2 AS POLIÍTICAS PÚBLICAS NO CÁRCERE COMO CONDIÇÃO DE
2.1 Políticas Públicas: delineando um conceito
Delinear um conceito de política pública não é, de forma alguma, algo taxativo, pois se trata de conceito abrangente, atingindo as mais diversas áreas do conhecimento, já que seu principal objetivo de atuação é alcançar o ser humano, o indivíduo da coletividade, o pertencente ao social.
Para que se tenha uma melhor e talvez mais clara compreensão do que são as políticas públicas, se faz necessário, também, conceituar política em sua individualidade. Fácil é visualizar uma política em meio à sociedade. É possível perceber que ela está inserida em grande parte, mas não exclusivamente, nas campanhas eleitorais, nas promessas partidárias, nos projetos políticos e nas ações governamentais.
A política pública, também vista como uma ciência, é de conceituação abrangente, visto que engloba a política para satisfazer as necessidades públicas de uma sociedade, de um Estado. Amplamente voltada para a melhora dos problemas sociais, as políticas públicas podem ser definidas de modo geral como a ciência que busca o aperfeiçoamento das inter-relações entre Estado, política, economia e sociedade, resultando em um somatório do todo e não uma vinculação em partes (SOUZA, 2006, p. 25).
É possível também fazer uma análise sobre a compreensão de políticas públicas, a partir da reflexão de Diogo Lentz Meller (2015, p. 52-53), quando o autor utiliza as ideias de Jenkis Richard para salientar que,
de uma forma ou de outra, todos reconhecem o que são políticas públicas quando com elas se deparam, e que este fato demonstra que, de certa forma, um conceito mínimo já é averiguado e utilizado nas relações sociais (JENKIS, 2006, p.2). Porém, a afirmação de que todos reconhecem as políticas públicas [...], não possui grande capacidade explicativa, de modo a criar possíveis entraves aos avanços dos estudos que as utilizam como objeto.
Delinear um conceito prático do que são políticas públicas é algo um tanto quanto difícil pois, assim como os tempos e sociedades vão se modernizando, a concepção destas vai se alterando também de forma natural. No entanto, o que persiste desde o surgimento dessa área de cunho social é que as políticas estão ligadas ao Estado, aos Governos, e às diferentes camadas sociais.
O nascimento das políticas públicas ocorreu a partir do momento em que as sociedades viram-se crescendo e, consequentemente o Estado Social também. Sendo assim, acabaram por buscar meios de amenizar as desigualdades, de amparar setores desprovidos e de unir a sociedade numa só, ou ao menos tentar fazê-lo.
Assim como toda ciência social, as políticas públicas abrangem larga escala de atuação, e num viés sociológico, encontraram seus “pais fundadores”, que viriam a estudar suas estruturas a fim de lançá-las respeitosamente à sociedade, e buscando saber como e por que elas passaram a existir e tornaram-se importantes, sendo eles: H. Laswell, H. Simon, C. Lindblon e D. Easton, que dentro de suas particularidades trazem a partir dos estudos realizados, formas de conceituação e compreensão da finalidade destas (SOUZA, 2006, p. 23).
Na sociologia, o renomado escritor e pensador Laswell, é quem se destaca e aproxima mais as ideias com as realidades sociais. Para este, segundo Souza (2006), política pública é a forma de harmonizar conhecimentos científicos e acadêmicos, com a produção remota dos governos, a fim de criar uma rede de interação entre cientistas sociais, grupos de interesses e de governo. A definição de política pública apresentada por Laswell é a que mais clara parece ser, pois, como forma de traduzir seu significado, apresenta três perguntas simples e essenciais ao tema: quem ganha o quê, por que e que diferença faz? (SOUZA, 2006, p. 24).
As indagações feitas por este renomado sociólogo, podem ser naturalmente respondidas pela atuação e posição do governo. O Estado é quem, por meio de ações coletivas e sociais, responde a partir do modo como traz próximo de si os cidadãos e a solução dos conflitos entre eles. O Estado é responsável por ditar as leis e as normas, mas os governantes são os responsáveis por, em síntese, colocá-las em prática, haja vista que recursos destinados à implementação de políticas públicas são despendidos, ou seja, o governo é responsável pela aplicação, pela manutenção e também pela observação destas.
A ideia de que o Estado e governantes são pontos principais para a realização de políticas públicas, pode ser explicada de acordo com a reflexão feito por Meller (2015, p. 53), conforme segue no trecho abaixo:
Há uma certa concordância entre os conceitos, a de que as políticas públicas são ações governamentais que necessitam de impulso político, sendo necessária pelo menos a existência de uma estrutura de poder que possa agir e intervir na sociedade [...] que as vê como um processo vinculado diretamente aos problemas públicos e comuns da sociedade, cujas ações não necessariamente se reduziriam a ações do governo.
João Pedro Schmidt (2008, p. 2311), trazendo os aspectos conceituais do que são as políticas públicas e bem como onde e quando praticá-las e de que forma monitorá-las, as conceitua da seguinte forma:
O conceito de política pública remete para a esfera do público e seus problemas. Ou seja, diz respeito ao plano das questões coletivas, da polis. O público distingue-se do privado, do particular, do indivíduo e de sua intimidade. Por outro lado, o público
distingue-se do estatal: o público é uma dimensão mais ampla, que se desdobra em
estatal e não-estatal.
A citação acima trazida remete à ideia de que as políticas públicas são as ações governamentais exercidas pelos Estados, a fim de amparar os cidadãos fragilizados e solucionar os problemas mais invasivos na sociedade. O Estado é o meio e fim das políticas públicas, muito embora, em grandes momentos, essas sejam realizadas por entidades privadas, mas que buscam exercer a melhora social, ou seja, a melhora pública do sistema.
