4. O que as crianças têm a ensinar?
4.13. Por que tem produto caro e barato? O caro compensa?
O problema dos brinquedos possibilitou que as crianças manipulassem os panfletos, verificassem preços e fizessem a comparação entre uma bicicleta usada e uma nova. Precisaríamos discutir, após essas explorações, o que elas achavam que compensava, se comprar uma bicicleta nova ou uma bicicleta usada e fazê-las refletir sobre a escolha e tomada de decisão em comprar o caro ou o barato.
Reuni os alunos para uma roda de conversa e os questionei por quais motivos compensaria comprar uma bicicleta nova mais cara do que uma usada mais barata. As crianças deram várias justificativas: disseram que compensaria a mais cara porque tem melhor qualidade, poderiam trocar se tivesse defeito, duraria mais tempo e porque algo novo é mais ―estiloso‖. No entanto, a usada poderia dar problema, mas a vantagem é que sobraria dinheiro para comprar outros brinquedos.
Para aprofundar a conversa e fazê-los refletir de forma crítica sobre o consumo e as escolhas dos produtos, propus a leitura das seis perguntas do consumo consciente proposto pelo Akatu Mirim, uma organização não governamental que trabalha pela conscientização e mobilização para o
consumo consciente. No site da instituição, há conteúdo educativo e selecionei as seis perguntas, pois ajudariam a pensar sobre novas maneiras de consumir e comprar.
Figura 80 – Roda de discussão sobre consumo consciente
Fonte: Arquivo pessoal
Figura 81 – As seis perguntas sobre o consumo consciente da Akatu Mirim
Fonte: Arquivo pessoal
Levei seis envelopes, cada um trazendo uma pergunta e, dentro dele, uma reflexão. A primeira pergunta, ―Por que comprar?‖, abordava os motivos pelos quais as pessoas realizam suas compras, se são levadas pelo impulso ou pela necessidade e que, antes da compra, os consumidores devem pensar se há alternativas. A segunda questão, ―O que comprar?‖, alertava os consumidores a levar em consideração se o produto tem qualidade, sobre sua durabilidade e preço. A terceira questão, ―Como comprar?‖, dizia respeito à
forma de pagamento da compra, alertando sobre as taxas em uma compra a crédito e o compromisso em pagar as prestações. A quarta questão, ―De quem comprar?‖, incentivava o consumidor a saber se o fabricante do produto é uma empresa que se preocupa com a qualidade, com a entrega e com o meio ambiente. A quinta questão, ―Como usar?‖, sugeria que os consumidores, o tanto quanto possível, cuidassem dos objetos para não quebrar ou desgastar, aumentando, assim, o tempo útil do produto. A sexta questão, ―Como descartar?‖, trazia um lembrete sobre a forma de se desfazer do produto, pois alguns objetos podem ser doados ou trocados ao invés de virarem lixo.
Lemos e conversamos sobre as seis questões e, no dia seguinte, resgatei a discussão para verificar os aprendizados.
Professora: Ontem conversamos sobre o quê? Aluno: As compras.
Aluno: Como compra. Aluno: De quem compra. Aluno: Da onde compra.
Professora: E a gente conversou que devemos usar a nossa consciência na hora de comprar. Por quê?
Aluno: Porque senão vai comprar coisas a mais que não precisa. Professora: Exatamente. E o que mais?
Aluno: Pensar se vai usar.
Professora: Por que é importante pensar nisso?
Aluno: Porque senão você compra e não usa e fica lá guardado. Aluno: Porque vence.
Aluno: Prejudica o meio ambiente.
Professora: Além de vencer e depois ter que jogar fora, você está aumentando o lixo e causando impacto no meio ambiente porque aquilo destruiu a natureza para ser produzido, daí produziu, você comprou e não usou aquilo. Não teve utilidade para você e ainda destruiu a natureza, por isso a compra tem que ser consciente. Tem que pensar se você realmente precisa dessa compra. E por que tem produtos caros e baratos?
Aluno: Porque alguns prestam, alguns não prestam. Aluno: Alguns valem mais e outros valem menos. Professora: E o caro compensa?
Alunos: Não!
Professora: Olha, o que o colega falou, às vezes o caro compensa, outras vezes não. Então vamos listar quais são as vantagens e desvantagens de comprar um produto caro e um barato?
Aluno: O barato compensa, mas só as vezes, porque o da loja nem tem tanta vantagem.
Professora: Comprar um produto usado, lembra que a gente conversou? Se eu não estou usando mais e o produto está bom, eu posso vender para outra pessoa?
Alunos: Sim!
Professora: Vai ser bom pra outra pessoa? Alunos: Vai.
Professora: Por quê?
Aluno: Porque não precisa comprar no mercado que é caro. Aluno: Pode até prestar.
