2. INTERDISCIPLINARIDADE
2.1. PERSPECTIVA HISTÓRICA DA INTERDISCIPLINARIDADE
Quando voltamos nossa visão para toda a história da humanidade em busca de vestígios sobre a interdisciplinaridade, nos deparamos com traços de seu uso desde antes de Cristo, até os tempos de hoje. Obviamente, não com a terminologia empregada nos tempos modernos, mas a interdisciplinaridade já se mostrava presente antes mesmo da era Cristã, através da civilização Grega.
Diversas áreas do conhecimento, como as artes, a literatura, a música e a filosofia, tiveram um grande salto devido a incrível capacidade intelectual grega. A forma de construir o conhecimento através do saber, foi um grande marco na história da humanidade, surgindo então o pensamento filosófico, onde essa ciência, tinha por sua vez, que explicar todos os fenômenos naturais e sociais pelos quais ansiavam o povo da época.
Embora a civilização grega fosse dividida em cidades-estados, as chamadas Pólis, rivais entre si, conseguiram desenvolver uma unicidade de língua, cultura e religião, mostrando que mesmo com as diversidades presentes, a civilização grega compartilhava de atividades mentais, como a filosofia e o raciocínio lógico, e também de atividades corporais, como os jogos olímpicos. Indícios da unicidade que a filosofia proporcionava naquela época. (MARQUES, 1987)
Quando avançamos um pouco a história até a Idade Média, a forma de interpretar o mundo também muda. Saímos de um referencial de saber, para um caráter sagrado. Nessa época o mundo respirava o teocentrismo, fazendo com que todas as repostas fossem explicadas através de Deus.
A educação esteve em posse, como protagonista, entre os séculos V ao XV d.C., da Igreja. A Santa Inquisição, pregava que aqueles que não seguissem os mandamentos religiosos da Igreja, seriam amaldiçoados. (MAYER, 1976)
Os integrantes da igreja que eram responsáveis por designar o que deveria ser estudado, quais eram os objetivos a serem seguidos e quais conteúdos deveriam ser abrangidos. A brecha que a interdisciplinaridade encontra nesse período, vem exatamente nesse momento. Embora as escolas fossem de poder da Igreja Católica, os ensinamentos não ficaram somente no campo religioso, a Igreja abriu espaço para o estudo das técnicas e habilidades, como o latim e a música, e também a ciências, colocando em seu currículo a geometria, a aritmética, a lógica e a astronomia. Porém, esses conteúdos não possuíam uma troca ou interação, o que nos leva a pensar que a multidisciplinaridade nos parecia mais característica da educação nesse momento. (LAUAND, 1998)
Mais adiante, precisamente dois milênios desde o surgimento da filosofia, surge o Renascentismo. A filosofia sofria então os golpes das intervenções revolucionárias, perdendo aos poucos o espaço como a única detentora para se buscar a verdade.
Com o fim da Idade Média, o destaque estava todo nas transformações que o mundo sofria no século XIV. A unicidade entre religião, cultura e ciências começa a se dissolver, principalmente com o surgimento de umas das figuras de maior destaque durante essas revoluções científicas, Galileu Galilei.
O Renascentismo trabalha então em cima do humanismo, pensamento totalmente contrário à época passada, onde as necessidades humanas estão acima das pregadas no Teocentrismo da Idade Média. Com esse novo pensamento, o homem começa a observar melhor os fenômenos naturais, em vez de ignorá-lo por imposição da Igreja Católica.
As novas ideias pelos quais ansiavam a sociedade, fez com que as ciências tomassem um novo rumo. Novas concepções fizeram com que a ciência fosse mais
aceita. Junto a isso, um aliado importante na época foi o surgimento da impressa por Johanners Gutenberg, fazendo com que o conhecimento se espalhasse de forma mais exata e rápida, contribuindo fortemente com as ideias da época. (RONAN, 1987)
Ao chegarmos na Idade Moderna, a filosofia do saber acaba por quase desaparecer, dando espaço as novas ciências. O saber humano foi moldado pela revolução, e a sociedade acompanhava essa transformação. (MARQUES, 1987)
Surge então as primeiras preocupações interdisciplinares, pois a partir do século XVII, uma visão fragmentada se acentuava nos métodos de ensino. Tal impacto é visto até hoje, na organização curricular vigente.
