O réu/apelante sustentou violação ao princípio do contraditório e da ampla defesa, ao argumento de havia requerido a realização de perícia na fita de vídeo juntada aos autos, para certificar sua autenticidade e originalidade, pois constituiu fundamento maior para a prolação da r. sentença. Alegou, ainda. a existência de depoimentos contraditórios em sede inquisitorial-administrativa
A preliminar há de ser afastada, porquanto o recorrente deixou de observar que, instado a se manifestar acerca de produção de provas (fl. 128), deixou transcorrer in albis o prazo para resposta, conforme certidão de fl. 131, o que demonstra o desinteresse pela produção de provas além daquelas juntadas aos autos.
Nesse sentido, a jurisprudência desta egrégia Turma, ad litteram:
“CIVIL E PROCESSO CIVIL - AÇÃO DE REVISÃO DE CONTRATO DE ARRENDAMENTO MERCANTIL
- PRELIMINAR - CERCEAMENTO DE DEFESA - ES- PECIFICAÇÃO DE PROVAS - INÉRCIA DAS PARTES - JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE - REJEIÇÃO - MÉRITO - CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR - APLICABILIDADE - SÚMULA N. 297/STJ - NATUREZA PECULIAR DO CONTRATO DE LEASING - AUSÊNCIA DE INSTITUTOS JURÍDICOS COMO CAPITALIZAÇÃO MENSAL DE JUROS - CONTRATO QUE NÃO SE CON- FUNDE COM CONTRATO DE MÚTUO - SENTENÇA MANTIDA. 1. Não há cerceamento do direito de defesa quando
é dada a parte autora a oportunidade de especificar as provas hábeis à comprovação do direito vinicado e esta permanece inerte. (...)” (20100910129460APC, Relator HUMBERTO
ADJUTO ULHÔA, 3ª Turma Cível, julgado em 29/06/2011, DJ 07/07/2011 p. 113)
Assim, porquanto preclusa a oportunidade para se insurgir quanto à produção de provas, rejeito a preliminar de cerceamento de defesa.
MÉRITO
Quanto ao mérito, tenho que, de igual modo, o apelante encontra-se desassistido de razão.
Da análise detida dos autos, tenho que ficou demonstrada a utilização de equipamentos locados pelo Instituto Candango de Solidariedade - ICS ao Distrito Federal, para realização de serviços particulares, bem como a participação dos réus em cada fase do ato tido por ímprobo.
Isso porque examinadas as provas colacionadas aos autos, bem como as declarações prestadas por ocasião do Procedimento de Investigação Preliminar - PIP - do Ministério Público, tem-se que a parte ré/apelante não logrou infirmar qualquer dos fatos alegados pelo autor.
Ao contrário, quando intimado para especificar provas que pretendia produzir, permaneceu inerte.
Com feito, no dia 4 de setembro de 2003, o Sr. V., Diretor Regional de Serviços Públicos da Administração Regional de Brazlândia, autorizou a utilização de funcionários contratados pelo Distrito Federal e de máquinas locadas ao GDF pelo Instituto Candango de Solidariedade, para prestação de serviços particulares à empresa OBEID - INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE ALIMENTOS LTDA. Ressalte-se que o
apelante era, à época, sócio da referida empresa, além de haver presidido o ICS por ocasião do contrato de locação dos maquinários.
Ademais, os fatos noticiados foram comprovados pelo próprio réu V. S. C. DE O. por ocasião do depoimento prestado, no qual afirmou que “os caminhões, cores azul e bege, assim como a pá carregadeira, vistos nas imagens constantes da fita que instrui o procedimento, trabalham para a Administração Regional de Brazlândia (...); que os veículos que aparecem nas imagens devem ter prestado os serviços à OBEID no horário de almoço ou fora do expediente; que esses veículos podem trabalhar para terceiros nos horários de almoço ou fora do expediente...”.
Ademais, constata-se que os réus, uma vez mais, não colacionaram qualquer prova no sentido de demonstrar que celebraram contrato de locação dos equipamentos para a prestação dos serviços em sua sede, em horário fora do expediente.
Destarte, em razão do breve exposto, e tendo em vista que o requerido não se desincumbiu dos ônus de comprovar fatos impeditivos, modificativos ou extintivos no que se refere às alegações vertidas na inicial, e, ainda, em observância ao acervo probatório constante dos autos, infere-se, de fato, que os réus OBEID INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE ALIMENTOS LTDA. e R.B. DE S.se utilizaram, para realização de serviços particulares, de dois caminhões, uma pá carregadeira e trabalhadores terceirizados contratados pelo Distrito Federal, por meio de contrato de gestão celebrado com o Instituto Candango de Solidariedade - ICS, impondo-se, portanto, a aplicação das sanções previstas na Lei 8.429/92.
