5 HOMICÍDIOS E TRANSGRESSÕES NO BRASIL
6.2 Perfis transgressivo-criminais das AMCs brasileiras (1991, 2000, 2010)
6.2.1 Perfis transgressivo-criminais por ano
6.2.1.3 Perfil de transgressividade-criminalidade em 2010
A averiguação da transição intragrupos das AMCs com a matriz de informação de 2010 requer a aplicação da análise discriminante; agora as novas observações são as mesmas AMCs, porém com dados de 2010 e os grupos previamente estabelecidos na partição final de 2000. O objetivo continua sendo identificar as AMCs que mudaram de grupo, de 2000 para 2010. Portanto, segue-se a mesma estratégica metodológica empregada para no caso 2000.
O resultado do teste de Wald permite rejeitar a hipótese de igualdade das matrizes de correlações dos grupos A, I e B102. Como no caso de 2000, utilizam-se regras de classificação a partir de funções discriminantes lineares (canônicas), diante de situações em que a classificação seria feita por funções discriminantes quadráticas quando se têm mais de duas dimensões e distribuições amostrais não plenamente normais multivariadas.
A classificação das AMCs nos três grupos com a matriz de informação de 2010 indica taxa de erro total de 33,97%. As quantidades de AMCs incorretamente classificadas são: 235 AMCs do grupo A como de I, e 271, de B; 150 do grupo I como de A, 149, de B; e 398 do grupo B têm classificação incorreta em A e 264, em I. A partição final de 2010 tem taxa de erro estimada em 25,88% e são efetivamente reposicionadas 382 AMCs.
102
Os motivos dos erros de classificação, conforme ocorre com os dados de 2000, se devem ao fato de apresentarem características em 2010 mais assemelhadas às dos grupos A, I e B de 2010 do que às do grupo previamente classificadas (classificação de 2000). A título de exemplo, AMCs do grupo I em 2000, mas com características mais similares às do grupo A (dados de 2010) têm probabilidades indicando a necessidade de reclassificá-las no grupo A e assim sucessivamente.
A Tabela 13 mostra a configuração da partição final de 2010; 179 AMCs passaram para grupos com níveis médios mais baixos de transgressividade-criminalidade e 195, para níveis médios mais altos. As distâncias mahalanobianas entre os grupos são: A e I, 5,3781; entre A e B, 2,8681; e entre I e B, 5,5231. Ademais, note-se que as probabilidades de classificação correta aumentaram, comparando-se as diagonais principais desta tabela à da partição final de 2000 (TABELA 10), embora a distribuição das AMCs entre os grupos (última linha das tabelas) tenha se mantido próxima.
TABELA 13 - Método de classificação de Lachenbruch (2010)
Grupos A I B Total A 1001 165 215 1381 (72,48 %) (11,95 %) (15,57 %) (100 %) I 106 905 124 1135 (9,34 %) (79,74 %) (10,93 %) (100 %) B 338 182 1221 1741 (19,41 %) (10,45 %) (70,13 %) (100 %) Total 1445 1252 1560 4257 (33,94 %) (29,41 %) (36,65 %) (100 %) Fonte: Resultados da pesquisa.
Nota: Valores entre parênteses são as probabilidades de classificação corretas e incorretas.
Dado que o teste da hipótese de igualdade das matrizes de correlações dos grupos é rejeitado, a validação da qualidade da classificação pode ser constatada, porque a hipótese de igualdade dos escores médios dos três grupos é rejeitada. Em suma, os grupos têm vetores de médias e matrizes de variâncias-covariâncias distintos103.
A primeira função discriminante explica 64,50% da variação total da variância e as
103
Teste Wald chi2(24) = 5631,34 e Prob > chi2 =0,0000 e teste likelihood-ratio chi2(24) = 3395,09 com Prob > chi2 = 0,0000; Jennrich chi2(132) = 1733,93.
cargas padronizadas mais relevantes são de divórcio, homicídios, evasão escolar adulta e infanto-juvenil (TABELA 14); na segunda função são lixo ilicitamente disposto, evasão escolar adulta e gravidez precoce. Todas as variáveis são estatisticamente significantes (Apêndice 20).
TABELA 14 – Cargas discriminantes canônicas (2010) Funções Discriminantes Canônicas (FDC)
Variáveis FDC 1 FDC 2
Não padronizada Padronizada Não padronizada Padronizada
sdd 0.688 0.551 -0.476 -0.411 mp -0.073 0.003 -0.236 -0.063 gp -0.643 -0.292 -0.129 0.050 cj -0.488 -0.147 -0.229 -0.170 unr -0.525 -0.384 -0.616 -0.411 sr -0.500 -0.296 -0.538 -0.105 fe -0.299 0.152 -0.103 -0.234 nc 0.201 0.163 0.024 0.103 qbr -0.468 -0.165 0.577 0.462 ncu -0.129 0.071 0.049 -0.148 ms 0.088 0.053 -0.076 -0.129 mh -0.224 0.216 -0.445 -0.340
Fonte: Resultados da pesquisa.
