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SEÇÃO 3: CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS DO DESASTRE

3.1 Perdas humanas, ambientais e socioeconômicas

Após enfrentados os fatos e possíveis causas do maior desastre ambiental da história brasileira, faz-se importante voltar o olhar para as consequências socioeconômicas que emergiram do rompimento da barragem, entre perdas humanas e ambientais.

O município de Mariana/MG sofreu prejuízos na agricultura, na pecuária, na indústria, no comércio e nos serviços; o setor industrial foi o mais impactado, com prejuízos contabilizados em R$ 215.000.000,00 (duzentos e quinze milhões de reais), em razão da paralisação das atividades de mineração realizadas pela Samarco S.A. O total de prejuízos apurados pelo município chega a R$ 223.051.550,50 (duzentos e vinte três milhões, cinquenta e um mil, quinhentos e cinquenta reais e cinquenta centavos), conforme Relatório da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional, Política Urbana e Gestão Metropolitana – SEDRU.

Já o município de Barra Longa/MG foi prejudicado principalmente na pecuária e no comércio, com prejuízos estimados em R$ 14.567.881,00 (quatorze milhões, quinhentos e sessenta e sete mil, oitocentos e oitenta e um reais) e 1.000.000,00 (um milhão de reais), respectivamente. De acordo com Relatório da SEDRU, o total dos prejuízos nesse município alcançou o montante de R$ 16.811.763,08 (dezesseis milhões, oitocentos e onze mil, setecentos e sessenta e três reais e oito centavos).

Por sua vez, o município de Rio Doce/MG suportou prejuízos na agricultura, na pecuária, na indústria, no comércio e nos serviços, mas o setor industrial foi o mais atingido, com a perda de R$ 11.539.704,84 (onze milhões, quinhentos e trinta e nove mil, setecentos e quatro reais e oitenta e quatro centavos). A soma total dos danos é de R$ 12.503.704,84 (doze milhões, quinhentos e três mil, setecentos e quatro reais e oitenta e quatro centavos, segundo o Relatório da SEDRU.

Ademais, o município de Santa Cruz do Escalvado também sofreu perdas econômicas com a paralisação de extração de areia e de ouro, na comercialização de peixes e no turismo, o que totalizou prejuízo no valor de R$ 689.418,00 (seiscentos e oitenta e nove mil, quatrocentos e dezoito reais).61

Os danos na infraestrutura pública e privada dos municípios diretamente atingidos foram especialmente em unidades habitacionais, em estabelecimentos de saúde e de ensino, em pontes, em estradas e em quadras poliesportivas.62

No município de Mariana/MG houve a destruição de: a) 349 (trezentos e quarenta e nove) unidades habitacionais localizadas principalmente nos subdistritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo; b) 8 (oito) pontes no trecho de Mariana/MG a Rio Doce/MG, sendo elas Ponte do trevo de Paracatu sentido Águas Claras, Ponte do Bucão, Ponte Campinas sentido Barreto, Ponte do Gama sentido Mariana, estrada de acesso para Santa Rita, Ponte-estrada de acesso para Mariana, Ponte de Bicas, Ponte- Ponte-estrada de acesso para Camargos; c) 2 (dois) estabelecimentos de saúde; e d) 4 (quatro) estabelecimentos de ensino.

Por sua vez, o município de Barra Longa/MG teve prejuízos relacionados à danificação e à destruição de: a) 133 (cento e trinta e três) unidades habitacionais; b) 3 (três) estabelecimentos de ensino; c) 4 (quatro) pontes, sendo elas Ponte da Onça, Ponte das Corvinas, Ponte do Gesteira e Ponte do Barreto; d) estrada no trecho de Barra Longa/Gesteira/Barreto.

Já o município de Rio Doce/MG suportou danos decorrentes do assoreamento do lago da Candonga, prejudicado por 9 (nove) milhões de m³ de rejeitos depositados, com estimativa de valores para a sua recuperação em R$ 400.000.000,00 (quatrocentos milhões de reais), assim como danos à estrada de acesso à comunidade de Santana do Deserto no valor de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), o que perfaz o montante de R$ 400.500.000,00 (quatrocentos milhões e quinhentos mil reais).

61 BRASIL. Justiça Federal de Minas Gerais. Ação Civil Pública n.º 23863-07-2016.4.01.3800. Ministério Público Federal versus Samarco Mineração S/A e outros, distribuição em 03 de maio

62 BRASIL. Justiça Federal de Minas Gerais. Ação Civil Pública n.º 23863-07-2016.4.01.3800. Ministério Público Federal versus Samarco Mineração S/A e outros, distribuição em 03 de maio de 2016.

