Como ponto latitudinal desta pesquisa – aquele que representa a primeira coordenada consultada em um mapa – trago aqui a etnografia virtual. O primeiro passo dado para trabalhar com uma investigação na internet foi justamente buscar meios teóricos de viabilizar este estudo tendo em vista que entrar na internet (no caso no YouTube) foi a minha primeira ação de pesquisa. Portanto, utilizei da etnografia virtual para me guiar teoricamente nesse espaço, pois tal proposta mantém as bases da etnografia tradicionalmente conhecida pela densa descrição e análise de grupos com características culturais semelhantes. Considerar o uso das mídias virtuais como espaço de pesquisa é lançar um olhar sobre novos aspectos da vida contemporânea e as possibilidades de ressignificação que tais espaços podem promover, uma vez que os dispositivos midiáticos são produtores de significação, tendo em vista que utilizam de uma linguagem para estabelecer relações sociais (SILVA, T., 2001).
Apesar da etnografia virtual manter bases semelhantes às da etnografia tradicional, muda-se, no entanto, o campo de estudos, transportando-se para o meio virtual. O que consiste
35 em uma forma de ampliar os estudos das relações sociais, estabelecidas atualmente e permite enxergar de forma mais próxima os usos das novas tecnologias. “Uma etnografia da Internet pode observar detalhadamente as maneiras pelas quais o uso de uma tecnologia é experimentado” (HINE, 2004, p. 13).
Observar espaços virtuais demanda entendimento de linguagens utilizadas nesse espaço, habilidades com recursos eletrônicos e observação do uso das ferramentas disponíveis (SALES, 2012). Tais processos trazem experiências singulares às pesquisadoras que o fazem e apresentam um campo rico para muitas análises no mundo contemporâneo. Dentro dessas observações, cabe falar sobre os acessos a vários currículos que o advento da internet trouxe para a vida de todas nós. Entre esses temos, está o currículo do Facebook (LOPES, R., 2017) que apresenta possibilidades de aprender novos modos de agir, de se relacionar com outras pessoas, de se fotografar e até de escrever para os que acessam esse currículo. A etnografia virtual representa uma das metodologias que estão sendo utilizadas em pesquisas recentes. Na década de 1990, ocorreram várias discussões que colocavam em xeque as primeiras pesquisas etnográficas que se utilizavam dos meios de mídia online (POLIVANOV, 2013). No entanto, a rápida inserção no cotidiano das sociedades logo mostrou a emergência e a inevitabilidade de pesquisas com esse viés de estudo.
A etnografia virtual muda a forma como os dados são construídos, as observações de interações e os planejamentos e as execuções das idas a campo (FRAGOSO; RECUERO;
AMARAL, 2011). Porém, assim como em uma etnografia presencial, a pesquisadora que constrói seu lócus em um espaço online pode tomar decisões inesperadas durante o processo de pesquisa e ser influenciada pela interação com os grupos que está observando. Nesse caso, os grupos de mulheres que cantam funk e têm seus vídeos divulgados no YouTube foram o grupo observado que, antes mesmo da presente pesquisa ocorrer, já faziam parte do meu cotidiano e dos meus momentos de lazer.
Na perspectiva de Christine Hine (2004), uma das primeiras teóricas a tratar da etnografia virtual como método de pesquisa, a internet pode ser compreendida por dois vieses:
como cultura e como artefato cultural. O primeiro, visto como um lugar onde a cultura se constitui e reconstitui; e o segundo, como um “produto da cultura: uma tecnologia que foi produzida por pessoas particulares com objetivos e prioridades situadas contextualmente”
(HINE, 2004, p. 9). Nesta pesquisa, utilizei o viés do artefato cultural para fazer uso da pesquisa online no YouTube, com o intuito de utilizá-lo enquanto meio que me levaram aos discursos disponibilizados no currículo do funk, que foram analisados.
