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9 ANÁLISE DOS ENCONTROS DE FORMAÇÃO

9.4.4 Planejamento e vivência da professora Rosa

Rosa enviou o planejamento após ter concluído as vivências com as crianças de sua turma. Segundo a professora, o tema surgiu devido aos comentários feitos pelas crianças a respeito de coisas que as assustavam, eram medos era de coisas não tão irreais como o homes do saco e do escuro. Ela menciona que o modo como as crianças se comportava “me incomodava porque percebia que funcionava como uma trava que os pais colocavam nas crianças.” No Quadro 13 vemos o planejamento que a professora enviou.

Quadro 16: Planejamento elaborado pela professora Rosa

LETRAMENTO ESTATÍSTICO NA EDUCAÇÃO INFANTIL TEMA: DO QUE VOCÊ TEM MEDO?

JUSTIFICATIVA

Diante dos questionamentos dos alunos do Infantil 5, em relação a “seres assustadores” que permeiam os seus pensamentos, sentiu-se a necessidade de uma investigação para comprovação da não existência desses seres e consequentemente a sua não relação verídica com o MEDO.

1º Momento: Conversa inicial

Os alunos irão expor seu conhecimento do que seria o MEDO. Após registro dessas informações e roda de conversa mediada pela professora, os mesmos serão levados a listar os personagens que os assustam.

2º Momento: Coleta dos dados

Os alunos ditam e a professora escreve. “De que você tem medo?” A lista será transferida para papel tipo cartolina e exposto.

3º Momento: Formando categorias

Os alunos em círculo observarão diversos livros de histórias, incluindo alguns sobre seres assustadores e os separarão formando categorias. Após a separação a professora perguntará: O que caracterizam os livros do MEDO? Como foi possível perceber mesmo sem abri-los que esse era o tema da história? Finalizarei esse momento com a leitura da história “O mais GIGANTE” de Juan Gedovius.

4º Momento: Organização dos dados

Organizar os dados obtidos em gráficos de barras com uso de jogos de encaixe. 5º Momento: Gráfico

Observar os gráficos de barras e representá-los em gráficos de setores. A criança receberá uma folha tipo ofício onde desenharão do seu jeito as informações do gráfico de barras.

Fonte: arquivos da pesquisa

O planejamento da professora Rosa apresentava o tema, a justificativa do tema e a descrição dos momentos a serem vivenciados durante a pesquisa.

A professora relata com entusiasmo o primeiro momento da vivência com as crianças, quando elas fizeram colocações bem pertinentes na roda de conversa sobre o que seria o medo. Em seguida ela mostra a foto com a escrita dos depoimentos das crianças que ela escreveu no quadro da sala de aula e diz com admiração:

Eu achei as colocações deles bem pertinente, eu achei que eles iriam falar coisas bem bobas. Mas quando a gente vai analisar, a gente que é adulto vai ver o contexto do que é… (Professora Rosa)

Figura 39: Definição das crianças da professora Rosa sobre o medo.

Fonte: dados da pesquisa.

Rosa continua seu relato descrevendo o momento em que distribuiu vários livros entre as crianças, dentre os quais havia alguns com histórias assustadoras, e pediu que elas os separassem. A intenção da professora era que as crianças criassem categorias para separar os livros, observando apenas as imagens das respectivas capas, conforme seu relato que segue.

Pela capa eles foram separando, e eles foram separando os livros por categorias e aí depois eu perguntei o que é que fazia, como é que eles tinham percebido que aquele livro estava se referindo a medo e eles falaram em referência a capa (Professora Rosa).

A professora possibilitou uma vivência com a classificação, na qual as crianças usaram seus próprios critérios para separar os livros e em seguida teriam que explicar os motivos que as levaram a organizar daquela maneira. Essa abordagem da professora possibilita a vivência com a classificação que segundo Cruz (2013) deve ser realizado de forma sistemática desde os primeiros anos de escolaridade.

A etapa seguinte que a professora vivenciou com sua turma foi o da pesquisa a respeito do que as crianças sentiam medo. Para isso ela usou um questionário com imagens e as crianças marcavam com um X a opção que revelava seu maior medo.

A professora Rosa relata que após essa coleta ela escreveu as opções dos medos na lousa (Figura 40) e contou os votos com as crianças, a partir dos dados presentes nos questionários.

Figura 40: Organização dos dados dos alunos da professora Rosa no quadro.

Fonte: dados da pesquisa.

Observa-se que a atividade da professora foi bastante rica do ponto de vista da organização dos dados, pois ela não só contou os votos, mas fez uma relação registrando o numeral ao lado. Posteriormente ela desenhou um gráfico de barras e foi interagindo com as crianças fazendo questionamentos. “Fizemos a contagem junto com eles. O homem do saco, que é uma lenda urbana, teve o maior número de votos. Porque?”. Os elementos do conhecimento e os elementos de disposição (Gal, 2002) estiveram presentes nesse diálogo por meio das mediações da professora.

No processo de construção do gráfico pelas crianças, a professora Rosa utilizou materiais do convívio das crianças como é o caso de blocos de montar. Sobre essa etapa ela faz o relato que segue.

Depois que a gente fez isso, a gente usou os blocos, que são as peças, para eles terem uma melhor visualização do gráfico de barras. A gente colocou na mesa colado uma etiqueta com o medo que eles tinham colocado. Então quem teve medo do escuro, ia lá e colocava a pecinha, encaixava a pecinha do bloco. Eles colocavam de acordo com o medo que tinham. E aí foi muito massa porque quando terminou, eles de cara disseram que medo tinha ganho pela contagem de pecinhas do bloco. (Professora Rosa)

A Figura 41 mostra o gráfico construído pelas crianças a partir da atividade proposta e o material especificado.

