3. A COMUNIDADE NO IDEÁRIO DE REFORMA SOCIAL PRÓXIMA À
3.1. Vertente urbanística e ideário social
3.1.1. Práticas Utópicas e Utopias Experimentais
Tornou-se necessário revisitar alguns aspectos do conceito de utopia no campo propositivo urbano. Afinal, os criadores de propostas urbanísticas, independente do momento histórico, não tinham noção da própria “carga utópica” que podiam conter, nem mesmo do que podiam se tornar meio século depois. Muitos partiram de uma visão crítica pessoal do contexto social em que viviam. No processo da industrialização, acreditavam que suas soluções espaciais eram modelos replicáveis.
No entanto, ao questionar a literatura consultada (CHOAY, 1992; VASCONCELOS, 1999; VAINER, 2003) sobre o que de fato caracteriza um projeto como utópico, alguns aspectos foram evidenciados, como: a desconexão com o contexto político-econômico, a não sustentação de uma visão política; a deturpação pelo jogo de interesses dominantes; a priorização da condição de um humanismo voltado para sanar as necessidades da maioria. Enfim, o que acaba por desinteressar os agentes do sistema dominante hegemônico.
Observou-se que, ao significado de utopia agregou-se o estigma daquilo que não é passível de realização. No final do século XIX, o tema foi tratado por Marx e Engels (2009), em 1848, ao se distinguirem enquanto socialistas científicos, em oposição aos socialistas utópicos, levantando o argumento da perspectiva de ação transformadora, em oposição à simples busca de um modelo visionário. Para os autores, a ação revolucionária que realizaria a implantação socialista e depois comunista, ao longo da história, faria do futuro algo em aberto, na medida em que se desenvolvesse a ação coletiva. Em sua crítica, as soluções preconizadas pelos socialistas utópicos dissimulavam uma inspiração paternalista, sob a aparência de uma solução revolucionária. (ENGELS apud CHOAY, 1992)
Até mesmo os defensores da ordem capitalista compartilharam a ideia de que essas propostas misturavam idealismo, paternalismo e cooperativismo. Porém, o que prevaleceu foi a crítica marxista, segundo a qual, a “supressão da diferença” entre cidade e campo não deveria ser apenas uma projeção espacial, mas entendida, essencialmente, do ponto de vista do desequilíbrio demográfico e das desigualdades econômicas ou culturais que separam os homens das cidades do campo, como um valor simbólico. (CHOAY, 1992, p.16)
Era comum o congestionamento de camas onde dormiam de três a oito pessoas, de idades diferentes. Pobres e privados de seus antigos referenciais culturais, os trabalhadores urbanos tendiam a formar uniões instáveis que acabavam por alterar a sociabilidade vigente, transformando a população dos cortiços em pessoas com padrões éticos diferentes dos de suas aldeias rurais de origem (ENGELS, 1845).
Ao tempo em que a industrialização provocava o êxodo rural, a poluição ambiental e o consequente crescimento urbano, advindos da aglomeração humana de alta densidade nas cidades e do desenvolvimento técnico-científico, substituíram o agricultor pela máquina, o que, ao mesmo tempo, possibilitou retirar as famílias da escassez enfrentada no campo, ampliando a expectativa de vida da população. Contudo, em troca da entrega de suas vidas ao trabalho massificante e excessivo nas indústrias, não foram fornecidas condições de moradia dignas nos centros urbanos.
Nessa direção, impulsos emergentes entre indivíduos que dedicavam sua sensibilidade e altruísmo ao projeto de libertar o potencial humano sufocado pelo ritmo do trabalho industrial, por meio da garantia de melhores ambientes para se viver, propuseram a proximidade com a natureza, o compartilhamento de tarefas domésticas em espaços coletivos (lavanderia, estar, cozinha) e, até mesmo, a educação infantil. Por um lado, essas propostas proporcionavam melhoria da vida insalubre de quem trabalhava nas fábricas, e por outro, liberavam mais tempo destinado ao trabalho, por também dividir com o coletivo o tempo dedicado às tarefas domésticas.
Esta visão promoveu o cooperativismo, estimulado por industriais visionários que concebiam uma sociedade cujo capital era formado por pessoas associadas, com a finalidade de somar esforços para atingir objetivos comuns que beneficiariam a todos. No entanto, o ideário produtivista se desenvolveu com mais celeridade para garantir o lucro almejado pela classe industrial capitalista dominante. Afinal, as duas visões - cooperativista e produtivista - demostraram ser incompatíveis.
