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5.2 O que diz a entrevista narrativa

5.2.3 O Poder Escolar como momento formativo

O Encontro sobre o Poder Escolar é um o evento de formação continuada que tem no seu projeto uma intenção política de dar visibilidade aos saberes que são construídos na ação profissional, no chão das escolas de ensino básico. Neste contexto, os professores são protagonistas da formação quando socializam e discutem as experiências escolares. As palestras, conferências e oficinas compõem o processo e devem proporcionar diálogos formativos. Na narrativa em análise, a professora conta entusiasmada que não se vê mais sem participar deste momento de formação continuada. Porém, segundo ela, este sentimento não é consenso entre os colegas de profissão.

[...] o que me chateia no Poder é os colegas não levarem ele a sério, sabe, (...) tem colegas que é só pelo certificado, sabe. A gente não pode ser cega de dizer que não tem porque tem colegas que vão lá, entram lá só pra diretora ver que tu está lá dentro e (...) vão embora, vão pro centro, vão pagar conta, (...) não aproveitam. (informação verbal) 29

Estas fragilidades não diminuem a motivação com que a professora conta em detalhes as suas práticas apresentadas nos dois últimos eventos do projeto Encontros sobre o Poder Escolar, acreditando na importância dos mesmos para

28 - Entrevista concedida por Vieira, R. da S. [fev.2018]. Entrevistador: Leticia Fonseca da Silva.

Pelotas, 2018. A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice “M” desta dissertação.

o processo de formação continuada. Salienta que são renovadas as suas energias profissionais no momento que percebe a valorização do trabalho docente na troca com seus pares e nos conhecimentos adquiridos com as palestras e conferências. Reconhecer que o professor é um profissional e que constrói saberes no exercício de sua profissão é, no mínimo, o primeiro passo para buscar a valorização a social. Sobre os Encontros sobre o Poder Escolar, ela diz:

É extremamente importante. É onde tu podes mostrar o que tu fez, mas, ao mesmo tempo (...) não é só um mostrar para tu te vangloriar (…). Não é o mostrar pra isso, é um mostrar para dividir e para sugar tudo que tu puder. E eu quando vou (...) assisto do início ao fim. (…) esse último, eu ouvi sobre a Escola da Ponte, aquilo ali me deixou assim com um gás, (...) eu saí de olhos brilhando de lá, sabe? Então são coisas que o professor (faz) por profissão, não é assim por conveniência, por paixão também, tu sabe que a gente não vive de paixão, (risadas), mas paixão te move, e tu ser um professor só por dinheiro que não é grande coisa, só por sobrevivência (...) não vai te fazer uma pessoa, um bom professor dentro da sala de aula. (...) ele te resgata, sabe? (informação verbal) 30

Na consciência de que os Encontros sobre o Poder Escolar não só motivam os professores atuantes em sala de aula, mas, representam a formação no exercício da profissão, a professora expressa:

Então é lá nas práticas dos outros que tu enxerga algumas maneiras, uns caminhos que podem te ajudar. (...) lá na teoria que tu viu, lá na academia, não tem todo esse aparato pedagógico, não é a palavra correta, não tem esse material didático (…) essa ferramenta disponível. (informação verbal) 31

Nesta percepção da professora, entendemos que as ferramentas não são pautadas por recursos materiais concretos, mas por recursos humanos, por diálogos, por troca de experiências.

Tu ter um professor que te traga experiências (…) eu descobri que a Escola da Ponte foi todo aquele processo, sabe? Foi muito rico (…) eu não consigo me ver sem participar. (...) eu acho que ali é o teu momento, ali é o momento do professor, ali é o momento de tu parar no corredor e conversar com o colega, ver colegas que há muito tempo tu vias, trocar com gente que tu nunca viu! Aquele é o teu momento. (informação verbal) 32

30 - Entrevista concedida por Vieira, R. da S. [fev.2018]. Entrevistador: Leticia Fonseca da Silva.

Pelotas, 2018. A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice “M” desta dissertação.

31 - Id., 2018. 32 - Ibid., 2018.

Na avaliação da professora entrevistada, o evento não vai sanar as angústias vividas no dia a dia da profissão, nem as adversidades materiais e políticas, mas é o momento em que o docente pode fazer a avaliação da sua prática através da troca com os colegas. Neste caso, o professor que é reflexivo tende a estar aberto para as críticas que surgem no momento formativo. A ausência de professores que queiram expor suas práticas pode nos indicar que estes professores não possuem saberes docentes ou que não os reconhecem. A professora argumenta:

(...) nós somos muito desamparados, o professor é um profissional muito desamparado. Na teoria, tu tem tudo né. Ah, quem vê assim de fora… O professor tem orientador pra ajudar, tem supervisor, tem o fulano, tem o cicrano, (...) mas a prática não é assim. (...) lá tu troca com os teus pares e trocando com os teus pares, eles vão sentir as mesmas dores que tu sentes de uma maneira diferente e ali é que tu vais saber, ali é que tu tens o termômetro se tu fizeste uma boa prática ou não, e se aquela tua prática não podia ser mudada de acordo com o que tu ouviste do teu colega, poxa! Às vezes é que nem o colega falou ali, e se tivesse dado certo? São coisas que tu vai pensando. São coisas que tu levas pra ti. (informação verbal) 33

Mais do que aprender com os exemplos dos outros, é experimentar as suas estratégias criativas no exercício da profissão, no saber-fazer. É o momento de dar visibilidade para a autonomia pedagógica, onde os professores se desprendem do academicismo para expressar a produção de seus próprios saberes, das suas concepções teórico-metodológicas. Segundo a professora, não é o momento de estar preocupada em justificar ações baseada em teorias externas e distantes da realidade escolar vivida.

