5 O Programa Farmácia Popular do Brasil
5.2 Perfil Socioeconômico e Origem das Receitas
seguida do desembolso direto (38,3%) e do PFPB (15,9%). Para diabetes, os números são ligeiramente diferentes: AFAB é a fonte de obtenção para 54,4%, as farmácias comerciais para 29,4% e o PFPB para 16,2%. O mesmo estudo aponta que estas proporções apresentam grandes variações entre as regiões e as capitais dos estados brasileiros. Entretanto, em apenas uma das capitais (Natal/RN) a proporção de usuários do PFPB é maior do que a AFAB, tanto para a hipertensão quanto para diabetes. Em todos os outros casos, a primeira e segunda fonte de acesso são o setor público e as farmácias comerciais, sendo o primeiro caso mais frequente (Costa, 2014).
Ao medir a cobertura do PFPB a partir da quantidade de usuários do programa dentro do universo de hipertensos e diabéticos brasileiros, Luiza &
Emmerick (2014), estimaram que 13,0% dos hipertensos e 10,0% dos diabéticos estariam cobertos em 2012. O estudo mostra outra questão interessante. Até 2010, já no meio da segunda etapa do programa, a cobertura era de apenas 3,2% para hipertensos e 1,6% para diabéticos. A partir de então, antes mesmo do SNTP, há um grande crescimento (8,9% e 5,2%, respectivamente) que se mantém após esta intervenção, chegando aos números citados em 2012.
Mais recentemente os dados de um estudo transversal de representatividade nacional, a PNAUM, mostraram que para a hipertensão e diabetes, o PFPB era a fonte de obtenção de 16,5 e 18,1% dos usuários, respectivamente. Nestes casos, o setor privado era responsável por 26,1 e 20,6%, e a AFAB pelo restante. Entretanto, este quadro não se repete para doenças pulmonares crônicas, onde o PFPB era responsável por apenas 8,3% e o privado por 65,0%. Para outros agravos eventuais não cobertos pelo programa, a hegemonia das farmácias comerciais como fonte de provisão é ainda maior, como observamos na seção 4.1.
(Santos-Pinto et al. 2011), não houveram ao longo da existência do programa medidas concretas que restringissem o acesso apenas a esse grupo. Vale ressaltar neste ponto, que segundo as definições do IBGE, a chamada classe C encontra-se exatamente nesse patamar de renda familiar. Outra questão que merece destaque é que, apesar desse público-alvo ter sido definido no início do programa, os documentos oficiais posteriores não reafirmam esse objetivo.
Dessa maneira, podemos considerar que os possíveis usuários do programa tenham origens das mais diversas – desde pacientes do SUS que não conseguiram adquirir seus medicamentos pela AFAB; pacientes do SUS que optaram diretamente por pegar seus medicamentos no PFPB; pacientes oriundos do setor privado que pagavam totalmente por seus medicamentos.
O primeiro estudo realizado sobre o perfil dos usuários do PFPB, de Santos Pinto et al. (2011), analisou a origem das receitas atendidas na rede própria do PFPB entre 2005 e 2007. Em todos os anos estudados houve crescimento na quantidade total de pacientes atendidos, e a proporção de pacientes que apresentaram receita oriunda do setor privado foi maior que do setor público em todo o período. Padrão oposto foi observado na região Norte em todos os anos e na região Nordeste no ano de 2007. Em alguns estados dessas regiões, a população atendida era quase que exclusivamente originária do setor público. Nas regiões S e CO observou-se ao longo do período uma tendência de crescimento da proporção de usuários atendidos oriundos do setor público, sem que estes superassem os do setor privado. Apesar do objetivo inicial do programa ser os pacientes oriundos do setor privado, os autores chamam atenção para que a alta proporção de receitas atendidas com origem no setor público possa ser um indicador de sua ineficiência, uma vez que o elenco do PFPB está contido na RENAME.
