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CORPO REVESTIDO

3.4.1.3 PERFORMANCE DA LIBERDADE DO (EU) EXCÊNTRICO

O tipo excêntrico aparece na forma de manifestação da liberdade do poder potencializar de alguma maneira os valores dos discursos de moda. Esses tipos se estabelecem no eixo de

complementaridade na dinâmica do quadrado semiótico em relação ao tipo camaleônico, este que

repete o que está na moda; estabelecendo-se também na relação de contradição ao tipo simétrico e na relação de contrariedade ao tipo dândi – em contrapartida, este valoriza a possibilidade alternativa de estar ou não na moda. Por essa razão, o tipo excêntrico percorre as modalizações vestimentares do

não-dever/não-fazer de maneira a possibilitar dotar-se de liberdade pela busca de valores que parte da

exaltação do corpo revestido. Vejamos!

Ao lermos a estrutura da construção dos textos das falas de Jean e Valerie (The Idiosyncratic

Fashionistas), observamos que elas aconselham aos leitores que se permitam ter prazer com a moda.

As falas parecem construir a narrativa do saber lidar com as prescrições da moda: “As pessoas precisam ficar menos estressadas com a moda para começar a disfrutá-la.”123

A partir dessa fala pudemos interpretar que a estrutura narrativa: “ficar menos stressadas com a moda” (to get less stressed about fashion) pode tratar-se de uma proposta enunciativa do dever seguir um percurso de ação de escolhas vestimentares, ditados pelos discursos significantes da moda, mas, sem se modalizar num regime puramente de obrigação e da dependência.

Parece que o tipo de comportamento proposto por Jean e Valerie permite potencializar o sentido de prazer e do entretenimento, e ainda possibilita “jogar” com a dependência dos valores prescritos fundamentalmente pela moda. O prazer e a diversão aparecem como sentidos das motivações manifestados no comportamento do tipo excêntrico.

Ao compreendermos que essas motivações se articulam ao sentido de valorização da não-

continuidade do tipo excêntrico, pudemos, então, sugerir que esse tipo de comportamento representa

também uma forma de exaltação dos discursos da moda. É, no entanto, um tipo de comportamento no qual podemos identificar a construção da significação de certa “liberdade” representada no modo

168 de comportamentos dos sujeitos, a partir das relações claras às prescrições vestimentares - todavia, de um modo particularizado num tipo de “glorificação” da moda.

Debra é mais uma senhora que o autor do livro Advanced Style exalta a forma do estilo vestimentar, a qual consideramos como um modo de manifestação de comportamento do tipo

excêntrico. Na fala dessa senhora, pudemos perceber na estrutura de enunciados de textos a

construção de sentidos vestimentares que se instituem num percurso de desconstrução de estereótipos disfóricos do universo de envelhecimento. Ela se monstra contra a ideia de que possa haver determinações implícitas de sentidos nas adequações da roupa à idade. Nessa fala Debra manifesta a atualização do poder-fazer diferente dos padrões implicitamente prescritos como forma de declaração da “confiança” em si mesma. Ela diz-nos o seguinte: “Eu não acredito em roupa apropriada para idade, basta fazer a sua declaração pessoal e se sentir confiante com isso. Amanhã é outro dia e um outro look.” 124

No último momento do texto essa senhora deixa como reflexão uma perspectiva futura quando se refere ao amanhã: “Amanhã é outro dia e um outro ‛lookʼ.” (Tomorrow is another day and

another look). Nesse discurso pressupõe-se que no futuro haverá uma transformação da forma

vestimentar instituída pela figura do “another look” (outra noção de formas vestimentares). A figura de tempo o “amanhã” (tomorrow) é percebida como desdobramento do encadeamento de percursos de mudanças, que possibilitará numa outra instância de transformação na relação entre o corpo (envelhecido) e revestido e, evidentemente, a moda. Interpreta-se com isso que na noção da senhora Debra a relação do tempo e a experiência favorecem a maturidade das percepções de sentidos das mudanças vestimentares.

Outro tipo de narrativa que constrói a manifestação do sentido de comportamento do tipo

excêntrico pôde ser percebido na fala da senhora Lubi, quando relata que em tempo algum teve medo

de ser diferente dos outros. Lubi enuncia na estrutura do seu texto um modo de se autovalorizar e de se diferenciar dos outros na figura adjetiva do ser “extraordinariamente diferente” (extraordinarily

different): “Eu nunca tive medo de ser extraordinariamente diferente. Eu prefiro ser considerada

diferente e um tanto misteriosa a ser ignorada.”125

Por último, a senhora Lubi complementa sua fala numa narrativa que representa um tipo de preferência pelo fazer ser “diferente a ser ignorada”. Trata-se de um percurso narrativo que se desdobra progressivamente da competência atualizante do “poder fazer diferente” e que se

124 “I don't believe in age-appropriate dress; just make your personal statement and feel confident about it.

Tomorrow is another day and another look.” (Cohen, 2012, p. 55)

125 “I was never fearful of being extraordinarily different. I would rather be considered different and somewhat

169 estabelece numa narrativa realizante do sentido de fazer-ser “misteriosa” (“mysterious”). Com isso, se interpreta que o tipo de comportamento excêntrico da Lubi é revelado pela motivação da valorização temática do mistério para construir o sentido da diferença. Esse parece ser o percurso vestimentar fundamental do tipo excêntrico, que o permita se destacar diante das outras pessoas e, ao mesmo tempo, que possibilita representar a glorificação extrema da moda.

Por fim, a identificação da representação do tipo excêntrico revela-se em mais três narrativas de comportamentos. Leia-se as afirmações: Carol e Richard: “Nós somos simples em nossa vida, mas de maneira extravagante e exuberante em nossa arte.126; Lynn: “Temos que nos vestirmos a cada dia para o teatro de nossas vidas.”127; e Jacquie: “A moda é uma arte – especialmente de alta moda.”128 Pudemos identificar nessas falas: o sentido da distinção e de exaltação da moda; do sentido do que é extravagante e da exuberância; num regime de construção de valores temáticos do “espetáculo” e da “arte”.