Professora: O barato compensa quando a gente pode comprar coisas usadas mais baratas e podemos pagar menos do que em uma loja. E se você paga menos, por que é bom?
Aluno: É porque não é caro.
Professora: Nós pegamos o valor de uma bicicleta nova e de uma bicicleta usada e o que aconteceu com esse valor?
Aluno: Sobrou.
Aluno: O valor da nova pra usada sobrou dinheiro. Professora: E o que a gente fez com o dinheiro? Aluno: Comprou brinquedos.
Professora: Dava pra comprar muito mais coisas. Então, a vantagem de comprar uma coisa barata ou usada é que a gente vai pagar menos e com aquele dinheiro dá pra comprar outras coisas e faz economia. Falamos da vantagem, agora tem desvantagem de comprar uma coisa mais barata?
Aluno: Eu lembrei, às vezes, as coisas baratas podem ser pirata. Aluno: Tem CD pirata, eu já comprei, é muito ruim.
Aluno: É do Paraguai.
Professora: A qualidade de uma coisa pirata é inferior do que o original. Elas são feitas ilegalmente. Por exemplo, se eu vou a uma loja e compro um filme e depois eu copio no meu computador e começo a vender esse filme não pode.
Aluno: É ilegal.
Professora: É uma cópia. Eu posso pegar um livro de história, tirar xerox e começar a vender ele. Por que eu não posso fazer isso? Eu não estou respeitando o autor da história, que escreveu a história, procurou a editora para publicar o livro. Se eu comprar o livro de história na livraria, quem vai ganhar o dinheiro?
Alunos: O autor.
Professora: Se eu pego o livro do autor, faço a cópia e começo a vender o livro dele, quem vai ganhar o dinheiro?
Alunos: Você!
Professora: Então, isso se chama pirataria. Eu estou tirando o direito de recebimento da compra de quem realmente deveria receber. E qual livro tem mais qualidade?
Aluno: O xerox fica estranho.
Professora: Todo produto pirata tem uma qualidade inferior. Ele é mais barato. E eu posso copiar e vender pelo mesmo preço? Não posso porque daí a pessoa vai preferir comprar o da loja. Daí, algumas pessoas preferem o pirata porque ao vender mais barato a pessoa vai ler a história do mesmo jeito. Com a mesma qualidade?
Alunos: Não.
Professora: Pode ser que despenque as folhas, as figuras não sejam tão bonitas e nítidas.
Aluno: As folhas ficam mais frágeis.
Aluno: Isso também acontece com brinquedo?
Professora: Sim. Com várias coisas, tênis, roupas, jogos, filmes… Então vamos colocar como desvantagem dos produtos mais baratos a pirataria e a falta de qualidade.
Aluno: Eu já comprei e não estava pegando.
Professora: Vamos falar agora dos produtos mais caros. Por que é vantajoso comprar eles?
Aluno: Dá pra aproveitar.
Aluno: Tem muito boa qualidade.
Aluno: O original é melhor porque não quebra muito rápido.
Professor: Quando tem qualidade vai durar mais tempo, mas se comprarmos uma coisa cara devemos ter a certeza de que vamos usar aquilo.
Aluno: Usar sem quebrar.
Professora: Sim, tomar cuidado que era o ―como usar‖, que discutimos antes. Aluno: A minha vó comprou um produto na loja que não está funcionando. Aluno: É pirata.
Professora: Se comprar uma coisa usada e parar de funcionar tem como trocar? Alunos: Não.
Professora: Mas quando compramos um produto mais caro na loja, tem como trocar? Aluno: Tem como trocar.
Professora: Tem garantia. Então a vantagem de comprar um produto mais caro na loja é porque terá garantia.
Aluno: Tem sete dias pra trocar.
Aluno: Como a gente vai saber quando a gente comprar pela internet que não é uma empresa fantasma?
Professora: Na loja física, quando vocês vão ao centro da cidade, vocês veem o produto, compram e recebem a nota fiscal se precisar trocar. Pela internet, como pode saber se a loja existe ou não? Pode ter o risco de comprar e o produto nunca chegar. Tem alguns sites pela internet em que as pessoas podem dizer sobre as lojas em que compraram, se elas
ficaram satisfeitas ou se estão reclamando. Tem como pesquisar na internet se a empresa é boa ou não, se ela está entregando os produtos. Por isso é importante usar esses sites depois que você faz uma compra e elogiar se o produto estava em bom estado ou criticar se teve algum problema com o produto.
Aluno: Mas pode trocar!
Professora: Sim, a empresa tem que trocar ou você devolve o produto e usa o valor pra escolher outra coisa. Então o site sobre reclamação é importante ser usado depois da compra porque se ninguém disser nada, por que será ruim?
Aluno: Ninguém vai saber se é bom.
Professora: É bom saber o que as pessoas que já compraram estão falando. Aluno: Daí prô, pode dar um like.
