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4 A DIALÉTICA DA DESTERRITORIALIZAÇÃO E

4.3 Pesca artesanal e etnoconhecimento dos pescadores

A foz do rio São Francisco é palco de diversos territórios simbólicos de pescadores artesanais, que foram tecidos por meio da reterritorialização. Basta olhar atentamente ou acompanhar uma pescaria para observar diversos atores nesse palco, exercendo a atividade pesqueira, seja de linha de mão (guiando um barco de um lado para o outro, na espera incansável que algum peixe pegue a isca), seja de rede de cacear18 ou de arrasto (o marinho), entre outras técnicas.

FIGURA 35 - O arrais arrastando uma rede de marinho.

Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

Saber os locais dos peixes nem sempre significa fazer boas pescarias, no caso dessa pescaria de marinho (figura 35), do arrais Geraldo de 50 anos, os pescadores acordaram de madrugada; aproximadamente às 4h30min já estão no porto. Acompanhamos essa pescaria, cuja saída se deu por volta das 5 horas, e seguimos para o local em que os pescadores do NCHS exercem a pesca de marinho. Às 8h30min, depois de percorrer trechos nas águas até chegar ao lugar desejado, o arrais (mestre de pesca) lançou o marinho ao mar. Entre 9 e 9h20min, o marinho estava em terra. Aproximadamente às 10h30min, estávamos de volta (o peixe capturado foi um tímbiro).

18 Com a rede de cacear, o pescador fica dentro do barco esperando os peixes emalharem na rede ou ele deixa a rede no mar com uma sinalização (bandeiras iluminadas ou não) para no dia posterior ir buscar.

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FIGURA 36 - O pescador tratando um tímbiro.

Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

Não é qualquer pessoa que sabe tratar essa espécie de peixe que os pescadores chamam de tímbiro (vide figura 36). Há toda uma técnica. Primeiro o couro é retirado com uma faca, de preferência começando pela cauda, depois se enrola parte desse couro na faca e vai puxando até retirá-lo por completo. Mas é preciso ter bastante cuidado para não estragar a carne do peixe, não pode haver pressa. Se for assado na brasa, não é necessário tirar o couro.

Algumas formas rudimentares já abolidas por alguns pescadores de Saramém ainda são praticadas por uma minoria, como é o caso do Justino, de 58 anos, que costuma deixar sua rede no mar de um dia para outro. No primeiro dia, ele vai arriar a rede que fica sinalizada com algumas bandeiras. Essa rede é fixa a um instrumento artesanal que ele chama de fatecha (âncora de madeira e rocha, visualizada na figura 37), que é para o mar não levar sua rede. No dia posterior, ele vai “correr a rede” (levantá-la para dentro do barco).

Alguns pescadores ainda usam algumas formas rudimentares de âncoras, geralmente para segurar a rede de pesca, quando esta fica só no mar ou no rio. Perto das âncoras ficam as bandeiras sinalizadoras. No caso da figura 37, o instrumento utilizado pelo pescador Justino é feito de madeira e rocha e é chamado de “fatecha”. Muitos pescadores já aboliram esse instrumento, pois eles dizem que é muito pesado e de difícil colocação no barco. No entanto, Justino se diz acostumado com ele e afirma não poder fazer nada porque depende dessa atividade para sobreviver. Segundo o pescador, a forma de uso é o seguinte:

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Amarra a rede, coloca o filame (corda que fica amarrada no fatecho) e amarra a corda de boia e amarra a rede.

FIGURA 37 - Instrumento artesanal usado para segurar a rede de pesca. Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

Geralmente, ele utiliza dois desses instrumentos, com pedras e madeiras, como se visualiza na figura 37, onde cada qual fica sobre uma extremidade da corda que segura a rede. Isso é feito para que a água do mar não leve o apetrecho. Porém, sempre que se vai pescar dá muito trabalho para lançá-los na água e quando as redes são retiradas, há o trabalho de colocá- los de volta para dentro da embarcação. Tudo isso revela conhecimentos locais profundos sobre o ambiente, incluindo as marés, a lua, a fauna (etnoconhecimento), os quais revelam processos de reterritorialização do mar e do rio de acordo com novas situações dadas.

