3. Linguagem: intencionalidade e subjetividade
3.3 Subjetividade e intersubjetividade
Mesmo definindo a importância da intencionalidade e da subjetividade, queremos deixar clara nossa posição epistemológica quanto a isso. Não se trata de uma intencionalidade ou subjetividade onipotentes, como se um sujeito universal fosse o centro do discurso, à maneira de Chomsky (este não fala em ‘sujeito’, mas apenas no universal ‘homem’). Ou,
como se, diz Benveniste (1989: 101), “para cada falante o falar emana dele e retorna a ele”, constituindo-se, e ao interlocutor, como consciência autônoma.
Não entendemos as categorias de intencionalidade e subjetividade dentro de uma concepção que Bakthin (1979: 34) denomina de psiquismo subjetivo em oposição ao “objetivismo abstrato” do estruturalismo.
Decorrente do “princípio da complementaridade” que nos norteia, não ousamos corrigir Bakthin, mas dar-lhe outra orientação. Segundo este (1979: 107), “o centro organizador de toda enunciação, de toda expressão não é interior, mas exterior”.
Esta ressalva é importante, porque, quanto a nós, temos que um texto é, ao mesmo tempo, individual e social. O ponto de partida é uma necessidade que determina uma orientação argumentativa, uma intencionalidade, mas há nele outros discursos (interdiscursos, intertextualidades) que obrigam a dizer o que se diz e como se diz, a partir de determinada posição social, conforme determinado por uma instituição. Há, na voz do enunciador, a voz da Instituição, como uma palavra autorizada que reforça a orientação argumentativa do devoto.
Apliquemos a “rede” acima ao texto abaixo. Há, na voz do enunciador, a voz da Instituição.
[Texto 11]
Oração a Nossa Senhora Aparecida A nossa Querida Nossa Senhora Aparecida
Querida Mãe
Vós que nos amais e nos guiais todos os dias, vós que é a mais bela das Mães, a quem amo com todo o coração, eu vos peço uma vez que me ajude a alcançar esta Graça, por mais dura que ela seja (pede-se a Graça). Sei que vós me ajudareis e me acompanharás sempre até a hora de minha morte: Amém! (...)
Viva
Nossa Senhora Aparecida
Percebe-se, claramente, que o objetivo da unidade discursiva acima, mais que a representação de um conteúdo, tematiza uma intencionalidade e uma subjetividade. Tem como objetivo básico não a “expressão do pensamento”, mas, sobretudo, o efeito de uma transformação jurídica, (‘incorporal’, diriam os estóicos), uma passagem de um estado de carência para um de posse de um bem. Este projeto de um locutor ou visada em direção a é o que entendemos aqui como intencionalidade. O discurso humano, como uma forma de trabalho, visa a uma transformação.
Conforme a metodologia que nos propusemos, examinemos as “pistas lingüísticas” do texto acima. Segundo Costa (2000: 14), o que mais sobressai é um sujeito enunciador (S1) [o devoto] e um sujeito enunciatário (S2) [a divindade]. Se, por um lado, há uma atitude de
reverência por parte de (S1), por outro, há um distanciamento, em virtude dessa mesma reverência. Observe-se, como tal, a repetição (4 vezes) da forma de tratamento “vós”. Parece mais um signo indicial dirigindo o olhar lá para cima. Já a tentativa de aproximação se configura na repetição da forma pronominal “nossa”, que exprime uma relação de intimidade. O lexema “mãe” repetido duas vezes e determinado pelos lexemas “querida” e o superlativo absoluto de “a mais bela” confirmam a idéia. Ao sujeito enunciatário (S2) também se atribuem os verbos de ação (verbos que supõem uma intencionalidade, um compromisso) “amar”, “ajudar”, “acompanhar”.
De acordo com a metodologia de retomada e complementação, à medida que vamos entrelaçando teorias, podemos voltar ao texto [8, cap. 1, p.38]. Percebe-se como a intencionalidade, a orientação argumentativa, os sujeitos lingüísticos são diferentes do texto [11], porque a posição (jurídica) dos locutores é diferente. Tendo em vista que o enunciatário do texto abaixo é a mesma Senhora Aparecida, apresentamo-lo, então, como complemento do texto [8] para que se estabeleça uma relação com o texto [11].
[Texto 12]
Oração do Pedro Augusto A Nossa Senhora Aparecida
[...] Abra a porta de sua casa e diga: “Vem Nossa Senhora Aparecida, vem Santa Milagrosa! Pode entrar que esta casa é sua. A minha casa é tão simples, mas é meu castelo. Cubra o meu lar com suas bênçãos. Abençoe a minha família, cuida bem de mim Nossa Senhora! O seu manto azul sagrado será o meu escudo contra toda a maldade, violência, miséria, desemprego, doença e todos os males”. [...]
