5 RESULTADOS E DISCUSSÕES
5.3 Perspectivas teóricas (ou Teoria suporte)
Enquanto campo indisciplinar e transgressivo (MOITA-LOPES, 2006), a LA contemporânea pode servir-se de aplicação de teorias de diversas áreas (Psicologia, Sociologia, Pedagogia...), assim como pode gerar sua própria teorização para as questões levantadas
pelos pesquisadores da área. E o campo de CALL, “provavelmente a área mais interdisciplinar de uma área essencialmente interdisciplinar” como a LA (LEFFA, 2006, p. 17), segue essa mesma tendência de não se restringir a determinadas teorias.
Nessa linha de pensamento, fazemos duas ressalvas. A primeira delas: assim como Paiva, Silva e Gomes (2009, p. 14), estamos cientes de que o fato de não encontrarmos menção a uma teoria específica no resumo não significa ausência de suporte teórico na pesquisa em questão, conforme já aclaramos; isso pode ter acontecido por limitação de nossa metodologia, que focou os resumos e utilizou a técnica de scanning. A segunda ressalva: em nossa análise, não entramos no mérito de o suporte teórico de cada trabalho ser, ou não, uma teoria, pois escolhemos considerar que o(s) autor(es) de cada trabalho é(são) soberano(s) quanto à classificação do que é ou não uma teoria para seu estudo. Isso se mostrou acertado porque, por um lado, tivemos menções a teorias já consagradas, como a Teoria da Atividade e a Teoria Conectivista. Por outro lado, foram localizadas em alguns resumos menções aos “estudos sobre gamificação” ou aos
“estudos de letramento(s)”, por exemplo, enquanto “teorias”. Nesse sentido, fizemos o possível para localizar a base teórica da pesquisa, via leitura dos resumos e mapeamento de “seções” a partir de “pistas por meio de marcadores metadiscursivos” em um abstract, com base em Motta-Roth e Hendges (2010, p. 156-157). Seguem dois exemplos: “Como perspectiva teórica, a pesquisa foi embasada nos Novos Estudos do Letramento” (2015, R.14), “O suporte teórico do trabalho são estudos recentes sobre as características da orientação de estágio, e da formação de orientadores de estágio, na EaD” (2018, R.3).
Dentre os 236 resumos analisados, foram detectados 160 trabalhos nos quais os suportes teóricos foram claramente especificados (67,8% do total). A seguir (Quadro 6), apresentamos os resultados referentes às teorias e suas respectivas ocorrências em cada edição da JETAL.
Fonte: dos autores.
Ocorrência por edição da JETAL, segundo cada ano: Teoria/Suporte teórico201120122013201420152016201720182019Total (Teoria da) Complexidade/ Pensamento Complexo5672331-431 Multiletramentos/ Letramentos Digitais/ Letramen- tos Críticos13233353528 Estudos sobre Objetos de Aprendizagem (de Lín- guas)255111---15 Blended Learning/ Ensino Híbrido/Sala de Aula Invertida-----212813 Estudos sobre Games/Gamificação/ Gamification-31-2-2-210 Estudos sobre Recursos Educacionais Abertos (REA)---136---10 Estudos sobre MALL---441---9 Estudos sobrefeedback---1123-18 Não conseguimos localizar o suporte teórico61478511714476
Quadro 6: Principais teorias empregadas nas pesquisas apresentadas na JETAL
No Quadro 6, de forma semelhante ao que fizeram Paiva, Silva e Gomes (2009, p. 18), listamos apenas as teorias mais recorrentes, discriminando as incidências por ano/edição. Outras bases teóricas, como a Semiótica Discursiva e o Modelo Comportamental de Fogg, por exemplo, pela baixa incidência de menção nos resumos, não foram colocadas no quadro. Afora isso, explicamos: o número de teorias contabilizadas pode ser maior que o número de resumos, em função daqueles que elencavam mais de uma teoria suporte, ou combinação entre várias teorias, como “a Teoria da Complexidade e da Atividade”, a modo de ilustração.
