6. Estruturalismo funcional e “Gramática do poder”
6.3 Modos indiretos do poder
6.3.1 Poder indireto do discurso religioso
Os devotos emitem suas mensagens ‘autorizados’ por um Sistema religioso em que o Paciente (a divindade) tem uma história construída em torno de sua capacidade e poder de atender, ‘obedecer’ aos ‘comandos’ dos devotos. Conforme se verá no capítulo 4 [texto 24, p. 158], o bilhete é uma ‘expansão’ do discurso da divindade. Quanto mais (P) atende a (A), mais cresce o poder do primeiro. Novamente, não se pode dizer que a divindade seja um “sujeito silencioso”. Ela tem um discurso de poder, de capacidade que está subentendido pelo devoto.
Essa gramática de uma divindade não silenciosa explica a recorrência, em uma série de santinhos, do enunciado: “Nunca se ouviu dizer que quem a vós tenha recorrido, tenha sido por vós abandonado” (prece a Santo Antônio). Ou do enunciado: “Cumprindo mais uma vez vossa promessa de que ninguém Vos invocaria em vão” (oração a Santa Teresinha).
Ao lado desse sema que ‘prende’ o Paciente (P) a um compromisso, o Sistema (S) religioso prevê a sedução de (A) sobre (P). Por isso, não há bilhete ou ‘santinho’ em que o enunciador não construa uma imagem sedutora das virtudes, fama, glória, ‘especialidades’ e poder de (P). Faz parte da gramática desse tipo de ordem lembrar a (P) suas atribuições para poder obrigá-lo a se comportar de acordo com as regras do jogo.
Normalmente à sedução segue-se o comando. Depois deste, como uma forma de obrigar ainda mais (P), pode-se prever uma tentação, quando se promete alguma coisa em troca da ‘obediência’ de (P). Essa tentação é mais comum nos santinhos impressos. Nos bilhetes manuscritos, é substituída por um agradecimento antecipado, de modo a direcionar a adesão do enunciatário.
Entende-se, em virtude das leis das formações discursivas, isto é, o que se pode dizer, do Sistema (gramática) religioso que o ‘pobre’ devoto não possa obrigar seu enunciatário a dar as respostas aos ‘pedidos’.
Mesmo assim, os alunos do Instituto Paulo VI de Filosofia e Teologia chamaram-nos atenção para uma prece que costuma ser proferida antes de se fechar o ritual do Terço. Essa prece, depois de um extenso laudatório de agradecimento à Senhora do Rosário, termina com
o enunciado: “E para mais vos obrigar, vos saudamos com uma Salve-Rainha” [grifo nosso – fonte: Devocionário vocacional Serra – Curitiba, 2000, p. 22].
O emprego do modalizador adverbial de intensidade “mais” incide diretamente sobre o verbo obrigar. O advérbio supõe que já se obrigara antes, exatamente pela lembrança dos poderes e feitos da “soberana Rainha”. Mas, o que vai mesmo ‘prendê-la’, obrigá-la, explicitamente, será a saudação com a Salve-Rainha, uma oração constituída de um laudatório imenso dos poderes e capacidades do enunciatário.
Este jogo entre “código forte” e “código fraco” pode ser confirmado pela análise lingüística das modalidades do discurso religioso e eleitoral. Se entendermos por modalidade a atitude do enunciador em relação ao dito e ao interlocutor e não a confundirmos com os “modos verbais”, nos discursos objeto deste trabalho é evidente a prevalência da modalidade deôntica do discurso, isto é, discurso do dever, da obrigação.
Neste ponto da análise queremos entrelaçar mais uma voz à de Epstein, pois, como diz Bachelard (1968:138), “conhece-se tanto melhor os laços do real quanto deles se fizerem um tecido mais cerrado”. Trata-se da voz da teoria dos “Quadrados semióticos” de Greimas. Conjugando tal teoria com a dos “semas do poder” teremos uma ‘rede’ mais poderosa para ‘capturar’ nosso objeto de pesquisa.
Sem querer nos alongar na matéria, essa modalidade deôntica (paralela à ontológica ou alética, que diz respeito à verdade dos estados do ser, e à epistêmica, que diz respeito ao conhecimento que se tem desses estados do ser), segundo Koch (1996: 78), refere-se “ao eixo de conduta, isto é, à linguagem das normas, àquilo que se deve fazer”. Em virtude de os devotos e de os candidatos tentarem influir na conduta e na ação dos ouvintes, prevalece no discurso deles a modalidade discursiva deôntica.