Nota: Wald chi2(24) = 5631.34, p-valor < 0.001; LR chi2(24) = 3395.09 , p-valor < 0.001.
O grupo A da partição final de 2010 tem 1381 AMCs (32,445%) com taxas médias das transgressões e crimes superiores às taxas médias nacionais, exceto para gravidez precoce, conjugalidade juvenil, evasão escolar infanto-juvenil, lixo doméstico ilegalmente descartado e absenteísmo eleitoral. Superam às do grupo I em divórcio, monoparentalidade, evasão escolar adulta, suicídio e homicídio; e são menores do que as grupo B em evasão escolar adulta, lixo ilegal e suicídio. É o grupo mais homogêno de todos, exceto quanto a gravidez precoce e lixo ilegal. Tem distribuições menos dispersas do que as dos grupos B e I (exceto para gravidez precoce e lixo ilicitamente disposto). Portanto, segue o mesmo padrão dos anos anteriores altas médias e baixa dispersão.
O grupo I, com 1135 AMCs (26,66%), tem taxas médias superiores às nacionais, exceto em divórcio, evasão escolar adulta, lixo ilegal, não comparecimento às urnas e suicídio. Supera os grupos A e B em transgressões familiares-domiciliares juvenis, religiosas e
comunitárias. Em relação às distribuições amostrais nacionais, é um grupo menos homogêneo para divórcio, transgressões educativas e suicídio. É mais heterogêneo que o grupo A (exceto para gravidez precoce e lixo ilegal), mas menos do que B. Continua sendo um grupo de altas médias nas transgressões familiar-domiciliar juvenis, religiosas e comunitárias e menos homogêneo do que A.
Com 1741 AMCs (40,90%), o grupo B tem as menores taxas médias, se comparado a todas as observações, exceto suicídio. Porém não em relação ao grupo A para evasão escolar adulta e suicídio, nem ao grupo I para as duas variáveis citadas e mais, monoparentalidade e homicídio. Como nos demais anos, é um grupo mais heterogêneo do que o conjunto de todas as AMCs e relativamente menos do que o grupo I (TABELA 15).
TABELA 15 - Estatísticas Descritivas (média, desvio padrão e coeficiente de variação), por grupo (2010)
Grupos Estat sdd mp gp cj unr sr fe nc qbr ncu ms* mh*
A M 4.24 13.38 0.21 0.11 23.35 6.66 2.62 15.85 14.21 14.18 6.50 21.73 DP 1.49 2.55 0.11 0.07 4.44 4.52 0.74 2.64 14.47 4.06 4.91 18.36 CV 0.35 0.19 0.52 0.65 0.19 0.68 0.28 0.17 1.02 0.29 0.75 0.85 I M 1.80 13.05 0.35 0.16 25.18 7.25 3.19 14.72 40.69 15.73 4.25 16.40 DP 1.13 3.03 0.17 0.11 4.77 5.83 1.49 3.26 19.78 4.66 4.94 14.95 CV 0.63 0.23 0.48 0.69 0.19 0.80 0.47 0.22 0.49 0.30 1.16 0.91 B M 3.32 12.18 0.17 0.08 17.57 3.03 2.46 16.22 26.53 14.57 7.16 9.99 DP 1.37 3.17 0.12 0.08 5.31 3.11 0.78 3.53 18.07 4.94 7.63 10.63 CV 0.41 0.26 0.70 1.04 0.30 1.03 0.32 0.22 0.68 0.34 1.07 1.06 Total M 3.21 12.80 0.23 0.11 21.47 5.33 2.71 15.70 26.31 14.75 6.17 15.51 DP 1.65 2.99 0.15 0.09 5.92 4.84 1.05 3.25 20.20 4.64 6.29 15.50 CV 0.51 0.23 0.65 0.84 0.28 0.91 0.39 0.21 0.77 0.31 1.02 1.00
Fonte: Resultados da pesquisa.
Nota: * taxa por 100 mil hab.; as demais em porcentagem (exceto coeficientes de variação).
Os pares “gravidez precoce e conjugalidade juvenil”, “gravidez precoce e evasão escolar infanto-juvenil”, “uniões não religiosas e população sem religião” têm correlações positivas e superiores a 50%; e negativas para “divórcio e lixo ilegalmente descartado”, “evasão escolar infanto-juvenil e evasão escolar adulta” (Apêndice 23).
Os padrões para cada grupo se assemelham aos dos anos anteriores, o grupo A continua sendo caracterizado por observações mais homogêneas e altas taxas médias nas transgressões familiares-domiciliares adultas, evasão escolar adulta e crimes contra a pessoa; o grupo I, altas médias nas transgressões familiar-domiciliar juvenis, religiosas e lixo ilegalmente disposto (relativamente menos homogêneo do que A) e o grupo B tem as menores médias,
mas é mais heterogêneo.