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Perfil de transgressividade-criminalidade em 1991

No documento sandrodefreitasferreira (páginas 178-183)

5 HOMICÍDIOS E TRANSGRESSÕES NO BRASIL

6.2 Perfis transgressivo-criminais das AMCs brasileiras (1991, 2000, 2010)

6.2.1 Perfis transgressivo-criminais por ano

6.2.1.1 Perfil de transgressividade-criminalidade em 1991

A análise de agrupamentos com as características transgressivas-criminais de 1991 indica que as AMCs brasileiras podem ser classificadas em três grupos distintos. Note-se que este procedimento exploratório não permitiu classificar 22 AMCs pelo fato de serem valores faltantes em uma das variáveis (por exemplo, Juiz de Fora, em absenteísmo eleitoral).

Embora a taxa de erro total de classificação pelo método não hierárquico de k-médias seja baixa, 1,16%, a avaliação da necessidade de realocação das AMCs entre os grupos dessa partição sugere que 45 AMCs poderiam ser reclassificadas em outro grupo. A Tabela 7 indica os números de AMCs mal classificadas: 25 poderiam estar no grupo 1, mas foram classificadas como sendo do grupo 2 e duas como do grupo 3; onze poderiam estar no grupo 2, mas foram posicionadas no grupo 1 e uma no grupo 3; e finalmente, seis delas poderiam estar no grupo 3, mas foram mal classificadas como sendo do grupo 1.

TABELA 7 - Método de classificação de Lachenbruch (1991)

Grupos 1 2 3 Total 1 1402 25 2 1429 (98,11 %) (1,75 %) (0,14 %) (100 %) 2 11 928 1 940 (1,17 %) (98,72 %) (0,11 %) (100 %) 3 6 0 1867 1873 (0,32 %) (0 %) (99,68 %) (100 %) Total 1419 954 1870 4242 (33,45 %) (22,47 %) (44,08 %) (100 %) Fonte: Resultados da pesquisa.

Nota: Valores entre parênteses são as probabilidades de classificação corretas e incorretas.

Em particular, as AMCs com população superior a 50 mil habitantes que poderiam ser reclassificadas são Camaçari, Ribeirão das Neves, Várzea Grande, São Mateus do Maranhão (entre 100 e 500 mil hab.); Jaraguá do Sul, Jaú, Lavras, Conselheiro Lafaiete, União dos Palmares, Rodrigues Alves, Luis Domingues, Pedreiras-Trizidela do Vale, João Costa,

Itaitinga-Pacatuba e Manhuaçu-Reduto-Luisburgo-São João do Manhuaçu (entre 50 e 100 mil hab.).

Diante das probabilidades de classificação em cada grupo e considerando-se apenas as probabilidades superiores a 80% (MINGOTI, 2007), somente nove AMCs precisam ser efetivamente reclassificadas, em particular, do grupo 3 para o grupo 1: Conselheiro Lafaiete e Jaguará do Sul (ambas por conta da altas taxas de conjungalidade juvenil, lixo ilicitamente disposto e homicídio em relação às médias do grupo), Biguaçu (altas taxas de uniões não religiosas, população sem religião e absenteísmo eleitoral, além das variáveis das duas cidades anteriormente mencionadas) e Uruaçu (altas taxas para todas as variáveis); do grupo 2 para o grupo 1, Manhuaçu (motivos: altas taxas de evasão escolar infanto-juvenil e lixo ilicitamente disposto); de 1 para 2, Jenipapo de Minas (embora com altas taxas de conjugalidade juvenil, evasão escolar infanto-juvenil e disposição ilícita de lixo doméstico, registra também baixas taxas de divórcio, monoparentalidade, suicídio e homicídio); do grupo 1 para 3, Ribeirão das Neves e Amontada (baixas taxas de divórcio e monoparentalidade) e do grupo 2 para 3, Exu (taxa de 0% de suicídio). De modo geral, o padrão de motivos para as reclassificações efetivas é o fato de as AMCs apresentarem magnitudes de algumas taxas de transgressão e crime distantes das taxas médias dos respectivos grupos.

TABELA 8– Grupos de AMCs (1991)

Grupos 1 2 3 Total 1 1406 25 0 1431 (98,25 %) (1,75 %) (0 %) (100 %) 2 10 929 0 939 (1,06 %) (98,94 %) (0 %) (100 %) 3 2 0 1870 1872 (0,11 %) (0 %) (99,89 %) (100 %) Total 1416 956 1870 4242 (33,43 %) (22,49 %) (44,08 %) (100 %) Fonte: Resultados da pesquisa.

Nota: Valores entre parênteses são as probabilidades de classificação corretas e incorretas.

