2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.2. Performance e Efetividade Organizacional
2.2.1. Performance Organizacional
Diversos estudos utilizam ou estudam o conceito de performance organizacional mas não o definem explicitamente, cabendo ao leitor a interpretação ou a inferência a partir da metodologia aplicada ou dos objetivos de pesquisa. Normalmente tais estudos focam em uma perspectiva predominantemente financeira, utilizando indicadores que traduzem essa perspectiva. Richard, Devinney, Yip e Johnson, que realizaram uma revisão da literatura sobre medição de performance em 2009, veem a omissão de uma definição explícita para o construto como um sinal de que a ideia de performance é dada como consolidada na mente tanto do autor como do leitor e, portanto, é considerado como compreendido e sem a necessidade de ser definido. Entretanto, termos como eficiência, efetividade e performance são comumente utilizados de forma indiferente (ver March e Sutton, 1997, e Kanter e Brinkerhoff, 1981, apesar deste reconhecer que há diferenças), ao mesmo tempo em que também é frequente a distinção entre os mesmos (ver Venkatraman e Ramanujan, 1986, e Richard et al., 2009).
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Para que não fique a cargo de interpretações, este trabalho considerará a definição de Richard et al. (2009) de performance organizacional para as análises e desenvolvimentos posteriores:
“Performance organizacional envolve três áreas específicas de resultados da firma: (a) performance financeira (lucros, retorno sobre ativos, retorno sobre investimentos, etc.); (b) performance de mercado do produto (vendas, marketshare, etc.); e (c) retorno ao acionista (retorno total ao acionista, valor econômico adicionado, etc.)”.
Percebe-se, portanto, que performance organizacional apresenta um viés econômico na avaliação do desempenho da firma.
O foco nos resultados econômicos não é obra do acaso. Ele traduz décadas de consideração de que a maximização da riqueza do acionista (shareholder) é o objetivo maior das empresas. Segundo Atkinson, Waterhouse e Wells (1997), como uma criação de seus donos, a empresa existe para servir a seus objetivos, que se tornam os objetivos primários. Com esse ponto de vista,
“um executivo corporativo é um empregado dos donos do negócio. Ele tem responsabilidade direta a seus empregadores. Essa responsabilidade é de conduzir o negócio de acordo com seus desejos, que geralmente serão fazer tanto dinheiro quanto possível enquanto obedece as regras básicas da sociedade, tanto aquelas em forma de leis como aquelas em forma de costumes éticos” (Friedman, 1970). Segundo Friedman, ainda, a única responsabilidade social da empresa é
“utilizar seus recursos e se engajar em atividades desenhadas para aumentar seus lucros, desde que se mantenha dentro das regras do jogo, que são aquelas da aberta e livre competição sem enganar aos outros ou fraudes”.
Por essa visão ter sido (e talvez ainda ser) predominante, aliado ao fato de a medição de desempenho ter se iniciado nos departamentos de contabilidade das empresas, até hoje os indicadores financeiros são os mais observados quando da
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avaliação de uma organização, seja pelo público interno como pelo externo.
Medidas como retorno sobre investimentos (ROI) ou modificações mais recentes continuam a ser promovidas tanto por acadêmicos como contadores e consultores (Chenhall e Langfield-Smith, 2007). Mais do que isso, apesar de existirem diversos indicadores financeiros, Doyle (1994) afirma que tanto a gerência como os analistas de investimento tendem a escolher uma medida única que consideram aquela que traduz sucesso ou fracasso. Uma justificativa possível para o foco em medidas financeiras e para a utilização de um número mínimo de indicadores é sugerida por Richard et al. (2009), que consideram que a visão estreita de performance organizacional fornece o potencial de se fazerem comparações entre empresas e entre indústrias, construindo os famosos rankings e benchmarkings.
Segundo Doyle (1994), contudo, medidas únicas podem ter uma vantagem prática de facilitar comparações, mas por outro lado enviesam a análise e podem dar uma visão errada da verdadeira performance da organização.
Como resultado desse viés, medidas financeiras são comumente as mais utilizadas em pesquisas e estudos, no intuito de traduzir o que seria o desempenho da firma e permitir comparabilidade entre as entidades e variáveis estudadas. Segundo March e Sutton (1997), explicar variação na performance ou na efetividade de uma organização é um dos temas mais persistentes no estudo de organizações, e de fato até hoje é discutida a melhor forma de se trabalhar o construto em pesquisas empíricas (Steigenberger, 2013).
Como o conjunto de variáveis utilizadas é extenso, Richard et al. (2009) divide as medidas de performance organizacional em três grupos: medidas contábeis, medidas do mercado financeiro e medidas mistas contábeis/mercado financeiro, definidas da seguinte maneira:
o Medidas contábeis: seriam as mais comuns, representando o comportamento passado em detrimento da performance futura. Além disso podem apresentar variações de acordo com o padrão contábil utilizado. A própria utilização de padrões contábeis já se demonstrou suscetível a manipulações por gestores;
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o Medidas de mercado financeiro: são medidas que tentam verificar a expectativa do mercado em relação ao futuro da empresa. São sujeitas a comportamentos especulativos e de manada, além de serem afetados pela eficiência de mercado, o que pode provocar distorções;
o Medidas mistas contábeis/mercado financeiro: as medidas mistas tentam cruzar os pontos positivos das outras classificações, utilizando dados contábeis para traduzir a performance passada ao mesmo tempo em que usam dados do mercado para traduzir expectativas de performance futura pela percepção de analistas e investidores.