A pesca no mar é, segundo os pescadores, um jogo, em que um dia você ganha outro dia você perde. Por isso, quando o pescador vai para o mar não quer dizer que vai trazer muitos peixes. Às vezes, ele passa quase um ano para fazer um grande lance e arrastar muito peixe ou um “barrote” como eles dizem. Segundo o pescador Ronaldo, 39 anos, quando não está no mar pescando de marinho com o grupo do arrais de Geraldo, está só ou com seu irmão, pescando com rede de emalhar na foz do rio, aventurando uma boa pescaria.

Eu pesco mais Geraldo, assim marinho e pesco nas minhas redes, meu irmão, quando a pescaria de marinho não dá, aí eu vou pra minha rede.

110 Ele descreve a pesca como:

[...] um jogo de futebol: outro dia você ganha, outro dia você perde.

Nesse jogo que é pescar no mar e na foz do rio São Francisco, a sorte deve estar ao lado de quem pesca.

Entre todas as pescarias e técnicas utilizadas pelos pescadores de Saramém, a rede de marinho (rede de arrasto) que substituiu a lambuda, captura maior quantidade de peixes e é também a técnica que mais absorve pescadores na captura. Utilizam-se as mesmas técnicas da rede de lambuda. No mínimo, são cinco homens, mas normalmente são seis. Quando é feita com cinco pescadores, a força e o trabalho utilizados são maiores. Na pescaria realizada pelo arrais Geraldo, 50 anos, contou-se 11 homens; seis já fazem parte grupo, os demais foram ajudar os pescadores a trazer a rede para a terra e transportá-la para o outro lado da ilha. Nesse local, quando se captura muito peixe, para não correr o risco de perder todo o trabalho do dia, é preferível fazer o transporte pelo rio do que pelo mar, pois uma onda forte pode virar a embarcação.

FIGURA 38 - Pesca de xaréu, realizada pelo marinho do arrais.

Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

Após a limpeza dos peixes, no caso dos xaréus, visualizados na figura 38, o próximo passo é transportá-los para o outro lado da ilha, conforme indicado pela seta na figura 39. Essa é uma precaução tomada pelo arrais, para evitar que na hora dos transportes dos peixes para o porto onde serão vendidos os peixes, o barco não vire, o que resultaria em grande prejuízo para os pescadores, porque pescarias com aproximadamente 1.300 kg de xaréus não ocorrem com frequência.

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FIGURA 39 - Pescadores transportando os peixes de um lado da ilha para o outro. Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

Uma pescaria, como a do xaréu, exige mais do que uma embarcação para transportar todo o pescado (vide figura 40). O pescador chama outros pescadores que estejam no local e que possuam barcos para ajudá-los a transportar o pescado para o porto. Após o transporte dos peixes de um lado da ilha para o outro, o pagamento para aqueles que ajudaram, para o proprietário do barco e quem mais estiver com ele é feito em peixes. Cada qual ganha cinco ou seis peixes grandes (acima de 50 cm), quando é xaréu, e quando é bagre, eles ganham um, dois ou mais recipientes cheios.

FIGURA 40 - Canoa carregada de peixes.

Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

112 Quando questionados sobre alguma lembrança de uma grande pescaria, alguns pescadores com os olhos brilhando e a face alegre respondem:

Tem uma, pesquei lá nas Barras das Canoas/AL, que eu peguei 1.500 kg de xaréu, os peixes se arrastando, nós tava pescando de 4 pessoas [geralmente são 6 pescadores para a pesca de marinho], mas não era 4 homens não. Homem só tinha eu e outro colega, os outros eram pequenos, que era o meu filho que tinha uns 12 anos, se tivesse, e outro rapaz. [...] Os peixes saíram levando a gente, aí vinha o Proa, sabe quem é o Proa?

