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Percepções sobre o regime e o sistema: crise de

No documento CURITIBA 2006 (páginas 99-105)

3 CAPITAL SOCIAL E VALORES POLÍTICOS

3.2 VALORES POLÍTICOS

3.2.3 Percepções sobre o regime e o sistema: crise de

Diferentemente da dimensão normativa da adesão pela democracia (dimensão atitudinal) averiguada na sessão anterior, aqui entra em foco a dimensão factual da adesão pela democracia (dimensão comportamental). Passados mais de 20 anos da transição institucional para a democracia cabe perguntarmo-nos – como exercício constante – em que medida as expectativas institucionais e sociais em torno dela foram frustradas ou vem sendo realizadas. Uma primeira aproximação a esta questão pode ser expressa na questão que segue: 15 anos depois da 4a eleição direta, algumas pessoas ainda duvidam da democracia. Qual a sua opinião? Um percentual significativo dos entrevistados (40,7%) acredita que a democracia consolidou-se no Brasil, ainda que uma relativa maioria dentre o total de entrevistados (51,9%) consideram que ainda existe algum tipo de perigo para a democracia no Brasil.

TABELA 32: Situação da democracia no Brasil

Freqüência % %

Cumulativo Válido A democracia se

consolidou 11 40,7 40,7

Existe perigo para a

democracia 14 51,9 92,6

Não existe democracia

no Brasil 1 3,7 96,3

Não tenho opinião

formada a respeito 1 3,7 100,0

Total 27 100,0

FONTE: Pesquisa de campo

A par desta questão formulamos um índice de avaliação da conjuntura política brasileira: elencamos algumas afirmativas no intuito de captar uma avaliação conjuntural do regime democrático brasileiro. Os resultados indicam uma confiança mediana nas leis: pouco mais da metade (55,6%) confia nela como instrumento de ordem; uma descrença na própria maturidade democrática do povo brasileiro (apenas um terço dos entrevistados acredita que o brasileiro sabe votar); mais de 74% não acredita na política de alianças para o desenvolvimento de projetos políticos; e apenas 7,4% deles acredita na honestidade dos políticos no exercício de seus mandatos. Por outro lado, a grande maioria dos entrevistados não depositam confiança em mecanismos como revolução e violência na resolução dos problemas políticos do país.

TABELA 33: Sumário sobre a avaliação conjuntural da democracia brasileira

Freqüência % % Cumulativo

No Brasil não adianta mudar as leis, elas não são obedecidas

Válido Concorda Fortemente 2 7,4 7,4

Concorda 7 25,9 33,3

Nem Concorda, nem discorda 3 11,1 44,4

Discorda 15 55,6 100,0

Total 27 100,0

No Brasil, as coisas só vão melhorar com uma revolução ou violência

Válido Concorda Fortemente - - -

O povo brasileiro não sabe votar

Válido Concorda Fortemente 6 22,2 22,2

Não se deve fazer compromissos c/ adversários políticos, isto leva à traição do partido

Os políticos brasileiros, no exercício de seus mandatos, cuidam de seus parecem encontrar explicação numa péssima avaliação da conjuntura política brasileira: esse índices de descontentamento atingem, inclusive, os partidos políticos. Para além dos baixíssimos índices de confiança neles expressados anteriormente (vide, neste capítulo, sessão 1.2), o seu papel é de alguma maneira questionado por uma parcela significativa dos entrevistados (40,7%).

TABELA 34: Importância dos partidos políticos

Partidos políticos são Freqüência % %

Cumulativo Valido Fonte de divisão política, portanto atrapalham o

funcionamento da democracia 3 11,1 11,1

Atrapalham o desempenho da democracia, mas

são necessários a ela 8 29,6 40,7

Necessários à democracia, pois evitam a

personalização da política 16 59,3 100,0

Total 27 100,0

FONTE: Pesquisa de campo

Este fato, em síntese, aponta para uma mentalidade que questiona os arranjos tradicionais da democracia brasileira, fato certamente ligado aos altos índices de insatisfação com a performance dos governos democráticos, sobretudo no que tange à corrupção e ao tráfico de influência emergentes em sucessivos, sistemáticos e cíclicos escândalos institucionais.

