CAPÍTULO 2 – O QUADRO DO INTERACIONISMO SOCIODISCURSIVO
2.2 A perspectiva do ensino como trabalho
2.2.1 O trabalho do professor como forma de agir
2.2.1.1 Por que analisar o trabalho do professor na perspectiva do ISD?
Esta seção tem por objetivo explicitar as razões pelas quais a perspectiva do ISD pode contribuir para o estudo do trabalho do professor.
Para isto, primeiramente, é necessário compreendermos, com base em Bronckart (2008, p. 101), que “a evolução das didáticas das disciplinas escolares recentemente levou à emergência de um novo campo de trabalho, que é o trabalho do professor”, o que resultou no encontro do campo dessas didáticas das disciplinas escolares com o da Ergonomia da Atividade Francesa e da Clínica da Atividade.
De acordo com Bronckart (2008), nas primeiras fases dos estudos sobre o trabalho do professor, o foco das didáticas estava na atualização e a racionalização dos programas e métodos de ensino e, mais freqüentemente, na redefinição do projeto de ensino das disciplinas escolares. Com isso, surgiu uma preocupação em se verificar a realidade da implantação de tal projeto, observando-se em que medida os professores exploravam os novos programas e meios de ensino, se as novas abordagens eram utilizadas e em que medida eram eficazes (BRONCKART, 2008). De acordo com o autor, na área do ensino de línguas, por exemplo, foram estudados os descompassos entre a planificação de aulas de francês e seu desenvolvimento real, detectando-se três tipos de fatores que orientam as ações dos professores e que explicam alguns descompassos no trabalho docente, tais como:
- a competência real dos professores sobre o tema abordado;
- determinadas propriedades discursivas das intervenções linguageiras dos professores; e,
- a natureza das intervenções dos alunos e a capacidade que o professor tem para reagir a elas.
Além disso, Plazaola Giger (2000) e Plazaola Giger e Leutenegger (2000) expandiram tal estudo com uma análise do trabalho de professores em classes de imersão, relacionando dados sobre o desenvolvimento da aula e entrevistas sobre o agir anterior à aula (planificação do trabalho) e posterior à aula (comentários avaliativos do professor). Isto aponta para a importância da nossa pesquisa, que se relaciona com esses estudos na medida em que também investigamos os modos de agir constitutivos do trabalho do professor, como o agir anterior e posterior à aula estudados por Giger e Leutenegger, podendo também contribuir para a compreensão do agir docente nessa perspectiva.
Assim, como Bronckart (2008) salienta, essas pesquisas contribuíram para um reequilíbrio dos interesses da Didática, ao tratar não somente dos processos desenvolvidos pelos alunos, mas também ao compreender quais são as capacidades requeridas dos professores para que pudessem ser bem sucedidos nas especificidades de sua profissão, a saber,
[...] a gestão de uma situação de sala de aula e do desenvolvimento de cada aula, em função das expectativas e dos objetivos predefinidos pela instituição escolar e das características e das reações efetivas dos alunos (BRONCKART, 2008, p. 102).
Em outras palavras, como já discutimos anteriormente, o trabalho do professor não se limita ao agir em sala de aula, mas é constituído por uma visão mais ampliada, envolvendo os momentos que antecedem e sucedem essa prática como, por exemplo, o agir anterior e posterior à aula, bem como por elementos que e dimensões que o caracterizam.
Diante de tais preocupações, alguns estudos focalizaram os discursos de antecipação do trabalho enquanto outros voltaram-se para as produções linguageiras em situação efetiva de trabalho. Segundo Bronckart (1999/2003), as representações são construídas nas produções textuais e, conforme Bronckart e Machado (2004, p. 136) explicitam, isto que “nos permite situar e julgar a contribuição de cada indivíduo para a realização de uma determinada atividade”. A partir disso, vamos um pouco mais além ao sugerir um trabalho de investigação que considere a descrição do próprio agir não como representações mas como (re)configurações do agir construídas nas produções textuais. Uma razão disso é o fato de que, pela linguagem, ao (re)configurar o próprio agir, o professor reconstitui
ou reconstrói sua situação de trabalho e, ao fazer isso, há maiores possibilidades de se compreender melhor as especificidades e os elementos constitutivos do agir docente. Daí porque analisar textos, orais ou escritos, que são construídos no e sobre o trabalho do professor, na perspectiva do ISD. Desse modo, como os autores enfatizam, podemos chegar a compreender a natureza e as razões das ações verbais e não verbais desenvolvidas e o papel que a linguagem aí desempenha.
Além disso, compreendemos a afirmação de Saujat (2002), de que “o trabalho do professor é um enigma”, e que, como Machado (2007, p. 91) ressalta, não há conceitos prontos e definidos sobre o trabalho do professor, mas “conceitualizações provisórias que vão se construindo e desconstruindo no confronto com os dados e com os resultados das pesquisas”. Um exemplo disso são os aportes da Ergonomia da Atividade Francesa e da Clínica da Atividade (CLOT, 1999/2006) que fornecem um conjunto de propriedades da atividade de trabalho e que podem contribuir para uma definição provisória do que a autora considera como “trabalho do professor”, como já discutimos.
Ao tratar do trabalho do professor em relação às revelações possíveis pela análise do agir representado nos textos, Lousada, Abreu-Tardelli e Mazzillo (2007, p. 252) contribuem para justificar a questão da análise de textos sobre o trabalho docente, ressaltando que a análise do agir permitiu-lhes “compreender, com maiores detalhes, como o professor realiza o seu trabalho e como o seu agir é interpretado e avaliado por outros, seus alunos ou colegas pesquisadores”. Além disso, como Lousada, Abreu-Tardelli e Mazzillo (2007, p. 253) ressaltam, a avaliação do próprio agir ou do agir do outro “é força motriz para o desenvolvimento do próprio trabalhador”.
Enfim, este capítulo procurou explicitar o quadro teórico do ISD e seus pressupostos teórico-metodológicos, seu programa de trabalho e seus procedimentos de análise, o papel da linguagem e sua relação com o trabalho, a perspectiva do ensino como trabalho, além de algumas pesquisas que têm contribuído para a compreensão dessa perspectiva, assim como propõe a nossa.
A seguir, trataremos do procedimento das instruções ao sósia, sua origem e caracterização como contribuição a esta pesquisa, enfim, ao processo de formação continuada do professor em serviço.