O poder cultural é exercido por um artista ou produtor cultural e sentido por uma grande quantidade de indivíduos. O que o diferencia do poder simbólico de Pierre Bourdieu é seu caráter necessariamente internacional, global, atravessando fronteiras, culturas, classes sociais, sistemas políticos, religiosos e econômicos. Em seus inúmeros estudos nos quais discorre sobre o poder simbólico, Bourdieu não atribui ao poder simbólico este caráter internacional, citando, inclusive, escritores, críticos e mecenas cujo alcance do poder não ultrapassava as fronteiras parisienses.
A ideia de que o mundo se tornou interconectado com a tal globalização parece tão vago e impreciso quanto o próprio termo que se popularizou a partir dos anos 1990. Grandes fluxos comerciais já interligavam parte considerável do mundo 200 a.C. Povos indígenas de regiões distantes da América guerreavam entre si antes do início das navegações. Disputas de nações e povos e trocas econômicas interligavam o mundo muito antes do termo globalização nascer.
Porém, grande diferença reside nos meios de comunicação massivo e pós-massivos. Em nenhum momento antes do século 20, povos e nações estiveram tão conectados, a uma velocidade tão instantânea, quanto a partir da popularização dos meios eletrônicos (rádio, cinema, televisão e, unificando tudo isso, a internet). Este mundo interconectado está organizado debaixo de nações. Estas nações diferem entre si, em grande parte, por suas manifestações culturais. E, como mencionamos no começo deste capítulo, a cultura considerada mais relevante em termos de poder, atualmente, é aquela que melhor trafega por estes meios de comunicação massivos e pós-massivos. Se nos tempos de Maquiavel era mais importante ser temido do que amado, num mundo onde os meios de comunicação são tão influentes na consolidação do imaginário popular sobre nações e seus líderes, ser amado se tornou, no mínimo, igualmente importante.
Desta forma, o conceito que melhor parece compreender este cenário é aquele definido no final da Guerra Fria pelo cientista político norte-americano Joseph Nye. Percebendo que as armas e as sanções políticas e econômicas não conseguiram resolver o conflito EUA-União
Soviética, Nye desenvolveu o termo soft power (poder suave) no livro Bound to Lead (1990).
Em suas palavras, o termo quer dizer
a habilidade de se conseguir o que se quer através da atração, em vez de coerção ou pagamentos. Surge da atratividade de um país por meio de sua cultura, ideais políticos e políticas. (...) Quando você consegue que os outros admirem seus ideais e queiram o que você quer, você não tem que gastar muito em sanções ou recompensas e punições para movê-los para sua direção. Sedução é sempre mais eficiente que coerção (NYE, 2004, p. X, tradução nossa). 1
É importante frisar que Nye desenvolveu o termo, mas o conceito por trás dele já existe há milênios. O próprio Nye (2012, p. 116) cita o realista britânico E. H. Carr, que descreveu, em 1939, três formas de poder: o poder militar, o poder econômico e o poder sobre a opinião, este último o poder suave debaixo de outro termo. Maquiavel, em O Príncipe (1532), diz que é mais seguro ser temido do que amado. Debaixo da palavra “amado” reside ideias similares à do poder suave. Os ideais de liberdade e democracia foram tão importantes para trazer a Europa para o lado dos EUA quanto o dinheiro do Plano Marshall após a Segunda Guerra Mundial.
Jovens chineses protestando na Praça da Paz Celestial criando uma réplica da Estátua da Liberdade, iranianos assistindo clandestinamente filmes e clipes norte-americanos. Ao mesmo tempo, Nye lembra que as ações do hard power (poder duro) podem corroer o poder suave do país numa velocidade espantosa, como a invasão do Iraque, em 2003, que reduziu significativamente o poder suave dos EUA na região e em países como Espanha e Itália, segundo pesquisa da Pew Research Center (Nye, 2004, p. XI).
