mobiles que são produções artísticas, que ele pode fazer um mobile com um tema de alguma coisa. Não, vamos ler um livro de peixe e vamos fazer um mobile de peixe. Escutou uma historinha do chapeuzinho e vamos botar um monte de lobos pendurados. Sendo que podia ser de outras formas, apresentar obras ou apresentar diferentes imagens e produzir uma arte em movimento ou alguma coisa. Eu acho que fica um pouquinho perdido, deixado de lado (MICHELE, professora entrevistada em 2014).
Michele questiona alguns trabalhos que são realizados com as crianças que para ela poderiam se transformar em produções mais artísticas, sem que ficassem presos apenas à reprodução repetitiva de formas, muitas vezes produzidas pelas próprias professoras. Para Michele (2014), apresentar diferentes imagens e produções artísticas pode ser uma alternativa na conquista de uma arte em movimento, mais interativa e em diálogo com as crianças. Nesse sentido, podemos destacar aqui seu trabalho com as três obras do artista Picasso, nomeadas as a oradas do Pi asso . Apresento abaixo alguns episódios do trabalho desenvolvido com as obras do artista:
hoje eu filmei o início da conversa das crianças sobre as imagens do artista. Michele disse que não faria essa apresentação das obras dele naquele dia, mas como as crianças mostraram interesse, ela resolveu apresentar as reproduções das imagens de Picasso plastificadas. Ela trouxe três imagens em que Picasso deforma o rosto das suas amantes. Para as crianças a Michele não falou amantes e sim namoradas. Quando as crianças viram as imagens, a primeira reação delas foi de espanto e muita risada. Acharam todas três imagens muito esquisitas. Quando Michele disse que era a namorada dele, elas ficaram mais espantadas ainda. As crianças fizeram várias observações sobre a forma e características das imagens. Ela deixou as crianças explorarem as imagens e observava os comentários que elas faziam. A conversa foi interrompida, pois era a hora do lanche. (DIÁRIO DE CAMPO, 2014).
Quando voltaram do lanche o trabalho continuou. Michele então sugeriu que as crianças fizessem o desenho de uma pessoa (modelo). Explicou que antes das pinturas muitos artistas costumam fazer um esboço e só depois pintam. Ela perguntou para a turma quem poderia ser o modelo. Nessa brincadeira eu fiquei lá na frente, de modelo. Quando sentei na cadeira as meninas me davam dicas de como fazer pose. Algumas falaram para eu dobrar as pernas e ficar de lado sorrindo. Nessa hora a Michele perguntou: a os faze o dese ho do o po todo ou s do osto? Esta os faze do esse t a alho i spi ado e ual o a? As crianças responderam que era Pi asso. Mi hele o ti uou: Esse a tista pi tou a a o ada dele o o po todo? Não, né? Ent o, p este ate ç o o ue foi p oposto . Foi uito divertido e engraçado ser modelo. Algumas crianças me pediam para virar para um lado e sorrir. Outras me pediam para ficar sem sorrir. Outras, eu observava, nem me olhavam e faziam o desenho assim mesmo. Eles ainda não tinham terminado o desenho quando Nola chegou para pegar a turma. Ela esperou um pouco e ficou também observando o movimento e envolvimento das crianças. (DIÁRIO DE CAMPO, 2014).
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Esse trabalho continuou em outras aulas, porque sendo o tempo muito picado foi preciso organizar o dia, o material e o espaço para que a proposta fosse desenvolvida.
Na roda, ela explicou um pouco sobre o cubismo retomando as imagens usadas anteriormente: as a oradas do Pi asso . Disse que ninguém tinha as pinceladas do Picasso, mas que fariam a transformação do rosto de cada criança de outro jeito. Tirou as fotos delas com o rosto normal. Explicou para as crianças como funcionaria o tijolinho de vidro e fez algumas demonstrações com o rosto de algumas crianças que riram muito do resultado. Nesse dia foi possível fazer só isso.
Em outra aula, ela chamou uma criança de cada vez para tirar a foto com o rosto grudado no tijolinho. As crianças ficavam inquietas para ver como o rosto do colega havia ficado. Como o tempo era pouco a Michele chamava a atenção delas várias vezes. No momento de fotografar teve que pedir socorro para Nola segurar o tijolinho. Eu estava fotografando com meu celular, pois a imagem dele ficava melhor. Como o tijolo era pesado, ela tinha medo que crianças se machucassem, principalmente porque era de vidro. Depois de tiradas as fotos, ela sentou na roda novamente e disse que passaria todas as fotografias para o Datashow. A atividade foi bem interessante. Mas infelizmente o tempo e o espaço não possibilitaram às crianças explorarem e brincarem com suas imagens. Seria tão bom se elas pudessem ver as fotos, manusear, mudar a forma. Fazer, desfazer e refazer. Escolher aquela que realmente queria... O tempo como sempre determina os processos, experiências e o envolvimento das crianças e dos adultos (DIÁRIO DE CAMPO, 2014).
Esse trabalho descreve um pouco a busca da professora Michele em encontrar algumas alternativas para desenvolver as propostas de Artes Visuais que, segundo ela, partem de sua pouca experiência com Arte. As fotografias produzidas a partir das obras de Picasso retratam o processo que foi construído com as crianças em meio à falta de tempo, espaço adequado e materiais. Esses elementos, juntos, poderiam ter possibilitado às crianças explorarem melhor os objetos, as imagens e o próprio corpo que se misturava às formas extravagantes de Picasso. Como já foi destacado nessta dissertação, Holm (2005) pontua que existem alguns fatores que não podem dificultar o processo vivido pelas crianças em sua ação, ao explorar o universo artístico. Segundo ela o espaço, o corpo, o material, o tempo e o adulto são fatores essenciais a serem considerados nesse processo. As crianças precisam de espaço para se movimentarem, escolherem os materiais, liberdade de onde ficar na sala e serem elas mesmas.
