica das Mudanças Climáticas”,

abordou observações ambientais atmosféricas, costeiras e oceânicas, informações

paleoclimáticas brasileiras, ciclos biogeoquímicos e sua relação com as MCs,

aerossóis e nuvens, forçante radiativa, avaliação de modelos climáticos globais e

regionais e, por fim, projeções de mudanças ambientais de curto e longo prazo.

Como apontado, as informações se mostraram alinhadas àquelas expostas de

maneira mais global pelo IPCC; as relevantes para a presente pesquisa serão

expostas na seção 4, junto à caracterização local da área de estudo.

O segundo volume, “Impactos, Vulnerabilidades e Adaptação”, se foca em

aspectos bastante diversos do tema-chave: 1) recursos naturais, manejo e uso de

ecossistemas, onde se detalham questões sobre os recursos hídricos, ecossistemas

de água doce, marinho e terrestres e biodiversidade dos biomas. Aqui é encontrado

o maior número de contribuidores do volume, muito superior a todos os demais; 2)

aglomerados humanos, indústria e infraestrutura, no qual se destacam os setores

econômicos prioritários e, pela primeira vez, se dá maior ênfase ao ambiente urbano

e cidades dentre os instrumentos de governança climática nacionais; 3) saúde

humana, bem-estar e segurança, abordando poluição, doenças veiculadas por

vetores, cobenefícios da mitigação de GEEs à saúde humana, cidades como

caminho para políticas climáticas e subsistência e pobreza; 4) impacto plurissetorial,

risco, vulnerabilidade e oportunidade (menor número de contribuidores do volume),

discutindo eventos extremos, migração, sistema de saúde e de defesa civil e

oportunidades para o desenvolvimento sustentável; e, por fim, impactos regionais,

adaptação e vulnerabilidade ao clima e suas implicações para a sustentabilidade

regional no Brasil.

No que diz respeito às cidades, foram destacadas as consequências das

peculiaridades do ambiente urbano – como a configuração das áreas urbanas e

intervenções mal planejadas – no clima local e as interações entre urbanização,

MCs e impactos. Expõe-se a vulnerabilidade socioambiental crescente das cidades

brasileiras e apontam-se medidas de mitigação e adaptação para frear esta

tendência; uma delas sugere que o poder público deveria tornar obrigatória a

inserção da dimensão climática em processos decisórios de políticas públicas, de

maneira a monitorar, prever, avaliar e lidar com impactos de forma mais eficiente e

focada. Além disso, ressalta a importância de ações conjuntas entre Defesa Civil,

Prefeituras e Órgãos Municipais para monitoramento e acompanhamento do uso do

solo e a incipiência dos estudos realizados sobre vulnerabilidade urbana, os quais

devem ser específicos para as características de cada região. Por esse motivo, o

incentivo de pesquisas locais em todo o âmbito nacional seria fundamental para

capacitar instituições no enfrentamento de impactos e perigos relacionados às MCs.

Por fim, o volume 3 do RAN1, “Mitigação das Mudanças Climáticas”, foi

estruturado a exemplo do terceiro GT do AR5, sendo então dividido em temas

estruturantes, caminhos para a mitigação das MCs e avaliação de políticas,

instituições e recursos financeiros. Os temas estruturantes abrangeram riscos e

incertezas das políticas de resposta, sob o viés da percepção e comunicação de

riscos; desenvolvimento e equidade, com a proposição de diferentes indicadores e a

exposição das ligações existentes entre mitigação e adaptação; e as forças

motrizes, tendências e mitigação das emissões de GEEs no Brasil. O terceiro

capítulo abrangeu sete subcapítulos setoriais que coincidem com aqueles

encontrados no PNMC. Já o quarto capítulo, sobre avaliação de políticas,

instituições e recursos financeiros merece um detalhamento mais demorado de seus

subcapítulos, tendo seus principais pontos expostos na sequência.

