3. TECER A IMPROVISAÇÃO
3.3. PESQUISAR
3.3.1. Perguntar para conscientizar
Partindo do princípio geral que qualquer investigação se desenvolve a partir de certas interrogações e considerando que, a pesquisa é parte do processo de criação na improvisação, faz-se relevante proferir a pergunta como elemento indispensável no ato de improvisar. A pergunta dentro da improvisação permite manter o diálogo com o que se faz, permitindo esclarecer certos estados do improvisador e ajudando na identificação de interesses pessoais e grupais.
As perguntas básicas para a improvisação são: o que faço? Como o faço? Daí, deriva- se uma multiplicidade de questões que se tornam propostas individuais. Como assinala o coreógrafo Julyen Hamilton (2005), as perguntas ajudam no ato da improvisação, pois elas podem gerar estruturas que determinem a abordagem que cada improvisador produz para o seu ato criativo, sendo a sua finalidade estabelecer “um porquê” para o movimento. Mas também, segundo Hamilton, em palavras da professora Carolina Van Eps, improvisar é levar
em conta algo (Informação verbal)188.
Portanto, o improvisador começa a entender o seu próprio processo e seus movimentos passam a ter sentido, criando clareza, tanto no diálogo com si próprio quanto com os outros improvisadores. Dessa maneira, descobrir o “como” e “o que” está no agir, criando/compondo formas particulares de se movimentar, o que revelam as escolhas do dançarino e sua forma de se perceber e de atender seus próprios impulsos.
Promover espaço aos interrogantes significa para o improvisador que ele dá vazão as suas escolhas, as quais podem estar comandadas por intuições ou abordagens específicas. O ato de perguntar é em si mesmo uma escolha. Tais características se complementam e atraem, sendo lugares comuns que se identificam com a prática da improvisação, convertendo-se em métodos e modos como cada improvisador decide abordar sua experiência e, as vezes, em procedimentos quando se realizam improvisações grupais.
Contudo, na improvisação, nem todas as perguntas encontram suas respostas. Por um lado, as perguntas não são determinadas a priori e, por outro, as respostas nem sempre são correspondentes para tais questões. Perguntas e respostas se articulam durante o processo da ação do improvisador, o que permite reconhecer e desvendar suas escolhas e seus percursos. Geralmente, o improvisador pode encontrar perguntas que instigam e guiam suas ações na procura de respostas, mas também, pode se encontrar com respostas que não obedecem a interrogações antecipadas, mas que aparecem no andamento.
Isso conduz em analisar, primeiramente, que quando a cinética entra em ação, as vias de acesso para o ato criativo são múltiplas, o que evidencia o corpo como fundamento no estabelecimento de relações e direcionamentos na improvisação. Em segunda instância, na improvisação, ao estar determinada pelo acaso e a incerteza, dificulta estabelecer os rumos da criação. A ordem do aparecimento entre perguntas e respostas pode ser aleatória, além de não ser correspondentes entre elas mesmas.
Por conseguinte, perguntas e respostas podem ser descobertas e exibidas no ato de improvisar, pois o pesquisar ajuda a desvendá-las. Elas atendem à intenção de cada improvisador de criar e de se expressar.
Sob a perspectiva de pesquisa no processo de criação na improvisação, sinaliza-se a pergunta como direcionadora de eixos temáticos, intuitivos e criativos, estabelecendo como campo de observação o presente da ação, cujo resultado está na criação/composição de cada
188
Informação fornecida por Carolina Van Eps, professora de dança contemporânea da Escola Zajana Danza, em entrevista realizada em 30 de setembro, 2012.
indivíduo e da sua proposta coletiva através do corpo.
Nesse ponto, a improvisação atinge ser campo de expressão artística, e ao mesmo tempo de pesquisa para a dança, já que revela infinidade de questões sobre essa disciplina, suas práticas, o seu desenvolvimento e o seu posicionamento de si mesmo, expressado através do corpo. Por tal razão, elaborei no início desta dissertação a distinção de improvisação com/em dança, a qual constrói as bases para o desenvolvimento de temas de dança, pois auxilia no entendimento do papel da investigação como ponte que une os âmbitos artísticos e pedagógicos.