Ainda, Schmidt (2008) traz em sua obra, algumas conceituações construídas a partir de outras ideias, que ajudam a formar uma melhor compreensão do que é uma política pública, visto que os argumentos construtivos do tema são muitos, ora divergem-se e ora assemelham- se, como se vê:
O termo política pública é utilizado com significados algo distintos, com uma abrangência, maior ou menor: ora indica um campo de atividade, ora um propósito jurídico bem concreto, ou um programa de ação ou os resultados obtidos por um programa (Fernández, 2006 apud SCHMIDT, 2008, p. 2311).
Marli Marlene Moraes da Costa e Josiane Borghetti Antonelo Nunes (2014), também buscam desenhar uma conceituação sobre o que são as políticas públicas existentes hoje no país
e de que forma se tornam orientação das ações estatais. De forma a clarear a conceituação, as autoras trazem a ideia de Ludmila Cavalcanti, conforme segue:
Entende-se por políticas públicas o conjunto de ações coletivas que garantem direitos sociais, por meio dos quais são distribuídos ou redistribuídos bens e recursos públicos em resposta às diversas demandas da sociedade. As políticas públicas são fundamentadas pelo direito coletivo, são de competência do Estado e envolvem relações de reciprocidade e antagonismo entre o Estado e a sociedade civil (CAVALCANTI apud COSTA; NUNES, 2014, p. 118).
As políticas públicas resumem-se, conforme posição de Souza (2006, p. 26), em uma via de duas mãos, em que de um lado o governo é colocado na posição de condutor das ações invariáveis e independentes, e de outro lado, apresentar as mudanças no rumo do curso das ações, figurando aqui como as variáveis dependentes.
Muito embora se imagine que as políticas públicas estejam ligadas apenas às relações governamentais e estatais, estas estão intimamente entrelaçadas com ciências de outras naturezas, para que seja possível trazê-las para a sociedade e estudá-las nesse meio, como é o caso da sociologia, da ciência política e da economia.
Apenas a ação governamental na aplicabilidade das políticas públicas não enriquece e fortalece suas raízes. É necessário e fundamental que elas estejam ligadas com a economia, pois, para que seja possível desenvolver projetos voltados para políticas públicas sociais é necessário que haja um dispêndio econômico para tal.
A reflexão quanto à conceituação de políticas públicas, traz a esse meio a análise feita por Costa e Nunes (2014, p. 119), expressando-se as autoras da seguinte forma:
é oportuna a compressão de que as políticas públicas, comumente, são distinguidas por políticas sociais e políticas econômicas ou macroeconômicas, todas com o objetivo de proporcionar o desenvolvimento econômico e social de determinada sociedade. As primeiras são tidas como aquelas responsáveis por garantir os direitos sociais consagrados na Carta Magna, tais como saúde, educação, segurança, assistência social, habitação. Enquanto que as últimas referem-se especificamente as políticas monetárias.
Nas palavras de Souza (2006, p. 26), as políticas públicas não se limitam apenas às suas modelagens, podendo ser objeto de análise de tantas outras áreas, conforme se vê:
apesar de possuir suas próprias modelagens, teorias e métodos, a política pública, embora seja formalmente um ramo da ciência política, a ela não se resume, podendo também ser objeto analítico de outras áreas do conhecimento, inclusive da econometria, já bastante influente em uma das subáreas da política pública, a da avaliação, que também vem recebendo influência de técnicas quantitativas.
A tarefa de conceituar de modo concreto e expressivo o que são as políticas públicas, é de certa forma atividade que se torna conflituosa, visto que, a definição dessa ciência não se resume em apenas uma palavra ou expressão, não se limita a conceito fechado e imutável. Por se tratar de uma ciência derivada da política, a conceituação se torna ainda mais abrangente, pois, uma vez que envolve as relações sociais a sua dimensão e compreensão transpassa “barreiras”.
As políticas públicas são baseadas por todas aquelas necessidades que a sociedade busca saciar, por meio de outras ciências que estudam o social, empenham-se em resolver os conflitos internos, ou seja, com amparo governamental e econômico. As políticas públicas são meio e fim das relações em sociedade, pois, ao passo que buscam conhecer um problema, buscam também a sua solução, a fim de evitar a germinação nas mais diversas esferas da sociedade.
Das mais diversas conceituações, das mais diversas discussões e interpretações do que são, o que objetivam e onde cabem as políticas públicas, Souza (2006, p. 36), extrai e sintetiza os seus principais elementos:
A política pública permite distinguir entre o que o governo pretende fazer e o que, de fato, faz.
A política pública envolve vários atores e níveis de decisão, embora seja materializada através de governos, e não necessariamente se restringe a participantes formais, já que os informais também são importantes.
A política pública é abrangente e não se limita a leis e regras.
A política pública é uma ação intencional, com objetivos a serem alcançados. A política pública, embora tenha impactos no curto prazo, é uma política de longo prazo.
A política pública envolve processos subsequentes após sua decisão e proposição, ou seja, implica também implementação, execução e avaliação.
As políticas públicas percorrem todos ou quase todos os campos de uma sociedade, buscando por meio de propostas concretas, a reparação de problemas vividos diariamente e também como forma de consolidar meios de acesso aos seus direitos do homem.
Nessa perspectiva, e após uma breve conceituação do que são elas, o próximo tópico deste trabalho busca mostrar quais são e quais podem ser as políticas públicas criadas e voltadas ao cárcere, como condição de possibilidade para a superação da crise existente hoje no sistema prisional brasileiro, sob um viés de proteção dos direitos intrínsecos ao ser humano.