Se é próprio dessa modalidade a questão da conduta, do dever e do poder fazer, então dela se deriva um quarto tipo de modalidade: a axiológica que avalia os valores (bom, mau) das condutas.
Como informa Nöth (1996: 171), “as relações elementares do mundo semântico de Greimas são relações de oposição”. Sua teoria do “Quadrado semiótico” tem raízes no estruturalismo saussureano e foi influenciada, mais de perto, pela Glossemática1 de Hjelmslev e, diz Nöth (idem, p. 167), “pelo modelo da estrutura binária do mito de Lévi-Strauss”. Fundamentado nessas aplicações do estruturalismo, os significados elementares (semas) de Greimas não existem senão como relação de oposições. Não são nem uma substância, mas uma forma.
1 Glossemática: teoria formal abstrata que estuda a linguagem abstraída de sua substância material. Abordagem
Por meio dessas oposições, obtêm-se quadrados de categorias significativas elementares. Para nosso objetivo, interessa-nos a categoria sêmica ou eixo semântico do dever. Nos pontos extremos desse eixo encontramos os semas (S) [unidades mínimas significativas] contrários e complementares do “obrigatório” e do “proibido”.
Tomando-se (S1) como “obrigatório”, o primeiro passo, segundo Fidalgo (www.bocc.ubi.pt,) é negar (S1), produzindo sua contradição (~S1), o “facultativo”, que se caracteriza por não poder coexistir simultaneamente com (S1), já que há uma impossibilidade de os dois termos estarem presentes ao mesmo tempo. Essa primeira relação pode ser descrita, conforme Nöth (1996: 174), como a oposição entre a presença e a ausência de um sema. Relação binária saussureana de asserção/negação.
A seguir, nega-se (~S1), uma dupla negação [~(~S1)] que resulta numa afirmação, obtendo-se (S2). Isto é, se é não não-obrigatório é “proibido”: uma relação de implicação suplementar entre dois termos, enquanto a entre (S1) e (S2) é de contrariedade. Os passo assim descrito apresenta-se, graficamente do seguinte modo, adaptado de Fidalgo.
(S1) (S2)
[~(~S1)]
O último passo consiste no mesmo procedimento: nega-se (S2) e obtém-se (~S2), o “permitido”, cuja relação é de contraditoriedade, pois que não podem ocorrer simultaneamente. Negando-se (~S2), esta, em virtude da dupla negação, resulta de uma afirmação, o (S1), pelo que se obtém o esquema.
(S1) (S2)
[~(~S2)]
Os dois esquemas constituem, então, o quadrado semiótico do eixo semântico deôntico.
[Figura 6]
(dever fazer) Obrigatório (dever não fazer) Proibido
Permitido Facultativo
(Não dever não fazer) (não dever fazer)
Os contrários obrigatório/proibido estão em relação de pressuposição recíproca para ganhar sentido, no eixo semântico da conduta, do dever/poder. Os subcontrários permitido/facultativo (que se originam de uma negação dos respectivos contrários) também
estão em relação de pressuposição complementar. Os contraditórios (obrigatório/facultativo e proibido/permitido) se definem por uma relação de disjunção excludente. Se um é verdadeiro, o outro é, necessariamente, falso. Uma coisa não pode ser proibida e permitida ou obrigatória e facultativa ao mesmo tempo.
Queremos crer que os contraditórios (obrigatório/permitido e proibido/facultativo) podem ser classificados como de modalidade indefinida (a do parecer), uma vez que do mesmo modo que o facultativo não é nem o proibido, nem o obrigatório. O permitido não é nem o obrigatório, nem proibido. Dito isto, já é fácil perceber que os contrários se caracterizam por uma modalidade forte, (código forte) enquanto os subcontrários, como uma modalidade fraca (código fraco). Assim, fica entrelaçada a “Gramática do poder” de Epstein com a teoria dos “Quadrados semióticos” de Greimas.