Segundo Gusdorf (1983), a forma trazida pelos gregos durante os milênios em relação ao ensinar, foi totalmente dizimada nesse período, no seu lugar foi colocado o que autor chama de “desorientação do pensamento moderno”, no que se refere a formação intelectual do indivíduo.
O rumo que o processo educacional tomava não era diferente do século anterior. As preocupações se mostraram mais intensas quando se começou a realizar a passagem do Múltiplo ao Uno, que possui como base os pensamentos de Platão.
Quando citamos o aspecto múltiplo no meio educacional, ligamos isso as diversas formas do saber produzidas ao longo da história nas diversas sociedades que a compuseram. A educação fica então a cargo de alinhar as novas gerações em face das diversas especializações exigidas na divisão de trabalhos, já que um dos fatores que levou a esse pensamento foi a ramificação entre as ciências, resultado em separação das áreas, e por consequência, dos campos de atuação. Em contrapartida, a própria educação tem que lidar com o Uno, onde, mesmo não existindo uma receita única de como se trabalhar com a educação dentro das diversas sociedades, esta, ainda tem a preocupação de ser unificadora e homogeneizadora. A educação então, já mostra sinais que não é estática, que o mundo sempre a moldou segundo suas necessidades.
Gusdorf (1983), ainda nos coloca o manifesto de Leibniz, filósofo, matemático e membro das academias cientificas, o qual defende o uso da interdisciplinaridade, diante do seu descontentamento com as fragmentações disciplinares que ocorriam na época, chegando a afirmar que
O gênero humano, considerado em relação com as ciências que servem a nossa felicidade, me parece semelhante a um rebanho de gente que marcha em confusão pela escuridão, sem ter chefe, nem ordem, nem palavra, nem outro sinal com que regular a marcha e reconhecer-se. Em lugar de caminhar com orientação para guiar-nos e assegurar nossos passos, corremos louca e perdidamente, chocando uns contra os outros, longe de ajudarmo-nos e sustentarmo-nos [...]. Vemos que o que mais poderia nos ajudar seria unificar nossos trabalho, compartilhá-los com vantagens e regulá-los com ordem; mas, no momento, apenas se chega ao difícil que ninguém havia esboçado ainda, e todos correm em massa ao que os outros já tem feito e o copiam ou o combatem eternamente [...] (LEIBNIZ apud GUSDORF, 1983, p. 34).
A declaração de Leibniz mostra que não existia um diálogo em relação ao que os grupos buscavam em relação ao conhecimento.
Ainda nesse período, surge o movimento dos enciclopedistas, baseado na inquietação do Iluminismo em relação ao isolamento egoísta em que encaminhava o saber. D’Alembert e Diderot encabeçavam esse projeto, onde se tinha como objetivo, unificar e comprimir todo o saber disponível até aquele momento, em um único lugar, dando origem as Enciclopédias. Os Iluministas acreditavam que a ciência, não só deveria ter ligação em suas áreas, como deveria ser colocada de forma ordenada, para que ao se procurar o saber, poder-se-ia racionalmente extrair esse conhecimento de forma coordenada.
A epistemologia genética de Locke, na qual todas as disciplinas têm uma derivação em comum, foi um dos fundamentos pelo qual os enciclopedistas se sustentaram, sabendo que existe uma unificação em todo conhecimento.
Isso fica mais evidente em um trecho de Michelet, em sua obra Discurso sobre a unidade da ciência, de 1825, trecho esse, citado por Gusdorf, em sua defesa:
A ciência perde seu atrativo mais vivo, sua principal utilidade, quando considera os diversos ramos como estranhos entre si, quando ignora que cada estudo esclarece e fecunda os demais [...]. A ciência é uma; as Línguas, a Literatura, a História, a Física, as Matemáticas e a Filosofia, os conhecimentos mais aparentemente distantes se tocam realmente, ou melhor, formam todo um sistema cujas diversas partes considera sucessivamente nossa debilidade. Um dia tentareis captar esta majestosa harmonia na ciência humana [...] (MICHELET apud GUSDORF, 1983, p. 37).