Ao final, no município de Santa Cruz do Escalvado/MG houve danos em 1 (uma) unidade habitacional no valor previsto em R$ 60.000,00 (sessenta mil reais) e estimativa de gastos com a realização de obras de infraestrutura públicas no valor de R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais), conforme se depreende do já mencionado Relatório elaborado pela SEDRU.

Além de ter gerado uma série de danos de natureza socioeconômica para os municípios, para as comunidades e para os indivíduos atingidos, o rompimento da barragem de Fundão gerou danos de natureza humana, de impossível quantificação e reparação, e mais sensíveis ao tema desta tese.

As empresas responsáveis ocasionaram a morte de 19 pessoas, entre trabalhadores da SAMARCO e moradores de Bento Rodrigues. São eles: Ailton Martins dos Santos, Claudio Fiuza da Silva, Claudemir Elias dos Santos, Sileno Narkievicius de Lima, Vando Maurílio dos Santos, Waldemir Aparecido Leandro, Pedro Paulino Lopes, Emanuele Vitória Fernandes, Edmirson José Pessoa, Marcos Roberto Xavier, Maria Elisa Lucas, Tiago Damasceno Santos, Antônio Prisco de Souza Marcos, Aurélio Pereira Moura, Maria das Graças Celestino, Samuel Vieira Albino, Mateus Marcio Fernandes, Edinaldo Oliveira de Assis e Daniel Altamiro de Carvalho.63

Houve o desalojamento e a destruição da vida de centenas de pessoas, que ficaram desabrigadas e perderam quase todos os seus bens materiais (aproximadamente 1.000 pessoas somente na Comarca de Mariana). Para além de bens materiais, os atingidos perderam o estilo de vida pacífico de que desfrutavam em comunidade, e a tranquilidade que o convívio diário nas regiões atingidas lhes propiciava.

Na comunidade de Bento Rodrigues, o desastre provocou mortes e devastação, ao arruinarem mais de 180 (cento e oitenta) edificações, arrastarem automóveis, maquinários, semoventes, destruírem plantações, encobrirem logradouros e destruírem a história de vida de comunidades inteiras.

Logo após os eventos, as populações de Bento Rodrigues, Paracatu e demais localidades ficaram ilhadas nos pontos mais altos e passaram a noite inteira aguardando resgate, até que na manhã seguinte chegaram as primeiras equipes de policiais, de bombeiros, de funcionários da Prefeitura de Mariana e da Samarco para retirá-los de lá. De imediato foram alocados no ginásio Arena Mariana e, ainda no dia 06/11/2015, sob orientação dos

63 Uma das sobreviventes do desastre, Priscila Monteiro, alega ter sofrido um aborto, em uma gestação de três meses, ao escapar da lama e ficar internada por treze dias após o rompimento da barragem. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37829548?ocid=socialflow_facebook. Acesso em fev.2019.

órgãos de Defesa Civil e do Ministério Público, a Samarco removeu os atingidos para hotéis em Mariana, praticamente esgotando as vagas.

Passados mais de 30 (trinta) dias da catástrofe, grande parte dos antigos moradores de Bento sequer haviam recebido auxílio adequado das empresas responsáveis para recobrar seus documentos pessoais e enfrentaram grandes filas na expectativa de encontrar roupas doadas por terceiros que lhes pudessem servir; também se submeteram, fossem idosos fossem pessoas com deficiência, a longas horas de espera para ser informados sobre as perspectivas de atendimento a direitos básicos, como moradia, alimentação e renda mínima para subsistência.64

Olhando-se para os danos humanos ocorridos em grupos particulares de indivíduos, chama a atenção a estreita relação dos povos indígenas e dos povos e comunidades tradicionais com os recursos naturais de seus territórios, o que os torna particularmente vulneráveis em hipóteses de desastres ambientais.

Os povos indígenas e as comunidades tradicionais têm um modo diferenciado de apropriação, de uso e de significação do território, que está intimamente ligado à expressão de suas identidades coletivas. O território tradicional e seus elementos naturais são o suporte do modo de vida diferenciado indígena e das comunidades tradicionais, protegido por tratados internacionais e pela Constituição da República de 1988.

É essa conexão entre território e identidades coletivas que faz com que o impacto da degradação ambiental das terras e/ou dos recursos naturais existentes em territórios tradicionais seja tema central nos debates nacionais e internacionais sobre a garantia dos direitos humanos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.