Respondi-lhe que sim, o mesmo continuou dizendo:

O Proa e o Pipo, os dois tava pescando assim, aí terminou assim, aí comecemos a gritar, aí eles viram e vieram remando, chegou perto na rede, aí eles ajudou a gente puxar. Nós demos também uma porção de peixes a eles (Alfrânio, 53 anos, pescador).

Nesse caso, a sorte não é só dos pescadores que fazem uma grande pescaria, mas também daqueles que estão próximos e são solidários em ajudar o colega de profissão, pois sabem que, quando solidários, são bem retribuídos; e dependendo do pescador, o pagamento para os colegas que o ajudou equivale a um dia ou mais de trabalho, já que muitas vezes eles vão e voltam do mar sem nada.

Cabe compreender que a pescaria de marinho é um tipo de pesca de arrasto que necessita de no mínimo 5 homens; com menor número, correm o risco de perder uma grande quantidade de peixes, quando a pescaria é farta.

Podemos tomar como algo emblemático das pescas realizadas no processo de reterritorialização das águas, a pesca de marinho, especialmente nos seus aspectos de respeito, marcação e reciprocidade, revelando recriação de antigos laços também vividos no Povoado do Cabeço, ou seja, nas águas, há várias continuidades da história de trabalho.

Os locais utilizados - para esse tipo de pescaria pelos pescadores do NCHS - são próximos à nova croa, onde se localizava o Povoado do Cabeço. Este se tornou um local onde os peixes vão se alimentar. Sabendo disso, os pescadores observam os melhores dias de marés e a “vez”19

para colocarem o marinho no mar. Os peixes mais capturados nesse local são o xaréu, o bagre branco, o bagre amarelo, curimã, camurupim, serra, etc. Na nova croa, além de pescarem, alguns pescadores construíram cabanas de palha para morar ou para refúgio nos finais de semana. Na figura 41, podem-se observar essas cabanas.

19 De acordo com os pescadores “a vez” ou “o dia do marinho” dá o direito ao arrais escolher o melhor local para lançar ao mar; mesmo havendo outros marinhos, o da vez é o primeiro.

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FIGURA 41 - Local de pesca dos grupos de marinho de Saramém.

Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

Os locais de pesca utilizados pelos grupos de marinhos que vivem no NCHS são do lado esquerdo dessa croa ou ilha visualizada na figura 41. Mas é importante frisar que há um dia específico para cada marinho, são dias alternados. Sendo assim, os arrais (mestres e proprietários de marinho) não podem pescar no local do marinho do dia. Porém, se desejarem e isso ocorrer no dia que não é o seu, o arrais que não está na vez precisa esperar que o marinho da vez lance a rede primeiro para depois ele lançar a sua. Há uma regra e uma tabela oral que é memorizada e atualizada todos os dias. Oralmente, pescadores de marinho ficam sabendo do seu dia de ir colocar o marinho e escolher o melhor lugar. Nesse sentido, a reterritorialização significa uma nova territorialidade pesqueira, numa intensa dialética renovada constantemente.

Cada grupo com sua rede de marinho tem direito a um dia ou vez. Nesse caso o arrais que possuir mais de uma rede de marinho, tem o direito a dois dias ou duas vezes. A importância da “vez” se dá devido à escolha do melhor local para fazer o cerco com o marinho. Cabe lembrar que essa questão da vez já existia na pesca da rede de lambuda, que acontecia no Povoado do Cabeço.

Em muitos casos, há três a quatro marinhos no local esperando aquele que está no direito do espaço efetivar seu lance. Posteriormente, cada qual escolhe um local para colocar os seus marinhos. Porém, há uma ressalva, se um grupo de marinho agir em dia e horário que não é o seu, ele não poderá lançar sua rede onde está marcado para o marinho da vez. A marcação é feita deixando a rede em direção para o local no mar onde será colocado o

114 marinho, mas quando esse respeito não ocorre e alguém lança o marinho na vez de outro pescador, ocorre um conflito que fica no âmbito do confronto oral, porém a notícia se espalha e os pescadores que desrespeitaram a vez ficam “desmoralizados”, como dizem, e perdem o respeito dos colegas. A quebra desse código de respeito já havia sido mencionada também na pescaria de lambudas, conforme estudos na Bahia (CORDELL, 2001) e Pernambuco (RAMALHO, 2006).

