Em um segundo momento, após a observação e a organização dos dados, utilizei da análise do discurso, na perspectiva foucaultiana, para efetuar as análises, pensar nas categorias que poderiam ser elencadas a partir de tais observações e fechar devidamente as coordenadas deste mapa metodológico da pesquisa. A perspectiva de análise do discurso, ao modo foucaultiano, visa analisar o dito, buscando recusar as explicações unívocas e as tentativas de encontrar um sentido último ou oculto do discurso (FISCHER, 2001).
Tal análise discursiva aqui empreendida não tem a intenção de “descortinar verdades”
ou achar o “significado oculto” das enunciações, mas tão somente esmiuçar a fala e/ou escrita por meio do dito e problematizar sua produção, buscando compreender as relações de poder que o imbricam, os saberes construídos mediante ele e de que forma isso pode implicar na
38 subjetivação dos sujeitos (FISCHER, 2001). No currículo do funk, há várias enunciações que podem parecer uma provocação, que instiga suas ouvintes a buscar uma espécie de “verdade oculta”, como se as cantoras trouxessem informações para ser descobertas. Quando, por exemplo, a Mc Carol diz “meu namorado é mó otário, ele lava minhas calcinhas”32 (2012), há uma infinidade de possibilidades que são atribuídas a essa frase, que irão variar de acordo com as experiências de cada uma que ouve a música, mas parto do pressuposto de que não existe nada a ser descortinado. Sendo assim, uso o dito pelo dito. O rapaz a quem a música se refere está levando adjetivos chulos por ter ações que fogem das normas impostas aos homens pela sociedade, já que o usual pode ser considerar uma mulher lavando cuecas, e não o contrário. É desse modo que busco, em minhas análises de pesquisa, compreender possíveis posições de sujeito generificadas trazidas pelo currículo do funk para suas ouvintes.
Partindo da ideia de constituição do discurso não apenas como uma fala ou um escrito, mas como constituinte dos objetos de que falam (VEIGA-NETO, 2014), a formação desses objetos expressos por meio de falas ou escritos está limitada ao conjunto de signos que compõem a linguagem. Para Foucault, a linguagem não faz o papel de ligação do pensamento à coisa pensada, mas forma o próprio pensamento e sentido que se dá às coisas, à nossa experiência e ao mundo (VEIGA-NETO, 2014).
Dessa forma, o discurso e as práticas discursivas estão relacionados ao campo das linguagens e dos significados que os sujeitos atribuem às coisas. Esses discursos têm formações complexas, unidades instáveis e circulam na sociedade de acordo com as relações de poder e saber estabelecidas em determinadas épocas. Além disso, os discursos “são sempre o efeito de uma construção, cujas regras devem ser conhecidas e cujas justificativas devem ser controladas” (FOUCAULT, 2008, p. 28). As construções dos discursos se dão por meio das formações discursivas, as quais são um conjunto de regras que se referem ao que deve ser relacionado a uma prática discursiva e a uma constituição de enunciações. Ou seja:
ele prescreve o que deve ser correlacionado em uma prática discursiva, para que esta se refira a tal ou tal objeto, para que empregue tal ou tal enunciação, para que utilize tal ou tal conceito, para que organize tal ou tal estratégia (FOUCAULT, 2008, p. 82).
Assim, entendendo essa característica da formação discursiva, percebe-se que esta se expressa a partir da matriz de sentido que circula em determinados campos, dentro dos quais
32 Meu Namorado É Mó Otário Ele Lava Minhas Calcinhas (2012).
39 seus integrantes se reconhecem facilmente por meio de enunciações usadas como significantes nas suas práticas discursivas (FISCHER, 2001). Os enunciados que constituem essas formações discursivas são imprescindíveis à análise de discursos. Como, por exemplo, enunciações do funk, como “rabetão” ou “sento e quico devagar”33, nomes e expressões utilizadas para se referir à bunda e a movimentos feitos por ela nas danças de funk, têm um significado para quem participa da construção e aprende com esse currículo, mas podem ter outros significados em grupos e ocasiões adversas.
Os enunciados podem facilmente ser compreendidos de forma equivocada como unidade do discurso. No entanto, devem ser vistos como acontecimento: algo que irrompe num certo tempo num certo lugar (FISCHER, 2001). Não são apenas palavras ou frases ditas de qualquer modo. Os enunciados têm uma organização, uma forma de repetição e uma potência específica em sua existência. Quando na música Vai Malandra34, a cantora Anitta repete diversas vezes que “é malandra”, ela apresenta um novo significado a essa enunciação, utilizada como pejorativa em alguns grupos, e um modo diferente e positivo de trazer tal palavra para as experiências vividas por mulheres que a ouvem.
Para o exercício de uma análise discursiva, é necessário observar a dispersão dos enunciados e os campos discursivos com os quais se pode estabelecer relações a fim de entender a que poderes atendem e que poderes põem em circulação (VEIGA-NETO, 2014). A observação dessa dispersão dos enunciados traz a importância de situá-los e enxergá-los relacionados ao discurso que se pretende analisar em outros campos ou de outros discursos.
Isso requer um olhar atento à percepção dos discursos, de modo que
É preciso estar pronto para acolher cada momento do discurso em sua irrupção de acontecimentos, nessa pontualidade em que aparece e nessa dispersão temporal que lhe permite ser repetido, sabido, esquecido, transformado, apagado até nos menores traços, escondido bem longe de todos os olhares, na poeira dos livros. (FOUCAULT, 2008, p. 28).
Dessa maneira, a observação do dito, a partir de uma contextualização temporal, política e social, e de uma apurada investigação linguística entendendo as fixações e flutuações estabelecidas pelo próprio discurso dão início à análise. Logo, é dever do pesquisador “partir do próprio discurso, de sua aparição e de sua regularidade, passar às suas condições externas de possibilidade, àquilo que dá lugar à série aleatória desses acontecimentos e fixa suas
33 Referência à música Sento e Quico Devagar (2018).
34 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kDhptBT_-VI. Acesso em: 26 mar. 2020.
40 fronteiras.” (FOUCAULT, 1996, p. 53). Nesta pesquisa, utilizei dos discursos encontrados nas letras das músicas cantadas por mulheres presentes em vídeos de funks, no YouTube, e das enunciações apresentadas nos comentários dos vídeos, para, em agrupamento com conceitos teóricos, compreender as possibilidades desses discursos em produzir posições generificadas a suas ouvintes.
Mostrando de forma mais objetiva os agrupamentos feitos de acordo com o apanhado teórico e analítico, apresento a seguir as categorias de análise elencadas para esta investigação.
Essas categorias compõem as camadas que, sobrepostas, juntamente com as linhas, os pontos e as coordenadas, trarão a completude temporária deste mapa, pois, assim como representações espaciais mudam conforme as mudanças na sociedade, os elementos e contornos deste mapa estão em constante mudança.