3 A SINGULARIDADE NA GOVERNANÇA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
3.2 O MUNDO SOB O MESMO CÉU
3.2.2 Período 1991-1996: lideranças articuladas
Este período correspondeu a uma continuidade temática do anterior, porém
contando com a institucionalização das discussões que estavam em curso. Em
dezembro de 1990 a Assembleia Geral das Nações Unidas criou o Comitê
Intergovernamental de Negociação (INC, na sigla em inglês), o qual se reuniu por
seis vezes para estruturar a UNFCCC. A Convenção precisava de 50 ratificações
para entrar em vigor, com a opção de os países desistirem do acordo três anos após
a vigência, que ocorreu em 1994. Ainda assim, acabou assinada pelo triplo de
países na Conferência do Rio de Janeiro e tratava fundamentalmente de emissões
líquidas (emissões menos as remoções desses gases) dos GEE não controlados
pelo Protocolo de Montreal
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A espantosa rapidez e adesão com que a Convenção foi implantada trouxe
um clima ainda maior de otimismo à época, que assistia ao fim da Guerra Fria e a
outros eventos ambientais globais que acenavam com um futuro mais seguro e
justo. No entanto, esses resultados foram alcançados pela construção de um
texto-base diluído e ambíguo, sem metas específicas, com um consenso apenas ao redor
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O Protocolo de Montreal é um tratado internacional criado sob os auspícios da ONU que estabeleceu a substituição de gases que estariam empobrecendo a camada de ozônio. Entrou em vigor em 1989 com adesão de 150 países e é considerado um dos acordos internacionais bem mais sucedidos de todos os tempos, tanto pelo número de signatários quanto pelos resultados alcançados. Vale destacar, no entanto, que o acordo envolveu a regulação dos gases e o desenvolvimento e implantação de novas tecnologias, com poucos impactos sobre as economias dos países.
da necessidade de redução das emissões. Os impasses evitados – que acabaram
incentivando países contrários a assinarem e ratificarem a Convenção – apenas
foram sufocados na ocasião para retornarem alguns anos depois (CADERNOS NAE,
2005).
Dentre os princípios adotados que seriam fundamentais, não fossem
redigidos de maneira ambígua, reside o da precaução, enfraquecido pela
determinação de que deveria ser economicamente eficiente/rentável. O Artigo 3º
(Princípios) combina obrigações legais e ações facultativas de maneira confusa em
sua redação. Por sua vez, o desenvolvimento sustentável é definido como objetivo e
direito, ao mesmo tempo em que é argumentado no Artigo 4.2 (Comprometimento
dos Países Anexo I) que o desenvolvimento econômico sustentável é essencial para
lidar com a questão climática, o que concede foco aos países ricos em lugar dos que
ainda trilhavam o caminho para o desenvolvimento. Por fim, também haveria uma
polêmica a respeito da relevância das emissões per capita: seriam elas realmente
mais importantes que as emissões totais?
Diante desse panorama nebuloso medidas mais rigorosas eram necessárias,
o que se traduziu em uma pressão para a tomada de ações na primeira COP, em
Berlim. O chamado Mandato de Berlim foi adotado objetivando promover
compromissos por via legal de redução de emissões em relação a horizontes
temporais a serem definidos na terceira COP, em Kyoto. Além disso, houve a
adoção de uma fase piloto das chamadas Atividades Implementadas Conjuntamente
(Activities Implemented Jointly – AIJ), as quais permitiriam que países participassem
em projetos para a redução de emissões, porém ainda sem a creditação das
reduções para os investidores. Trocando em miúdos, caso países ricos julgassem
muito custosa a redução das suas próprias emissões, poderiam investir em países
em desenvolvimento para a redução das emissões dos últimos. Dessa maneira, as
despesas dos países desenvolvidos seriam menores e gerariam recursos e
tecnologias para os pobres, enquanto o seu balanço de emissões e economia
ficariam, em teoria, equilibrados.
Dentre outras questões discutíveis e polêmicas figuraram desde as
conceituações às perspectivas empregadas. A atribuição de liderança aos países
desenvolvidos foi questionada, a qual, além de ratificar a sua influência e
dominância sobre os 150 países não Anexo I, fez com que os maiores poluidores do
mundo fossem denominados neutramente de "países desenvolvidos", protagonistas
da pretensa estabilização do clima – tornando os demais, por conseguinte, meros
seguidores. Para Gupta (2014, p. 71, tradução livre),
tal enquadramento [da liderança] pode ter surgido do papel dominante dos engenheiros e cientistas naturais nos primórdios do regime [climático]: a crença de que as externalidades ambientais poderiam ser internalizadas no processo político; a convicção de que politizar a questão e discutir poluidores e responsabilidades não seria construtivo; a necessidade de manter a questão pequena e concentrada; e uma forte crença em justiça.
Fica evidente que tais argumentos provêm dos países ricos, aos quais não seria
conveniente discutir responsabilidades ou ampliar adequadamente o debate. Assim,
a retórica transitava entre o desejo de justiça e a manutenção do status quo.
