5 HOMICÍDIOS E TRANSGRESSÕES NO BRASIL
6.2 Perfis transgressivo-criminais das AMCs brasileiras (1991, 2000, 2010)
6.2.1 Perfis transgressivo-criminais por ano
6.2.1.2 Perfil de transgressividade-criminalidade em 2000
A utilização dos grupos de AMCs de 1991 com os dados de 2000, de maneira a averiguar a transição de sua posição nos grupos de transgressividade-criminalidade requer a aplicação da análise discriminante, porque permite classificar novas observações, neste caso significa classificar AMCs com suas características em 2000, em grupos previamente estabelecidos (1991). Isto é, dados os agrupamentos naturais de 1991, utilizam-se as magnitudes das variáveis de interesse dos demais anos a fim de identificar as AMCs que mudaram de grupo de um ano para outro.
Ao testar a igualdade das matrizes de correlações dos grupos naturais (teste de Wald), evidencia-se a rejeição da hipótese nula (chi2(132) = 1497,89 e Prob > chi2 =0,00), exigindo a construção de regras de classificação por função discriminante quadrática, para as reclassificações das AMCs com as características transgressivo-criminais de 2000. Contudo, para Johnson e Wichern (2007) a classificação com funções quadráticas é problemática quando se tem mais de duas dimensões, como nesta investigação, e o problema se aprofunda quando as distribuições amostrais não seguem a normalidade multivariada. Eles sugerem utilizar regras de classificação a partir de funções discriminantes lineares (canônicas).
A classificação das AMCs nos três grupos com a matriz de informação de 2000 indica taxa de erro de 41,05%. Os subconjuntos de AMCs passíveis de reclassificação são: 272 do grupo A (alta transgressividade-criminalidade) foram incorretamente classificadas como de I, e 292, do grupo B; 187 do grupo I (intermediário) têm classificações incorretas como de A e 184, de B; e 460 do grupo B (baixa transgressividade-criminalidade) em A e 367, em I. A partição final de 2000 tem taxa de erro de 31,06 % e foram efetivamente realocadas 433 AMCs.
Sem perda de generalidade, os motivos dos erros de classificação estão circunscritos ao
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Embora o termo “juvenil” possa indicar decisão transgressiva por parte de uma jovem, a conjugalidade juvenil reflete, sobretudo, uma decisão transgressiva/criminal de um adulto.
fato de apresentarem características em 2000 mais assemelhadas às dos grupos A, I e B de 2000 do que às do grupo previamente classificadas (classificação de 1991). Assim, por exemplo, AMCs do grupo A em 1991, mas com características mais similares às do grupo I (dados de 2000) geram probabilidades, pelo método de Lachenbruch, indicando a necessidade de reclassificá-las no grupo I; e as mais similares ao grupo B, reclassificadas no grupo B; e assim sucessivamente para aquelas prévia e erroneamente classificadas nos grupos I e B. A Tabela 10 mostra a distribuição final das AMCs conforme os grupos de características transgressivo-criminais de 2000.
TABELA 10 - Método de classificação de Lachenbruch (2000)
Grupos A I B Total A 999 185 237 1421 (70,30 %) (13,02 %) (16,68 %) (100 %) I 149 738 147 1034 (14,41 %) (71,37 %) (14,22 %) (100 %) B 377 253 1176 1806 (20,87 %) (14,01 %) (65,12 %) (100 %) Total 1525 1176 1560 4261 (35,79 %) (27,60 %) (36,61 %) (100 %) Fonte: Resultados da pesquisa.
Nota: Valores entre parênteses são as probabilidades de classificação corretas e incorretas.
O resultado final das reclassificações indica que 433 AMCs transitaram de seu grupo natural de 1991; 235 (5,51% das AMCs) passaram a um grupo de maior nível de transgressividade-criminalidade, e 198 (4,64%), para de menor nível. As distâncias mahalanobianas entre os grupos A e I é 3,8326, entre A e B é 2,5765, e entre I e B, 3,8650).