Com essa preocupação de Michelet (1983), adentramos então a Idade Contemporânea, onde, embora se busque uma visão mais unificada do mundo, utiliza-se ainda da ingenuidade das estruturas gregas e medievais, antes vistas aqui.
O século XIX foi marcado na história pela expansão do conhecimento cientifico, assim como sua proliferação na sociedade. As ferramentas de pesquisa
foram de suma importância para o desenvolvimento da ciência nas mais diversas áreas. Porém, em contrapartida com essa evolução, a desfragmentação desses campos resultou no surgimento do especialista.
Gusdorf, utiliza a fórmula de Chesterton para comparar o surgimento dos especialistas no século XIX:
O especialista, segundo a fórmula de Chesterton, sabe cada vez mais de um campo cada vez menor, em marcha até esse limite escatológico em que saberá tudo de nada. O positivismo, o cientificismo, corresponde a esse novo estatuto do saber, onde cada disciplina se encerra no esplêndido isolamento de suas próprias metodologias, fazendo da linguagem das ciências rigorosas uma espécie de absoluto [...]. A túnica sem costuras da ciência unitária parece desgarrada de forma irremediável. A pulverização do saber em setores muito limitados condena o homem de ciência a uma paradoxal solidão, consequência da perda do sentido de causa comum que agregava os enciclopedistas e seus sucessores, os ideólogos. A este respeito, o século XIX parece caracterizado por um retrocesso da esperança interdisciplinar, a consciência científica parece vencida e sufocada pela massa crescente de sias conquistas. A acumulação quantitativa das informações parece exigir o preço de um desmantelamento da inteligência. (GUSDORF, 1983, p. 37-38).
E foi em 1808, que Napoleão, inaugura sob o nome da Universidade Imperial, um sistema de ensino na França que caminhava contra a história, a separação entre as faculdades de letra e ciências.
O decreto de Napoleão em 10 de maio de 1808, gerou revolta em outras partes do mundo. O saber tomava uma nova rota, o mundo real estava cada vez mais distante do seu cotidiano, a especialização criava bloqueio e restringia a comunicação entre as ciências.
Embora as críticas a esse novo modelo eram externas, podemos citar o discurso de Charles Dupuy, o então presidente da Comissão de Ensino Superior na França demonstrou insatisfação a esse modelo ao final do século XIX:
Essa palavra “universidade” não é mais que uma palavra [...], porque não encerra uma organização cujos elementos sejam solidários, cujas partes se sintam órgãos de um mesmo todo [...]. Cada qual tira por seu lado, os homens de Direito, os de Letras, formam outros tantos grupos à parte, em cada uma dessas faculdades, as especialidades formam grupos dessa maneira, eu não diria zelosos, mas sim bastantes separados uns dos outros. É de conhecimento público [...] que em Sourbonne, por exemplo, está o grupo dos historiadores e dos filósofos, e que existem muito pouco contato e ainda menor penetração entre eles [...]. No momento, tudo se submete a especialização. (DUPUY, 1911 apud GUSDORF, 1983, p. 39).
A interdisciplinaridade então começa a se tornar um tema mais visível na comunidade educacional, e a partir de 1960 a pesquisa começa a ser mais difundida, livros, artigos e projetos começam a apontar acerca da interdisciplinaridade.
Foi então que Gusdorf apresenta à Unesco, em 1961, uma pesquisa de projeto interdisciplinar na área de ciências humanas, onde o objetivo principal do projeto era poder reunir cientistas renomados da época a fim de se aprofundar em pesquisas interdisciplinares nessa área. (FAZENDA, 1994). E então, nessa década, o projeto de Gusdorf abriu portas para que outras propostas surgissem.