Aluno: E se for caro e a gente não quiser comprar porque não tem certeza?
Professora: É exatamente isso, tem que pensar antes de comprar e ver se realmente vamos usar para que o produto não fique sem uso. Às vezes optamos pelo barato porque não temos o dinheiro para comprar o caro. O importante é sempre pensar na compra.
Aluno: Daí pode vender o barato e juntar um dinheirinho.
Professora: Sim. Conversamos também do ―como comprar‖. Se queremos algo mais caro e não podemos comprar?
Aluno: A pessoa parcela.
Professora: E precisará pensar também se ela terá como pagar a parcela depois. Aluno: Se você quer comprar uma camiseta, como vai saber se a empresa é cara ou barata?
Professora: Boa pergunta! O que tenho que fazer pra saber se está caro ou barato? Aluno: Tem que olhar no papel.
Professora: Isso, tem que olhar no folheto de várias lojas. Tem que fazer uma pesquisa. Pra saber se está caro ou barato tem que comparar. Um mesmo tênis, por exemplo, pode estar com preços diferentes em várias lojas. Falamos das vantagens de comprar um produto mais caro, e as desvantagens?
Aluno: Eu acho que às vezes é melhor comprar na loja do que na internet que é mais caro.
Professora: É o contrário, na internet é mais barato, vocês sabem por quê? Aluno: Mas tem o frete!
Professora: Sim, mesmo com o frete, ainda assim fica mais barato do que em uma loja. Uma geladeira, por exemplo, pode estar mil e trezentos reais em uma loja e novecentos reais na internet. Por que essa diferença?
Aluno: Porque pede desconto.
Professora: O desconto pode ser pedido na loja quando não pagamos a crédito, quando pagamos a débito. Se comprar a crédito, você já vai pagar depois e o vendedor não vai vender mais barato ainda. Você pagará depois e ainda terá uma taxa, é uma desvantagem.
Professora: Sim, é que nem sempre as pessoas têm o dinheiro hoje, por isso elas compram no crédito.
Aluno: Tem gente que coloca 5% de desconto, mas vale nada cinco por cento. 5% não é nada!
Professora: Todo desconto já é alguma coisa. Aluno: 5% é pouco, é barato demais.
Professora: Pra quem está vendendo 5% é bastante e pra quem está comprando 5% é pouco. Mas todo desconto é bom.
Aluno: 100%? Cem por cento não! (risos).
Professora: Se achar que cinco por cento é pouco pode pesquisar em outra loja e ver se tem um desconto maior. Vamos voltar para a questão do colega que falou sobre a compra pela internet. Por que são mais baratas?
Aluno: Não sei.
Professora: A loja física para ela estar ali, tem que pagar aluguel, a energia, a água, os funcionários. Terá muitos gastos, já a loja pela internet diminui todos esses gastos, são bem menores.
Aluno: A loja, o que ela conseguiu, tem que dar para os funcionários.
Professora: Ela terá um gasto grande com funcionários também. Uma parte do que ganha paga os funcionários. Pela internet não tem necessidade de tantos funcionários como em uma loja e os gastos serão menores e por isso conseguem vender mais barato. Agora vamos escrever sobre o que discutimos?
(Transcrição de áudio dia 22/11/18)
As temáticas trazidas pelas crianças sobre a pirataria, empresas fantasmas, uso da internet na compra, valor de frete foram interessantes e mostram os conhecimentos provenientes da prática social. A construção do conhecimento em conjunto dos alunos se dá no espaço do diálogo em que sua curiosidade é estimulada, permitindo a reflexão crítica de seus saberes. Paulo Freire (1996) diz que:
Uma das tarefas essenciais da escola, como centro de produção sistemática de conhecimento, é trabalhar criticamente inteligibilidade das coisas e dos fatos e a sua comunicabilidade. É imprescindível, portanto que a escola instigue constantemente a curiosidade do educando em vez de ―amaciá-la‖ ou ―domesticá-la‖. É preciso mostrar ao educando que o uso ingênuo da curiosidade altera a sua capacidade de achar e obstaculiza a exatidão do achado. É preciso por outro lado e, sobretudo, que o educando vá assumindo o papel de sujeito da produção de sua inteligência do mundo e não apenas o de recebedor da que lhe seja transferida pelo professor. (FREIRE, 1996, p.140).
Após a conversa, listamos as vantagens e as desvantagens da compra de produtos caros e baratos para afixar na sala de aula.
Figura 82 – Vantagens e desvantagens de produtos caros e baratos
Fonte: Arquivo pessoal
E, para finalizar mais um ciclo de discussão, fizemos nosso registro escrito coletivo como forma de compilar nossos aprendizados no portfólio.
Figura 83 – Texto coletivo: Por que tem produto caro e barato? O caro compensa?