A validação da qualidade da classificação requer averiguar se as distribuições amostrais dos grupos se sobrepõem. O teste chi-quadrado de Wald (Wald chi2(24) = 3984,31), pressupondo desigualdade das matrizes de correlações dos grupos naturais, com a aproximação de James (1954) para o p-valor do teste (Prob > chi2 = 0,00) sugere a rejeição da hipótese de igualdade dos escores médios dos três grupos; sob mesmo pressuposto, o teste
likelihood-ratio (LR), embora requeira normalidade multivariada (as transformações das
variáveis originais de 2000 somente se aproximam da normalidade), também indica a rejeição da igualdade das médias (LR chi2(24) = 2729,97 com Prob > chi2 = 0,00). Além disso, pelo
teste de Wald, rejeita-se a hipótese de igualdade das matrizes de correlações dos grupos A, I e B (Jennrich chi2(132) = 1497,89 e Prob > chi2 = 0,00). Portanto, há evidências de que os grupos têm distintos vetores de médias e matrizes de variâncias-covariâncias desiguais.
A análise da função discriminante linear canônica mostra que a primeira função, que explica 55,92% da variação total da variância, tem como variáveis mais importantes (coeficientes padronizados) na discriminação dos grupos evasão escolar adulta (nc), divórcio (sdd), monoparentalidade (mp) e homicídio (mh); da segunda função, lixo ilicitamente disposto (qbr), evasão escolar adulta e população sem religião (sr) (TABELA 11). Todas as variáveis são estatisticamente significantes (Apêndice 19).
TABELA 11 – Cargas discriminantes canônicas (2000) Funções Discriminantes Canônicas (FDC)
Variáveis FDC 1 FDC 2
Não padronizada Padronizada Não padronizada Padronizada
sdd 0.535 0.257 -0.546 -0.349 mp 0.002 0.174 -0.137 0.017 gp -0.682 -0.255 -0.123 0.033 cj -0.548 -0.188 -0.289 -0.268 unr -0.512 -0.409 -0.497 -0.260 sr -0.497 -0.152 -0.327 0.110 fe -0.432 0.009 0.042 -0.174 nc 0.498 0.340 0.163 0.114 qbr -0.454 -0.199 0.590 0.417 ncu -0.286 -0.117 -0.212 -0.200 ms 0.260 0.095 -0.321 -0.195 mh -0.078 0.168 -0.637 -0.443
Fonte: Resultados da pesquisa.
Nota: Wald chi2(24) = 3984.31, p-valor < 0.001; LR chi2(24) = 2729.97 , p-valor < 0.001.
O grupo A tem 1421 AMCs (33,35%) com taxas médias das transgressões e crimes superiores às taxas médias nacionais (Tabela 12), exceto para evasão escolar infanto-juvenil e adulta e lixo doméstico ilegalmente descartado. São superiores às do grupo I para divórcio, monoparentalidade, evasão escolar adulta, suicídio e homicídio. Perdem, em magnitude, das taxas médias do grupo B para a evasão escolar adulta e lixo doméstico ilegalmente descartado. É um grupo com distribuições amostrais mais homogêneas do que as das distribuições em nível nacional, exceto quanto a lixo ilegal. Tem distribuições menos
dispersas do que as do grupo I (exceto para conjugalidade juvenil, evasão escolar infanto- juvenil e lixo ilicitamente disposto) e do grupo B. Em suma, é um grupo de altas médias nas transgressões familiares-domiciliares adultas, evasão escolar adulta e crimes contra a pessoa, com baixa dispersão.