No entanto, o fato de entender a improvisação, a partir de perguntas, implica trabalhar sobre um caráter refletivo, que consegue instaurar um aprendizado profundo e consciente sobre o que se faz e o como se faz cada improvisação.
O investigar envolve aguçar os sentidos para tornar as sensações e impressões conscientes na eficiência da ação artística e na forma de estudo, colaborando em que a sua prática seja forma de conhecimento. Dessa forma, ao improvisar, faz-se necessário a identificação de certas características, conflitos, abordagens e tendências que determinam e observam os modos do próprio processo de criação.
Sob esta visão, o improvisador que pesquisa está em processo de abertura e atenção constantes, além disso, reconhece e identifica suas ações e torna-se consciente para estudar, detalhadamente, seus movimentos e os rumos a seguir na sua improvisação.
A consciência na improvisação é uma escolha que implica uma mudança de atitude frente à experiência, pois, em primeiro lugar, a consciência torna-se forma de conhecimento com a identificação de elementos do próprio processo criativo e, em segundo lugar, ela é testemunha do movimento realizado no presente. Sendo assim, a experiência é modo cognitivo carregado de sentido. E refletir sobre a consciência é prestar atenção sobre o que se faz e se produz. As palavras da professora Carolina Van Eps o exemplificam:
A consciência vai mudando segundo a experiência. Investiga-se, através do pensamento e das reflexões, para entender em um momento a experiência. O que você está criando é uma experiência transformadora. O que acontece na improvisação é algo instantâneo, transitório, o movimento sempre acontece, sempre está se produzindo o movimento, e você o faz como quiser, mas não se trata só de fazê-lo, mas que os movimentos sejam espontâneos e que cheguem a um ápice189.
189 No original: “La consciencia va cambiando según la vivencia. A través del pensamiento y las reflexiones
investigas, para en un momento entender tu experiencia, pero lo que estas creando es una experiencia transformadora. Lo que pasa en la improvisación es algo instantáneo, transitorio, el movimiento siempre ocurre,
(Informação verbal) 190.
Esse embricamento entre experiência e consciência é modo de entender como se improvisa, o que determina o corpo como fonte e recurso para a exploração do movimento, configurando, assim, formas de vivenciar, reconhecer e lidar com a ação criativa.
A consciência segue a ação, que é definida pelo filósofo e neurocientista Alva Nöe (2008), como modo de exploração do mundo, negando a possibilidade que a consciência seja localizada no cérebro e abrindo a discussão ao apresentá-la como a interação entre o cérebro, o corpo e o mundo.
Nöe encontra na dança a metáfora para explicar como a consciência é algo que se faz e que se torna física, pois implica a prática como compreensão corporal. Tal pensamento colabora em ressaltar a visão de José Gil (2001), que expõe também que o corpo permite a abertura da consciência ao mundo, afirmando que:
A consciência do corpo induz um contato paradoxal com o mundo, fazendo a dança tornar-se desde o inicio “pensamento do mundo” por um lado; mas, por outro, é o corpo que estabelece a mediação entre pensamento e o mundo, não sendo este dado “em carne e osso” mas na realidade de suas energias. (GIL, 2001 p. 181).
Apesar da consciência ser um tipo de acesso que conecta com o mundo, nem todas as ações ao improvisar são tomadas conscientemente da mesma forma que as decisões. Mas, a consciência é também a ponte entre a ação de atender e pesquisar porque “o corpo solta-se e a consciência do corpo torna-se um espaço interior percorrido por movimentos que refletem, à escala macroscópica, os movimentos sutis que atravessam os órgãos” (GIL, 2004, p. 23). Nessa perspectiva, o corpo através dos rastros de algumas lembranças e impressões reconstrói uma cena que já foi criada, que já foi esquecida e que equipara as ações do improvisador com o ato criativo, vislumbrando, assim, a sua forma de agir. O estudante Carlos Iregui, considera:
A consciência é importante no momento de recapitular e ser consistente. Eu, a partir da perspectiva do aprendizado, sempre pensei que há coisas a serem aprendidas inicialmente de maneira inconsciente para, em seguida, enviá-las para o consciente. Depois, trazê-las de volta para o inconsciente. Quando elas se aprenderam bem, compreende-se a razão das coisas. Há coisas que devem funcionar automaticamente e deixar um espaço muito importante para deixar que a consciência continue criando.191 (Informação verbal)192.