Assim ficaram as imagens de algumas crianças mesmo sem as pinceladas do Picasso, como comentou Michele.
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Figura 61: Ricardo Figura 62: Paulo Figura 63: Laura Figura 64: Pedro
Ainda nesse grupo, o professor Baiano destaca a importância de garantir às crianças o uso da pintura, considerando a sua necessidade de experimentarem as cores, num processo de istu e a , te o utilizado po ele. Ele e pli ita sua pe epç o so e a a ei a como as crianças agem diante da tinta. A preocupação ainda não está ligada à forma, mas aos resultados da mistura de cores. Essa reflexão do professor Baiano mostra que as propostas devem entender o lugar da criança nesse processo de aprender e experimentar as Artes Visuais. O estímulo à experimentação, à pintura e ao uso de cores variadas é fundamental no projeto da Escola.
Temos que trabalhar com várias cores. As crianças querem misturar aquelas cores e querem ver o que vai dar. E muito legal porque elas pegam a tinta e fazem aquela mistureba e depois a tinta é diferente, você pega uma tinta e joga uma em cima da outra e você joga a que você misturou e você vai tampar o seu desenho todinho. Ele não vai nem existir mais ali. E não vai ter mais nada e isto acontece muito com eles (BAIANO, professor entrevistado em 2014).
Sobre essa mistura com as tintas, gostaria de trazer aqui mais uma experiência de Holm (2005) o as ia ças a Di a a a e ue ela e plo a as o es ais ho í eis do u do o e que deu para o trabalho realizado. Segundo a autora a proposta foi assim organizada:
Todas as crianças estão com os olhos vendados, cada uma em frente ao seu cavalete. A ideia era desenharem autorretratos. Primeiro, com a mão direita e depois com a mão esquerda. Elas terminaram achando muito engraçado. Pensavam que tinham desenhado errado. Eu havia trazido alguns retratos de Picasso. Muitos eram uns dos seus últimos trabalhos com a mão esquerda: pescoço muito comprido, os olhos dispostos distantes um do outro, e assim por diante. Achei que eles deviam transferir os elementos mais engraçados de seus próprios retratos para uma prancha bem grande e criar uma pintura. As cores que usariam deviam ser as mais horríveis, e eles poderiam fazer misturas. Assim ficava difícil. Mas era excitante romper com os padrões do certinho. Alguns retratos ficaram incrivelmente fortes (HOLM, 2005, p.130)
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Diante da experiência vivida pelas crianças com a professora Holm (2005) podemos perceber que as possibilidades de vivenciar a arte são inúmeras e o resultado do trabalho estará sempre nas mãos de quem faz. Além disso, podemos considerar o que Paul Cézanne afirma, citado no li o de Mo ais ua do o dada toda a sua i ueza, a fo a ad ui e toda sua ple itude . Qual a i ueza da o ? E o ue sig ifi a u a fo a e ple itude? Pa a Joseph Albers também itado o li o de Mo ais ual ue fo a a eit el se e dadei a. E se do e dadei a ti a e est ti a . Nesse se tido, ual a e dade da fo a? De ue a verdade? Holm (2005) e as crianças romperam com os padrões predeterminados da arte e encontraram a riqueza das cores, que somadas à plenitude das formas dos retratos produzidos, sustentam a verdade ética e estética de cada um. Por isso, precisamos estar se p e p epa ados pa a o des o he ido. As pi tu as das ia ças o suas istu e as estão aí para serem desvendadas.
Ainda discutindo a percepção das propostas e das práticas em Artes Visuais na UMEI, um grupo de professoras defende que as práticas em Artes Visuais devem se articular melhor ao projeto institucional de trazer um artista e um escritor, provocando e aprofundando estudos e reflexões com as crianças e abrindo diálogos com a comunidade em geral.
A pessoa pensar de outra forma leva tempo. E então a gente discute e nessas discussões surgiu a proposta de trazer o artista todo ano. Eu acho que é legal isto. A gente trouxe as esculturas do Ricardo Gabriel e da Sandra Lanes e os meninos tiveram acesso às esculturas e tal. Mas não só para os meninos para as professoras também. Acho que para as professoras é um ganho também quando a gente abre as portas para isto. E aí dentro do trabalho desenvolvido com o artista a gente propõe que o professor trabalhe com os meninos a vida daquele artista (JÚLIA, coordenadora entrevistada).
Na fala de Júlia, a construção da proposta de trabalho em relação à presença de artistas e escritores na UMEI Olhos de Criança foi organizada a partir de discussões com as professoras. Segundo Júlia, esse projeto da escola é um ganho para as crianças e também para as professoras. A partir dessa proposta e da escolha do artista, as professoras estudam a vida do artista e fazem a releitura de alguma obra dele. Cada professor tem a liberdade de escolher a obra que vai trabalhar com sua turma. No trecho abaixo, Luz também explica o funcionamento do projeto e pontua que ao eleger os artistas, as professoras estudam sua vida e obra. Nessa proposta, as crianças têm liberdade de fazer as representações que quiserem em relação às produções dos artistas. Esse trabalho é desenvolvido coletivamente na escola, ou seja, todas as turmas estudam o mesmo artista ou escritor.