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Perverse accountability: a formal model of machine politics with evidence from

CAPÍTULO 4 A literatura em análise: a teoria dos jogos na ciência política

4.3. Grupo 2: Relações Institucionais

4.3.1. Perverse accountability: a formal model of machine politics with evidence from

from Argentina, Susan C. Stokes (2005)

O artigo de Stokes estuda o clientelismo partidário a partir da modelação formal da teoria dos jogos, partindo de um problema inerente aos estudos anteriores sobre o mesmo tema: o compromisso. Em países com voto secreto, como os partidos clientelistas podem avaliar realmente os votos de um eleitor, se lhe foram favoráveis ou não? Essa é uma das questões que a literatura antecedente deixa em aberto. Stokes a coloca como uma questão de suma importância, afinal de contas, como o partido saberá se o indivíduo que dele recebeu benefício cumpriu com sua parte do acordo, implícito, e votou a favor do partido, se o voto é secreto? À tentativa dos partidos políticos de descobrirem se os eleitores realmente votaram neles é dado o nome de accountability perversa (p. 315).

A accountability perversa ocorre quando os partidos influenciam os votos dos eleitores utilizando-se de recursos como a ameaça. Stokes denuncia essa prática como extremamente prejudicial à democracia, ao produzir medo nos eleitores de irem às urnas, com medo de retaliação, reduzindo as pressões sobre as políticas públicas do governo vigente e eliminar a autonomia do voto individual. Como ela é realizada, contudo, é a questão central do artigo. Stokes se debruça sobre o problema a partir de um modelo do tipo dilema do prisioneiro para analisar a interação estratégica existente entre partidos políticos clientelistas e os eleitores, testando as hipóteses com dados obtidos, sobretudo de entrevistas junto à população, na Argentina. Apesar da pesquisa ser comprovada a partir de dados argentinos, Stokes desde logo argumenta que o problema do clientelismo não é um problema exclusivamente argentino e tampouco latino-americano. A partir de trabalhos anteriores ela identifica vários outros países, desde os Estados Unidos à Itália, Ucrânia e Bulgária (p. 316).

Os modelos estáticos produzidos anteriormente por Dixit e Londregan (1996) e Cox e McCubbins (1986) falharam em reconhecer uma variável importante à decisão do eleitor, qual seja, o compromisso. Se o voto é realmente secreto, o que impede o eleitor de receber os benefícios prometidos pelo partido clientelista e votar no partido da oposição? Mais, como o partido pode averiguar se o eleitor cumpriu a sua parte no acordo, ajudando o partido nas urnas? Com esse problema em mente, Stokes propõe um modelo dinâmico para avaliar a ação clientelista, amparada em dois pressupostos: o primeiro, que os partidos são efetivamente capazes de monitorar os votos dos eleitores e que as recompensas dadas por

aqueles a estes estão condicionadas aos votos dos últimos; e o segundo, que ambos os jogadores estão cientes de que o jogo continuará indefinidamente53 (p. 316-317).

O modelo de Stokes, baseado no dilema do prisioneiro repetido infinitamente, é possível perceber que a melhor opção para os partidos políticos sempre é conceder benefícios às parcelas da população que preenchem dois requisitos: pobreza e indecisão. A pobreza é determinante quando consideramos que os partidos políticos lidam com recursos limitados e, ao adotarem esse comportamento, precisam comprar o máximo de votos possível. Os mais pobres dentre o segmento pobre da população costumam ser o alvo, pois eles se satisfazem com menos, fazendo com que os escassos recursos atinjam uma quantidade maior de eleitores. A indecisão do eleitor sobre qual candidato escolher também é importante: o eleitor que defende com muito vigor um outro candidato, dificilmente será comprado. Por outro lado, o eleitor do partido clientelista, que já está decidido pelo partido, provavelmente não mudará de opinião por não ser alvo dos benefícios concedidos pelo partido (p. 317).

A modelagem ocorre em dois momentos. No primeiro deles, Stokes faz uso de um jogo de ocorrência única para verificar a afirmação do parágrafo anterior. Na seqüência, o jogo é modelado com repetição infinita considerando como jogadores o eleitor indeciso e o partido clientelista, assumindo que este adota uma estratégia do tipo gatilho-severo54. Através dessa modelagem, Stokes chega à conclusão que os únicos eleitores sujeitos à mudanças de voto pró-partido clientelista, são os eleitores que ainda não decidiram em quem votar, e por isso precisam de um incentivo – ou os eleitores que escolheram um candidato sem nenhum apego maior a qualquer um deles, apenas porque sentiu que tinha que escolher um. As conclusões alcançadas por Stokes a partir do uso da teoria dos jogos são corroboradas empiricamente a partir de dados da Argentina, coletados a partir de entrevistas e estatisticamente modelados. Isto é, os resultados a que Stokes chega são conseqüências da junção de métodos estatísticos com a teoria dos jogos (p. 321-322).

Stokes reconhece que deixou uma questão de fora: o que acontece quando há partidos políticos clientelistas duelando por um dado segmento da população? A importância de tal fato, segundo a autora, é reduzida, uma vez que essa ocorrência é um tanto incomum. Ademais, Stokes defende que os partidos raramente entram em choque por concentrarem-se em parcelas diferentes da população, seus grupos particulares de eleitores. Ainda, Stokes

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Sobre essa indefinição, Stokes explica que, a menos que uma mudança drástica no regime aconteça, é legítimo prever que a democracia permanecerá e eleições ocorrerão periodicamente (p. 317).

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Essa estratégia, própria dos jogos infinitamente repetidos entre dois jogadores, prescreve que quando um dos jogadores não coopera, o outro deixa de cooperar pelo resto do jogo (MORROW, 1994, p. 266-268; FIANI, 2006, p. 284-285).

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assevera que apesar do relativo baixo custo, nem todos os partidos realizam práticas de monitoração porque os seus são diferentes para cada um deles, a depender dos recursos à disposição deles e dos seus grupos particulares de eleitores (p. 324).

A ausência dessa questão não ofusca o trabalho de Stokes, contudo, à medida que ela retoma um tema antigo da teoria política, resolvendo um dos seus problemas fundamentais a partir da modelagem em teoria dos jogos. A política clientelista é sustentada pela

accountability perversa, afirma Stokes (p. 325).

Os jogos desenvolvidos por Stokes são seqüenciais, de soma zero, de informação perfeita e assimétrica, já que todos os resultados possíveis são conhecidos pelos jogadores, mas há um desnível de informação entre eles que pode comprometer suas decisões, de regras fixas e não-cooperativos. Quanto à repetição, o primeiro deles, é de ocorrência única, enquanto o segundo é de repetição infinita. Quanto à racionalidade, é exclusivamente instrumental.