No município de Ijuí no RS, também foi estudado o perfil dos usuários de uma farmácia da rede própria no ano de 2011. Observou-se que estes eram predominantemente do sexo feminino, com mais de 50 anos de idade. Com relação a renda familiar, para 45,5% dos entrevistados esta era de 1 a 3 salários mínimos, e para 27,7% até 1 salário mínimo. Este perfil pode ser considerado bem diferente do objetivo inicial do programa (4 a 10 SM). Com relação à origem das receitas, a
Aproximadamente metade das receitas eram oriundas de ambulatórios privados, 45% de ambulatórios públicos e 5,0% de origem hospitalar (Bonotto & Colet, 2013).
Alguns estudos recentes analisaram o perfil socioeconômico e a origem dos usuários do ATFP. O primeiro deles (Carraro, 2014), realizado em 15 municípios de 14 estados brasileiros no ano de 2012, encontrou resultados semelhantes àqueles da FPRP. Os entrevistados eram também mulheres em sua maioria e com média de idade de 58 anos. Com relação à renda salarial declarada, 12% disseram receber mensalmente R$ 300,00 ou menos e 66% entre R$ 300,00 e R$ 1900,00.
Considerando que o salário mínimo do ano de 2012 era de 622 reais, novamente a grande maioria dos usuários do programa encontra-se na faixa de renda que vai de 0 a 3 salários mínimos. A proporção de receitas com origem no setor público (48%) e privado (39% plano de saúde e 12% médico particular) foi basicamente a mesma.
(Carraro, 2013).
O Vigitel de 2011 (Costa, 2014), portanto já com dados pós implantação do SNTP, identificou que o PFPB foi proporcionalmente mais utilizado como fonte de acesso por hipertensos e diabéticos com 70 ou mais anos de idade, de pele indígena e branca, com 9 ou mais anos de escolaridade. Além disso, os hipertensos e diabéticos usuários de planos de saúde utilizaram bem mais o programa como fonte de acesso (23,3% e 20,9%, respectivamente) do que os que não possuem (9,8% e 11,7%).
Com relação à origem dos usuários, o estudo de Carraro (2013) traz elementos que corroboram a hipótese de Santos-Pinto et al. (2011), de que a grande proporção de receitas oriundas do setor público possa ser decorrente de falhas na provisão pública. Ao questionar os entrevistados sobre o local em que estes obtinham seus medicamentos antes do PFPB, 52% responderam que compravam em farmácias comerciais; 19% retiravam no SUS ou compravam, especialmente quando o medicamento estava em falta no setor público; 16%
retirava na farmácia do SUS; e 11% não tinham o diagnóstico da doença. Quando analisados apenas os entrevistados que receberam receitas no SUS (48% do total), as diferenças entre essas proporções ficam ainda mais evidentes. Antes do PFPB, 38% compravam em farmácias privadas, 26% retiravam no SUS ou compravam, a depender da disponibilidade e a mesma proporção retirava exclusivamente no SUS (Carraro, 2013).
Ainda que sejam necessárias mais evidências para confirmação, estes achados apontam, em primeiro lugar que o PFPB cumpre em parte seu objetivo, uma vez que uma parcela importante de usuários do setor privado passa a ter acesso a medicamentos com desconto através do programa. Por outro lado, a grande proporção de receitas oriundas do setor confirma que o programa é realmente uma alternativa de acesso aos usuários que recebem prescrições no SUS, principalmente quando há falhas na provisão. Além disso, uma parte considerável de pacientes que retiravam medicamentos no SUS migraram para o PFPB (Carraro, 2014).
Por sua vez, o perfil socioeconômico dos usuários do programa indica que os maiores utilizadores do programa são brancos e indígenas, idosos e maior grau de instrução. Em termos de renda, as evidências demonstram a grande maioria deles está na faixa de renda de até 3 salários mínimos, parcela população que como demonstrado anteriormente, é a que tem maiores gastos com medicamentos e a que depende de maneira mais importante da provisão pública, em que pesem os estudos que geraram estes últimos dados serem anteriores ao SNTP. Tais dados soam um tanto contraditórios em relação aos anteriores. Ainda que o estudo não informe diretamente dados de renda, dificultando a comparação com os anteriormente apresentados, os dados sociodemográficos sugerem uma população de usuários de maior poder aquisitivo.