O rompimento da barragem de Fundão acarretou a imediata perda de recurso natural central para a alimentação e para a vida cultural de comunidades indígenas e ribeirinhas localizadas na bacia do Rio Doce. Destaca-se a gravidade dos impactos vivenciados pelos povos indígenas Krenak, Tupiniquim e Guarani, bem como pelos quilombolas, ribeirinhos e pescadores artesanais.

Ilustrativamente, pode-se adentrar nas consequências sofridas pelos Krenak. O rio Doce tem importância fundamental para esse povo indígena. A etnia organizava e reproduzia sua existência física e espiritual em torno do rio, cujas águas banham a Terra Indígena Krenak. Aos 30/07/2015, o psicólogo especialista em populações tradicionais Bruno Simões Gonçalves apresentou, a pedido do Ministério Público Federal, por sua 6ª Câmara de

64 BRASIL. Justiça Federal de Minas Gerais. Ação Civil Pública n.º 23863-07-2016.4.01.3800. Ministério Público Federal versus Samarco Mineração S/A e outros, distribuição em 03 de maio de 2016.

Coordenação e Revisão, laudo psicológico sobre os impactos da violência estatal, ocorrida durante a ditadura militar, sobre os Krenak.65

Referido psicólogo teve a oportunidade de constatar, ainda antes do desastre ambiental decorrente do rompimento da barragem de Fundão, a importância do rio no modo de vida dos Krenak, como se evidencia pelas passagens abaixo transcritas: “a importância do rio na formação do povo Krenak é tão central que uma das formas de eles se autodenominarem é ‘povo do rio Atu’. O rio Atu é o rio Doce, o maior da região. Outro rio central é o rio Eme, que corta a aldeia. A importância do rio é evidenciada também pela palavra usada para designar casa, kij-eme, que poderia ser traduzida como “lugar no rio”, “morada do rio”.66

O desastre socioambiental analisado desencadeou para os Krenak uma série de mudanças nas suas condições ambientais e de existências sociais. As interferências atingem território, lugares, processos relacionais de organismos, indivíduos e famílias, de forma a alterar a produção e reprodução social do grupo, provocando perdas materiais e imateriais nos meios e modos de vida local.

Em se tratando de outras comunidades tradicionais, tais como quilombolas e ribeirinhos, importa mencionar estudo preliminar promovido pelo Núcleo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Mobilizações Sociais (Organon), da Universidade Federal do Espírito Santo/UFES, que permite, a título exemplificativo, identificar algumas das comunidades ribeirinhas atingidas pela contaminação do rio Doce, bem como a complexidade dos impactos produzidos sobre sua forma de apropriação social do espaço.67

O estudo preliminar, intitulado “Impactos socioambientais no Espírito Santo da ruptura da barragem de rejeitos da Samarco”, restringiu-se a três municípios capixabas e identificou, durante os meses de novembro e dezembro de 2015, comunidades ribeirinhas impactadas em Baixo Guandu, Colatina e Linhares.

Entre os impactos identificados, destacam-se o comprometimento ou a perda total da lavoura dos ribeirinhos, que contavam exclusivamente com a água do Rio Doce para irrigação; a redução ou quase extinção do turismo na Vila de Regência, conhecida mundialmente pela prática do surfe, atualmente inviabilizada; a migração de vários

65 BRASIL. Justiça Federal de Minas Gerais. Ação Civil Pública n.º 23863-07-2016.4.01.3800. Ministério Público Federal versus Samarco Mineração S/A e outros, distribuição em 03 de maio de 2016. Documento n. 45.

66 BRASIL. Justiça Federal de Minas Gerais. Ação Civil Pública n.º 23863-07-2016.4.01.3800. Ministério Público Federal versus Samarco Mineração S/A e outros, distribuição em 03 de maio de 2016. Documento n. 45.

67 BRASIL. Justiça Federal de Minas Gerais. Ação Civil Pública n.º 23863-07-2016.4.01.3800. Ministério Público Federal versus Samarco Mineração S/A e outros, distribuição em 03 de maio de 2016. Documento n. 52.

ribeirinhos que perderam sua fonte de renda para ocupação do Movimento dos Sem Terra (MST); a inviabilização da criação, para consumo próprio, de animais que dependiam, para sua dessedentação, da água do rio. O estudo ressalta ainda que os impactos sofridos pelos ribeirinhos não se limitam a aspectos econômicos, mas também afetivos, simbólicos e culturais, o que dá causa a grave sofrimento psíquico a estas populações.