Vimos até aqui que os índices de adesão à democracia começam a ser questionados e que este fato vem atrelado a uma avaliação conjuntural que depõe contra a estabilidade do regime democrático. Apesar de tomarmos por objeto de estudo um recorte que não possibilita generalizações neste sentido, há de se enfatizar que tratam-se de indivíduos politicamente ativos, alguns deles com vínculos político-institucionais significativos, fato certamente importante. A pergunta que

surge é exatamente esta: até onde esse descontentamento indica a crise de um modelo institucional por parte desta parcela de indivíduos? E mais, até onde ele legitima um retrocesso autoritário em suas concepções? Por isso, cabe explorarmos possíveis traços autoritários na cultura política de nossos entrevistados. Nesse sentido, adicionamos também uma variável para medir a tendência a atitudes autoritárias de nossos entrevistados. Dirigimos a eles, primeiramente, uma questão opondo o princípio da eficiência ao princípio da legitimidade das ações político-administrativas, pedindo aos entrevistados que optassem qual deles deveria ser observado em primeiro lugar por um líder político numa democracia. Percebemos em primeira mão a preponderância do princípio da legitimidade (82,5%) com larga margem percentual sobre o princípio da eficiência (14,8%).

TABELA 35: Eficiência vs legitimidade

Freqüência % %

Cumulativo Válido Permitir a participação

popular nas decisões

importantes (legitimidade) 23 85,2 85,2

Ser forte, para não perder o controle das decisões

(eficiência) 4 14,8 100,0

Total 27 100,0

FONTE: Pesquisa de campo

Aprofundando a análise, elencamos alguns tipos de ações políticas e os indagamos se elas deveriam ser atribuições do Poder Executivo. Essa questão visava medir a o índice de legitimidade e concentração de poder conferidos às lideranças políticas. Os resultados indicam índices elevados de concessão de poder ao executivo nos seguintes casos: autoridade para intervir nos sindicatos (40,7%

deles); para proibir greves (37% deles concordam de algum modo com essa afirmativa); e para censurar os meios de comunicação social (22,2%). Os maiores índices de discordância, por outro lado, referem-se ao poder de: fechar o Congresso Nacional e proibir a existência de algum partido, ambas com 74,1% de índices de discordância. Percebe-se notadamente o forte viés de exercício do poder visando o controle político sobre a ordem social ao passo que os maiores graus de discordância referem-se ao controle das liberdades políticas, o que, de resto, inverte

a relação estabelecida na questão anterior: o principio da eficiência das ações políticas acaba predominando na estruturação da concepção política de nossos entrevistados. estruturação da cidadania social brasileira e que vem sendo praticadas nos últimos anos no país, a fim de captarmos uma avaliação sobre a necessidade de emprego dos recursos públicos no desenvolvimento de tais políticas, sobretudo em nível Federal. A questão foi formulada com o intuito de elencar alguns temas polêmicos e a partir daí medir o grau de contentamento dos entrevistados em relação ao direcionamento do gasto do dinheiro público. O resultado ao qual chegamos consagra os direitos sociais garantidos constitucionalmente (saúde: 92,6%;

educação: 81,5%) e trata das novas demandas com níveis menores de aceitação (políticas de cotas: 33,3%; políticas de renda mínima: 37,0%). Esta consideração reitera, inclusive, o que já foi explorado acerca do papel do Estado na regulação da Economia e das relações sociais.

TABELA 37: Acordo com Políticas Públicas

Freqüência % % Cumulativo

Manutenção do atual sistema universitário federal e estadual gratuitos

Valido Concorda Fortemente 11 40,7 40,7

Garantia de renda mínima para todos os cidadãos

Válido Concorda Fortemente 2 7,4 7,4

Reforma agrária com base na desapropriação de grandes propriedades privadas, produtivas ou improdutivas conjuntural negativa acerca do funcionamento da democracia no Brasil, sobretudo no tocante ao papel dos partidos políticos e na honestidade dos políticos de maneira geral. Além disso, uma parcela significativa dos entrevistados demonstrou ser legitima a recorrência a atitudes autoritárias por parte do poder executivo em relação

ao controle político da ordem social (como indicaram os índices de legitimidade para algumas ações que exploramos anteriormente). Essas considerações acerca da conjuntura política brasileira somadas ao conceito e a adesão à democracia expressos na sessão anterior nos ajudaram a entender, em suma, a estruturação de uma cultura política instrumental na constituição da lógica de ação do Fórum de Desenvolvimento de Dois Vizinhos (lógica que será estudada a partir de seu marco operacional no próximo capítulo)29.

3.3 CAPITAL SOCIAL E VALORES POLÍTICOS: ENTENDENDO A

No documento CURITIBA 2006 (páginas 99-105)