Assim como em nosso raciocínio que abriu este capítulo, o cientista político reconhece que, apesar de pesquisas e dados, o poder “é como o tempo. Muitos dependem dele e falam sobre ele, mas poucos o entendem ele. (...) é como o amor, mais fácil de ser experimentado do que definido ou medido, mas não menos real por causa disso” (Nye, 2004, p. 1)2. O poder, portanto, não é tão lógico nem simples de entender quanto o dinheiro. Os EUA tinham mais armas e tecnologia, mas perderam a Guerra do Vietnã e não evitaram o 11 de setembro. O Brasil é um dos poucos países com três grandes poderes suaves, como veremos adiante, e nem por isso ganha mais dividendos econômicos ou turísticos do que países menos expressivos
1 Texto original: the ability to get what you want through attraction rather than coercion or payments. It arises from the attractiveness of a country’s cultural, political ideas and policies. (…) When you can get others to admire your ideals and to want what you want, you do not have to spend as much on stikcs and carrots to move them in your direction.
2 Texto original: is like the weather. Everyone depends on it and talks about it, but very few understand it. (…) is also like love, easier to experience than to define or measure, but no less real for that.
culturalmente, como a Turquia ou a Tailândia, até mesmo a Alemanha, estritamente dentro do campo cultural. É claro, não se pode entender o poder suave sem compreender o contexto e a influência dos demais poderes e fatores. Assim, mesmo sendo riquíssimo em poder suave cultural, o Brasil perde para estes países pelo alto índice de violência e, pontualmente, pela ascensão da extrema direita em 2019, no governo de Jair Bolsonaro.
Ainda sobre as tentativas de quantificar e medir o poder, Nye (2012, p. 24) cita o exemplo de Ray Cline, um alto funcionário da CIA, altamente influente na Casa Branca, que publicou, em 1977, uma fórmula para avaliar o poder: “poder percebido = (população + território + economia + militares) x (estratégia x vontade)”. Quando inseriu os números na fórmula, a conclusão foi que a União Soviética era duas vezes mais poderosa que os Estados Unidos, o que provou que qualquer quantificação do poder cairia em profecias erradas, até porque, como substituir por números assertivos palavras tão subjetivas como estratégia e vontade? O fato é que fórmulas nem sempre são eficientes para medir o poder, o que não nos esquiva do desafio de criar categorias de medição do poder cultural, como faremos no capítulo 3, como forma de nos aproximarmos de uma melhor compreensão de como ele se consolida, ainda que sem pretensões de atingirmos verdades quantitativas e absolutas.
O poder é, muitas vezes, um ator invisível, mas sempre sentido. Em países como o Brasil, é muito comum ver adolescentes usando camisetas com frases e símbolos em inglês.
Usam aquelas roupas com a intenção de se sentirem na moda, descolados, muitas vezes sem saber que, por trás da escolha deles, estão jogos de poderes envolvendo diversos campos, como a publicidade, a língua, a cultura e até mesmo política. A intenção primária das escolhas de consumo das pessoas nem sempre escancaram a razão destas mesmas escolhas. E no campo cultural isso ocorre intensamente do cinema à música, da literatura às artes plásticas, como veremos mais adiante. Mas há também intenções deliberadas do emissor detentor de poder, mas nem sempre percebidas por quem está sujeito a este poder. Por exemplo: um jornalista tem consciência de sua escolha, ao optar pelo termo “Os EUA entraram no Iraque” em vez de “Os EUA invadiram o Iraque”, da mesma forma que um educador sabe por que diz aos alunos que
“Cristóvão Colombo descobriu as Américas” e não “Cristóvão Colombo invadiu as Américas”.
O mesmo não se pode afirmar dos leitores e dos alunos que leem estas frases. Para estes, o poder foi exercido sem ser percebido, mas com a devida cumplicidade.
Da mesma forma, é importante ressaltar que o poder suave nem sempre é positivo, da mesma forma que o poder simbólico tampouco é. O nazismo, o comunismo soviético e chinês provavelmente podem ser descritos como poderes suaves, sob o aspecto de serem sistemas que exerceram influência internacional. Da mesma forma, poucos tiveram tanto poder simbólico
quanto Mao Tsé-tung, Joseph Stálin e Adolf Hitler no século 20, e nem por isso a influência, a legitimidade e a atração gravitacional de suas palavras e ações fizeram bem para seus países, muito menos para o mundo.