A divisão binária e estática dos países participantes, por sua vez, também foi
alvo de críticas por sua falta de critérios claros, objetivos e/ou científicos. O
desmembramento de Estados do Anexo I, por exemplo, levou em consideração
apenas a incapacidade de alguns assistirem financeiramente países em
desenvolvimento, ignorando as suas altas emissões históricas. No que tange aos
países não Anexo I, embora tivessem características geográficas, demográficas,
tecnológicas, econômicas, socioambientais e históricas por vezes muito diversas e
que poderiam levar a diversos níveis de desenvolvimento e vulnerabilidade, suas
preparações para os impactos futuros não foram priorizadas. Pelo contrário, suas
emissões relativamente baixas de GEEs sugeriram que o problema climático não
lhes dizia respeito, embora fossem os primeiros a serem impactados por ele. Isso
resultou em um baixo nível de debate social ou de contextos específicos da questão,
levando países a ligarem o assunto a outros temas (como desenvolvimento e
segurança alimentar) e adotar uma perspectiva histórica, Norte-Sul.
A perspectiva Norte-Sul, no entanto, não é inteiramente negativa em um viés
político mais amplo. Mais do que representar países pobres, o bloco de países do
Sul diz respeito aos que estão na periferia das tomadas de decisão global e, assim,
desejam a mudança das regras e poder no sistema internacional: as diferenças vão
além da instância econômica, recaindo nas prioridades e objetivos finais que
buscam por meio da política. Como conjunto, nas últimas três décadas o bloco
projetou uma imagem e voz coletivas e se focou em uma plataforma comum na
política ambiental global. Assim, procurou não ser massacrado pela agenda do Norte
mantendo um foco no diálogo Norte-Sul, defendendo consistentemente ao longo
desse tempo suas quatro reivindicações básicas: 1) responsabilização do Norte
pelos problemas ambientais globais; 2) alegação de que as medidas tomadas não
devem impedir ou prejudicar os seus prospectos de desenvolvimento; 3) demanda
por transferência sem custo de tecnologia do Norte para o Sul; e 4) demanda pela
transferência de recursos adicionais ao Sul para fomentar a proteção ambiental.
Ainda que essas requisições tenham se modificado/fragmentado, o grupo
conseguiu reunir uma força política que, ainda que pequena, logrou algumas
conquistas (NAJAM, 2005a) e dificilmente poderia ser atingida de forma
independente pela maior parte dos seus membros. Dessa maneira, apesar de não
terem iniciado a participação na governança ambiental global como demandantes e
a princípio compartilharem um ceticismo quanto à questão, a evolução do
posicionamento desses países teve peso na modificação do discurso subjacente a
essa governança (NAJAM, 2005b), como se verá adiante.
No que diz respeito à participação da iniciativa privada nos debates e
negociações, companhias de seguros defendiam a divulgação de informações
climáticas em virtude de indícios de aumento de doenças relacionadas à emissão de
GEEs. Por outro lado, indústrias petrolíferas, automobilísticas e de energia se
agruparam na forma de ONG para formar a Coalizão Global do Clima (Global
Climate Coalition)
25no final da década de 1980, atingindo um pico de influência em
meados da década seguinte. A sua postura era capciosa. Ao mesmo tempo em que
sua declaração de princípios atestava a seriedade da questão climática e a
importância de sua discussão, se opunham ao princípio da precaução adotado pela
UNFCCC, salientando a incerteza científica climática e a necessidade de mais
pesquisas. Além disso, defenderam que, mesmo que existisse um perigo real, as
medidas relacionadas não deveriam prejudicar a indústria; como alternativa
propunham a mera transferência de tecnologia para outros países. O lobby
oposicionista daquela época movimentou milhões de dólares – gastos nos anos
seguintes em campanhas contra o Protocolo de Kyoto (PK) – e influências no próprio
Senado dos EUA – traduzidas na Resolução Byrd-Hagel de 1997, como se verá na
próxima seção (DUTSCHKE, 2000; KOLBERT, 2008).
A adoção de uma posição abertamente contrária à questão climática, no
entanto, se provou bastante negativa para a imagem pública dessas empresas.
Paulatinamente a Coalizão perdeu membros importantes – primeiro a indústria
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A coalizão contou com o patrocínio de companhias multinacionais de peso, como British Petroleum, Mobil Oil, Exxon, Shell, Texaco, General Motors, Chrysler e Ford (DUTSCHKE, 2000).
petrolífera, seguida da automobilística – e, com isso, força política (COSTA, 2004). É
também relevante apontar que, ainda que algumas empresas não tenham sido
publicamente contrárias às medidas de redução de emissões, procuraram meios por
vezes ilícitos para contorná-las. O recente caso do "escândalo Volkswagen" ilustra o
esforço de greenwashing da indústria: um sistema implantado em 11 milhões de
seus veículos a diesel era
capaz de detectar o momento em que os carros estivessem sendo submetidos a testes por parte das autoridades. O sistema possuía um mecanismo interno de limitação de gases contaminantes que permitia ao veículo passar no teste. Uma vez terminada a prova, o mecanismo se desativava e o carro passava a liberar gases poluentes durante seu uso cotidiano (DONCEL; SÁNCHEZ, 2015).