A seta amarela na figura 42 indica o marinho que pertence ao pescador Geraldo. Geralmente, a rede passa dias ou até semanas. De tempo em tempos o pescador a leva para casa para fazer os consertos necessários.

Em Saramém, há oito redes de marinhos e oito arrais para essa pescaria que estão distribuídas da seguinte forma: o arrais Zeca com 2 marinhos , o arrais Venâncio com 1, Vanilson tem 1, Geraldo tem 1, Bernardo, 1, Nivaldo, 1, e João 1. Das oito, apenas seis estão sendo utilizados. As outras duas redes, até o ano de 2013, estavam paradas nas casas de seus respectivos donos. Mas os marinhos mais utilizados são os de Zeca, o de Geraldo, o de Vanilson e o do Bernardo.

FIGURA 42 - O marinho da vez, no local já escolhido pelo arrais.

Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

Para cada marinho trabalham seis homens, com exceção do proprietário que possui dois, porque são os mesmos pescadores que trabalham com ele nas duas redes. Então, pode-se dizer que 30 homens em Saramém praticam a pesca de marinho. Já com relação a outros tipos de pesca praticados pelos pescadores, a maioria só utiliza dois homens como, por exemplo, a pesca com redes de carapeba, com a grossa, a quarentinha, etc., que também já existiam na

115 época da ilha (ver figura 43, pescaria com a rede de marinho do arrais Zeca, nesse dia ele utilizou 7 homens, às vezes ele vai só com 5 pescadores).

FIGURA 43 - O marinho do Zeca sendo puxado do mar.

Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

No caso do marinho, se utiliza normalmente 6 homens. Há casos com apenas cinco pescadores, outros com mais de 7 homens puxando uma rede, como foi o caso dessa pescaria observada na figura 43, onde há três homens do lado direito e quatro homens do lado esquerdo. Isso não significa dizer que o arrais tenha compromisso com os pescadores que estão lhe ajudando, ele é responsável em coordenar os seis homens do seu marinho. A quantidade de homem presente em alguns marinhos irá depender das relações que o proprietário do apetrecho tem com os outros pescadores.

Porém, quando outros pescadores estão próximos aos locais desse tipo de pescaria e percebem que a pesca foi boa, se aproximam e começam a ajudar esse marinho, mesmo que o arrais não tenha solicitado ajuda. Muitos param suas pescarias e vão ajudar. Porque sabem que no final do trabalho serão bem recompensados com peixes. Para melhor compreensão de como ocorre a distribuição das tarefas na pesca de marinho, recorreu-se a alguns pescadores e arrais e chegou-se a seguinte compreensão: o arrais é o responsável por arriar o copo da rede, ou seja, o meio dela no mar e também é responsável em observar se a rede de marinho precisa

116 de conserto, ele ou o proeiro são responsáveis em remendar a rede. Na figura 44, observam-se diversos pescadores puxando a rede de um marinho com bastante xaréu sobre o copo da rede.

FIGURA 44 - Pescadores segurando o copo da rede de marinho.

Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

Nessa pescaria havia mais pescadores do que o necessário para a pescaria de marinho. Isso se deu porque o arrais proprietário desse apetrecho possui irmão e sobrinhos que vivem na nova croa, por isso essa quantidade de homens observados na figura 44. Sendo assim, sempre que ele vai pescar, seus parentes vão ajudá-lo a arrastar a rede para a terra. Consequentemente, todos eles, até as crianças, ganham uma boa quantidade de peixes a depender da quantidade e das espécies capturadas.