Sob o ponto de vista dos avanços progressistas, os experimentos das vilas industriais de Robert Owen, desde 1816, com a retomada das vilas campesinas do passado, incluíam, em seu programa, escola, capela e biblioteca. Estimulavam o cooperativismo e despertavam nas classes proletárias possibilidades de organização por autogestão, o que possibilitava uma realidade até então não presenciada entre industriais e empregados.
Entretanto, o fato de soluções propositivas libertárias terem sido implantadas e não difundidas, em larga escala, demonstrou a falta de adesão por parte de investidores que detinham o poder financeiro – a classe industrial, as instituições privadas e o governo –, tornando-se proposições logo deturpadas pelo sistema capitalista em ascensão. Essa perspectiva de cunho socialista mais dialógica, por acreditar em um possível diálogo entre forças dominantes e dominadas, foi considerada utópica pelos socialistas materialistas histórico- dialéticos, que viam na luta da classe proletária pela a tomada do poder a única solução legítima para os problemas de classe.
A contestação desses programas do socialismo e do comunismo crítico-utópico assentava-se no fato de tais programas rejeitarem ou, simplesmente, não colocarem a necessidade da ação política revolucionária; além de não distinguirem qualquer possibilidade de iniciativa própria dos beneficiários da utopia na criação de condições para sua emancipação. Além disso, por apresentarem-se como “inventores” da sociedade, a crítica perante as propostas revelava um agravante: a dependência do financiamento da classe burguesa para realizar seus
projetos, tendendo ao fracasso na medida em que as lutas de classes eram substituídas pela tentativa de conciliação entre as classes.
Os socialistas científicos, fundamentados na objetividade da nascente ciência social e na convicção da necessária revolução, fundamentavam sua teoria de forma que as pessoas não desviassem sua atenção das lutas necessárias a serem travadas naquele momento. Versavam sobre a impossibilidade de se estabelecer uma sociedade perfeita, por decreto, quer partindo do inventor, intelectual paternalista, quer do próprio povo. Apenas por meio de uma longa luta e com etapas indicadas pelo processo social seria possível tomar o poder, a caminho da sociedade comunista almejada, evitando-se a desintegração da sociedade socialista de transição (MARX e ENGELS, 2009).
Essencialmente, para os autores haviam três razões para sustentar a crítica ao socialismo utópico. Primeiramente, embora comunistas, tinham de alguma forma a antiga ideologia dentro de si, desencadeando disputas internas; somava-se a isso, em segundo lugar, a hostilidade do mundo exterior contra a própria comunidade. Por último, para aqueles que reconheciam o princípio da liberdade pessoal, a prática de uma comunidade de bens, sem passar por uma etapa democrática de transição, em que a propriedade privada passaria a ser social, seria muito difícil de acontecer. Ou seja, segundo a ideologia marxista, a sociedade ideal resultaria de um processo social, no qual as normas que deveriam prevalecer seriam desenvolvidas gradativamente. Segundo José Teixeira Coelho Neto (1980), sem isso, a pseudo-comunidade, se fosse mantida, acabaria por assumir um aspecto sectário e totalitário.
Desse modo, nem os socialistas científicos, nem os capitalistas concordavam com a perspectiva dita utópica. Esta, portanto, foi tornando-se escassa, ou seja, não hegemônica dentre as práticas urbanas que prevaleceram após a virada do século XX.
Uma nova interpretação sobre essas práticas de caráter utópico e não hegemônico seria justificável, no momento atual, para identificar aquilo que ficou encoberto por visões ideológicas. Propõe-se, portanto, retomá-las a partir de seu ideário político de reforma social, ou ideário social, promovendo outros olhares sobre tais práticas, identificando-as como precursoras do pensamento social de nossa época.
A problemática urbana do século XXI tem sido mais complexa do que na virada do século XX, porém, há muito o que aprender com esses predecessores, do ponto de vista da imaginação e audácia política que acessaram ao criar e construir um ideário de reforma social, com a matéria prima daquele momento histórico. Afinal, na compreensão do mundo em urbanização,
mobilizaram seu imaginário e criaram suas próprias poéticas buscando alcançar a materialidade.