Como é uma questão de mostrar as tuas práticas dentro da sala de aula, eu não me apego muito a levar muitos autores. Eu boto um ou dois que eu sei que realmente me ajudaram a montar aquela prática. (...) eu vejo muitos colegas preocupados em citar muitos autores, sabe, fazer aquela coisa muito acadêmica, mas, eles esquecem que ali não é o momento pra isso, aquilo ali é o momento pra ti mostrar o que tu fez em sala de aula, com os teus alunos e que deu uma resposta positiva, ou que deu uma resposta que vai trazer alguma coisa pro futuro ou que pode abrir a mente dos teus colegas para uma coisa melhor, para uma tentativa de melhorar. (informação verbal) 34

33 - Entrevista concedida por Vieira, R. da S. [fev.2018]. Entrevistador: Leticia Fonseca da Silva.

Pelotas, 2018. A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice “M” desta dissertação.

Além da percepção de estar em formação e da contribuição mútua entre os profissionais, o evento, segundo a professora entrevistada, transcende os dias no qual efetivamente acontece, pois, resulta em momentos de reconhecimento do trabalho docente na escola, entre os alunos e os profissionais. Há momentos de reflexão coletiva do grupo na escola sobre práticas apresentadas, o que pode provocar mais aprendizagens e estímulo profissional. Quanto aos alunos, a professora entrevistada diz que foi questionada por eles se repetiria o trabalho apresentado no 12° Encontro sobre o Poder Escolar nos próximos anos. Já para os colegas professores, o evento instiga o olhar para dentro da escola, para as ações daqueles docentes que se destacam pela visibilidade das suas práticas e de seus saberes docentes. A formação, neste caso, ultrapassa os momentos formativos do evento e acontece também no espaço escolar em espaços de formação continuada de professores com trocas mais internas entre pares do ambiente escolar. Assim, são multiplicadas as boas práticas docentes dos professores que participaram do evento, abrindo espaço e encorajando outros para a reflexão coletiva de suas práticas no próprio ambiente escolar. Isto só acontece, segundo a entrevistada, pela valorização dos Encontros sobre o Poder Escolar por algumas equipes diretivas de algumas escolas. No caso da escola em que a professora atua, as experiências apresentadas no evento foram, também, apresentadas para todo grupo de docentes que não tiveram oportunidade de participar do evento, incentivando a socialização de outras.

[...] mas o que eu achei interessante aqui da escola, (...) muitas colegas não quiseram ir, preferiram dar aula e elas (equipe diretiva, disseram): ‒ Já que elas não foram, vocês vão apresentar para as colegas aqui na escola o trabalho de vocês. (…) tem muitas práticas aqui que as colegas não apresentam. (..) tinha uma colega do primeiro ano que agora está no segundo que tinha uma prática muito legal que ela construiu uma cartilha com os alunos e uma cartilha dentro da realidade deles no primeiro ano. (...) eu só ouvi ela dizer pras gurias: ‒ Mas eu também fiz tal coisa, olhando o da colega. (...) baixinho, né? Aí uma colega ouviu e disse: ‒ Aqui tem uma prática! E ela: ‒ Não, não, não tem nada. Aí fizeram ela ir lá na sala e buscar o material e apresentar pra nós. (informação verbal) 35

35 - Entrevista concedida por Vieira, R. da S. [fev.2018]. Entrevistador: Leticia Fonseca da Silva.

Mesmo sem o incentivo do certificado que o evento do Poder Escolar proporciona, os docentes em formação, no cotidiano da profissão, também podem e devem abrir espaços para a socialização e reflexão de suas experiências. Neste caso, os Encontros sobre o Poder Escolar, além de um momento específico de formação continuada aos docentes, realizado em determinado período, é também o fomento para estas práticas de formação dentro da escola. Este fato pode nos dar indícios de que é importante que o poder público, por meio das Secretarias de Educação, esteja mais atento em valorizar os eventos que visam a formação continuada de professores. Como relatado pela professora entrevistada, alguns colegas não participaram do último não somente pela desmotivação, mas, pela falta de autorização da equipe diretiva, confirmando, assim, o que já tínhamos pontuado na análise dos textos contidos nos anais e em artigo sobre o evento. Segundo o relato: “Nessa última edição, minha colega (…) não foi por dois motivos: primeiro porque ela estava desestimulada e segundo porque a direção da escola em que ela estava (...) não permitiu.” (informação verbal) 36

Se há dúvidas das comunidades escolares e acadêmicas da importância de eventos que promovam espaços de socialização e trocas entre professores de diferentes níveis de ensino e estudiosos do campo da educação, é preciso salientar a voz da professora entrevistada nesta pesquisa quando se refere a sua participação apresentando suas experiências no momento de formação continuada: “Eu saí de lá, assim nas nuvens porque eu saí com uma sensação de que contribuí, sabe? (...) eu saí gratificada dali (...) porque eu consegui contribuir pra muitas colegas que não estão vendo tudo.” (informação verbal) 37

Ao que tudo indica, os professores do ensino básico que estão no chão das escolas também têm o que dizer para acrescentar na qualidade formativa da docência. Organizar relatos e oportunizar a apresentação do que acontece na prática docente coloca o evento Encontros sobre o Poder Escolar como legítimo momento formativo de professores e professoras.

36 - Entrevista concedida por Vieira, R. da S. [fev.2018]. Entrevistador: Leticia Fonseca da Silva.

Pelotas, 2018. A entrevista encontra-se transcrita no Apêndice “M” desta dissertação.

5.2.4 Estratégias de ensino e aprendizagem para qualificar o trabalho