A divisão social do trabalho ocorre da seguinte forma: o proeiro é o pescador responsável por cuidar da rede, puxar a cortiça e fazer horas20

para o arrais; o salta-proeiro é responsável por puxar o chumbo da rede; e o chumbeiro, o pescador junto com o proeiro e o salta proeiro, salta a rede junto com o arrais. Saltar a rede significa embarcar a rede para dentro do barco antes de lançá-la ao mar.

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Fazer hora é um termo utilizado pelos pescadores que significa trabalhar para o dono da rede. No caso do marinho, além de remendar a rede, ele também é responsável em acordar o arrais e os outros colegas para irem pescar.

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FIGURA 45 - Pescadores colocando a rede de marinho para dentro do barco. Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

No entanto, ressalta-se que nenhuma dessas regras é rígida. Há grupos em que há maior ou menor cooperação, muitas vezes o arrais ajuda os outros pescadores. Na figura 45, há um proeiro, um salta-proeiro e um chumbeiro, funções atribuídas aos pescadores que estão saltando a rede para dentro do barco ou colocando a rede para dentro do barco e verificando se há alguma parte dela que esteja rasgada. Caso coloquem a rede precisando de conserto para dentro do barco, corre-se o risco de perder a pescaria porque os peixes escapam.

Os saltadores – são geralmente duas ou três pessoas, dependendo do grupo, trazem a corda da rede para dentro do barco e ficam esperando a rede ser lançada ao mar. Um homem fica segurando a primeira extremidade da corda da rede e outro vai esperar o barco terminar de lançá-la, depois vai buscá-la dentro da água e puxá-la para a terra.

Proeiro Chumbeiro

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FIGURA 46 - Pescadores de marinho, cujas funções é de saltadores.

Fonte: SILVA, E. C. Registro fotográfico realizado durante esta pesquisa, 2014.

O saltador 1 fica segurando a primeira extremidade da rede, como indicado na figura 46, e o outro saltador, indicado pelo número 2, é o que fica esperando o barco fazer o cerco e ancorar em terra. Ele é responsável por segurar a segunda extremidade de rede. Caso sejam feito dois lances (duas pescarias seguidas no mesmo dia), as funções dos saltadores são revezadas entre eles. Se for realizada outra pescaria em outro dia também haverá o revezamento, ou seja, aquele que ficou segurando a rede irá, em outro momento, buscá-la na água. Isso é feito para que não haja confusão entre eles.

Dessa forma, cabe ressaltar que é nos espaços de uso comum, mar e rio, onde as relações sociais dos pescadores de Saramém acontecem, através das conexões e redes, de vida. Portanto suas relações devem ser compreendidas para além da produção econômica, como produto social e condições para habitá-lo, viver e produzir (SAQUET, 2010). Devem ser consideradas também as relações com a natureza, a apropriação, as mudanças e mobilidades, identidades e patrimônio cultural.

Assim, compreende-se que é no mar, no rio e na terra que os pescadores de marinho do NCHS desenvolvem seus trabalhos e suas relações socioespaciais, seja na adaptabilidade com as transformações nos territórios de uso comum e de recursos naturais, seja no lugar em que vivem e no lugar que usam para exercer esse tipo de pescaria.

Saltador 1

119 A organização do trabalho da pesca de marinho resulta das técnicas e aprendizados que os pescadores do NCHS, ex-moradores do antigo Cabeço, tiveram com base nos conhecimentos adquiridos com seus ancestrais. Esses aprendizados os tornaram capazes de distinguir os avanços aquáticos, locais específicos como pesqueiros (áreas específicas de pesca). Dessa forma, criaram variedades de terminologias que são plenas de significados (MALDONADO, 1994). Nessa perspectiva, eles sabem os melhores dias, horários e locais de pesca. Têm suas regras específicas para uso e gestão dos territórios simbólicos, mar e rio, além de conhecerem o comportamento da ictiofauna na foz do rio São Francisco.