Partindo da esfera global, tratou da visão mais ampla da política climática, a

qual envolve diferentes setores da sociedade e não se restringe à dimensão

ambiental, pois também abarca as dimensões econômica e de segurança. Dessa

forma, considerou fundamental a descoberta e definição de quem são os atores

relevantes na política global e em instâncias menores. Numa escala regional

(América do Sul, América Latina, blocos político-econômicos), no entanto, não foram

encontrados estudos que analisassem a maneira como as instituições tratam a

questão climática. De modo geral concluiu-se que os países tendem a ratificar, ao

menos na retórica, o regime climático internacional. Sendo assim, nessa instância

seria relevante observar outras arenas e dimensões da governança, como “as

políticas energético-climáticas das grandes e médias potências climáticas, os

acordos bilaterais, os fóruns plurilaterais, os novos arranjos internacionais (como o

G-20) e regionais” (PBMC, 2014, p. 413). Em âmbito nacional, além das políticas e

planos, apontou instituições, organizações e fóruns que se envolveram

recentemente com a questão climática, em especial estimuladas pela entrada em

vigor do PK e divulgação do AR4.

Existem 24 organizações da sociedade civil (ONGs e movimentos sociais)

atuantes nacionalmente e influentes na construção do regime climático. Dessas,

destaca-se o Observatório do Clima pela sua atuação próxima e ativa. Criada em

2001, a organização congregou diversas ONGs ambientais

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para tratar do debate

sobre florestas e clima no Brasil, estendendo seu escopo em 2009 para uma

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As instituições integrantes do Observatório são: Amigos da Terra Amazônia Brasileira; APREC

Ecossistemas Costeiros; APREMAVI – Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida;

CARE Brasil; COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira;

Conservação Internacional Brasil; FBDS – Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável; Fundação Avina; Fundação O Boticário de Proteção à Natureza; Greenpeace Brasil; GTA – Grupo de

Trabalho Amazônico; IBio – Instituto BioAtlântica; ICLEI LACS – Governos Locais pela

Sustentabilidade; IDESAM – Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas; IEMA – Instituto de Energia e Meio Ambiente; IESB – Instituto de Estudos Sócio-Ambientais do Sul da Bahia; IIEB – Instituto Internacional de Educação do Brasil; Iniciativa Verde; Instituto Centro de Vida – ICV; Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola – IMAFLORA; Instituto do Homem e Meio

Ambiente da Amazônia – IMAZON; Instituto Ecoar para Cidadania; Instituto Ecológica; Instituto

Socioambiental – ISA; IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia; IPÊ – Instituto de

Pesquisas Ecológicas; Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais; SBDIMA – Sociedade

Brasileira de Direito Internacional do Meio Ambiente; SNE – Sociedade Nordestina de Ecologia; SOS Amazônia; SOS Mata Atlântica; SOS Pantanal; SPVS – Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental; The Nature Conservancy – Brasil; WWF Brasil.

participação efetiva na elaboração de políticas climáticas por meio da organização

de diretrizes e propostas, as quais foram parcialmente incluídas na PolNMC. Em

2013 se dedicou à geração de dados e originou o Sistema de Estimativas de

Emissões de Gases de Efeito Estufa, uma iniciativa não governamental pioneira no

mundo para o cálculo de emissões setoriais em período anual – em contraposição

aos inventários anuais, feitos a cada cinco anos e com atraso de dez anos em suas

estimativas (OBSERVATÓRIO DO CLIMA, 2016).

Tal participação e preponderância dessas organizações se deveu

particularmente à conjuntura política do início dos anos 2000, quando surgiu a

discussão sobre desmatamento dentre o MMA e uma posição mais proativa era

cobrada para a inclusão das florestas em pé no regime climático. Foi nesse contexto

que ONGs brasileiras e estrangeiras pressionaram o setor produtivo para que se

mobilizasse contra o desmatamento, o que culminou na chamada “moratória da

soja”, que se opunha à venda de soja proveniente de áreas desflorestadas após

meados de 2006, e na redução concreta do desmatamento. Assim, as ONGs

contaram com o apoio e participação de parte da iniciativa privada no processo de

definição de políticas climáticas, formada por quatro coalizões fundamentais:

1) a Aliança de Empresas Brasileiras pelo clima, integrada por federações e

associações de companhias de agronegócio com usos e posturas de carbono

bastante diversas. Uma parcela defende a descarbonização da economia, enquanto

a outra, reticente nessa questão, é favorável à redução do desmatamento

amazônico;

2) o Fórum Clima – Ação Empresarial sobre Mudanças Climáticas, liderado

pela Vale do Rio Doce e outras empresas de grande participação no PIB, objetiva a

adoção de compromissos formais nas negociações climáticas pelo governo, além de

políticas domésticas para a redução de GEEs. Emitiu duas a Cartas Abertas ao

Brasil sobre Mudanças Climáticas. Em troca, ofereceriam anualmente um inventário

de suas emissões de GEEs;

3) a Coalizão de Empresas do Clima que, embora tenha demandas similares

à anterior, é formada por atores menos conservadores. Em razão disso, demanda

uma posição nacional mais incisiva nas negociações, de modo a ir de encontro a

uma economia de baixo carbono;

4) a Plataforma Empresas pelo Clima, que pretende formar bases regulatórias

que visem à mitigação e adaptação e ao fornecimento de orientações e ferramentas

para a gestão de emissões. Para aderir à plataforma é preciso firmar o compromisso

de publicar inventários e desenvolver políticas e planos de gestão dos GEEs.

No que concerne ao aparato regulatório subnacional, em 2014, contavam

com lei sancionada ou projeto de lei sobre a política de mudanças climáticas, de

forma a definir as suas bases de governança, planos e instrumentos:

Políticas sobre mudanças climáticas

Unidade federativa Lei

Mato Grosso do Sul 4.555/14 – Política Estadual de Mudanças Climáticas

Distrito Federal 4.797/12 – Estabelece princípios, diretrizes, objetivos, metas e estratégias para a Política de Mudança Climática do Distrito Federal

Paraná 17.133/12 – Política Estadual sobre Mudança do Clima Piauí 6.140/11 – Política Estadual de Mudança Climática

Acre

2.380/10 – Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais (Sisa), Programa de Incentivos por Serviços Ambientais (ISA Carbono) e demais programas de serviços ambientais e produtos ecossistêmicos do Estado Bahia 12.050/11 – Política sobre Mudança do Clima

Paraíba 9.336/11 – Política Estadual de Mudança Climática Espírito Santo 9.531/10 – Política Estadual de Mudanças Climáticas

Pernambuco 14.090/10 – Política Estadual de Enfrentamento às Mudanças Climáticas

Rio de Janeiro 5.690/10 – Política Estadual sobre Mudança Global do Clima e Desenvolvimento Sustentável

Rio Grande do Sul 13.594/10 – Política Gaúcha sobre Mudanças Climáticas Goiás 16.611/09 – Política Estadual sobre Mudanças Climáticas

Santa Catarina 14.829/09 – Política Estadual sobre Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável

São Paulo 13.798/09 – Política Estadual de Mudanças Climáticas

Tocantins 1.917/08 – Política Estadual sobre Mudanças Climáticas, Conservação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

Amazonas 3.135/07 – Mudanças Climáticas, Conservação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

Quadro 10. Políticas subnacionais sobre mudanças climáticas em ordem cronológica inversa. Fonte: PBMC (2014).

Figura 17. Brasil – Situação das Políticas estaduais de mudanças climáticas (janeiro de 2016). Fonte: Fórum Clima (2016).

Dentre essas políticas fica claro o objetivo comum de controle e redução das

emissões de GEEs e vulnerabilidades; no entanto, não é nítido como serão

realizadas a mitigação e adaptação previstas. Foram poucas as políticas baseadas

nos resultados dos inventários de emissões, os quais oferecem uma visão ampla

das emissões e permitem um melhor desenho estratégico. Inventários completos,

setoriais, existem em poucos estados. Além disso, e ainda mais relevante, as

regiões que apresentam as maiores vulnerabilidades são as que menos contam com

políticas estaduais.