Quanto à alegada inexistência de má-fé, impossível vislumbrar a ausência de dolo da parte recorrente na utilização de bens e serviços contratados pela Administração Pública em evento particular de empresa em que era sócio. Ademais, inconcebível a ausência de intenção do réu, pois, na condição de Presidente do ICS, instituto ao qual se encontravam vinculados os maquinários e os trabalhadores terceirizados, por meio de contrato de gestão para prestação de serviços à Administração Regional de Brazlândia, desviou a finalidade do contrato para auferir vantagem patrimonial indevida, causando prejuízo ao erário, tendo em vista a natureza onerosa do contrato de gestão entabulado com o Ente Distrital, em evidente violação aos Princípios da Administração Pública.
A esse respeito, deve ser destacado que a atividade administrativa deve tratar os recursos públicos, de forma eficiente, objetivando a obtenção dos melhores resultados, sob o prisma quantitativo e qualitativo, a fim de assegurar a prevalência do interesse público e dos demais princípios informadores do direito administrativo.
Cumpre assinalar, por oportuno, que não há nos autos prova de eventual contrato de locação particular para utilização dos mencionados bens e serviços, o que denota a ocorrência de prévio ajuste e o escopo de se beneficiar ilicitamente, tratando- se, pois, de procedimento contrário aos deveres de honestidade, legalidade e lealdade, o que configura má-fé em sua conduta.
No que diz respeito à não observância aos princípios da proporcionalidade e da vedação de diversas condenações por um único fato, deixou de observar o recorrente que a sua conduta ofendeu, de forma simultânea, os artigos 9º, 10 e 11 da Lei de Improbidade.
Assim, valendo-se dos princípios da subsunção e da adequação punitiva, o MM. Juiz a quo fixou as penas mencionadas em estrito respeito à proporcionalidade da condenação, que, a despeito da ofensa concomitante a todos os preceptivos legais mencionados que importaram lesão ao erário e enriquecimento ilícito, não cominou as penas no grau máximo permitido pela Lei.
A esse respeito, cumpre transcrever o escólio de José dos Santos Carvalho
Filho2, in verbis:
“Pode ocorrer que uma só conduta ofenda simultaneamente os arts. 9º, 10 e 11 da Lei de Improbidade: é a hipótese das ofensas simultâneas a tais mandamentos, se uma só for a conduta que ofenda ao mesmo tempo mais de um dispositivo, o aplicador deverá valer-se do princípio da subsunção, em que a conduta e a sanção mais graves absorvem as de menor gravidade.”
Não vislumbro, assim, a existência violação aos princípios da proporcionalidade e da vedação de diversas condenações por uma única conduta, em razão de que a condenação do recorrente foi fixada em valores e prazos abaixo do máximo previsto pela Lei nº 8.429/92.
Nenhuma censura merece, portanto, a r. sentença recorrida, porquanto aplicou ao caso em apreço as disposições legais pertinentes.
Pelas razões expostas, nego provimento ao agravo retido. Rejeito as preliminares e nego provimento ao recurso de apelação, mantendo íntegro o r. decisum hostilizado.
É como voto.
Des. Humberto Adjuto Ulhôa (Revisor) - Presentes os pressupostos de
admissibilidade, conheço do recurso.
Cuida-se de ação civil pública de responsabilidade por ato de improbidade administrativa ajuizada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios em desfavor de V.S. C. de O. e outros.
O MM. Juiz a quo julgou parcialmente procedente os pedidos, razão pela qual, inconformado, apela o réu R.B. de S. pugnando, preliminarmente, pela análise do agravo retido de fls. 85/91. Suscitou preliminar de ilegitimidade ativa, falta de interesse de agir e cerceamento de defesa. No mérito, alega que não restaram comprovados os requisitos
para a configuração do ato de improbidade administrativa, invocando o princípio da proporcionalidade e da vedação do bis in idem no que se refere à aplicação das penas.
Examinando atentamente o recurso, verifico que as anotações por mim realizadas, quando da revisão do apelo em julgamento, encontram-se em consonância com a análise proferida pela e. Relatora.
Ante o exposto, nos termos do voto da e. Relatora, NEGO PROVIMENTO AO AGRAVO RETIDO de fls. 85/91. Rejeito as preliminares e NEGO PROVIMENTO AO RECURSO DE APELAÇÃO, mantendo íntegra a r. sentença recorrida.
É como voto.
Des. João Mariosi (Vogal) - Com o Relator. DECISÃO
Conhecer. Agravo retido desprovido. Negar provimento ao recurso. Unânime.
Notas
1 Informativo STF mensal nº 6, compilação dos Informativos nºs 614 a 617, fevereiro/2011 2 Manual de Direito Administrativo. 17 ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007. p. 921