Assim, para além dos efeitos negativos nos serviços ecossistêmicos de provisão e regulação tangíveis, os impactos causarão perdas de valores intangíveis e culturais, tais como tradições culturais, valor espiritual e estético de organismos, processos e paisagens. O patrimônio colonial e étnico afetado, os parques recreativos e os locais de pesca esportiva e de subsistência representaram significativa fonte de renda e de bem-estar para as comunidades locais. Os impactos severos sobre o turismo e os valores relacionais transcenderão as gerações após o reassentamento das populações humanas e a recuperação do habitat.68

Ilustrativamente, cabe mencionar que a Vila de Regência, distrito de Linhares-ES, possui uma estreita ligação com o surfe e, com a indicação da chegada da lama na região, houve uma proliferação de protestos contra a Samarco. Durante visita de campo69, foi relatado por moradores que a prefeitura de Linhares havia proibido a entrada no mar e espalhado placas apontando que a água estava imprópria para banho. A partir desse momento, qualquer atividade relacionada ao contato com a água estaria vetada, fosse a pesca, o nado, o surfe, fosse o banho.

Essa proibição, portanto, acabou por inviabilizar a principal atividade que atrai turistas de diversos lugares do mundo para a Vila: o surfe. A sexta e última etapa do Campeonato Estadual de Bodyboard, que seria disputada em Regência, precisou ser transferida de local por conta da contaminação do mar. Além disso, a 2ª etapa do Circuito Linharense de Surfe, previsto para acontecer em Pontal do Ipiranga, no mesmo município, e que faz parte da foz norte do Rio Doce, também foi afetada, pois seus realizadores ficaram apreensivos em realizar o campeonato em um local possivelmente contaminado.

68 FERNANDES, Geraldo Wilson, GOULART, Fernando F., RANIERI, Bernardo D., COELHO, Marcel S., DALES, Kirsten, BOESCHE Nina, BUSTAMANTE Mercedes, CARVALHO Felipe A., CARVALHO, Daniel C., DIRZO, Rodolfo, FERNANDES, Stephannie, GALETTI Pedro M., MILLAN Virginia E. Garcia, MIELKE Christian, RAMIREZ Jorge L., NEVES Ana, ROGASS Christian, RIBEIRO Sérvio P., SCARIOT Aldicir, SOARES-FILHO, Britaldo. Deep into the mud: ecological and socio-economic impacts of the dam breach in Mariana, Brazil, Natureza & Conservação, Volume 14, Issue 2, 2016, Pages 35-45, ISSN 1679-0073, https://doi.org/10.1016/j.ncon.2016.10.003.

(http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1679007316301104)

69 ORGANON, Núcleo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Mobilizações Sociais. Impactos socioambientais da ruptura da barragem de rejeitos da Samarco no Espírito Santo - Relatório preliminar. Novembro / dezembro. Mimeo. 2015.

Ainda, para além das condições materiais de sobrevivência, no que diz respeito aos danos de saúde, estes se apresentam como agravos de ordem incomensurável: depressão, síndrome do pânico, alcoolismo, pioras em doenças respiratórias, conjuntivite, coceira, alergias, queimaduras em contato com o rejeito.70

Desta forma, as consequências à saúde podem ser de ordem física e/ou psicológica, consideradas as especificidades do acometimento local e a realidade socioambiental de cada cidade atingida. Os cenários são diversos, com localidades completamente destruídas pela lama, como Bento Rodrigues, Paracatu e parte de Barra Longa, até cidades afetadas indiretamente pela interrupção ou comprometimento do abastecimento de água.

Nos locais onde a lama invadiu e destruiu casas e parte da cidade, como no município de Barra Longa, o sofrimento psíquico também se relaciona com as perdas materiais (casas, pertences, meios de subsistência) e simbólicas (álbuns de família, horta, ruptura da dinâmica comuni- tária, alteração brusca no cotidiano), entre outras inúmeras privações a que foram submetidos os atingidos repentinamente. Há ainda as comunidades afetadas pela contaminação do Rio Doce, tanto as que utilizavam o rio como meio de subsistência e de exercício da religiosidade – a exemplo do caso já mencionado da comunidade indígena Krenak –, quanto as que sofreram impacto no abastecimento de água. Os territórios que eram cenários dos laços sociais e afetivos constituídos, após o desastre, tornaram-se fragilizados; no caso de Bento Rodrigues e de Paracatu de Baixo, completamente comprometidos.