Após as reclassificações a taxa de erro total reduziu para 0,97% e as AMCs distribuem- se de tal modo que 33,43% são do grupo 1, 22,49% do grupo 2 e 44,08% do grupo 3, cujas

configurações são mostradas na Tabela 8. Observe-se que 25 AMCs do grupo 1 são incorretamente classificadas no grupo 2; 10 do grupo 2, no grupo 1, e apenas duas do grupo 3, no grupo 1.

A avaliação da qualidade das funções discriminantes requer averiguar se os escores médios dos grupos são ou não próximos entre si; em caso afirmativo isso sugere a possível superposição entre dois, ou até mesmo mais, grupos. Visto que o teste de Wald, proposto por Jennrich (1970), indica a rejeição da hipótese nula de igualdade das matrizes de correlações dos grupos naturais (Jennrich chi2(132) = 1319,85 e Prob > chi2 = 0,00), então se requer um teste de igualdade de médias dos grupos pressupondo essa desigualdade. O teste chi-quadrado de Wald (Wald chi2(24) = 92948,84) com a aproximação de James (1954) para o p-valor do teste (Prob > chi2 = 0,00) conduz à rejeição da hipótese de igualdade dos escores médios dos três grupos. Um teste adicional, com o mesmo pressuposto, é o teste likelihood-ratio (LR) que, embora requeira normalidade multivariada (não plenamente alcançada nas transformações das variáveis), indica a rejeição da igualdade das médias (LR chi2(24) = 92944,26 com Prob > chi2 = 0,00). Em suma, há evidências de que os grupos têm distintos vetores de médias e distintas matrizes de variâncias-covariâncias.

A análise das funções discriminantes canônicas mostra que a primeira função explica 94,01% da variação total da variância e todas as doze variáveis são estatisticamente significantes. As variáveis mais importantes na discriminação dos grupos são conjugalidade juvenil, monoparentalidade, disposição ilegítima de lixo doméstico e divórcio, e as de menor peso, gravidez precoce, absenteísmo eleitoral e suicídio, respectivamente. Quanto à segunda função discriminante, suicídio e homicídio são as variáveis mais relevantes (Apêndice 18).

O grupo 1 da partição final de 1991 agrega 1431 AMCs (33,56%) com taxas médias das transgressões e crimes superiores às taxas médias nacionais (considerando todas as AMCs), exceto para evasão escolar infanto-juvenil e adulta, lixo doméstico ilegalmente descartado e absenteísmo eleitoral, que são as menores. Em relação aos demais grupos, tem as maiores taxas médias nas transgressões no âmbito familiar-domiciliar adulto (divórcio (sdd) e monoparentalidade (mp)), população sem religião (sr), suicídio (ms) e homicídio (mh) e as menores médias para evasão escolar infanto-juvenil (fe), lixo ilicitamente disposto (qbr) e absenteísmo eleitoral (ncu). Porém, as médias não superam às do grupo 3 para evasão escolar infanto-juvenil, lixo doméstico ilegalmente descartado e absenteísmo eleitoral (Tabela 9).

Quanto à dispersão das taxas em relação à taxa média (medida pelo coeficiente de variação), é um grupo com distribuições amostrais mais homogêneas (baixos coeficientes de variação) do que as das distribuições considerando todas as AMCs, exceto quanto a lixo

ilegal. Por outro lado, é mais heterogêneo que o grupo 2 para conjugalidade juvenil (cj), evasão escolar infanto-juvenil, lixo ilicitamente disposto e absenteísmo eleitoral. Em suma, é um grupo de altas médias nas transgressões familiar-domiciliar adultas, religiosas e de crimes contra a pessoa e baixas dispersões.

O segundo grupo, com 939 AMCs (22,02%), tem médias superiores às nacionais para gravidez precoce (gp), conjugalidade juvenil e as transgressões dos âmbitos educativo (evasão escolar infanto-juvenil e adulta (nc)) e comunitário (lixo ilegal e não comparecimento às urnas). Esse padrão se repete quando se compara com o grupo 1 (inclusive para a variável uniões não religiosas (unr)). Tem as menores médias em monoparentalidade, suicídio e homicídio. Embora o grupo 2 tenha médias superiores às do grupo 1 em sete variáveis não se configura um grupo de alto perfil transgressivo-criminal, pois tem distribuições amostrais relativamente mais dispersas.

As magnitudes de seus coeficientes de variação, comparados aos nacionais, indicam homogeneidade, embora não tanto quanto o grupo 1, para a maioria das variáveis, exceto monoparentalidade, população sem religião, evasão escolar adulta, suicídio e homicídio. Em relação aos demais grupos, é mais homogêneo quanto à conjugalidade juvenil, evasão escolar infanto-juvenil e transgressões comunitárias; e mais disperso em monoparentalidade, evasão escolar adulta, suicídio e homicídio. Resumidamente, é um grupo de altas médias nas transgressões familiar-domiciliar juvenis, educativas e comunitárias, e mais homogêneos nessas mesmas transgressões.