A atitude engajada e transformadora, guiada por um ideário de reforma política social, perante a iminente transição de paradigmas daquele contexto de crise, foi a mola mestra dos intelectuais que propuseram as práticas utópicas da virada do século XX.
Nesse sentido, foram retomadas as práticas do passado, dedicando mais atenção aos aspectos que também fossem relevantes para observar as práticas emergentes do presente, viabilizando enxergá-las sob ângulos semelhantes. Por esse aspecto, a retomada de conteúdos utópicos justificou-se por aproximar estas práticas à noção de utopias experimentais99 que,
segundo Lefebvre (1991), seriam utopias que partem dos problemas de lugares concretos, desenvolvem relações sociais e os submetem à crítica e à imaginação de novas possibilidades. A natureza dessas práticas utópicas se diferencia das protagonizadas por abordagens unidirecionais, que partem de um único indivíduo. Pois o método da utopia experimental, para corresponder de fato ao seu projeto, deveria evidentemente abarcar a totalidade, isto é, sua execução não deveria levar a um “novo urbanismo”, mas a um novo uso da vida, a uma prática revolucionária.
As práticas estudadas na vertente ambientalista se aproximaram mais desse conceito, entretanto, não se enquadravam inteiramente no pensamento de Lefebvre (1991), pois a origem das utopias experimentais propostas pelo autor deveria residir, necessariamente, na classe trabalhadora, com o intuito de promover uma revolução urbana. Os ativistas ambientalistas eram contestadores do sistema dominante, mas tinham a questão ambiental como norteadora das suas experimentações utópicas.
Nesta vertente do campo propositivo de ação local, expressões espaciais originadas no movimento ambientalista, iniciadas por protagonistas locais, apresentavam-se como aldeias alternativas, até mesmo, autointitulando-se como “laboratórios de experimentação”, no caso das precursoras do Movimento das Ecovilas. Muitas iniciadas nos anos 1970, se organizaram em rede a partir de 1990, iniciando um processo de troca de experiências entre as inúmeras comunidades intencionais, ecovilas e afins, presentes no mundo. Nesse contexto, a dimensão utópica das mesmas poderia ser comparada às práticas utópicas socialistas, ou às utopias experimentais propostas por Lefebvre (1991), porém sem se alinhar diretamente a nenhuma delas.
Entretanto, nas práticas estudadas em meio a comunidades urbanas em países periféricos como o Brasil, notou-se uma maior aproximação com o conceito das utopias experimentais, porém com algumas observações. Enraizadas em áreas de impactos sociais e ambientais constantes, as práticas estudadas advêm do enfrentamento dos problemas de lugares concretos, por protagonistas locais que desenvolvem relações sociais e as submetem à crítica e à imaginação, em especial, na forma de ações locais diretamente aplicadas ao ambiente construído em meio a transformações socioespaciais. Nesses casos, a materialidade que essas práticas alcançaram tenderam a afastá-las do conceito de utopias, ao mesmo tempo, aproximando-as a este, pela forma singular de criar e potencializar o coletivo.
Pressupõe-se que, para além de utópicas, muitas destas práticas são atravessadas por dimensões sociopolítico-ambientais capazes de transformação socioespacial. Seriam, mais possivelmente, enquadradas como utopias experimentais, devido a sua dimensão não hegemônica em relação ao sistema dominante, além de estarem fundamentadas em questões sociais e ambientais que convergiram em ações, apontando caminhos para um ideário de coexistência socioecológica.
Incluir a dimensão utópica e não hegemônica na análise das práticas comunitárias estudadas possibilitou ampliar o diálogo entre ambas as vertentes, recuperando elementos importantes para a apreensão das práticas emergentes na atualidade. Estes elementos, ao longo da tese, compuseram as categorias de análise presentes no método de leitura das práticas, apresentado no Capítulo 5.
Embora por caminhos e motivações diferentes, as práticas estudadas na contemporaneidade apresentaram experiências de criação de lugares, em processos criativos potencializadores do coletivo, partindo das pessoas e do lugar. No entanto, a opção pela via da ação propositiva e do diálogo entre comunidade e natureza não elimina a existência de adversidades intrínsecas aos processos, possibilitando despertar capacidades que, em circunstâncias favoráveis, ficariam adormecidas.