3.2 Categorias de análise
3.2.2 Perfil da jornada de trabalho dos professores
A jornada de trabalho do professor de Ciências do Ensino Fundamental II não foge à regra da jornada dos demais professores de outras disciplinas e outras modalidades de ensino, como ressalta Freitas (2002), os educadores são atingidos por diversos fatores que afetam seu desempenho, como carga horária de trabalho excessiva, baixa remuneração, problemas na formação, dentre outros. Dos 28 professores, 14 trabalham em uma escola (alguns com dois cargos), 9 trabalham em duas escolas e 5 trabalham em três escolas ou mais. Quanto ao número de aulas semanais, 8 ministram até 20 aulas, outros 8 ministram de 21 a 30 aulas e 12 professores trabalham com mais de 30 aulas semanais. Em um turno, trabalham apenas 4 professores, 19 trabalham em dois turnos e 5 professores trabalham em três turnos. Dos 28 professores, 13 atuam somente no Ensino Fundamental e 15 atuam no Ensino Fundamental e Ensino Médio concomitantemente. Na rede estadual de ensino, atuam 19 professores, na rede estadual e municipal ao mesmo tempo, atuam 4 professores e na rede estadual e particular simultaneamente, atuam 5 professores. As figuras a seguir, expressam o perfil das condições de trabalho dos participantes da pesquisa.
Figura 1: Número de escolas nas quais os professores participantes da pesquisa trabalham 0 2 4 6 8 10 12 14 16
uma escola duas escolas três ou mais escolas
N ú m e ro d e p ro fessor e s Número de escolas
Os dados expostos na Figura 1 mostram que mais de 50% dos participantes da pesquisa trabalham em uma escola, o que de certa forma facilita o trabalho do professor, já que participa de reuniões, módulos e eventos em uma instituição apenas, o que não acontece com os outros professores que trabalham em duas e até em três escolas. A categoria docente é uma das mais expostas a ambientes conflituosos e de alta exigência de trabalho, como reuniões, atividades adicionais e tarefas extra-classe (REIS et al, 2005). Essa situação estressante repercute na saúde física e mental, assim como no desempenho profissional dos professores, motivo de esgotamentos emocionais e solicitação de licenças médicas para tratamento de saúde. Licenças essas que, não raro, geram prejuízos para os alunos, seja pelo rodízio de professores que muitas vezes acontece, ou até mesmo a falta deles, visto que algumas vezes não há professores para substituir o que está adoentado.
É pertinente salientar que o sistema escolar contrata um efetivo insuficiente (GASPARINI; BARRETO; ASSUNÇÃO, 2005). Os dados do Ministério da Educação, já em 2004, apontam que, somente no ensino médio, faltam na rede, para citar apenas um dos casos de insuficiência de efetivo, 23,5 mil professores de Física no Brasil (MEC/INEP, 2004).
A Figura 2 aponta o número de aulas que os professores ministram semanalmente.
Figura 2: Número de aulas semanais ministradas pelos professores 0 2 4 6 8 10 12 14
até 20 aulas de 21 a 30 aulas mais de 30 aulas
N ú m e ro d e p ro fessor e s
A Figura 2 indica que mais de 40% dos professores trabalham com mais de 30 aulas semanais, isso sem contar com os horários de módulo que são cumpridos extra turno.
Com essa carga horária extensa, não há tempo para recuperação do cansaço físico e mental, podendo gerar sobreesforço ou hipersolicitação de suas funções psicofisiológicas (GASPARINI; BARRETO; ASSUNÇÃO, 2005), isso pode desencadear ou precipitar sintomas clínicos que resultam também nos afastamentos do serviço, que estão a cada dia mais constantes.
Sem tempo para preparar aulas e corrigir trabalhos ou com poucas oportunidades para discussões com seus pares, não é fácil para o professor desenvolver um trabalho que tenha interesse para ele próprio e para o aluno (BASSO, 1998). Os professores, não por própria culpa, estão realizando uma prática alienante, comprometendo a qualidade de ensino. Como foi constatado no desenvolver da presente pesquisa e será demonstrado no capítulo 4, muitas vezes o trabalho pedagógico fica resumido a repetir conteúdos imutáveis, realizando uma reprodução mecânica, e isso, segundo o autor acima citado, não permite a ampliação das possibilidades de crescer como professor e como ser humano.
A Figura 3 mostra em quais turnos os professores trabalham.
Figura 3: Turnos nos quais os participantes da pesquisa trabalham
Como se pode observar na Figura 3, aproximadamente 14% dos professores trabalham em apenas um turno, 70% trabalham em dois turnos e 18% trabalham em exaustivos três turnos. Um turno corresponde a 4:30 horas de trabalho. Essa carga horária seria a ideal, pois em um turno o professor estaria ministrando suas aulas e no outro estaria preparando as
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
um turno dois turnos três turnos
N ú m e ro d e p ro fessor e s Turnos de trabalho
mesmas, porém, essa jornada de trabalho não é a realidade da maioria dos professores, é o sonho.
Os professores que trabalham em três turnos e ministram mais de 40 aulas semanais, trabalham também em escolas da rede privada, já que nas escolas públicas, o professor pode trabalhar com até dois cargos de 20 aulas cada.
A Figura 4 traz as modalidades de ensino nas quais os professores atuam.
Figura 4: Modalidades de ensino nas quais os professores participantes da pesquisa atuam
A Figura 4 mostra que aproximadamente 46% dos professores trabalham apenas no Ensino Fundamental e aproximadamente 54% trabalham em duas modalidades de ensino: Fundamental e Médio. Em alguns casos, quando o professor trabalha somente em uma modalidade de ensino, ele tende a ficar limitado, por exemplo, uma das professoras entrevistadas que ministra aulas somente no ensino fundamental disse que não lê nem utiliza livros do ensino médio para preparar suas aulas. Pensamos que isso seria importante para ampliar o olhar sobre o conteúdo didático que, no caso do ensino de Ciências (Ensino Fundamental) e de Biologia (Ensino Médio) há um aprofundamento/complementação dos conteúdos básicos.
A Figura 5 apresenta as redes de ensino nas quais os professores trabalham 0 2 4 6 8 10 12 14
ensino fundamental ensino fundamental e médio
N ú m e ro d e p ro fessor e s Modalidades de ensino
Figura 5: Redes de ensino nas quais os professores participantes da pesquisa trabalham
Podemos observar na Figura 5 que quase 70% dos professores participantes da pesquisa trabalham somente na rede estadual de ensino, 12% trabalham na rede estadual e na rede municipal e 18% trabalham na rede estadual e na rede particular. O resultado se justifica, já que a pesquisa foi feita em escolas da rede estadual de ensino, sendo assim, todos os professores participantes da pesquisa trabalham ou na rede estadual de ensino, ou na rede estadual e municipal ou na rede estadual e privada. Nenhum professor participante atua nas três redes de ensino simultaneamente.
Na cidade de Araguari, é mais vantajoso financeiramente trabalhar em escolas da rede estadual do que nas escolas da rede municipal. As condições de trabalho e a rede física das escolas se assemelham nas duas redes de ensino.