• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 – A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR E O CURRÍCULO

3.3 Perspectiva psicomotora do currículo

Outro modelo curricular muito discutido nos cursos de graduação é a perspectiva psicomotora. Este movimento ganhou notoriedade nos anos de 1980 e tinha como objetivo

romper com o modelo hegemônico que perdurava na área escolar, denominado de aptidão física, voltado para o rendimento esportivo. O principal autor desta proposta é o professor de Educação Física francês Jean Le Boulch, formado também em Medicina e Psicologia. O autor se tornou conhecido após sua vinda ao Brasil para ministrar cursos e palestras sobre a psicomotricidade. Uma de suas principais obras sobre este tema é o conhecido livro Educação

pelo movimento. De acordo com Darido (2003, p. 14), “O discurso e prática da Educação

Física sob a influência da psicomotricidade conduz à necessidade do professor de Educação Física sentir-se um professor com responsabilidades escolares e pedagógicas”.

Para Daolio (1997, p. 30), “A psicomotricidade nunca foi de uso exclusivo da Educação Física, mas também da Pedagogia, da Psicologia e da Psicopedagogia, sem falar do início de formação de psicomotricistas, iniciada na mesma época”. Na escola, os professores que optam por desenvolver sua prática pedagógica pautada nos princípios do currículo psicomotor atribuem nas aulas um significado baseado em circuitos motores, que entre outras coisas enfatizam a lateralidade, equilíbrio, deslocamentos, saltos e ainda estimulam o esquema corporal e a noção espaço-temporal nas aulas de Educação Física. Neste sentido, os alunos são submetidos a tarefas que envolvam a noção direita-esquerda, rolamentos e exercícios de pular corda e executar estrelinhas; essas são as atividades que os professores de Educação Física ministram por meio desta proposta curricular.

Em sua tese de doutorado, Daolio (1997, p. 30) relata que

[...] a Psicomotricidade, de certa forma, contribuiu para a negação de conteúdos até então tidos como próprios da Educação Física, principalmente o esporte. Ao valorizar a formação integral da criança, o discurso da Psicomotricidade, centrado na "educação pelo movimento", fez com que a Educação Física se tornasse meio para outras disciplinas escolares, perdendo, assim, sua especificidade.

A psicomotricidade vem crescendo proporcionalmente desde seu surgimento até os dias atuais. Diversas faculdades têm ofertado esse curso como forma de pós-graduação e extensão. Observamos que a procura por este curso é grande e uma possível causa é o conteúdo programático visível na ementa curricular que indica ser a psicomotricidade o caminho de descoberta dos problemas educacionais. Através dessa especialização, os professores e professoras que atuam em sala de aula ou nas aulas de Educação Física estarão aptos a identificar problemas como dificuldade de aprendizagem, problemas de coordenação motora e o que é principal: a crença da atuação psicomotora no processo de alfabetização e letramento dos alunos.

Por este motivo, muitos professores de Educação Física utilizam do currículo apresentado pela psicomotricidade em suas aulas para terem suas “vozes” valorizadas no

ambiente escolar, ou seja, ajudando os professores de sala de aula no processo de ensino e aprendizagem de disciplinas como Português e Matemática, não que seja errado atuar de forma interdisciplinar, porém temos percebido que a Educação Física fica à mercê destas disciplinas e descaracteriza seus temas que são identificados na cultura corporal, entre os quais brincadeiras, jogos, ginástica, esporte, práticas de aventura e atividades rítmicas, além de não contribuir para a formação da cidadania e para o pensamento crítico sobre a sociedade.

Nos anos entre 2014 e 2015, tivemos a oportunidade de participar da formação de professores de Educação Física da rede pública municipal de São Bernardo do Campo (SP). O conteúdo abordado nesta capacitação indicava os princípios do currículo psicomotor em seu referencial teórico. Os principais autores citados foram: Jean Piaget, Skinner, Vygotsky, Wallon, Manoel Sérgio, Jean Le Boulch e Vitor da Fonseca. As atividades indicadas pelo formador referiam-se ao esquema corporal, ao desenvolvimento motor, à praxia fina e à praxia global.

Todavia, o município possui um currículo explícito para orientar a prática pedagógica dos professores de EF, elaborado com os preceitos da perspectiva cultural da EF, que tem como principais representantes os teóricos Neira e Nunes (2006). Sousa e Mafra (2016) realizaram estudo sobre a formação de professores que atuam em São Bernardo do Campo e identificaram uma imensa defasagem no que concerne aos conteúdos abordados na capacitação e a falta de relação dialógica com o currículo que se encontra explícito para contribuir com o trabalho pedagógico do professor, concluindo, com muita maestria, que a falta de diálogo entre perspectivas teóricas, no campo da prática, poderá tornar a formação de professores mera utopia.