movimientos sucedan muy espontáneos y que lleguen a un punto cumbre”
190
Informação fornecida por Carolina Van Eps, professora de dança contemporânea da Escola Zajana Danza, em entrevista realizada em 30 de setembro, 2012.
191
Em relação aos improvisadores da Escola Zajana Danza é de ressaltar que as metodologias são determinadas segundo os conhecimentos que cada indivíduo possui sobre o seu corpo, o espaço e o trabalho em coletivo, por exemplo: os improvisadores que levam pouco tempo de prática identificam dificuldades ou benefícios, além de algumas sensações no momento de improvisar; as perguntas estão aprimoradas pelas sensações e a consciência se manifesta como panorama general.
No âmbito pedagógico, a Diretora Xiomara Navarro assinala que para os estudantes é básico um estado de consciência para o aprendizado pois significara “a consciência do seus corpos, de suas possibilidades e de seus estados próprios” (Informação verbal)193. Além, com o treinamento constante, os improvisadores começam a observar, identificar e refletir sobre suas ações e decisões, evidenciando um início para pesquisar, utilizando a consciência e a atenção para modelar os seus hábitos corporais, melhorar a comunicação entre os dançarinos e dar possibilidades de adentrar em diversos e complexos caminhos criativos. Este último entendimento permite perceber “o que” e “o como” da improvisação, fazendo questão sobre as composições que cada improvisador traz para a cena, num espírito de compartilhamento e participação.
Por meio da pergunta e da consciência, o improvisador torna-se um detetive de si próprio, observando-se a si mesmo e o que faz, o que determina a correlação entre sujeito/objeto. Como afirma Nöe (2004), de qualquer modo, somos nós os atores de nossas experiências perceptuais. Tal pensamento conduz a que cada improvisador desenvolva suas próprias maneiras, desenhando seus procedimentos, ou seja, dando forma e organização a essa experiência.
Compreender os processos de pesquisa durante a movimentação, implica entender o processo de criação como modo de estudo, o qual possibilita espaços para a conexão e a consistência entre o que se faz e seus “resultados”. Um improvisador assume a sua criação com suas vantagens e vicissitudes, entendendo como elas se manifestam e como aparecem, já que o presente da improvisação carrega riscos, surpresas, erros, acertos e conexões que são desde el punto del aprendizaje siempre he considerado que hay cosas que inicialmente se deben aprender inconscientemente y luego subirlas al consciente y luego volverlas a llevar al inconsciente, cuando ya se han aprendido muy bien, pues se ha comprendido la razón de las cosas, hay partes que creo se deben trabajar automáticamente y dejar un espacio muy importante para la conciencia que siga creando”.
192
Informação fornecida por Carlos Iregui, estudante de improvisação, em entrevista realizada em 15 de outubro, 2012.
193
guiados pela incerteza de criar instantaneamente.
Portanto, a criação na improvisação como pergunta de tempo/espaço na dança, convida a ser campo de pesquisa, colocando inúmeras perguntas que se desdobram sobre diferentes pontos de vista. E isto, para mim, estimula abrir o seu discurso para outras estéticas e possibilidades corporais, transformando-se para ir de encontro com o desconhecido.
Finalmente, a pesquisa como princípio do processo criativo na improvisação aponta ter discussões que colaboram em ser estudo que garantem o trabalho de investigadores comprometidos no seu labor artístico, experimentando, recolhendo experiências e conhecimentos, ampliando o campo de estudo em torno à improvisação.