4 A DIALÉTICA DA DESTERRITORIALIZAÇÃO E
4.1 Problemas socioeconômicos e ambientais no rio São Francisco
Segundo algumas notícias jornalísticas e os pescadores do NCHS, a causa dessas questões ambientais é atribuída às alterações no rio São Francisco, em função da barragem de Xingó, que vem modificando a dinâmica na foz. Assim, locais onde predominavam a água doce passaram a ser de água salgada e onde se pegava peixe de água doce estão capturando peixes do mar. Tais consequências têm alterado a dinâmica do rio, como mostra o tema de notícia no jornal apresentado na figura 28. Esta é uma reportagem realizada com a participação de um dos pescadores também participante desse estudo. Em sua entrevista, ele fala dos problemas que as barragens vêm provocando ao rio.
FIGURA 28 - Reportagem com pescador sobre os problemas das barragens na foz do rio São Francisco.
Fonte: Jornal Cinform Municípios, 2013.
A diminuição do pescado no rio, a partir das vivências e observações realizadas em campo e a partir de reportagem jornalísticas como a da figura 28, tem sido mencionada por
100 pescadores, a exemplo de Paulo, 72 anos, que, mesmo aposentado pela pesca, ainda vai para a foz do rio pescar com os amigos e com os filhos. Segundo ele, o peixe como a pilombeta, de água salobra para doce, desapareceu.
Entre 10 a 15 anos nós rejeitamos, agora eles emendam 2 a 2,5 metros de redes, não pesca mais como antes.
No ano de 2012, no mês de setembro, o quilo da pilombeta vendida ao atravessador custava em média R$ 3,50. Em setembro de 2013, o mesmo peixe estava custando R$ 12,00/kg e ninguém consegue capturar as quantidades de antes. Quando se captura de 2 kg a 3 kg já tem comprador esperando. As palavras de Diegues (2002, p. 19) confirmam o verificado em campo:
Os impactos socioambientais gerados pelo represamento dos rios e pela formação dos lagos de barragens assumem dimensões variáveis conforme as características específicas de cada empreendimento e as das regiões e da bacia hidrográfica nos quais se inserem16.
Esses problemas têm afetado a dinâmica natural do rio, porém quanto menos peixes, mais valorizados eles ficam, numa trágica lei de oferta e procura. Segundo o pescador Fernando Lima:
Rapaz, hoje não tem a quantidade de peixe que tinha antigamente não. Porque o rio tá seco, secou e não tem a quantidade de peixe que tinha antigamente não, dentro desse rio mais não.
Hoje eu pesco de rede de seda, rede cinquentinha, as redes mais que eu pesco robalo, bagre branco, mas é como é que se diz? Não tem a quantidade de peixe que tinha antigamente. Antigamente tinha selvagem, tinha bagre amarelo que nós pega aqui dentro do rio. Bagre branco, aquele bagre cação, era a pescada cutupã, era o veleiro que nós pegava aqui dentro do rio. E hoje aqui não tem não, não tem de jeito nenhum (Fernando Lima, pescador, 58 anos).
Quando se pergunta a qualquer pescador que ainda pratica a atividade da pesca e que vive no NCHS sobre como está a pesca atualmente, logo eles respondem que não é como antigamente, ou seja, para falar do presente eles se voltam a um passado em que a foz do rio era um lugar em que se tinha bastante peixe e de várias espécies. Fernando Lima acrescenta:
[...] Porque, antigamente era melhor de peixe, você chegava o que, você botava uma rede na beira da costa assim, quando você ia olhar, tava empaniçada [carregada de peixes], aí você fazia certo, mais o peixe tá mais barato do que agora, mas você
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O autor também aponta alguns impactos socioambientais decorrentes da construção de barragens, tais como transferência de população, perdas de solos, perdas da flora e da fauna, perdas de monumentos naturais, históricos e arqueológicos, ausência de escadas para peixes desovarem, entre outros (DIEGUES, 2002).
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criava seus filhos sem precisar rebolar tanto, lá eu nunca andei pescando de noite, era muito difícil eu pescar de noite.