Se os limites dos contrários são unívocos, os dos subcontrários (permitido/facultativo) são tênues. Assim como os limites entre os subcontrários possível e contingente são muito tênues, o mesmo se pode dizer, segundo Koch (1996: 76), dos limites entre o permitido e o facultativo. Por isso, ao quadrado pode ser acrescentada uma figura triádica, como no diagrama a seguir. A cada díade de contrários corresponde um termo médio, neutro, de modo que a negação dos contrários forma uma tríade; e a negação dos subcontrários, outra. A negação, simultânea, dos contrários, isto é, [não (ordenar sim)] ou (não obrigar) e [não (ordenar não)], isto é, (não proibir) constitui uma atenuação do código forte e resulta no termo médio pedir, código fraco. Já a negação, conjunta, dos subcontrários [não (não ordenar sim)], isto é, (não facultar) e [não (não ordenar não)], isto é, (não permitir) resulta no termo médio ordenar, código forte.
[Figura 7]
Ordenar – imperativo (injuntivo)– código forte - regulamentado
Ordenar sim (obrigar). Ordenar não (proibir).
Não ordenar não (permitir). Não ordenar sim (facultar).
Pedir – optativo (não-injuntivo) – código fraco – não regulamentado, livre.
Devotos e candidatos apresentam escalas argumentativas de modalidades deônticas. Como já dissemos, a negação de ordenar permite que se interprete o ato como pedir. Por sua vez, parece-nos que a negação de pedir, descendo a escala, pode ser interpretada como solicitar (tanto no mundo religioso como no político).
Nesse ponto, devotos e candidatos se separam. Os primeiros, num grau mais abaixo, usam a negação de solicitar que é lexicalizada em suplicar (pedir de joelhos) e implorar (pedir com lágrimas). Os candidatos dificilmente vão além da atenuação de solicitar.
Em contrapartida, quase não usam mais o lexema “promessa”, [já se tornou comum o slogan: “não promete, faz”, porque as promessas já adquiriram um caráter de falsidade], mas uma ‘escala política’ de atos comissivos (de promessa). Negando-se a promessa, obtêm-se compromissos, propostas, planos (de governo). A “promessa” de asfaltar uma rua (ato em curto prazo) se confunde com plano, plataforma eleitoral (ação em longo prazo).
Estas atenuações poderiam ser chamadas de “quase promessas”. Observa-se, nesses domínios, o que Ducrot (1988: 54-55) denomina de “escala argumentativa” ou “fenômeno escalar”. Assim, podemos dizer que “proposta” é quase um “compromisso” e se este é quase uma “promessa”, esta é quase um “juramento”. O mesmo raciocínio valeria para o domínio religioso, de modo que “pedir” é quase “ordenar”, assim como “solicitar” é quase “pedir”.
Este raciocínio nos induz a ‘costurar’ o “Quadrado semiótico” estruturalista de Greimas com as escalas argumentativas da Semântica argumentativa de Ducrot, de modo que se obtém uma malha teórica mais eficiente para a análise lingüística.
Escala política Escala religiosa e política (até solicitar) [Juramentos] ordenar
Promessas Pedir
Compromissos Solicitar
Propostas Suplicar
Planos Implorar
A negação de “promessa” faz descer. A negação de “ordenar” (código forte) faz descer. A de “implorar” faz subir.
A escala mostra que, nos discursos em análise, o código forte da ordem se situa num grau extremo. Esta tem, conforme Ducrot (1977: 89), na “obediência-desobediência o traço específico [que] permite distingui-la do desejo”. Poder-se-ia perguntar, no entanto, se textos, como o [7, cap. 1, p.37] e o [9, cap. 2, p.55] (um religioso e outro político), em que há um tom de cobrança e ameaça, não se pede do enunciatário uma atitude de obediência?
Quando um locutor, ensina Koch (1996: 87-88), recorre, predominantemente, ao vértice superior, o discurso apresenta-se como autoritário, unívoco, código forte (usa do imperativo). Quando a predominância é o recurso ao vértice inferior, o discurso apresenta-se como polêmico, equívoco, código fraco (uso do subjuntivo).
Ao utilizar a negação de ordenar tanto candidatos como devotos explicitam que não se trata de uma ordem, deixando, segundo Koch (idem, p. 96), “ao destinatário a possibilidade
de entender como um pedido, súplica, conselho, aviso, advertência, permissão” [grifos do autor].