No entanto, em alguns casos, o sofrimento pode gerar o adoecimento psíquico. Foram observadas demandas emergenciais de atendimento em saúde mental pós-desastre durante a visita aos territórios atingidos, relatadas nas entrevistas dos moradores e dos profissionais de saúde das Unidades Básicas de Saúde e lideranças do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). São descrições de surgimento e/ou agravamento de quadros clínicos psicopatológicos, como quadros depressivos, estresse pós-traumático, problemas no sono, síndrome do pânico e crises de ansiedade. Há ainda relatos de tentativas de suicídio, aumento do uso abusivo de álcool e de outras drogas, violência doméstica e duas situações mais graves de surto psicótico e óbito, provocados pelo desajuste causado pelo crime ambiental.71

Ademais, é fundamental destacar o sofrimento psíquico dos familiares que perderam seus entes queridos no desastre.

70 MILANEZ, B.; LOSEKANN, C. (org.). Desastre no Vale do Rio Doce: antecedentes, impactos e ações sobre a destruição. Rio de Janeiro: Folio Digital: Letra e Imagem, 2016. ISBN 978-85-61012-85-4

71 MILANEZ, B.; LOSEKANN, C. (org.). Desastre no Vale do Rio Doce: antecedentes, impactos e ações sobre a destruição. Rio de Janeiro: Folio Digital: Letra e Imagem, 2016. ISBN 978-85-61012-85-4

Os impactos na saúde mental dos indivíduos atingidos também seguem seu curso para além do rompimento da barragem do Fundão. Faz-se necessário pontuar os eventos que o precederam – ausência de sirenes de aviso, ausência de outras barreiras de contenção – e que se sucederam ao episódio – contenção ineficiente do rejeito e o medo constante de que outra barragem se rompesse – como parte dos fatores que contribuem para que as proporções se tornem ainda mais catastróficas.

Entre as inúmeras imprudências com repercussão na saúde mental após o desastre, podemos destacar o fato de o homem da família ter sido escolhido como titular beneficiário do auxílio financeiro oferecido pela empresa. Tal feito tem se mostrado um potencial fator de piora para os casos de violência doméstica, violência de gênero e uso abusivo de álcool e/ou outras substâncias psicoativas nas comunidades atingidas.72

Como é sabido, os impactos causados pelo desastre não são iguais entre gêneros; homens e mulheres sofrem diferentes vulnerabilidades frente a tais fenômenos. Isso se deve à distinção entre os papéis social e historicamente ocupados por homens e mulheres, bem como pelos padrões de discriminação existentes. As mulheres acabam sempre por sofrer maiores consequências no que diz respeito à exposição e à sensibilidade aos riscos socioambientais e bem como no tocante às desigualdades de acesso aos recursos nos casos de tragédias.

No desastre em questão, no âmbito do Espírito Santo, um dos principais impactos sofridos pelas mulheres deu-se a partir do momento em que a organização espacial do território foi alterada pelas continuas atividades da mídia, das ações de mitigação de danos e das diversas pesquisas que se iniciaram. Houve um relatado aumento nos riscos de assédio sexual e de estupro. 73

Outro aspecto que deve ser levantado é o que se refere às desigualdades na distribuição de auxílios para os pescadores e pescadoras, ou seja, o tratamento desigual às mulheres nas compensações. Houve o acordo de que a empresa pagaria um salário para todos os pescadores afetados pela tragédia, porém inicialmente não se levou em consideração as mulheres pescadoras que também trabalham. O trabalho feminino nas relações entre pescadores e pescadoras é quase sempre colocado como auxiliar e, portanto, invisibilizado.74

72 MILANEZ, B.; LOSEKANN, C. (org.). Desastre no Vale do Rio Doce: antecedentes, impactos e ações sobre a destruição. Rio de Janeiro: Folio Digital: Letra e Imagem, 2016. ISBN 978-85-61012-85-4

73 ORGANON, Núcleo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Mobilizações Sociais. Impactos socioambientais da ruptura da barragem de rejeitos da Samarco no Espírito Santo - Relatório preliminar. Novembro / dezembro. Mimeo. 2015.

74 ORGANON, Núcleo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Mobilizações Sociais. Impactos socioambientais da ruptura da barragem de rejeitos da Samarco no Espírito Santo - Relatório preliminar. Novembro / dezembro. Mimeo. 2015.

De um modo geral, os efeitos socioambientais do desastre da Samarco/Vale/BHP Billinton nos territórios de existência coletiva da população atingida expõem um cenário de desrespeito e de esfacelamento dos direitos humanos e da dignidade dessas populações.

Essa compreensão contribui para tornar patente a gravidade dos problemas que esses sujeitos enfrentaram e ainda enfrentam no cotidiano dos lugares de sua existência, como as comunidades rurais, os assentamentos de reforma agrária, os povoados e as cidades. As fontes