Com a diminuição do pescado, ocorreu, consequentemente, a valorização do peixe e aumentou a exploração dos espaços de uso comunais e de recursos naturais, o mar e o rio, afetando antigas regras já mencionadas a partir da presença de maiores conflitos. Anteriormente, os pescadores trabalhavam apenas um horário para conseguir peixes, Atualmente, alguns pescadores trabalham de dia e de noite e não conseguem nada ou somente alguns peixes pequenos. Continuando a narrativa do pescador:
Antes você faz assim, o que? De 3 a 4 canoa numa lambuda você dava um lance que barrotava [enchia os barcos de peixes] e hoje você não vê, pra dar um barrote mais, o cara não pega mais. Você vê só o que tá dando é esse xaréu, pega o quê? Se pega 500 kg, 200 kg de Xaréu, você não pega mais. Você passa uma maré, pra 15 a 20 dias depende pra você pegar. Você via um peixe em quantidade no rio pulando, curimã, você vê curimã, mas, não tem de jeito nenhum, não tem mais dentro do rio. O peixe tá se acabando se não tem água de rio, as comportas fechadas, tudo fechado, aí o pescador sofre (Fernando Lima, pescador 58 anos).
As alterações na foz do Velho Chico não foram apenas físicas e visíveis, mas também socioculturais e ambientais. Pois modificaram as práticas e os costumes no cotidiano do pescador artesanal do NCHS, provocando a diminuição, extinção de pescado e alterando os locais de pesca, como também a introdução de espécies exóticas, conforme se evidencia na notícia jornalística (figura 29), ou seja, houve a introdução de peixes exóticos pela CODESVAF, como estratégia de aumentar e substituir os peixes que desapareceram na Bacia do rio São Francisco.
De acordo com o pescador Agnaldo 53 anos, antes, na foz do rio São Francisco, peixes como a carpa, tucunaré, tambaqui e tilápia apareceram no rio a partir da década de 1970. Com o surgimento do tucunaré, o camarão começou a desaparecer no rio. Outra espécie de peixe como o pampu da Amazonas, segundo ele, está aparecendo também. Como forma de tentar reduzir os problemas ocasionados pela Barragem de Xingó, a CODEVASF introduziu milhões de espécies de alevinos não nativos do rio São Francisco (ver figura 29, notícia jornalística sobre a introdução de espécies exóticas nas águas do Velho Chico).
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FIGURA 29 - Notícia jornalística sobre a introdução de peixes exóticos (não nativos da região) sobre os perímetros irrigados do rio São Francisco. Fonte: Jornal Correio de Sergipe, 2001.
Para o pescador Simão, a diminuição de pescado ocorreu em função da pesca predatória, pois as pescarias eram feitas de qualquer forma; até a pesca de bater com o pau na água (pesca predatória e proibida pelo IBAMA) era praticada pelos pescadores do Cabeço. Para o pescador, os barcos de pesca tiveram uma parcela de culpa quanto às questões relacionadas à diminuição e extinção dos pescados na foz do rio São Francisco. Ele complementa sua narrativa dizendo:
Aqui no rio tem essa folia, mas no mar não tem essa folia, bote o IBAMA em cima dum barco de pesca pra ver o que ele faz dentro do mar, mata o peixe todo, é. Tinha peixes nesse tempo, tava metendo o pau no peixe pra todo canto no Cabeço, o barcão17 era cheio. Viajando pra vender na feira e hoje em dia não pega um, até a lambuda se acabou.
Para ele a extinção do pescado está diretamente ligada à pesca predatória, tanto por parte dos pescadores da região da foz, como pelos pescadores de fora. Essa é uma equação danosa: aumento da própria exploração do trabalho por conta da diminuição das pescarias devido à implantação do Projeto Xingó, e geração, por outro lado, da pesca predatória, como necessidade imediata de retirar das águas alimentos e renda. Para outros pescadores a introdução de espécies de outras regiões provoca diminuição de espécies nativas, como mostra a figura 29.
17 Os balcões locais utilizados pelos pescadores do Cabeço para armazenar os peixes conservados com o sal e também para a limpeza e salga dos pescados.
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4.2 O novo conjunto hhabitacional de Saramém (NCHS) e a distância para os locais de