Figura 41: Gráfico construído pelas crianças da professora Rosa usando blocos de montar.

Fonte: dados da pesquisa.

Podemos observar na Figura 41 que foram utilizados blocos de montar de cores e tamanhos diferentes para cada tipo de medo. Além disso, o quantitativo de unidades de blocos pareceu variar em cada categoria.

A ação da professora revelou uma ludicidade em seu fazer pedagógico que contribuiu para que as crianças interagissem durante a construção e interpretação do gráfico com os blocos de montar. Mesmo a professora não possuindo um conhecimento a respeito de Estatística, como afirmou durante a entrevista, ela demonstrou que tinha um conhecimento de infância e do contexto de interesse das crianças. A esse respeito recorremos a Lopes (2003), segundo a qual:

O educador de infância, ao ensinar Matemática, recorre ao conhecimento incorporado dessa ciência, ao conhecimento curricular, ao conhecimento que tem das crianças e aos processos cognitivos e afetivos delas que são presentes na aprendizagem. Utiliza também seu conhecimento instrucional na preparação, condução e avaliação do processo de ensino e aprendizagem (LOPES, 2003, p.28).

Assim, acreditamos que a professora Rosa mobilizou vários conhecimentos e, o fato dela não ter estudado sobre Estatística na sua formação inicial ou continuada, mostra que nossas discussões durante as oficinas talvez tenham contribuído com seus conhecimentos curriculares a respeito do Letramento Estatístico.

Uma próxima etapa do trabalho da Professora Rosa com a sua turma envolveu o desenho pelas crianças de gráficos de barras em folha de papel ofício (Figura 42). Sobre essa atividade a professora enfatiza que eles tiveram “a percepção de fato de quem tinha ganho, a barrinha maior é aquela que mostra mais votos.”

Figura 42: Desenho de gráfico de barras construído pelas crianças da professora Rosa

Fonte: dados da pesquisa.

Destaca-se que nessa etapa do trabalho com as crianças a Professora Rosa fez uso de uma técnica mencionada em um artigo lido por ocasião da 3ª oficina de formação (“Gráfico de setores: uma possibilidade de trabalho na Educação Infantil” de autoria de Camargo (2013)). No texto, a autora utiliza um cordão para representar um gráfico de setor com as crianças. Esse mesmo procedimento foi utilizado por Rosa com sua turma, conforme mostra a Figura 43.

Figura 43: Turma da professora Rosa em círculo construindo o gráfico de setor usando cordão e seu próprio corpo

Fonte: dados da pesquisa.

Em continuidade ao trabalho com o gráfico de setor, a professora Rosa relata que trabalhou com as crianças o desenho do gráfico (Figura 44) usando os mesmos dados da pesquisa sobre os medos, buscando relacionar o gráfico construído anteriormente com os blocos de montar, conforme podemos observar em seu relato.

Aí a gente decidiu… eu desenhei um círculo no quadro e aí a gente perguntava que cor, porque os blocos eram de cores diferentes né, e

aí a gente perguntava: Qual o pedaço aqui, qual a parte que vai ser maior? E eles diziam: O amarelo vai ser maior porque recebeu mais voto. Todos eles tiveram uma compreensão muito boa (Professora Rosa).

Figura 44: Desenho do gráfico de setor construído pelas crianças da professora Rosa

Fonte: dados da pesquisa.

Segundo Rosa, o momento de construção e interpretação coletiva foi bastante relevante para as crianças, pois os questionamentos instigaram reflexões e contribuíram para que elas chegassem a uma compreensão a respeito do que estavam fazendo (ver relato que segue).

Eles não sentiram dificuldade na hora que foram pintar o gráfico de setores. Eles fizeram o círculo e aí eles pintaram. A gente pensou em marcar, depois eu achei mais interessante eles fazerem. Eu sei que não tá na conformidade do gráfico, de perfeição, mas eu sei que eles tiveram a noção do que é, de como se faz. Dei o círculo e eles marcaram. (Professora Rosa)

Rosa reconhece que o gráfico não está perfeito, mas se emociona ao relatar que as crianças aprenderam. O gráfico de setor, mais conhecido como gráfico de pizza, é utilizado para representar variáveis qualitativas quando estamos interessados em observar a relação parte-todo (CAZORLA; MAGINA; GITIRANA; GUIMARÃES, 2017). A professora, contribui para ampliar a experiência das crianças com diferentes formas de representação de dados, incluindo o gráfico de setor.

Questionamos a professora se houve algum momento marcante que havia vivenciado durante o desenvolvimento do planejamento com as crianças e ela ressaltou que a maior dificuldade se deu no momento de montar o gráfico de setor com o cordão, visto que a turma se mostrou agitada.

A professora também destacou o quanto ficou surpresa ao ver que as crianças estavam compreendendo o andamento da pesquisa e o amadurecimento delas com relação aos seus medos (ver relato que segue).

Uma coisa que no final de tudo me deixou feliz, é que eles em relação ao medo do escuro, em relação a esses medos que a gente faz com que eles acreditem, que na realidade não tem nada, não existe, eles começaram a dizer: Medo do escuro, é só acender a luz. Bicho papão, é lenda, não existe. Homem do saco, não existe. Mas existem pessoas ruins que podem fazer mal a você. Mas não é o homem do saco, que vai colocar você no saco e sair carregando. Eles terminaram conscientes disso. E que o medo não é tão ruim, ele é bom. Alguns prejudicam você… (Professora Rosa)

A professora relembra que conversou com as crianças a respeito de seus próprios medos e das estratégias que usava para superá-los.

9.6 AVALIAÇÃO DAS PROFESSORAS SOBRE AS OFICINAS EM CONTEXTO