36 Desse modo, enquanto artefato cultural, o uso da ferramenta midiática nesta pesquisa estará associado à construção dos dados disponibilizados online como: letras de músicas, vídeos e comentários. O YouTube foi utilizado como lugar de observação no qual centrei o meu olhar atento às reproduções de enunciados, práticas discursivas e dispersão dos discursos no currículo do funk que podem ensinar ações, falas e modos de ser às mulheres. O YouTube, como importante mídia comunicacional de pessoas das mais variadas idades, mas principalmente dos jovens, está sendo entendido, aqui, como:
Ocupante de uma função institucional – atuando como um mecanismo de coordenação entre a criatividade individual e coletiva e a produção de significados; e como um mediador entre vários discursos e ideologias divergentes voltados [...] para a audiência ou para o usuário (BURGESS;
GREEN, 2009, p. 60).
Há muitas discussões que envolvem o YouTube e as relações estabelecidas a partir dele;
contudo, é inegável sua utilidade e sua incorporação como parte essencial da esfera cultural pública (BURGESS; GREEN, 2009). As pessoas buscam o YouTube pelos mais diversos motivos e o veem como uma opção fácil e acessível na resolução de problemas cotidianos31, tais como cozinhar, utilizar materiais eletrônicos, ver informações sobre veículos, pequenos consertos domésticos, entre outros. Nas horas de lazer, sobre tal colocação, aponto que:
De acordo com dados do estudo YouTube Insight 2017, um levantamento anual que reúne e avalia dados da plataforma, foi apurado que o público brasileiro já ultrapassa a marca de 98 milhões de usuários ativos, com um percentual de 96% de jovens entre 18 e 34 anos. O relatório, dividido em categorias como música, gastronomia, games, moda e beleza e futebol, ainda revelou que este consumo elevado por parte do brasileiro está diretamente relacionado às produções locais, que têm crescido potencialmente no decorrer dos anos. (RIBEIRO; ALVES, 2018, p. 4).
Partindo desses dados, é possível inferir que as experiências propiciadas pelo YouTube aos variados grupos culturais e sociais, na atualidade, geram dados ricos de análise aos mais diversos campos de pesquisa. Representam novas perspectivas do contemporâneo que se inserem na vida dos jovens de hoje. Portanto, é um campo rico também para investigações na área da educação, tanto no âmbito acadêmico quanto no dia a dia em sala de aula. O YouTube
31 A facilidade de acesso a receitas culinárias, das mais variadas, para consultas rápidas e os tutoriais sobre formas de se maquiar, consertos de eletrônicos e limpezas de móveis tornam o YouTube um meio de acesso popular entre os mais diversos públicos.
37 traz novos ensinamentos e interações que mudam as experiências vividas durante uma aula, seja ela presencial ou online.
Assim como o YouTube tem sido utilizado em aulas, como espaço que possibilita experiências diversas às alunas, esta pesquisa utiliza-se desse ambiente, em seu potencial diverso como espaço de observação e produção ativa. NoYouTube, foram coletados 165 vídeos das cantoras selecionadas, pertencentes aos seguintes canais: Mirella Fernandez, Ludmilla, Anitta, Pocah e Tainá Costa. Os vídeos assistidos estavam presentes na aba “vídeos” de cada um desses canais do YouTube. Dos canais de Mirella Fernandez e Pocah, todos os vídeos entraram nas análises. Já nos canais de Ludmilla, Anitta e Tainá Costa, alguns vídeos não entraram como dados de análise, tendo em vista que essas artistas também possuem produções em outras áreas artísticas. Além disso, analisei também comentários, selecionados a partir dos nomes das usuárias que os fizeram e outras possíveis marcações generificadas que pudessem indicar que tinha sido feitos por uma mulher, variando o número de comentários analisados por vídeo, de acordo com a frequência com que meninas comentavam e qual o teor de suas colocações. Alguns comentários eram respostas a outros e configuravam diálogos sobre o vídeo, temas relacionados à letra da música ou às discussões sobre a vida pessoal das artistas. Esse passo trouxe todos os dados centrais que utilizei nas análises. Estas que, para sua execução, foi necessário o uso de outra metodologia: a análise do discurso em uma perspectiva foucaultiana.
Está completa a coordenada do mapa desta pesquisa, com os devidos dados longitudinais, a fim de que possamos encontrar os pontos e completar este traçado cartográfico.