Observamos que os professores de Educação Física que participaram dos momentos formativos questionavam a pouca relação entre teoria e prática e sentiam dificuldade em aplicar o que era atribuído na formação em sua prática pedagógica, pois houve a especificidade teórica sem a devida aplicabilidade da práxis que é um princípio relevante para o sucesso escolar e principalmente para a reflexão sobre a prática.

Em dissertação de mestrado sobre a Psicocinética, C. Silva (2015, p. 15) diz que

É importante comentar que as obras de Le Boulch influenciaram a intervenção pedagógica e as pesquisas na área de Educação Física, entretanto, após a década de 80 houve uma lacuna na tradução e publicação de seus trabalhos no Brasil, um “esquecimento” das suas ideias, seu trabalho não se consolidou após esse período.

Analisando a prática pedagógica dos docentes de Educação Física pesquisa, especificamente os educadores/a sol, lua, estrela e terra, percebemos que a psicomotricidade é

a perspectiva curricular mais utilizada por esses professores/a de EF que atuam em diferentes escolas da rede municipal de Santo André.

O que consideramos diferente na formação vivenciada no município de São Bernardo foi a ênfase no trato pedagógico e princípios psicomotores indicados pelo formador que constam na obra do autor Vitor da Fonseca, presente em seu livro Manual de observação

psicomotora, publicado no ano de 2012. Este autor enfatiza a importância da junção

neurociências com a Educação Física; esta relação atribui aos professores relacionar nas aulas os “deslocamentos laterais”, “rolamentos”, “estrelinhas”, “andar sobre linhas”, equilibrar-se com um só pé etc. De acordo com o formador, os professores que estimularem essas atividades poderão contribuir para o aprendizado das disciplinas como Matemática, Português, além de auxiliar na personalidade das crianças e no desenvolvimento motor. Vale frisar que essa perspectiva psicomotora pouco relaciona a contribuição destes estudos para a formação da cidadania.

A autora Silva (2013), na tentativa de nos apresentar uma nova perspectiva curricular, apresenta-nos uma possibilidade de desenvolver as atividades de Educação Física na escola por meio da proposta da motricidade humana; para os autores, convém ressaltar que a escola é uma instituição social e, como tal, uma de suas especificidades é ser portadora da veiculação de conhecimentos sistematizados, bem como consiste num local onde ocorre a sistematização do processo de construção do conhecimento. A escola é a instituição em que os alunos têm a oportunidade e o direito de participar de diversas vivências motoras; neste sentido, a prática de atividades físicas pode contribuir no processo de aprendizagem de outros conteúdos, relacionados a outras disciplinas e na vida cotidiana; sendo assim, a Educação Física poderá contribuir para a transformação da realidade social dos alunos e o processo de desenvolvimento das potencialidades humanas, por meio dos seus conteúdos e do diálogo.

Percebemos que a tentativa da autora pode ser querer reescrever a perspectiva psicomotora, de um modo diferente, porém similar ao que já fez Le Boulch, que, para C. Silva (2015), o autor abordou a compreensão da Motricidade Humana e a sua complexidade, defendeu o desenvolvimento e a aprendizagem da pessoa através do movimento do corpo. Desta forma, acreditamos que houve a intenção dos autores em reinventar o currículo psicomotor; nossa observação diante desta tentativa nos remeteu a uma velha pergunta proferida sob o título do livro do filósofo Manoel Sérgio denominado: Educação Física ou

ciência da Motricidade Humana? E a nossa pergunta para estes autores seria definida da

Portas abertas para a Educação Física: falando sobre abordagens pedagógicas (SILVA,

2013) não seria repetir o que foi proposto na perspectiva da psicomotricidade?

Analisando o caso específico da rede municipal de Santo André, notamos que os professores de Educação Física que declararam desenvolver o currículo psicomotor em sua prática pedagógica, argumentaram ser essa proposta a mais preparada para se trabalhar com as crianças de 4 a 5 anos. A Educação Física deste município está presente desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental I, no caso específico da rede municipal de Santo André, que é o foco de estudo deste trabalho; outro fato que nos chamou a atenção foi que a maioria dos professores disse ter alguma dificuldade em ministrar aulas de Educação Física para o público infantil, que tinha a preferência de atuar no Ensino Fundamental I.

É interessante ressaltar que poucos municípios e estados brasileiros têm a atuação da disciplina de Educação Física (EF) na grade curricular das escolas, o que de certa forma pode tornar Santo André como um polo de referência na atuação com a Educação Física infantil. Neste sentido, torna-se necessário fortalecermos as práticas corporais desenvolvidas com as crianças e democratizar o conhecimento desenvolvido nas redes de aprendizagem escolar para que outros estados e municípios do País possam introduzir a EF nas escolas. Todos nós sabemos que necessita de intervenção do poder público e reivindicação da sociedade para que esse “inédito viável”, como diria Freire, seja possível de acontecer em todas as escolas brasileiras.