O grupo I (1034 AMCs (24,25%)) tem taxas médias superiores às nacionais nas transgressões familiar-domiciliar juvenil, religiosas e de disposição de lixo. Médias superiores às do grupo A nas transgressões anteriormente citadas e em evasão escolar infanto-juvenil e absenteísmo eleitoral; e às do grupo B exceto para divórcio, monoparentalidade, evasão escolar adulta e suicídio. São mais homogêneas do que o conjunto de todas as AMCs, a menos de divórcio, transgressões educativas e de crime contra a pessoa. Em relação aos demais grupos, o grupo I é mais homogêneo do que o grupo A quanto à conjugalidade, uniões não religiosas e lixo ilícito; e quanto ao grupo B nas variáveis de transgressão familiar- domiciliar, religiosa e comunitária. Em suma, é um grupo de altas médias nas transgressões familiar-domiciliar juvenis, religiosas e lixo ilegalmente disposto e menos homogêneos do que o grupo A.
TABELA 12 - Estatísticas descritivas (média, desvio padrão e coeficiente de variação), por grupo (2000)
Grupos Estat sdd mp gp cj unr sr fe nc qbr ncu ms* mh*
A M 2.69 10.13 0.31 0.07 22.04 5.79 4.96 29.94 27.29 9.89 5.73 18.17 DP 1.28 2.26 0.15 0.07 6.92 4.88 1.80 3.66 20.96 4.06 5.27 17.10 CV 0.48 0.22 0.47 0.95 0.31 0.84 0.36 0.12 0.77 0.41 0.92 0.94 I M 1.12 9.68 0.44 0.10 23.01 6.58 6.64 27.71 58.40 10.79 2.41 7.56 DP 0.94 2.59 0.21 0.09 7.22 6.39 3.19 4.55 22.68 4.99 4.12 9.51 CV 0.84 0.27 0.49 0.89 0.31 0.97 0.48 0.16 0.39 0.46 1.71 1.26 B M 1.98 9.63 0.23 0.04 15.08 3.08 4.74 31.95 41.61 8.07 5.49 6.53 DP 1.12 2.97 0.17 0.07 7.19 3.52 1.71 4.34 22.12 4.46 7.33 8.18 CV 0.57 0.31 0.75 1.73 0.48 1.15 0.36 0.14 0.53 0.55 1.34 1.25 Total M 2.01 9.81 0.31 0.07 19.33 4.83 5.27 30.25 40.91 9.34 4.82 10.66 DP 1.28 2.67 0.19 0.08 7.99 5.04 2.33 4.50 24.80 4.61 6.17 13.27 CV 0.64 0.27 0.63 1.20 0.41 1.04 0.44 0.15 0.61 0.49 1.28 1.24
Fonte: Resultados da pesquisa.
Nota: * taxa por 100 mil hab.; as demais em porcentagem (exceto coeficientes de variação).
Comparado ao conjunto de todas as AMCs, o grupo B, contendo 1806 AMCs (42,38%), tem as menores taxas médias, exceto quanto à evasão escolar adulta, disposição ilegal de lixo doméstico e suicídio. Supera o grupo A nas duas primeiras variáveis anteriormente citadas; e
o grupo I em divórcio, evasão escolar adulta e suicídio. As distribuições amostrais, em relação às do conjunto de todas as AMCs são mais heterogêneas; mais disperso em relação ao grupo A do que ao grupo I. Grupo com mais baixas médias e mais heterogêneo. A Tabela 12 apresenta as estatísticas descritivas para cada um dos grupos.
As correlações superiores e positivas para uniões não religiosas e população sem religião, e evasão escolar infanto-juvenil e lixo ilegalmente descartado, gravidez precoce e conjugalidade juvenil; negativas: divórcio com evasão escolar infanto-juvenil e lixo ilegalmente descartado, e evasão escolar infanto-juvenil e lixo ilegalmente descartado (grupo A) (Apêndice 22).
Em resumo, o grupo A tem altas médias nas transgressões familiares-domiciliares adultas, evasão escolar adulta e crimes contra a pessoa (com as mais baixas dispersões), o grupo I, altas médias nas transgressões familiar-domiciliar juvenis, religiosas e lixo ilegalmente disposto (menos homogêneo do que A) e grupo B é caracterizado com as menores médias, mas é mais heterogêneo.