Lembramos, ainda, que Reis (2008) apontou as 4 teorias que têm orientado os estudos de CALL no Brasil, quais sejam: a Teoria Sociocultural, os estudos de gêneros, a Teoria da Atividade e a Teoria da Complexidade. Estas, em relação ao total de menções explícitas no corpo dos resumos de trabalhos apresentados nas 9 edições da JETAL, compõem o seguinte ranking: 1º) a Teoria da Complexidade é o suporte teórico de 31 trabalhos, 2º) a Teoria da Atividade é o suporte teórico de 6 trabalhos, 3º) os estudos de gênero servem como teoria base de 2 trabalhos, e 4º) a Teoria Sociocultural é o suporte teórico de 1 trabalho. Confirmamos, pois, a consolidação do Pensamento Complexo enquanto perspectiva teórica, não só em LA, mas mais especificamente em CALL. Isso se dá não apenas em função do expressivo número de ocorrências, mas também pela reincidência, em geral, da Complexidade como suporte teórico de trabalhos variados ao longo das edições da JETAL.
Ademais, sinalizamos a emergência de referenciais teóricos que não são próprios das três fases de CALL elencadas por Reis (2008; 2010), o que indica uma possível quarta fase de CALL no país, na qual se destacam os estudos de letramentos. Estes, nas primeiras edições da JETAL, foram referenciados como “multiletramentos” e
“Novos Estudos de Letramentos”. Em alguns trabalhos, o enfoque recai sobre “letramento digital”. Já nas últimas edições, houve um crescente interesse pelos Letramentos Críticos, muito possivelmente impulsionado pelo tema da VII JETAL (2017): “ensino crítico de línguas”. Esse crescimento também acompanha uma tendência da LA Crítica no Brasil.
Algo semelhante ocorreu com o Ensino Híbrido, que começou
a ser citado como suporte teórico de algumas poucas pesquisas em 2016, até chegar ao ano de 2019, no qual foi explicitamente referenciado como teoria base em 8 resumos. Uma vez mais, isso pode ter relação direta com a temática da nona edição da JETAL (2019): “Blended Learning e Metodologias Ativas de Aprendizagem”.
Quanto aos estudos de Objetos de Aprendizagem (OA), Objetos de Aprendizagem de Línguas (OAL) e REA, ressaltamos: em alguns casos, alguns trabalhos podem ter tratado deles como suporte teórico. Em um primeiro momento, para situar-se numa área, é natural recorrer aos estudos prévios sobre o próprio tema enquanto suporte teórico para um autoentendimento. Com o passar do tempo, contudo, os trabalhos que seguiam abordando os OA e REA passaram a empregar outros suportes teóricos, como Ensino Comunicativo de Línguas e Letramentos Críticos, a modo de exemplificação. Isso pode ser interpretado como um movimento típico de aprofundamento no debate no sentido de não mais ver as discussões conceituais sobre a tecnologia em si como o próprio suporte teórico, mas sim pensar em quais teorias podem embasar os estudos sobre tais tecnologias.
Também entre esses dois temas, parece que os dados provenientes da JETAL confirmam o que a literatura da área vem sinalizando (LEFFA, 2016): os REA podem ser entendidos como uma evolução dos OA e dos OAL em termos de abertura e licenças.
Isso pode explicar por que, nas primeiras edições da JETAL, havia menções aos OAs e OALs e, depois, passou-se a tratar mais de REA.
Logo na sequência, parece haver uma mudança de enfoque, do recurso em si para uma teoria que o embase, como já mencionamos anteriormente. Nas últimas edições da JETAL, isso tem se dado principalmente pela perspectiva dos Letramentos Críticos, mas não só: estudos sobre feedbacks e o Pensamento Complexo também serviram como base teórica de trabalhos que abordavam os REA, estes não mais como teoria, mas como tema ou recurso empregado.
Por fim, estudos de “games”, “MALL” e “feedback” também foram mencionados como suporte teórico num número significativo de trabalhos, e não constam como teorias das primeiras fases de CALL delineadas por Reis (2008; 2010). Novamente, interpretamos isso como um indicativo de uma nova fase no país, na qual emergem
novas teorizações de acordo com as necessidades e interesses de investigação dos pesquisadores da área e da sociedade, como é o caso dos dispositivos móveis, que passaram a ser mais amplamente estudados ao passo que os artefatos como celulares e tablets se popularizaram no âmbito social.