A legitimidade exerce um papel fundamental para a existência do poder suave. O carisma do Papa Francisco é capaz de trazer para perto da Igreja Católica homens e mulheres divorciados e a comunidade LGBTQI+, mesmo que a Igreja Católica ainda tenha doutrinas que excluem essa população. A promessa de um paraíso com 72 virgens é capaz de fazer homens colocarem bombas ou atirarem aviões em prédios sob o comando de um líder, Osama bin Laden. A legitimidade do saber foi capaz de enclausurar o planeta inteiro dentro de suas casas nos anos de 2020 e 2021, fazendo bilhões de pessoas usarem máscaras, ainda que, para parte da população, a legitimidade de líderes do poder duro, como Jair Bolsonaro e Donald Trump, corroeu o poder suave da ciência em períodos críticos da pandemia da Covid-19.
O conceito de poder suave está intimamente ligado ao campo das relações internacionais, mas os agentes que fomentam o surgimento do poder suave em um país nem sempre (ou quase nunca) estão ligados a Estados e governos, o poder duro (político), mas podem receber incentivos (econômicos, políticos, sociais e culturais) do poder político, em especial no caso da ciência, da diplomacia e também da cultura. Como resultado principal, o poder suave de um país leva outro país a buscar os mesmos resultados alcançados pelo país admirado e, portanto, seguir caminhos semelhantes. É a habilidade de “modelar as preferências dos outros” (Nye, 2004, p. 5, tradução nossa)3. É mais eficiente do que apenas influenciar ou persuadir o outro, porque preferências modeladas geram atitudes sociais, culturais e de consumo de longo prazo. Hollywood foi muito eficiente em vender sua linguagem cinematográfica e demais padrões técnicos e estéticos desde o surgimento dos estúdios, nos anos 1920. Como resultado, filas se formam até hoje nos cinemas do mundo todo para ver filmes dos EUA não necessariamente pela qualidade da obra, mas pelo poder intrínseco da “marca Hollywood”: o poder suave. O poder suave modela, portanto, o habitus do mundo.
As influências do poder suave atingem também o campo da educação. As milhares de imagens dos magníficos campi de universidades norte-americanas colocadas em filmes e séries de Hollywood, aliado a outro poder suave – os prêmios Nobel ganhos pelos EUA ao longo das décadas – modelam as preferências de milhões de alunos ao redor do mundo, que querem estudar nestas universidades. Por sua vez, estes estudantes, quando voltam para seu país de origem, levam consigo a cultura dos EUA, fortalecendo-a ao redor do globo, num ciclo que
3 Texto original: to shape the preferences of others
tende a ser contínuo, a não ser que estes poderes suaves sejam prejudicados por outras formas de poder. Nye (2004, p. 9) lembra que o poder suave da União Soviética declinou mesmo quando o poder econômico crescia, por eventos como a invasão da Hungria e Tchecoslováquia.
O poder suave dos EUA cresceu na América Latina com a política da boa vizinhança de Franklin Roosevelt nos anos 1930.
Contexto é algo que nunca pode ser descartado quando se tenta mensurar, ainda que sem números, o poder. O ator Kevin Spacey possuía um indubitável poder cultural. Ganhador de dois Oscars – de melhor ator coadjuvante por Os suspeitos (1995) e melhor ator por Beleza Americana (1999) – Spacey amealhava multidões nos seus filmes graças ao poder cultural acumulado por anos, cujo ápice talvez tenha sido sua interpretação do político canastrão Francis Underwood na série House of Cards (2013-2018), que ajudou a alçar a Netflix como a principal plataforma de entretenimento via streaming do mundo. Mas qual é o poder cultural de Kevin Spacey hoje? Diminuto, talvez inexistente, porque o contexto mudou quando vieram à tona, em 2017, acusações de assédio sexual contra adolescentes, o que gerou sua exclusão da série e o cancelamento de todos os contratos e projetos do ator a partir de então.