Embora vimos que a “interdisciplinaridade” já existia antes do próprio termo, seu registro como adjetivo “interdisciplinar” foi encontrado pela primeira vez, por ironia, no dicionário francês Robert em 1959, e o substantivo “interdisciplinaridade” em 1968, no mesmo lugar. (DOMINGUES et al., 2001)
Além das etimologias e significados adotados, Fazenda (1994) apresenta a interdisciplinaridade como um movimento, uma nova frente política e social que surgia nas ruas:
O movimento da interdisciplinaridade na Europa, principalmente na França e na Itália, em meados da década de 1960 [...], época em que se insurge os movimentos estudantis, reivindicando um novo estatuo de universidade e de escola. (FAZENDA, 1994, p. 18).
A autora se referia aos movimentos estudantis que surgiam na França durante a década de 60, os movimentos surgiam devido a uma crise política e social vivida pelo país nesse momento da história. Entre as reivindicações do movimento estudantil estava a melhoria da qualidade de ensino nos campus universitários, onde, em alinhamento à crise, os estudantes buscavam um plano de ensino que agregasse a realidade social, política e econômica da idade moderna. A fragmentação das disciplinas, de forma isoladas, não eram uma solução para atender problemas que exigiam uma visão real, onde os problemas se interligavam no meio social.
Dois anos após o registro da palavra, já era possível ver grandes pesquisas nessa área, em 1970, a OCDE e o Ministério da Educação Francês realizaram um Seminário Internacional sobre Interdisciplinaridade. O Seminário aconteceu na própria França, especificamente na Universidade de Nice. Embora a história mostre que a interdisciplinaridade não era algo recente, o seu termo era, sendo assim, fazia-se necessário um esclarecimento no meio educacional sobre o objetivo desse método.
O seminário propôs que a interdisciplinaridade deveria ser trabalhada nas Universidades, e a medida que fosse implementada, se analisaria se realmente é um método positivo, tanto no ensino quanto nas pesquisas, visto as mudanças e evoluções ocorridas no conhecimento da sociedade.
Porém, no seminário houve uma falta de consenso em relação a conceitualização da interdisciplinaridade. O debate conseguiu reunir personalidade importantes no meio acadêmico da época. 21 países foram representados, e nomes como: Jean Peaget, Guy Michaus, Leo Apostel, Marcel Boisot, Guy Berger, Heniz Heckhausen, Eric Jantsch, Asa Briggs, entre outros, puderam apresentar seus pontos de vista acerta do assunto.
Este congresso foi o ponto de partida para que o mundo pudesse realizar mais eventos a respeito da interdisciplinaridade, sendo de grande importância para o avanço em pesquisas a cerca deste.
Piaget então assume o papel central nas reformulações educacionais propostas pelos governos da Europa Ocidental, ajudando na elaboração de estratégia que propunham a interdisciplinaridade. (FOLLARI, 1982)
Em 1974, é inaugurada a Universidade Autónoma Metropolitana em Azcapotzalco no México, que tinha em seus currículos oferecer um ensino totalmente interdisciplinar.
Seja por motivos políticos, sociais ou humanos, a interdisciplinaridade tomava uma crescente e se tornava popular, uma solução aos problemas cobrados pelos movimentos, seja como uma proposta política, seja como uma solução a demanda nos setores anticapitalistas, sua figura se tornava cada vez mais difundida no mundo. Entretanto, curiosamente, nesse mesmo período, as instituições superiores em sua maioria, buscavam promover níveis mais profundos em especializações. Para justificar como poderia os dois pensamentos andarem de forma opostas, recorremos as explicações de Follari, que justifica esse desalinhamento a razões políticas.
Follari (1995), afirma que a interdisciplinaridade, embora tenha tido uma função de ideologia social, foi utilizada também pelas classes sociais hegemônicas como mera forma de abafar as frentes e lutas que aconteciam, apresentando-a como uma nova direção para a educação, suprimindo a obsoleta disciplinaridade por uma nova ciência. Porém, a proposta figurava como uma falsa solução a fim de acalmar os
ânimos sociais, já que o objetivo era apenas convencer a sociedade de que se tinha uma solução moderna.