O locutor acima (o eu actante lingüístico responsável pelo discurso) está ‘desdobrado’ em dois enunciadores, isto é, fala a partir de dois lugares (topoi): o eu político (aquele que se dirige ao enunciatário eleitor) e o eu religioso (o que fala como devoto). Os dois se constituem perante o alocutário (eleitor) que também se cinde em dois enunciatários: o tu político e o tu devoto, via Nossa Senhora Aparecida. Esta seria um ‘enunciatário indireto’ ou secundário, usado (manipulado) com o objetivo de formar a ‘imagem’ do candidato para o enunciatário direto ou principal (o eleitor).
Seguindo a metodologia de ir num crescendo analítico, tomamos como distintas as categorias lingüísticas do locutor e do enunciador no sentido que lhes dá Ducrot (1987).
O locutor, como categoria lingüística, como sujeito do discurso (aquele que se nomeia por “eu”, submetido às leis discursivas) se distingue do sujeito falante, como sujeito físico, categoria social, submetido às leis jurídicas. Como categoria lingüística o locutor, o
responsável pelo enunciado, que se designa por “eu”, é diferente do autor ou do produtor de um enunciado, entendido aqui como unidade numa determinada situação.
Ducrot (idem, p. 188) ainda desdobra, polifonicamente, esse locutor em dois. Um que poderíamos chamar de locutor lato sensu (L) e um stricto sensu (λ ). O primeiro é o locutor enquanto tal, o locutor visto em seu engajamento, em seu ethos enunciativo. Define-se não apenas em relação ao que diz, mesmo, mas também pelo que mostra, diz de si, por sua imagem, ou modo como diz, o modo como ‘vive’ seu ato enunciativo. O segundo é o que diz, apresenta uma referência a um estado de coisas.
Essa nova rede teórica nos possibilita voltar e completar a análise do texto [7, cap.1, p.37]. Ele poderia servir como uma ilustração clara da diferença entre [L] e [λ]. Aquele que pede um namorado é [λ], mas aquele que pede e ‘bate o pé’ insistindo no pedido é [L]. O mesmo se poderia dizer do texto [6, cap.1, p. 36]. Aquele que pede a “união desses dois” é [λ], mas aquele que reza e se projeta no enunciado pedindo para ‘amarrar’ os dois é [L].
Quanto ao enunciador, Ducrot (idem, p. 192) ensina que este é considerado como se expressando através da enunciação, “sem que para tanto se lhe atribuam palavras precisas”. Quando “fala” o que se leva em conta não são suas palavras, mas o seu ponto de vista, sua posição, sua atitude. Tal como um narrador, um enunciador constrói diferentes personagens.
Retomando o texto [12, cap.2, p. 61], observa-se no enunciado “minha casa é tão simples, mas é meu castelo”, uma espécie de ‘teatro’. Por um lado, o locutor devoto ‘encena’ as palavras de um autor (o candidato). Esse locutor, por sua vez, coloca em cena dois enunciadores sucessivos (E1) “minha casa é tão simples” e (E2) “mas é meu castelo”. Se o primeiro ponto de vista nos conduziria a uma conclusão [r] do pouco valor da casa, o segundo ponto de vista (com o qual o locutor se identifica) assinala para uma conclusão [~r], a do grande valor da casa. Há aí um raciocínio comparativo e, ao mesmo tempo, argumentativo, no sentido de que argumentar é, segundo Ducrot (1988: 8), “apresentar um enunciado (ou um conjunto de enunciados) destinado a fazer admitir um outro (ou um conjunto de outros) enunciado”. Apresentando a “casa” como “castelo” segue-se, como se vê, um conjunto de outros enunciados.
No texto [11, cap. 2, p. 60] o significado discursivo da Senhora Aparecida é diferente, porque esta ocupa o papel enunciativo de enunciatário direto (principal) do enunciador devoto. Por isso, a estratégia de recurso à modalidade comparativa do superlativo: “a mais bela das mães” e o enunciador é o “filho” que “ama a mãe”, processo também modalizado pela forma superlativa “de todo o coração”. Filho submisso e confiante em sua mãe (de acordo com as instituições).
No panfleto político, os ‘significados comportamentais’ são diferentes. A Senhora é apenas a “santa milagrosa”. O enunciador se enuncia, mas com a voz e a imagem de candidato. Enquanto o foco enunciativo (a visibilidade) do texto [11], nota-se claramente, é o enunciatário, assinalado tanto no início do texto “Nossa Querida Nossa Senhora Aparecida”, como no final “Viva Nossa Senhora Aparecida”, no texto [12], como dissemos anteriormente, é a visibilidade da figura e do número do candidato.
Embora estas análises e teorias possam parecer um tanto quanto longas, elas têm como objetivo mostrar uma outra iconicidade entre o discurso político e o religioso: o desdobramento dos enunciadores em vários papéis enunciativos. Esta iconicidade isomórfica é uma constante no corpus em análise.
Como preparação para a chegada ao exame da linguagem como uma estrutura funcional, pensamos que seja útil abordar mais uma conseqüência da intencionalidade da linguagem humana. A significação como um ato de vontade servirá como um fio a que entrelaçaremos outros.