No âmbito do poder suave, o contexto é igualmente imprescindível de ser considerado e evita respostas fáceis. Nye (2004, p. 15) afirma que, apesar da invasão do Iraque pelo governo George W. Bush em 2003, as músicas, filmes, programas de TV e a tecnologia norte-americana ainda continuavam admiradas pelos iraquianos, mas podem rapidamente ser repelidas pela mesma população se, por exemplo, um filme mostra mulheres com roupas curtas ou atitudes libertinas, bem como histórias que transformam países muçulmanos em celeiro de terroristas radicais. O caminho inverso é igualmente verdadeiro, pois só o contexto pode explicar por que Hollywood travou uma batalha de poderes contra Washington, ao investir milhões de dólares em filmes cujo teor era altamente crítico e condenatório do papel do governo norte-americano na Guerra do Vietnã, como em Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola; Nascido para Matar (1987), de Stanley Kubrick; e Nascido em 4 de julho (1989), de Oliver Stone. É importante notar, porém, que estas obras, talvez as principais sobre o conflito na Ásia, em termos de qualidades artísticas, vieram bem depois do fim da guerra, quando o mundo e os norte-americanos reconheciam o erro da invasão e a derrota bélica. Ou seja, os estúdios de Hollywood arriscaram pouco de suas relações com Washington durante o auge do conflito, no final dos anos 1960. Ao contrário: muitas vezes despejaram filmes abertamente pró-intervenção norte-americana no Vietnã, como Rambo II: a missão (1985), Os boinas verdes (1968) e De volta para o inferno (1983). Aliás, o casamento entre Hollywood e Washington foi além das ideologias em muitos momentos. Nós créditos de Top Gun: ases indomáveis (1989) estão
agradecimentos especiais a pilotos de F-16 da Marinha dos EUA que participaram do filme, “o que atesta suas credenciais de propaganda oficial, aprovada pelo governo dos Estados Unidos”
(Kellner, 2001, p. 107). Em troca, centros de recrutamento da Marinha foram montados em cidades como Los Angeles e Detroit na época da exibição do filme, que acabou contribuindo para um aumento significativo de alistamentos em academias militares na época (Kellner, 2001, p. 111).
Além de contexto, outra palavra-chave para compreender o poder suave é a palavra imagem. A imagem que um país emana é tão importante quanto a legitimidade individual discutida anteriormente sob Bourdieu. A imagem também deve ser colocada sob contexto. Se hoje os Estados Unidos são vistos como uma potência militar, tecnológica e cultural, essa imagem foi bem diferente no passado. Nye (2004, p. 38) lembra que alguns europeus achavam que a umidade do novo mundo gerava formas degenerativas de vida, que Charles Dickens considerava os EUA uma terra de falsos, tolos e trapaceiros e que Virginia Woolf tratava o país com desdém e desinteresse. A imagem é fruto, portanto, de influências de diversos campos. O Brasil amável, naturalmente belo e com uma população festeira e feliz foi trocado, durante a administração Jair Bolsonaro, por um Brasil destruidor da natureza, faminto e uma ameaça à humanidade, em especial durante a pandemia de 2020-2021. No entanto, como veremos adiante, os resultados obtidos pelo poder suave são mais duradouros, embora custem a chegar.
Por isso muitos governos desdenham deste tipo de poder, optando pelo uso de recompensas ou sanções econômicas, cujos resultados são mais imediatos. Mas a prova de que o poder suave funciona é que, apesar do desmonte internacional da imagem do Brasil feita pelo governo Bolsonaro, o mundo ainda ouve bossa nova, o carnaval brasileiro ainda é uma festa que atrai os olhos e os turistas do mundo inteiro. E as telenovelas nacionais, apesar da crise do formato com a chegada do streaming, ainda alcançam dezenas de países do planeta.
Em uma obra posterior, O futuro do poder (2012), Joseph Nye deixa claro uma certa mudança em sua visão sobre o próprio poder. Se antes o poder suave era um instrumento de maior foco de seus estudos, a partir desta obra, percebe-se o uso maior do termo smart power (poder inteligente), que seria uma mistura de poder duro com poder suave. O contexto mundial provavelmente o influenciou nessa mudança. O arrefecimento das relações entre EUA e China, que alguns chamam de nova guerra fria, as tensões com a Coreia do Norte, o Irã, os fluxos imigratórios em massa e a ascensão de governos de extrema direita no mundo inteiro explicam a revalorização dos velhos instrumentos de dominação, como as armas, as sanções e as trocas econômicas. No entanto, trata-se de uma visão etnocêntrica de Nye, sempre analisando o poder com os EUA em seu epicentro [“os Estados Unidos têm permitido um aumento gradual na
influência chinesa nos fóruns internacionais” (2012, p. 89)]. Além disso, ele mesmo diz (2012, p. 13) que o poder, hoje, se exerce por meio da informação e que a era das nações consideradas poderosas por concentrar recursos naturais já passou. Portanto, parece-nos, aqui, que os tempos sombrios do século 21 ainda não são suficientes para destituir o poder suave de seu status de instrumento mais eficiente, inteligente e, talvez até mais democrático que os demais.