O grupo 3, contendo 1872 AMCs (43,90%), comparado ao conjunto de todas as AMCs, tem as menores taxas médias, exceto quanto à disposição ilegal de lixo doméstico. Supera o grupo 1 em evasão escolar infanto-juvenil e transgressões comunitárias; e o grupo 2 em monoparentalidade, suicídio e homicídio.

As distribuições amostrais, em relação às do conjunto de todas as AMCs, são menos dispersas apenas para monoparentalidade, evasão escolar infanto-juvenil e lixo ilegal. É um grupo relativamente mais heterogêneo que o grupo 2 quanto a divórcio, gravidez precoce, conjugalidade juvenil, uniões não religiosas e absenteísmo eleitoral. A Tabela 9 apresenta as estatísticas descritivas para cada um dos grupos e variáveis. Simplificando, é um grupo de baixas taxas médias e mais heterogêneo nas transgressões familiares-domiciliares, religiosas e absenteísmo eleitoral.

TABELA 9 – Estatísticas descritivas (média, desvio-padrão e coeficiente de variação), por grupo (1991)

Grupos Estat sdd mp gp cj unr sr fe nc qbr ncu ms* mh*

1 M 2.28 4.50 0.24 0.08 12.96 3.19 14.18 7.46 50.08 10.21 5.36 15.19 DP 0.90 1.15 0.14 0.07 5.70 3.73 4.43 4.01 26.67 4.71 4.48 13.97 CV 0.39 0.25 0.57 0.85 0.44 1.17 0.31 0.54 0.53 0.46 0.84 0.92 2 M 1.97 3.91 0.27 0.10 13.41 2.95 18.79 8.56 74.66 14.44 0.02 6.71 DP 0.83 1.15 0.17 0.08 6.11 4.27 5.53 6.21 22.66 6.00 0.13 9.37 CV 0.42 0.29 0.62 0.77 0.46 1.44 0.29 0.73 0.30 0.42 5.73 1.40 3 M 1.80 4.18 0.17 0.00 9.10 1.72 14.40 7.19 62.78 12.04 4.28 7.60 DP 0.86 1.09 0.15 0.00 5.60 2.60 4.52 4.98 24.73 6.51 6.41 9.34 CV 0.48 0.26 0.87 11.62 0.62 1.51 0.31 0.69 0.39 0.54 1.50 1.23 Total M 2.00 4.23 0.22 0.05 11.35 2.49 15.30 7.58 61.13 11.95 3.70 9.96 DP 0.90 1.14 0.16 0.07 6.09 3.49 5.09 5.01 26.57 6.04 5.38 11.73 CV 0.45 0.27 0.72 1.42 0.54 1.40 0.33 0.66 0.43 0.51 1.45 1.18

Fonte: Resultados da pesquisa.

Nota: * taxa por 100 mil hab.; as demais em porcentagem (exceto coeficientes de variação).

As correlações somente são superiores a 50% e positivas para divórcio e monoparentalidade, uniões não religiosas e população sem religião, uniões não religiosas e população sem religião, evasão escolar infanto-juvenil e evasão escolar adulta; negativas: evasão escolar infanto-juvenil e lixo ilegalmente descartado, lixo ilegalmente descartado e absenteísmo eleitoral (Apêndice 21).

Embora sugestivo este método de identificação do padrão geral de cada grupo natural é de baixa confiabilidade por considerar apenas a comparação univariada das magnitudes das médias das variáveis entre si e dos coeficientes de variação. Adicionalmente é possível comparar as somas das diferenças das médias das medidas de transgressão e crime entre grupos. Em conformidade ao primeiro método de comparação a maior diferença está entre os grupos 1 e 3, seguida pelos grupos 2 e 3. Além disso, a comparação das distâncias mahalanobianas, em que maiores distâncias indicam maior discriminação entre grupos, permite afirmar que os grupos 1 e 3 são muito distantes entre si, confirmando o método anterior (AFIFI; MAY; CLARK, 2011).

Diante desses resultados, parece adequado caracterizar os grupos em termos de seu perfil de transgressividade-criminalidade. Há nitidamente um grupo de altas taxas de transgressão e crime (grupo 1), um grupo com baixas taxas (grupo 3) e um grupo intermediário (grupo 2) e que podem doravante ser rotulados de grupos A, B e I, respectivamente. O grupo A tem altas taxas médias nas transgressões familiar-domiciliar

adultas, religiosas e de crimes contra a pessoa e baixas dispersões. O grupo I tem altas médias nas transgressões familiar-domiciliar juvenis101, educativas e comunitárias, e mais homogêneos nessas mesmas transgressões e mais heterogêneo nas demais. O grupo B é caracterizado por baixas médias e mais heterogêneo nas transgressões familiar-domiciliares e religiosas e absenteísmo eleitoral.

No documento sandrodefreitasferreira (páginas 178-183)