CAPÍTULO II – CAMINHOS POR ONDE ANDAMOS
2.4. Categorias de Análise
2.4.1. Poder disciplinar
Esta é a nossa categoria central de análise, tendo em vista que o objeto de estudo que direciona e deu origem à investigação é o exercício de poder na relação pedagógica. Buscamos analisar as manifestações de poder presentes na relação professor-aluno-conhecimento, isto é, na relação pedagógica.
A discussão sobre a questão do poder diz muito das possibilidades e dos limites do ser humano individual e coletivo. Na sociedade, vivemos em relação, em comunicação, aprendendo e ensinando na convivência com os outros. Vivemos, enfim, numa intrincada rede de relações sociais, de relações de força que, segundo Deleuze (1992), não se limitam à violência, nem a um determinado nível de grupo ou classe social. As análises foucaultianas nos mostram que as relações de força implicam os sujeitos destas relações, em diferentes tempos e espaços, constituindo as singularidades e as diversidades das pessoas e grupos. É a força de um sujeito ou de um grupo que, em relação com outras forças de outros sujeitos e grupos, interfere numa situação, na perspectiva da manutenção ou da transformação.
Pensar o poder desta forma é um sinal de inquietação social e, parece- nos, que é também o desejo daqueles que se preocupam e lutam por novas formas de vida em sociedade, por transformações sociais. Pensar o poder numa dimensão positiva, como possibilidade, e não apenas numa dimensão negativa, como limite, leva-nos a repensar a visão linear da história, considerando suas rupturas e sua descontinuidade, revendo e reescrevendo o momento histórico.
Quando pensamos em estudar o exercício de poder na relação pedagógica, concebemos essa relação como harmoniosa e conflituosa, de simpatias e antipatias, de mando e obediência, de concordância e discordância, de estímulos e desestímulos, de acessos e entraves, de facilidades e bloqueios, de limites e possibilidades, de ensino e aprendizagem.
Assim caracterizada, podemos perceber que esta é uma relação de forças, acordos, lutas e conflitos, de sentimentos positivos e negativos, que culmina num estágio satisfatório ou insatisfatório em relação ao processo de aprendizagem. Desta forma, a relação entre professores, alunos e conhecimento, por ser passível de ser disciplinada, é “uma relação de poder que
se exerce sobre corpos, multiplicidades, momentos, desejos, forças” (FOUCAULT, 1979, p. 162). Dessa relação emana o poder disciplinar observado na escola.
No pensar foucaultiano, a disciplinaridade é entendida “tanto como fragmentação, disposição e delimitação de saberes, quanto como conjunto de normas e regras atitudinais, na forma de preceitos explícitos e implícitos” (VEIGA-NETO, 1995, p. 46).
Nestas duas dimensões, a interveniência do poder é notável: quando se dispõem os conteúdos escolares em forma de Disciplinas e quando se estabelecem e convencionam normas e regras de conduta. Tanto os conteúdos dispostos em forma de Disciplinas, como o disciplinamento preceitual e prescritivo do tempo, do espaço e do movimento na escola, possibilitam em nós a produção de um novo conhecimento e de novos saberes. Nestes dois momentos observamos o poder como produtor de saber.
Foucault (1979, p. 189) acrescenta que
Na realidade as disciplinas têm o seu discurso. Elas são criadoras de aparelhos de saber e de múltiplos domínios de conhecimento. São extraordinariamente inventivas ao nível dos aparelhos que produzem saber e conhecimento. As disciplinas são portadoras de um discurso... veicularão um discurso que será o da regra... da norma... definirão um código da normalização... referir-se-ão a um horizonte teórico... o do domínio das ciências humanas.
Podemos perceber, através dessa afirmação, o sentido que Veiga- Neto (op.cit.) dá à disciplinaridade a partir de Foucault: “fragmentação, disposição e delimitação de saberes”. Assim é política e legalmente distribuído o conhecimento nas instituições escolares, em forma de Disciplinas (Português, Matemática, História, Geografia, etc). É o conhecimento segmentado, estruturado e ideologicamente estabelecido para ser vivenciado/trabalhado na
escola, como espaço de organização e sistematização dos saberes. Esse conhecimento, segmentado em Disciplinas, é produzido através de discursos e enunciados que são interpretados como verdade, a verdade do saber. Referendados por regras, normas, códigos de normalização, as Disciplinas tomam a forma de discursos de verdade, discursos de poder.
Foucault (1987, p. 126) nos diz que as disciplinas são “esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade – utilidade”.
É esse controle minucioso, microfísico, invisível, às vezes imperceptível, do tempo, do espaço e do movimento dos sujeitos e, no nosso caso, dos alunos e dos professores na relação pedagógica, que está impregnado de poder, de poder disciplinar. O autor acrescenta: “é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado”. Trazemos um ranço histórico que nos mostra o aluno dócil, quieto, calado, como o aluno ideal. É a idéia de um aluno disciplinado, porque é fácil de ser trabalhado, que não constitui um desafio para o professor. Neste sentido, aparece a dimensão negativa do poder submetendo, reprimindo e recalcando uns aos outros. Noutro sentido,
O poder possui uma eficácia produtiva, uma riqueza estratégica, uma positividade. E é justamente esse aspecto que explica o fato de que tem como alvo o corpo humano, não para supliciá-lo, mutilá-lo, mas para aprimorá-lo, adestrá-lo. Não se explica inteiramente o poder quando se procura caracterizá-lo por sua função repressiva (MACHADO, 1979, p. XVI).
Refletindo sobre esta outra dimensão produtiva e positiva de poder disciplinar, podemos dizer que existem situações educacionais em que a relação pedagógica, fundamentada e permeada pelo diálogo, possibilita a libertação, a
superação, a transformação e não a sujeição. Numa relação com essas possibilidades, o corpo é trabalhado, aprimorado, disciplinado através de estímulos e recursos motivadores, mas não supliciado ou mutilado para ser submetido. Nessa relação, alunos e professores são e se sentem provocados diante do desafio do conhecimento. As relações de força que se tecem nessa relação estão impregnadas de poder, de um poder que produz saber, que tem uma “eficácia produtiva”. Assim, o poder disciplinar, como organização do tempo, do espaço e do movimento, tanto reprime, como liberta, tanto promove o fracasso, como o sucesso, tanto cerceia, como favorece e estimula a relação pedagógica, ou seja, incentiva alunos e professores a buscarem e a apreenderem o saber/conhecimento.