A tabela 2.15 trazem os principais indicadores considerados por Richard et al. (2009) para cada classificação citada, com a correspondente sigla em inglês que normalmente é utilizada por analistas e pesquisadores.
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Indicador
Contábeis
Fluxo de Caixa das Operações (CFO)
Lucro antes dos juros e imposto de renda (EBIT)
Lucro antes dos juros, imposto, depreciação e amortização (EBITDA) Lucro Operacional
Lucro Operacional menos impostos ajustados (NOPAT) Margem de Lucro
Retorno sobre Ativos (ROA)
Retorno sobre Capital Empregado (ROCE) Retorno sobre Patrimônio Líquido (ROE) Retorno sobre Investimento (ROI) Retorno sobre Capital Investido (ROIC) Retorno sobre Ativos Líquidos (RONA) Retorno sobre Vendas (ROS)
Retorno sobre Capital Ajustado ao Risco (RAROC) Crescimento das Vendas
Retorno sobre Ativos Avaliados a Mercado Preço da Ação
Retorno Total ao Acionista (TSR)
Mistas
Fluxo de Caixa por Ação
Retorno do Fluxo de Caixa sobre Investimentos (CFROI) Valor Adicionado de Caixa (CVA)
Fluxo de Caixa Descontados (DCF) Valor Econômico Adicionado (EVA) Fluxo de Caixa Livre (FCF)
Taxa Interna de Retorno (IRR)
Razão entre Valor de Mercado e Valor Contábil Valor Adicionado de Mercado (MVA)
Valor Presente Líquido (NPV) Análise do Valor do Acionista (SVA) Q de Tobin
Retorno Total do Negócio (TBR) Escore Z
Tabela 2.15 - Principais medidas contábeis (Fonte: Richard et al., 2009)
Se os acionistas fossem o único grupo de interessados na organização, então a utilização somente dos indicadores supracitados poderia ser justificada
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como perfeitos retratos de desempenho da firma. No entanto, na prática, outros grupos devem ser considerados (Richards et al., 2009), pois influenciam diretamente nas operações de uma organização.
Dessa forma, a perspectiva unidimensional, a partir de meados da década de 1980, começou a se enfraquecer, dando margem uma nova visão de organização e negócios. Tendo como ponto focal o livro “Strategic Management – A Stakeholder Approach”, de R. Edward Freeman (Freeman e McVea, 2001), ganhou força nos anos 80 a noção de que o desempenho organizacional depende de outros grupos de interesse e, ao contrário do que era considerado anteriormente, esses grupos de interesse não se tratavam apenas de restrições à estratégia, como Ansoff (1965) considerava, mas sim parte importante na elaboração da mesma (Freeman e McVea, 2001), com papel ativo e relevante.
Segundo Freeman (1984), a palavra stakeholder surgiu pela primeira vez na literatura de gestão em 1963, em um memorando interno no Instituto de Pesquisa de Stanford, com definição de que stakeholders eram “grupos os quais sem o suporte a organização deixa de existir”.
Dessa visão que foi se desenvolvendo, diversos estudos também passaram a questionar a utilização predominante de indicadores financeiros na avaliação de desempenho, o que para alguns autores, seria uma visão estreita da organização (Venkatraman e Ramanujan,1986). Venkatraman e Ramanujan (1986) consideram que a visão deve ser ampliada com indicadores não financeiros operacionais e com a consideração de diferentes grupos de stakeholders, dando origem ao que chamaram organizational effectiveness (efetividade organizacional). Mais uma vez, para padronizar o entendimento sobre a expressão efetividade organizacional, será considerada a definição de Richard et al. (2009):
“Efetividade organizacional é [um conceito]
mais amplo, e captura a performance organizacional mais a pletora de resultados de performance interna normalmente associada com uma mais eficiente e efetiva operação, e outras
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medidas externas relacionadas a partes que são mais abrangentes do que aqueles simplesmente associados com valoração econômica (tanto de acionistas, gerentes e clientes), como responsabilidade social corporativa”.
Cabe ressaltar que alguns autores utilizam performance organizacional como um termo mais amplo, traduzindo, na realidade, o que neste trabalho é definido como efetividade organizacional. Steigenberguer (2013) considera que performance da firma, na verdade, é um construto mais holístico e amplo de sucesso da firma, criticando estudos empíricos que vêm sendo desenvolvidos como restritos.
Para aprofundar o entendimento de como a mudança de paradigma alterou a compreensão sobre desempenho das organizações, a próxima seção discute a visão de stakeholders.