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2. UMA APROXIMAÇÃO ÀS PRÁTICAS COMUNITÁRIAS EMERGENTES

2.4. Aproximando as ciências ecológicas e sociais

2.4.4. Sustentabilidade: critérios, princípios e discursos

Para compreender o conceito de sustentabilidade, atualmente, é essencial identificar suas faces contraditórias, a partir de sua origem e incluindo também seus desvios; analisar o saber- poder das relações que o envolvem em cada situação em que é utilizado; e por fim, identificar a quem está servindo. Por ser um conceito abrangente, contém dimensões distintas e complementares.

O termo desenvolvimento sustentável tornou-se público, a partir do documento Nosso

Futuro Comum ou Relatório Brundtland, assinado pela primeira-ministra da Noruega, que

empresta seu sobrenome ao Relatório da Comissão Mundial em Meio Ambiente e Desenvolvimento, dividindo a responsabilidade com representantes de 21 países de características econômicas e sociais com diferenças extremas. O próprio vice-chefe da comissão era o representante do Sudão – país com GDP per capita86 20 vezes menor do que a Noruega.

Pode-se reconstituir um um breve histórico do movimento para a sustentabilidade, no âmbito mundial, a partir de fatos importantes, à saber:

85 NAESS A. The shallow and the deep, long-range ecology movements: a summary (tradução nossa).

86 GDP per capita indica a correlação do poder de compra per capita, ou seja, o valor de paridade de poder de

compra (PPP) de todos os bens e serviços finais produzidos dentro de um país em um determinado ano, dividido pela população média para o mesmo ano.

Publicações: livro precursor Silent Spring, de Rachel Carson (EUA, 1962); primeiro balanço social no mundo (França, 1972); a encíclica Laudato Si pelo Papa Francisco (2015);

 Relatórios: do Clube de Roma (1972), o qual embasou discussões na Conferência realizada pela ONU no mesmo ano; Our Common Future (1987), que introduziu, em âmbito global, o conceito de “desenvolvimento sustentável” 87; de Sustentabilidade Integrados, de índices de responsabilidade social e de fundos de investimento em empresas socialmente responsáveis.

 Certificações: ISO 14000 (1996) e 14001 (2004) para meio ambiente, bem como, a criação do conceito de triple bottom line88 (TBL) por John Elkington (1992);  Programas: das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD, 1972); a

instituição da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável 2030 pela ONU e do Acordo de Paris sobre a emissão de gases de efeito estufa (GEE’s), firmado por 197 países (2015, com ratificação em 2016).

No Brasil, ressalta-se a realização de dois importantes eventos sobre sustentabilidade e meio ambiente, a ECO 92 (1992) e a RIO+20 (2012), ambos ocorridos na cidade do Rio de Janeiro. Além destes, nos eventos relacionados ao campo urbano, destacam-se a criação da Agenda 21 e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM, 2000), a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS, 2015).

O cientista político, secretário geral da ONU e colaborador em diversos organismos encarregados da proteção ao meio ambiente e universidades brasileiras, Ignacy Sachs (2002), determinado a fazer progredir o debate internacional sobre desenvolvimento sustentável, partiu de um conhecimento plural para norteá-lo, por meio de um diálogo transdisciplinar que influenciasse instituições nas instâncias local e global. Para isso, concebeu os seguintes critérios de sustentabilidade, apresentados no Quadro 5, a seguir.

87 Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem

comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações, nem esgotar os recursos para o futuro.

88 O tripé da sustentabilidade foi um conceito criado por John Elkingtonque representou a expansão do modelo

de negócios tradicional para um novo modelo que passa a considerar a performance ambiental e social da companhia, além da financeira.

Quadro 5 – Critérios de sustentabilidade.

CRITÉRIO CARACTERÍSTICA

Social Justa distribuição de renda, digna qualidade de vida, e igualdade de acesso aos recursos e serviços sociais

Cultural Valorização da cultura local, capacidade para elaboração de um projeto de desenvolvimento integrado e endógeno e abertura para o mundo combinada com autoconfiança

Ambiental Respeitar e realçar a capacidade de autodepuração dos ecossistemas naturais

Ecológico Preservação do potencial do capital da natureza na sua produção de recursos renováveis Territorial Equilíbrio cidade/campo e organização regional

Econômico Desenvolvimento econômico intersetorial equilibrado e otimização das forças regionais Político

(nacional) Apropriação universal dos direitos humanos (democracia), participação e coesão social e capacidade do Estado para implantar projeto de desenvolvimento em parceira com outros empreendedores Político

(internacional) Prevenção de guerras (ONU) na garantia da paz e promoção da cooperação internacional, co-desenvolvimento Norte-Sul com o princípio de igualdade, controle do sistema internacional financeiro e de negócios e da aplicação do princípio da precaução na gestão do meio ambiente, e cooperação científica e tecnológica, com base na propriedade da herança comum da humanidade.

Fonte: Adaptado de Sachs, 1993 e 2012.