Na prática, porém, o que se observa é que os candidatos se baseiam na modalidade epistêmica do saber (porque estão investidos e se atribuem os predicados da autoridade, competência e experiência). Ora, se sei, então é necessário, obrigatório (código forte), mas recorrem ao subjuntivo, ao pedido.
Enquanto isso, os devotos se baseiam na modalidade do crer. Ora, se creio, então é possível, facultativo (código fraco). Mas, e eis o ponto chave, trata-se de um crer com os semas de certeza, convicção: “eu creio = eu tenho certeza”. Mais do que um esperar há um aguardar (veja esta diferença no texto [19], do capítulo 3, p. 124). Conseqüentemente, o discurso devocional e o eleitoral, embora pareçam códigos fracos, em que os locutores não impõem sua opinião, na verdade, fingem não impô-la, tratando-se de uma mera manobra discursiva. Eis aí comprovado mais um paralelismo entre o discurso do político e o do devoto.
Quando Ducrot (1988:164) diz que numa argumentação há, pelo menos, dois enunciados (E1, E2), em que o primeiro é “dado para autorizar, justificar ou impor o outro”, levantamos a hipótese de que “pedir” é apenas ‘justificativa’ para ‘impor’ uma ordem. Usa-se um ‘código fraco’ como argumento para um ‘forte’
A representação gráfica dos “quadrados” pode nos induzir a pensar que as relações são excludentes, de tudo ou nada, o que, no nosso caso, não daria conta da ambigüidade das posições enunciativas. Por isso, a melhor representação seria a que mostrasse a dinâmica dessas posições enunciativas deônticas.
Retomando nossa metodologia de tecer vozes para uma análise fina de um fenômeno, valemo-nos de Marques (1996: 97) quando nos diz que “a diferença entre termos contraditórios e termos contrários decorre de admitirem ou não gradação”. Se para definir os contrários é preciso levar em conta a gradação, tal fato é ainda mais evidente nos subcontrários cujos limites, como vimos, são muito tênues.
Apertando ainda mais a malha, podemos recorrer às instruções e observações de Pinto (1994: 101) e propomos a representação gráfica a seguir [figura 8].
A figura pontilhada e dinâmica é útil para mostrar a Teoria dos infinitesimais de Leibniz (1714) [Ed. Brasileira de 1974: 65], segundo a qual, “cada estado presente é uma continuação natural do seu passado [e] está prenhe do futuro”. Qualquer ponto é afetado não só pelos que o tocam, mas também pelos primeiros, de uma escala infinita. Com isso, aos poucos, já visualizamos um nível mais amplo dos nossos limites. Aos poucos, vamos
assinalando a passagem da Teoria do Estruturalismo funcional para a do Interacionismo discursivo.
[Figura 8]
Obrigatório eixo deôntico Proibido
Permitido Facultativo
Aplicando então a figura ao nosso objetivo, percebemos que entre um sema de um pólo e o do outro há uma escala de infinitos pontos, uma continuidade.
Mesmo que não seja o caso tratado por Marques, mas porque se trata de atitudes, de formas de comportamento, cremos poder aplicar-se a essas antonímias, conforme a citada mestra (idem, p. 98), “uma oposição direcional” [grifo da autora], constituindo “um movimento de opostos em relação a um dado ponto P”. Partindo-se do obrigatório chega-se ao ponto facultativo. Deste, gradativamente, ao proibido e, em novo percurso direcional, chega-se ao permitido e, daí, em direção ao obrigatório.
Desta forma, um discurso devocional, mesmo que se apresente com marcas de modalidade fraca, tem nele uma direção para uma modalidade forte, como é o caso do texto [12, p. 61], quando está presente a modalidade do saber, como se observa na frase: “Sei que vós me ajudareis e acompanhareis sempre”.
Parte de uma modalidade representativa, epistêmica, forte, factual, real (sei), visando a uma resposta (modalidade diretiva) também factual, real do enunciatário. Mesmo que se projete a ação da divindade para um ponto futuro em relação ao aqui-agora da enunciação (“ajudareis” e “acompanhareis”), esse futuro é dado como certo, de tal modo que o que seria uma modalidade fraca (o futuro é hipotético e não factual) torna-se obrigatório, real, necessário.
Como o objetivo é detectar a iconicidade isomórfica entre o discurso político e o religioso, vejamos, a seguir, se no discurso político eleitoral há também um poder indireto.