Para aprofundar a compreensão, Acselrad (1999, p.87) investigou os discursos da sustentabilidade urbana, identificando três representações das matrizes discursivas, em que uma cidade sustentável seria: (i) aquela que, minimiza o consumo dos recursos materiais, explora ao máximo os fluxos locais e reduz o volume de rejeitos; (ii) promove a qualidade de vida através do direito ao acesso as condições saudáveis de existência, da cidadania e da identidade do espaço local; (iii) garante a legitimação das políticas urbanas no tempo, para promover a capacidade política e institucional de intervenção local. São faces distintas do mesmo conceito que já permeiam regulamentações e ações de agentes públicos, privados e da sociedade civil organizada, em geral, ligados ao conceito de desenvolvimento sustentável.

Entretanto, as críticas ao desenvolvimento sustentável se encontram no seguinte fato: para haver esse tipo de desenvolvimento em um patamar de igualdade para todos os países, aqueles países considerados desenvolvidos precisariam reduzir o seu consumo, e, consequentemente seu crescimento, para que os “não desenvolvidos” pudessem prosperar.

De acordo com o discurso predominante, que visa a ação transformadora e mitigadora das consequências de um planejamento urbano tecnicista e dominador da natureza, ocorreram, nas últimas décadas, diversas tentativas de se aplicar esses princípios de sustentabilidade ao campo

urbano. Com base em autores89 que aplicaram a visão sistêmica em estudos sobre assentamentos humanos e cidades, Andrade (2005) organizou uma síntese com 12 princípios da sustentabilidade aplicados ao Desenho Urbano, conforme Quadro 6, a seguir:

Quadro 6 – Princípios da Sustentabilidade. PRINCÍPIOS DA SUSTENTABILIDADE

Proteção ecológica (biodiversidade) Adensamento urbano

Revitalização urbana

Implantação de centros de bairro Desenvolvimento da economia local Implementação de transporte sustentável Habitações economicamente viáveis Comunidades com sentido de vizinhança

Tratamento de esgoto alternativo e drenagem natural Gestão integrada da água

Energias alternativas

Políticas baseadas nos 3rs (reduzir, reusar e reciclar) Fonte: Adaptado de Andrade, 2005.

De forma semelhante, partindo de estudos sobre princípios de sustentabilidade com base em outros autores, Moehlecke (2010) os organizou por temas, compatibilizando as três dimensões da sustentabilidade (social, ambiental e econômica) com três escalas urbanas (lugar, bairro e assentamento), representadas por três princípios relacionados a uma das dimensões. Isso resultou num total de nove princípios não definitivos, mas introdutórios, considerando que outros princípios podem ser agregados.

89 Fritjof Capra, dos EUA; Bill Mollissom, da Austrália; Salvador Rueda, da Espanha; Richard Rogers, da

Quadro 7 – Dimensões, Escalas urbanas e Princípios da Sustentabilidade.

DIMENSÃO ESCALA URBANA PRINCÍPIOS

Lugar interação social

Social Bairro diversidade urbana

Assentamento uso misto do solo

Lugar biodiversidade

Ambiental Bairro habitabilidade

Assentamento compacidade

Lugar eficiência energética

Econômica Bairro mobilidade sustentável

Assentamento economia local

Fonte: Adaptado de Moehlecke (2010, p.89-91) e Andrade, 2014.

Esses princípios da sustentabilidade traduziram uma vontade técnica e propositiva para subsidiar mudanças no enfoque do planejamento urbano ambiental no Brasil. Entretanto, segundo Andrade (2014), até o período de sua pesquisa, pouco se introduziu nos planos diretores e leis orgânicas dos municípios para que se possa exigir o cumprimento de parâmetros no desenvolvimento de novos empreendimentos, por parte dos setores imobiliário e da construção civil90, bem como, da inserção desses princípios no escopo das disciplinas fundamentais nos cursos de Arquitetura-Urbanismo.

Ao mesmo tempo, as práticas comunitárias e coletivas emergentes no campo urbano, muitas vezes, avançam em práticas que concentram questões urbano-ambientais, com muito menor interferência do planejamento oficial e maior força empírica. Restaria saber se esses princípios também seriam contemplados, dentre outros que podem estar sendo priorizados, ou localmente diferenciados, ao considerar sua heterogeneidade e particularidades locais.

Em paralelo, as forças produtivas do capitalismo cooptaram a noção de sustentabilidade para sua auto-reprodução, a fim de aumentar o faturamento e ampliar a concentração de riqueza, e não com a finalidade de promover o interesse coletivo. É importante frisar que os conceitos estudados estão em plena construção, tornando-os facilmente capturáveis pelos discursos dos

90 O setor imobiliário e de construção civil tem no Brasil, desde 2007, a certificação Leadership in Energy and

Environmental Design (LEED) e, desde 2009, a certificação do Programa Nacional de Conservação de Energia

setores de interesse do capital.

Nesse sentido, sob a lógica do capitalismo, o conjunto de critérios e princípios da sustentabilidade sofreu um desvio de significado, confundindo-se com a auto-sustentabilidade do próprio modo de produção capitalista, a partir da absorção de certos princípios que corroboraram com a manutenção/sustentação do poderio econômico e financeiro de poucos sobre muitos, a exemplo de: nações detentoras de uma economia desenvolvida que não se propõem a reduzir gastos energéticos; multinacionais que não medem esforços em adquirir mananciais aquíferos no mundo inteiro para garantir seus lucros; ou mesmo, na escala da cidade, empreendimentos imobiliários que se apropriaram de certos princípios da sustentabilidade, como o valor de troca, mantendo as questões originárias distantes da sua realização, sem evitar crises sistêmicas recorrentes.